terça-feira, 4 de agosto de 2009

totem ou o mundo dos signos

PARTE UM


Prosperidade. Peri se deparava com a mata; panos de prato, roupas de banho e filhotes felinos brincando com a curiosidade e o deslumbramento. Vias de fato, modos e maneiras diferentes de conseguir o que se deseja. Pensamentos silenciosos como a bruma da noite, misturados com as baforadas do cigarro e o cheiro do incenso. Cidades que passam e pulsam em ritmos diversos. Suores e velocidades tão enigmáticos quanto os olhares que se cruzam e consubstanciam-se no espaço. Carícias. Peri olhava o céu e sentia o cheiro da chuva que se aproximava trazendo o cio à cidade. Mensagens telefônicas e intuições telepáticas, paralelepípedos e ruas de madrugadas afoitas. Deus passando apressado com suas compras, pragas e preces. O silêncio abrupto. Inesperado como as tempestades que sacodem os dias repletos de sol e ventos. Pêlos pudicos cortados. Sem os pudores o silêncio enche-se de som. Menções luminosas e cartas marítimas. O sonho dos que velam a noite das distâncias e profundidades, das estratosferas, círculos de luz, luas e sensações de delírio. Sofreguidão, os olhares se tocam no infinito dos corpos que se completam em sorrisos, dúvidas e dádivas. Caminhos que abrimos com a alma. Caminhos sutis, definidamente persuasivos. Seria o bastante para que todo o mundo calasse sua civilidade do artificial; um único momento e Peri teria abalado em disparada através do corredor. O importante era seguir em frente, enquanto os elefantes esguichavam-se em chuva, mesmo porque o sentido que ele obtinha guiava-o na noite. Um processo de encaminhamento numa direção rumo ao infinito do agora. O sol se punha e Peri não sabia o que pensar. Era importante observar o que queriam e tinham em mente. Os cantos propagavam-se há horas e o silêncio do quarto era um planeta visto por dentro, um feto milenar crescendo e comendo o próprio ventre para depois se transformar nele, um outro. O que teria feito até então? Olhos nos olhos veria tanto quanto podiam ver seus sonhos.


capítulo um


Teriam passado eternidades; o piano tocava suas músicas e as janelas cumprimentavam-nas com a beleza de uma mulher maliciosamente despercebida na janela. As noites eram pensamentos envolvidos em éter, um corpo etéreo desfilando no estilo antigo do velho hotel em frente, como se o todo fosse um indecifrável contorno de vida, um brinde em frente ao mar, porque a mulher era apenas um convite velado em meios aos traços das pequenas janelas e tetos altos. Mas por qual razão Peri se deparava com uma sensação hipnótica? De onde estava, divisava um conjunto geométrico, cada linha com o impacto de gerações, a mulher vinha à janela e seu corpo de desejo projetava-se no espaço, contorcia-se pelas formas arquitetônicas do hotel e oferecia discretamente os lábios. O piano ressonava com a visão de um mar próximo, inundando a distância de perplexidade. Ou seja, uma hóspede efêmera no Hotel Atlântico enquanto a vida passava encontrando motivos.


capítulo dois


Peri andava nas ruas e seu corpo carregava o peso do mundo. Um mundo de épocas remotas. Sua memória divagava com os sons dos carros e suas acelerações, seus pulsos e arranha-céus. Porque uma noite vazia era uma estrada que escorria de suas veias! Uma noite vazia era uma ínfima parte de uma noite maior. Peri pensava e seus pensamentos entrecruzavam-se e criavam o absurdo. Abortavam, por vezes, a própria realidade caótica dos dias; o claro era uma cor de silêncio em haicais levados pelo ópio dos budas esquecidos de si. Peri planava pelos prédios conhecendo as alturas do desejo humano.


capítulo três


- Parque Balneário Hotel, Boa Noite... Alo! Alo?

Como não era cabível a possibilidade do dia, em virtude da escuridão espessa, nada mais natural do que saudar a noite, mesmo às duas horas da manhã e sem que ninguém respondesse do outro lado da linha. Uma mulher desconhecida, que se fez passar por uma de nome Paula, ligou para o hotel com uma voz que mais parecia um espasmo de gozo, porém suave e profunda. Havia dois dias que ela não tornara a ligar; da última vez, foi interpelada com palavras nada agradáveis, talvez vítima de um ciúme indecifrável. Agora, Peri, recomposto da dúvida que o invadira, intuía que era a mesma mulher:

- Pode falar; sem medo - Peri esperava uma resposta que confirmasse suas intuições.
- Eu te amo.
- Como assim? Quem é você?
- Uma admiradora.
- Você mora onde?
- Ponta da Praia.
- A televisão está ligada. Quem está assistindo a um jogo?
- É meu pai; ele está quase dormindo.
- Eu queria lhe pedir desculpa pelo que eu lhe falei; eu estava chateado e pensei que você fosse outra pessoa.
- Quem?
- Uma pessoa apenas. Qual seu nome?
- Alessandra.
- A outra vez você disse que era Paula.
- Mas é a primeira vez que eu ligo.
- Acredito...


capítulo quatro


Um momento qualquer que se propagava e inundava as ruas com as águas da chuva. Alagado geral; Peri concentrava-se num mundo difuso, criaturas virtuais que rondavam o enigma dos números. Tudo era uma questão de suscetibilidade ao vôo, ou para ser mais preciso, ao infinito. Lembrava-se da sensação elétrica que percorrera seu corpo enquanto dormia. Ela subia dos pés à cabeça produzindo um som de estrela, os vibravam e o mundo real era uma sombra de outros mundos. Energia. Outra vez, o lobby do hotel fora invadido pelos turistas, junto deles, várias companhias de teatro com seus elencos importantes e famosos. Aos poucos entraram na recepção e tomaram a sala da gerência, Peri observava a cena enquanto alguém lhe passava duas pontas de maconha. Ao acendê-las, o supervisor da noite perseguiu seus passos para incriminá-lo, porém, quando menos se apercebera, todos haviam sumido. O silêncio foi cortado pela presença de uma mulher alta e magra, de cabelos longos e negros, a pele clara e os olhos muito curiosos. Estava ao lado esquerdo de Peri e chamava-se Clara. Ele a fitou de perto e sentiu que a moça tencionava muito mais do que mostravam as suas coxas. Tomou-a nos braços e afagou-lhe o corpo justamente quando um hóspede lhe pediu a chave de seu apartamento. Como não queria parar, uma nova confusão se iniciou e os turistas e demais hóspedes foram reaparecendo. Desta vez, ele fugiu com a primeira mulher que encontrara, porque a outra se perdera no turbilhão. Peri não queria parar e seduziu a mulher contra a parede de um corredor em forma de círculo; quando acordou olhou para a rua e viu que as mulheres seguiam uma alegre procissão de cortesãs. Voltou ao hotel quando as coisas já estavam calmas. Ficou sabendo que tudo não passara de um tumulto que se propagou pelos quatro cantos do mundo, onde turistas, troupes de atores e belíssimas mulheres apaixonadas provocaram deliberadamente o caos.


capítulo cinco


Um dia de sol em meio à névoa do dia de ontem; para Peri era uma questão de tempo. A libertação dependia disso. A Serra do Mar com seu caminho tão misterioso, quanto antigo era o sentimento de busca, provocava aos olhos o fenômeno da fascinação. Os vales e as nuvens que baixavam de encontro à face teciam verdades esquecidas pelo comum dos homens. Era possível divisar toda a Baixada Santista, o Porto de Santos, as imensas indústrias de Cubatão, a beleza do mar e o próprio contorno verde que se estendia nos vácuos deixados pelo homem. Antes era um único lugar chamado São Vicente, onde os índios e os portugueses com suas naus e espelhos e quinquilharias se encontraram. E se esses mesmos índios tivessem conhecido no decorrer de sua vida um único dromedário, talvez a história fosse outra. Mas como era sábado e chovia tão insistentemente, os índios ficaram no meio da praia observando os pingos da chuva caindo entre seus olhos curiosos e o reflexo do espelho. Mais tarde perceberam que nada mais podiam lhe dar que a ilusão das imagens. Uma troca injusta, pois os índios possuíam a alma limpa daqueles que não conhecem a virtualidade. Peri pensava na Serra. Indo a São Paulo, encontraria uma mulher preste a cair no esquecimento de si mesma. Algo trágico; provocada pela não aceitação, ela passara a vida trocando de alma. Tinha sido muitas coisas e estado em muitos lugares em pouco tempo.

- “Normal; só tem você e eu” - ela lhe dissera num dia guardado na memória da imaginação.

A avenida Paulista resplandecia num sol a pique enquanto a esperava. No MASP uma exposição de fotos que caíam uma sobre as outras, suspensas por um mural negro, traduzia o estigma da mulher. Várias fotos tiradas na zona do mais baixo meretrício do Rio de Janeiro, um poema móvel.

Em plena Paulista de esperas, acordara de um sonho e percebera que os fatos teciam uma intrincada textura de paradoxos e paradigmas. Como o olho humano ajuda a imaginação a observar o inexpugnável, Peri sentia que o cheiro e as cores da luz que baixava obliquamente na avenida das coisas emitiam mensagens, sinais que indicavam determinados caminhos; era possível relacioná-los e pressenti-los. Todavia, era um momento de espera. Uma atriz loira com um longo vestido negro fazia volteios diante à câmera, bandas de música e casais repousavam na mureta enquanto ardiam ao sol de suas esperas. Vendedores de livros e vendedores de arte, vendedores de tudo. Senhores respeitáveis de altíssimos negócios, milhões de pequenas vidas que se entrelaçavam mesmo sem saber. A Avenida Paulista era uma tarde de sol.

Peri ainda sonhava, um mundo de transmutações, uma alegoria absoluta por onde passavam personagens estereotipadas pela insensibilidade.

Atravessou. Voltou e ela estava do outro lado, no mesmo lugar onde estivera na última hora. Esperou que ela viesse ao seu encontro. Seus movimentos eram nervosos, sabia que ela estava tão tensa quanto ele. Os cabelos negros à altura dos ombros, os fios retos que se chocavam contra o branco de sua blusa e o fraco vento dos carros. Toda ela uma sombra de si mesma. Quem teria sido afinal esta mulher? Alguém que se modificara a ponto de estranhar-se? Mas mudara de um modo constante, sempre buscando afirmar-se em outra personalidade que não a sua. Agora se enganava como uma mulher rica, o olhar sempre altivo significando nojo. Uma pilhéria ou um mistério. Olharam-se nos olhos e seus lábios quase se tocaram, o que foi prudentemente evitado. Ambos na Paulista a perguntar como fora possível chegarem àquela situação. O acaso, perene e insensato controlando os fatos, deixando um rastro e se propagando pelo indefinível...


capítulo seis


Peri olhava em volta da mata e procurava a árvore mais alta, cuja copa antiga avistara em algum presságio ou sonho esquecido na tempestade dos dias. O vento corria pelas folhas e criava redemoinhos, um canto de pássaro ecoava com as primeiras chuvas e Peri era cada um de seus passos pela mata. Peri olhava em volta e vislumbrava os dragões do Templo, vermelhos e azuis cuspindo seu fogo nos ares, abismos e imensos montes tibetanos. Sua guerra milenar conseguira derrotar os gárgulas e agora voavam livremente. Em breve ele teria que os enfrentar e estando na árvore os dragões o veriam e ele lançaria ao céu a sua ira. Mera estipulação. Todavia, Peri caminhava em direção ao que procurava. A mata entrava-lhe pelas narinas como imagens que aprendera a discernir no meio do caos; seus cheiros e umidades representavam os fragmentos de Deus, com os quais a memória construía uma longa e ininterrupta cadeia de aprendizados; por ela Peri se guiava e sentia o medo e a certeza de vencê-lo entregando-se à eletricidade química que só ele provoca, o “ir”. Vencer superando-se.

Teria pensado em muitas outras coisas e como poderiam relacionar-se entre si. Um paradigma no meio da incerteza dos chips e idéias elevadas. No meio da mata, um espaço amplo. Um mundo paralelo de eletricidade e inteligência, conhecimento e informação, um lugar capaz de substituir os átomos pelos bits; universo em expansão, um ciclo de explosões e implosões contínuas. A constante do caos. Quando Peri mergulhou no hiperespaço, seu corpo transformou-se em luz e a velocidade do som era um feixe de raios de sol cortando o vácuo. Estrelas e constelações surgindo abruptamente do nada, distâncias por onde o tempo tomava o espaço e deixava-lhe correr pelos dedos. Peri fechou os olhos e viu a copa da árvore no meio do lago repleto de virtualidade. Os dragões comiam seus frutos e o observavam. Ergueu-se do solo e levitou na frente de seus olhos, sentindo o calor de suas chamas. Ao olhá-los, ocorreu a Peri que em um só momento tudo poderia ser mudado. Aproximou-se ainda mais e tocou suas frontes, de onde surgiram muitas outras cabeças de cores diferentes, ao tentar controlá-las eles se perdiam e as inúmeras cabeças se enroscavam uma nas outras e aos poucos perdiam a noção de si e caíam desfalecidas. Ao se chocarem no chão incendiavam-se e explodiam nas nuvens. Peri abriu os olhos e as ruas da cidade ainda mostravam no céu o rastro dos dragões.


capítulo sete


Quando voltou, uma massa de pessoas se acotovelava em frente ao hotel. Faixas, cartazes apitos e microfones; vedetes dançavam em cima de um caminhão-palanque onde um sindicalista discursava, incitando a massa a mover-se e gritar por melhores condições de vida. Muitos conversavam entre si e alguns jogavam cartas. Peri entrou na multidão e apercebeu-se da greve. Ninguém entraria para trabalhar, cruzariam os braços. Os hóspedes estavam nas janelas e pediam para que os trabalhadores voltassem ao trabalho, porque há dias não comiam e não havia quem os servisse na piscina ou providenciasse a arrumação dos seus quartos. A situação era crítica e Peri preferiu jogar uma partida de xadrez com o mensageiro desocupado. Os dias passavam e aos poucos as vedetes pararam de dançar, o sindicalista falava menos e os hóspedes começaram a cuidar de suas necessidades surgidas da greve. Peri resolveu caminhar na praia, sentou-se num banco e começou a fumar um cigarro. Olhando o mar pensou em tudo que lhe ocorrera nos últimos tempos e no que ainda poderia lhe ocorrer. Caminhou em direção à rua e apercebeu-se que duas mulheres o olhavam atentamente. Chegou perto delas e lhes ofereceu um cigarro, acendeu-o e ficou vendo a fumaça subir. Elas sorriam e não entendiam como era possível a fumaça ser tão leve. Andaram os três pela beira da praia e observaram o por do sol. Sentaram-se um ao lado do outro, Peri estava no meio e sentia o calor de ambas. Levantou os braços e as abraçou, elas sorriram novamente e beijaram sua boca. Levou-as para casa.


capítulo oito


Peri recordou-se que Anaximandro contemplava o ilimitado e estarrecia-se com o princípio de todos os cosmos. Uma pura e simples explosão de apeiron, originando a diversidade dos mundos e a complexidade das coisas. O apeiron separava-as e a ele retornavam; a justiça era a separação e o encontro, a dissolução e seu término e sua origem e o motor contínuo da eternidade. Mas que eternidade é esta comparada ao simples vôo fatal de uma borboleta? Peixes subindo a terra e quebrando suas cascas, homens nascidos de peixes e a água transformando-se num fogo transparente envolvendo a Terra. Peri pensava nos gregos de hoje e não entendia o que poderia ter substituído a filosofia pelo ócio. Então pensou no trabalho e viu que ele sustinha nas suas engrenagens a força da repetição responsável pelo equilíbrio. Sem o trabalho as pessoas entregavam-se e morriam, não interessando se o universo cessava e continuava e se eles próprios tinham nascido dos peixes. O certo é que a filosofia servia-lhe de consolo, ativando o espírito para o sutil das coisas. E antes a sutileza que a dissolução, pois Peri sabia que sempre é preciso ser forte, inclusive para chorar na chuva ou ver o mar enfurecido quebrando nas pedras.


capítulo nove


Agora que a greve tinha acabado, pois se passaram muitos dias antes que Peri resolvesse separar-se das duas mulheres que conhecera na praia, o hotel voltava a sua rotina. Atentemos para o fato de rotina ser um pressuposto nada convencional, em se tratando do hotel. Os hóspedes hindus, com suas roupas de algodão cru e leves como o vento, conversavam no lobby sobre alguma inentendível concepção religiosa, ou sobre os ratos e os templos de adoração. Palavras milenares ditas e repetidas pelos séculos afora. Os japoneses com seus notebooks e tecnologias de ponta navegavam com os gregos e, amiúde, encontravam-se pelos corredores do hotel com os mexicanos. Os argentinos chegavam aos grupos e contrastavam com o silêncio dos árabes. Ao telefone as mulheres perguntavam sobre seus supostos homens e números de apartamentos. Cantoras bêbadas ligavam para a recepção e conversavam sobre suas vidas carregadas de tantas coisas que elas já não conseguiam lembrar ao certo quais eram. E os músicos e incansáveis bandas suando loucura chegavam do show e bebiam cervejas e mais cervejas enquanto conversavam com suas tietes e fãs e empresários sedentos e apressados. Tudo ao mesmo tempo, tudo no lobby do hotel acontecendo concomitantemente com a clara manifestação de medo que Peri observava nos olhos de D. Zulmira, mãe de D. Dayse. Duas senhoras que viviam no hotel há muitos anos. Chegaram ainda muito jovens, como turistas que vêm descansar nas praias. Vinham duas vezes por ano. Depois começaram a vir mais e mais vezes. Quando se aperceberam, suas correspondências já tinham o endereço do hotel. Eram duas senhoras muito sós e simpáticas que a todos conversavam com respeito e cordialidade. Porém, algo fazia com que Peri procurasse enxergar um pouco mais longe. Não dormiam a noite e comiam sempre a mesma refeição sem sal no almoço das 15:00 horas; todos os dias a mesma coisa, tomavam remédios para suas doenças e tinham a impressão de continuarem doentes.

Mas no que teria se transformado a medicina moderna? Os doentes voltam do hospital piores do que entram; aos pacientes receitam listas de remédios e mais remédios, cujas doses são aumentadas progressivamente, tornando o corpo cada vez mais fraco e incompetente para a cura. Tornando-os viciados e dependentes, o ciclo torna-se asfixiante e os doentes têm a vida prolongada, numa outra espécie de morte, a morte clínica, a morte da medicina. Por que pensar que o homem saudável não necessita de cuidados médicos? Porque hoje apenas se remedeia, não se vê a doença, o estado enfermo, como um processo de vida, uma seqüência de acontecimentos cotidianos. A indústria tem fome e é preciso alimentá-la, pois o homem aprendeu a obter lucro de qualquer situação, seja ela qual for. Todavia há os progressos. Conseguem milagres que antes eram impensados. Máquinas sofisticadas, transplantes delicados, tomografias complicadíssimas, próteses perfeitas, avanços indizíveis nos processos químicos, manipulações de estados mentais e prolongamento de vida. Mas cada um destes itens significa dinheiro e a maior parte do ser humano é pobre. Para Peri, o homem havia se tornado um processo contínuo de artificialização, quimificando sua vida e seu organismo. O homem esquecera de como respirar.


capítulo dez


Na cobertura do hotel divisava-se a orla da praia e os seus inúmeros prédios. Uma vez, Peri observara os telhados da cidade que ainda conservavam algo de antigo. Um contraste de telhas de barro e helipontos. O amor, enfim. A mulher que sente ser observada e cora com a imaginação romântica de seus olhinhos azuis. Uma cidade que abre suas janelas para o céu estrelado e as ruas congestionadas. Moradores de prédios tortos que, pouco a pouco, declinam-se mais e mais e tombam como torres européias; a força das marés e a sucção contínua da areia. Um lance de dados no dominó da cidade, no xadrez empírico das realidades escondidas atrás de cortinas, olhares esquivos e situações adversas. Peri olhava o céu, as nuvens modificavam-se com o vento e delas surgiam desenhos e quadros de figuras humanas transformando-se em animais, furacões de desejo e carnavalização de suores noturnos. A cidade respirava a sua noite particular e os vários mundos coexistiam entre si numa harmonia caótica e repleta de multiplicidade. As pessoas andavam pelas calçadas e sonhavam com dias melhores. Os carros piscavam suas luzes e Peri escutava o fôlego suspenso de todos que dormiam e acordavam para olharem suas caras mal dormidas refletindo-se no barulho das motos. Copos tilintavam enquanto o vinho transbordava em bocas entreabertas e vontades incontidas. Discos voadores e pesados astecas sobre os ombros do tempo. Índios tupi-guaranis boquiabertos com a leveza das espaçonaves e possibilidades de vôo, de conhecimento de mundos distantes e de outras formas de vida. De luz.

Peri acendeu um cigarro enquanto via a noite evadir-se por sobre os telhados. Escutara que o hotel havia sido vendido para o concorrente, o único que poderia comprá-lo. Porém o último para quem a dona do hotel o venderia. Os funcionários ainda não estavam convencidos das mudanças advindas da greve, muitos chegavam até a duvidar que ela houvesse acontecido, assim lançavam a história da venda para secretamente se vingarem. Um jogo de palavras que, sutilmente, modificava a feição dos fatos. A dona, talvez não demonstrasse seu descontentamento, porém, ligava para o hotel querendo saber sobre números e horários e procedimentos. Isto às duas horas da manhã; ligava de sua casa e Peri pensava o que poderia estar acontecendo com aquela mulher. Ou o que aconteceria se o seio do ciclone transbordasse seus ventos sobre os cabelos soltos de suas preocupações. Mulher vaidosa, era possuidora de uma estatura elevada por onde carregava seus ares, cabelos loiros e artificialidades; saber o que lhe acontecia, era algo duvidoso, pois era daquelas que satisfaziam-se com a ilusão, ou ainda, perdiam-se nela e não sabiam como voltar. Não permitia que mulheres bonitas trabalhassem no hotel, pois ninguém poderia ser mais bela. Ela se infiltrava pelos poros e espaços e neles deixava seus rastros de perfume e rumores de insanidade. Às vezes, explodia aos berros com seus gerentes e com sua secretária que chorava de raiva e abaixava a cabeça. Casara-se com o homem que construíra o hotel, depois da morte deste, tomou como esposo um velho curvado por dores na coluna. Tivera apenas filhos homens, os quais lhe consumiam grande parte das preocupações. Em suma, uma mulher frágil e desesperada construindo muros e cascas para se proteger.

Quando o cigarro acabou, Peri voava pelas cabines telefônicas e sentia a Península Ibérica projetando-se num mar distante, por praias e naus que não existiam mais. Peri olhou o mar próximo e viu que estava andando de elevador com duas mulheres que procuravam um hóspede. Um playboy bêbado que aparecera na madrugada anterior, causando muitos problemas ao tentar agarrar duas adolescentes que lhe acompanhavam. Uma delas fugiu levando seu carro, a outra, escondia-se pelo corredor e vinha ao lobby conversar com Peri que lia despreocupadamente um livro. No outro dia, não se soube o que aconteceu com as adolescentes. Peri estava curioso e as outras duas mulheres que apareceram eram a possibilidade de saber o que aconteceu. No elevador, elas estavam ansiosas. Ao chegarem no andar do hóspede, Peri abriu a porta e as duas correram em direção ao quarto, enquanto ele esperava dentro do elevador. Voltaram abruptamente, assustadas e sem conseguir falar. Peri saiu do elevador e viu o hóspede em pé, no canto do corredor, totalmente imóvel. Os olhos fechados e as mãos segurando algo inexistente. Peri sentiu medo e pensou que o homem morrera correndo atrás das adolescentes do dia anterior. O que havia acontecido com elas, só as paredes, mudas e reservadas, poderiam saber. Quando se deu conta, sentiu que o seu pé gelava e era necessário fazer algo imediatamente. O homem, nesse curto tempo, envelhecera visivelmente, sua barba crescera e seu rosto estava pintado com as cores do cansaço. As duas mulheres fugiram e o homem acordou tão de repente que Peri duvidou que em algum momento ele houvesse morrido. Desejou-lhe uma boa noite e voltou a dormir. Peri encaminhou-se para os sofás do lobby e ao deitar, pois não havia mais nenhum hóspede fora dos quartos, teve a impressão de ter sonhado. Mas ao acordar, verificou que o nome do hóspede ainda constava na lista dos apartamentos e o seu carro importado voltara para a garagem.


capítulo onze


Assim, abriu bem os olhos e esqueceu que a floresta era um alheamento português. A sombra de uma mulher inatingível observava-o de algum lugar entre o absurdo e o provável. Peri a sentia de uma forma tranqüila, como se seus poros absorvessem o éter que os separava. Levantou-se e deixou que os pensamentos fossem embora. Todo ele era uma projeção da vontade que se infiltrava pelos seus sonhos. Caminhou por cada um dos labirintos que cresciam a sua volta, brotando do piso invulgar que recobria a terra. Cores metálicas e explosões de sons, melodias doces e violentas como a vida. Se acaso lhe aparecessem sílfedes, os contornos seriam outros e a floresta deixaria de ser um labirinto. Então, quando as borboletas e tiês-sangues e beija-flores e falcões altivos voaram ao seu derredor, Peri sentiu asas nascendo de suas costas, erguendo-o do solo. As nuvens eram um misto de universos ainda por nascer. Avistou uma montanha muito próxima de si, com suas rochas e seu peso de mil milênios. Sentou-se na torre mais alta de um castelo, no mais alto pico da montanha. O frio o envolvia e uma mulher intangível cantava uma canção dentro de seu peito faminto. Peri abriu a porta da torre e seguiu pelos corredores. Exatamente embaixo da abóbada de vidro, um faixo de lua provocava um halo sobre a silhueta da mulher. Peri aproximou-se e abraçou-lhe a alma. Olhou nos seus olhos e desejou que o momento nunca se acabasse.

Ela veio. Antes, havia mandado um telegrama que Peri não tomara conhecimento. Ligou de madrugada e avisou que iria ao Porto de Santos para buscar umas compras que fizera num cruzeiro a Ilhéus. Desde aquela tarde, na Avenida Paulista, seus encontros ficaram restritos. Mas o que teria sido provável, efetivamente ocorrera. Um turbilhão, um redemoinho de sensações confusas passando exatamente entre o caótico e o belo; um limiar de poesia e loucura olhando com passos rápidos e respiração ofegante. Ficaram em alguma espécie de silêncio e abraçaram-se, sentiram o calor mútuo de seus corpos transformando-os. E como as orquídeas e os girassóis não parassem de nascer, resolveram deitar sobre o campo extenso de seus instintos e procurando a paz inútil de qualquer razão, beijaram-se, longa, profunda e avidamente, sem se darem conta de que os grandes navios partiam e chegavam ininterruptamente por mares muito mais antigos que o sêmen. Olharam no espelho das águas e viram seus olhos fundindo-se com mundos distantes e sensações presentes. Então, ela foi embora sem lhe dizer uma única palavra, pois o amava e não conseguia perdoar, porque seu amor era vingativo e ela tentava esquecê-lo sem conseguir.

Peri sentia a chuva e andava por ruas de velhas árvores. Peculiaridades. O que teria acontecido se tudo não tivesse se passado, ou se o futuro fosse, ou se o próprio presente apenas pudesse? Um lance de possibilidades infinitas.


capítulo doze


Transubstanciação, garrafas de refrigerante, esqueletos fósseis, somas e multiplicações, tumultos vespertinos e anônimos amores. O hotel novamente fora invadido. Ainda era madrugada quando Peri se deu conta de que os hóspedes, ainda meio sonolentos, chegavam no lobby e jogavam nas poltronas o peso de suas viagens. Entre eles, a seleção nacional de futebol. Suas bagagens misturavam-se ao silêncio das horas enquanto Peri olhava a fundo, ora o significado de alguns objetos soltos pelo chão, ora o semblante ou vulto dos hóspedes. Um jogador com a mão no queixo esperava sentado por alguma coisa desconhecida, e, para ele, mesmo que esse jogador estivesse esperando pelo mais óbvio, ainda assim a sua espera permaneceria desconhecida. Peri olhou mais em volta e divisou no meio da multidão dispersa que se formara, um atributo distintamente feminino, era ainda uma sombra e seus passos exalavam vontade. Os cabelos curtos e os olhos verdes, chegou perto de Peri e sorriu sem motivo, ficou olhando e perguntou se ele não poderia lhe acompanhar até o banheiro, pois tinha medo e se sentia muito só. Uma mulher, bela e frágil, com um olhar inocente e repleto de indecência. Peri levantou-se rapidamente e acompanhou-a. Pensava em levá-la para algum lugar distante, seu braço tocava no corpo da mulher e o desejo de possuí-la aumentava com a calma de seus passos. Ela dissera-lhe que cantava à noite, quando sentia que sua voz desprendia-se e alcançava outros reinos, lugares mágicos. Peri escutava atentamente, sem conseguir atinar como faria para se livrar dos hóspedes que estavam no lobby. Ao chegarem a porta do banheiro, a mulher puxou Peri para dentro e o fez observar o movimento rápido de sua nudez; sentou-se no vaso, olhou-o nos olhos e segurou-o pela cintura, trazendo o abdômen junto de sua boca. Beijou-o e passou a mão pelo seu corpo. Pela nuca, Peri segurou os cabelos da mulher e a levantou, abraçou seu quadril e com a perna tocou suas coxas, beijou-lhe os seios e fez com que ela subisse no seu corpo. Peri a segurava no ar e respirava sua alma. Mas escutaram vozes no corredor e perceberam que algumas mulheres entravam no banheiro. A mulher o beijou na boca, vestiu-se e foi-se embora. Peri aguardou que as outras mulheres saíssem e, sem atinar como as coisas aconteciam, voltou para a recepção. Já era dia.


capítulo treze


O sol alto; cosmos entrevistos, silhuetas de verdades absurdas. O mundo por baixo da pele. O mundo com suas voltas, entonando cânticos esquecidos, entornando aos goles a voracidade da vida. Perspectivas. Peri sabia que era preciso aprender o significado de seu caminho. Uma viagem ao mundo do desconhecido, onde suas lutas encontravam-se com a necessidade crua do cotidiano. Peri caminhava pelas pedras e sentia o limiar do equilíbrio; um ato de confluência e significação. Peri conhecera o olho do furacão, as tempestades que varrem as costas marítimas, arrasam satélites e invadem os dias em que o sol ainda está a pino. Agora, o vento sorria com suas presas, entrelaçando seus dedos sobre a leveza humana até sentir o desespero evadir-se. Como explicar a imaginação, a alma que provoca o movimento e distingue a cor das estrelas? Aquele instante que eqüivale a eternidade, o lugar onde as negras africanas seguram seus filhos enquanto agacham-se para colher raízes e olhar desapercebidas a imensidão da vida. Talvez o céu sob o sol da Nigéria. Peri caminhava, ao seu redor os pinheiros e os longos corredores de eucaliptos, a estrada de barro que singrava num ziguezague no topo da serra do mar. Chegara de trem. A visão da baixada através da janela do trem era uma outra viagem no meio de uma viagem ainda maior, rumo a pensamentos e sensações de vôo. A velocidade lenta de seu barulho metálico nas ondulações do trilho, os túneis e paredes de pedras, pequenas casas no meio do nada, quedas d’água e histórias antigas. Porque o canto dos pássaros era o silêncio da estrada, Peri andava cabisbaixo e lembrava-se de que seu pai morrera num domingo de sol repleto de banhistas; uma tarde em que ele se levantou da cama, desceu as escadas e, com um passo decidido e forte, foi à praia, na enseada de São Vicente, tirou os chinelos e entrou no mar, boiando enquanto a correnteza o levava e a água invadia seus pulmões. No final de um curto percurso, seu pai estava morto, aos cinqüenta e três anos de idade. Peri enxergara a morte e sentira seu cheiro. Sabia que o agora era uma borboleta azul rodeando a estrada de seus pensamentos, não adiantava culpar-se ou imaginar que tudo poderia ter sido diferente, era necessário aprender a superar-se, a sentir que a vida era um sinal enigmático onde Deus entrelaçava suas histórias e propósitos aparentemente absurdos. Evolução. No meio da estrada o sol estava forte e Peri sabia que para não perder-se era necessário seguir o caminho óbvio que ele próprio intuíra. Pois, em alguns trechos, as árvores cobriam a visão do lugar. Caminhando Peri virou numa pequena estrada e sentou-se no chão. Não sabia ao certo onde estava e o porque aquela mágoa o consumia tão lentamente; não uma mágoa, mas uma tristeza por tudo o que acontecera, uma necessidade infinita de descobrir as palavras que o guiassem e o consolassem naquele momento. Era preciso colocar em prática tudo o que aprendera, porque não bastava-lhe conhecer as palavras, era preciso transformá-las em atos. A questão não era apenas a morte, mas, principalmente, os sentidos da vida. Tudo aquilo que vai nos acontecendo e que temos que suportar e superar. Seu pai suicidara-se. Peri, ao chegar em casa, foi informado de que seu pai saíra só e ainda não voltara. Depois correra à sua procura e nada mais foi como era ou poderia ter sido. Perguntava-se como poderia ajudar, ou aliviar o sofrimento das pessoas que paravam e ficavam olhando fixa e perdidamente o teto; como mostrar às pessoas que a vida é uma constante de mudança e que há coisas que simplesmente não podemos mudar. Aceitar o impreterível e transformar o possível. Mas, apesar de tudo, eram as pessoas que escolhiam seus caminhos. E os medos deviam ser enfrentados. Lembrava-se do velório, das pessoas solidárias, da série de sensações e pensamentos que foi desencadeada. O Instituto Médico legal. Era necessário fazer autópsia, devido a morte ser considerada violenta. O problema é que seu pai não morrera apenas naquele dia, mas num processo lento e cansativo. Mas vivera e se emocionara e sofrera e também se alegrara. Deu a Peri a liberdade para pensar, e o orgulho que sentia quando era ainda menino.

Quando voltou, era noite; ao pé da Serra imensos fogos tingiam o céu, luzes de complexos industriais, automóveis e naves voadoras, o movimento ininterrupto da construção humana, o simbiótico processo de exploração natural dentro do aparente caos de uma vida controlada por regras, horários e padrões absolutos. Figuras geometricamente cibernéticas, imensas telas de realidade virtual boiando no ar, o homem quimificado pela violência estilizada, confundido pelo bombardeamento da informação e a ignorância dos sentidos.


capítulo quatorze


Peri fumava seu cigarro enquanto via a Serra do Mar entre as duas colunas da Ponte Pênsil, observando a parte cujo pico estava envolto em densas nuvens de chuva, notou que eram as mesmas que passaram por São Vicente. Foi para Santos trabalhar. O hotel fora vendido. A antiga dona saíra triste e arrasada, pois o hotel representava uma parte de sua história construída com o primeiro marido, ou ainda outro laço secreto que nunca mais poderíamos descobrir. Os novos donos eram pai e filho, a família Mendes, donos de vários outros hotéis, inclusive o antigo concorrente. O filho era um enorme ciclope, o que Peri não havia notado no primeiro encontro, talvez devido a sua simpatia. Mas, caso o observador fosse mais atento, perceberia que o ciclope tinha um pequeno olho no canto do olho maior, esse olho era seu irmão mais novo. O pai era um ser humano, velho e bem tratado e, apesar de serem tão diferentes nas suas raças, eles se pareciam. Podia-se mesmo dizer que um estranho, na rua, se os visse diria que eram pai e filho. Pelo que se sabia, a família sempre estivera envolta numa redoma de mistérios. Talvez existissem há tanto tempo que as outras pessoas pensassem que a família nunca tivesse nascido. Ao chegarem no hotel, a dúvida foi peremptoriamente instalada, pois ninguém sabia o que iria acontecer, ou se as mudanças estavam inegavelmente aparecendo. O que aconteceria com os funcionários? O nome do hotel permaneceria? Como ficariam os salários? Seriam os novos donos déspotas desalmados? O que se sabia era que as luzes do lobby ficariam ininterruptamente acesas. Fora isto, nada mais se sabia. Mas ainda era cedo e Peri esperava as mudanças de fundo. Cedo ou tarde saberia de coisas que antes não imaginava.

Com as luzes acesas, parecia que o serviço aumentara, sequer um minuto Peri parava, hóspedes e bandos de curiosos aglomeravam-se no lobby; uma caça às visualizações e autógrafos. Peri observava e o mundo parecia um encontro de nuvens, porque, às vezes, os dias eram tristes e Peri esperava pela mulher azul enquanto as horas se aproximavam e o destino e a fatalidade se encarregavam de brincar com a compreensão humana. Quem seria essa mulher que traria a alegria de seus olhos e o carinho de seus abraços? Peri observava e esperava, enquanto a vida seguia seu curso inexplicável.


capítulo quinze


Algo como o vento escorregadio dos sonhos.

Uma menina? Seria possível que Peri pudesse considerar tantas coisas que, por ventura, esquecesse do elo sutil que o ligava a menina? A verdade era que ela o tirava do solo, ou do sério, enquanto suas mãos procuravam o desejo de seus olhos profundos e sentidos de curiosidade. Ou ainda, Peri sentia uma enorme vontade de segurá-la, forte, nos braços e beijar seus lábios carnudos, dizendo:

- Por que, sua grandissíssima filha da puta, você não deixa que eu lhe beba para matar minha sede de desertos que você nem ao menos imagina que possam existir? Será possível que você não enxerga o quanto podemos sentir um com o outro? Ou será que você se engana me enganando?

Seria medo, insegurança, ou uma vontade tão grande que a devorava ao ponto de não permitir que Peri se aproximasse de sua verdade. Talvez a incapacidade de amar, um receio profundo por tudo que pudesse desmanchar seus sonhos.

Borboletas de vinil, o desejo.


capítulo dezesseis


Peri erguia os olhos e sentia a pulsação de seu corpo modificando intrinsecamente o sentido da realidade. Suas órbitas, ciclos de mênstruos e vontades à volta faziam com que despertasse num mundo de cores surreais, onde as mulheres caminhavam no mundo da lua e os carros atravessavam sinais de cio. Estava numa rua de barro muito próxima à encosta marítima, uma pequena parte da Serra, o céu alto e azul conformando-se com ela, era baixa e alongada na porção que se divisava. No alto a vegetação era rasteira e de um verde fraco. Porém, no meio dela a mata era densa e cobria a rua como um túnel. Peri parou numa casa e do chão pegou um pedaço de lâmpada, notou que havia pouco tempo e comentou à criança que o atendeu que precisava ir embora, mais tarde viria e conversaria com sua irmã para saber de amigos que há tempos não via. Entrou no carro e partiu em disparada, sentindo que seu corpo começava a pegar fogo. A pele desprendia-se do corpo e os cabelos queimavam. Ele se contorcia no volante enquanto olhava para todos os lados procurando o céu dos olhos de alguma mulher bela e meiga o suficiente para voar com ele. Parou o carro, desceu na rua, seu corpo estava tomado pelas chamas e ele começava a acalmar-se. Andou de um lado ao outro e ficou esperando. Mas como esperar se o desejo era pungente e urgia com a necessidade de mil noites?


capítulo dezessete


Peri lembrava:

- “... tentei compreender o que estava lhe acontecendo. Ainda não sei se posso, é tudo muito confuso. Sei que nos amamos, é só. Sei que não consigo saber ao certo. Fica difícil, você mesma não consegue; mas se pudéssemos nos dizer absolutamente tudo! Tenho vontades de me levantar e sair andando na chuva. Para encontrar você e conversar, conversar e conversar. Tudo isso é inútil, somos tão imaturos que não sabemos falar, que ficamos mudos, olhando nossos olhos feridos. Gostaria de ser inteiro para você. Onde estamos?! Simplesmente nos perdendo!? Aos poucos, vamos destruindo e tornando resto o nosso amor. São pensamentos que se perdem, palavras que nos rasgam a carne, são gestos que nos silenciam , agridem, são gritos e lamentações, injúrias, aberrações e covardias. Porque jogamos na nossa cara, suja e pasma, todas as verdades mais dilacerantes e sentimos na boca um gosto de mentira. Desencontramo-nos e não temos coragem para suportar a falta daquilo que já foi tão essencial: nós. O brilho dos seus olhos me agride, serpenteia-me por dentro e, então, imagino poder tornar-lhe azul. Mas você não é azul. E eu não sei que cor tenho ou se algum dia eu a tive para você. Os lugares são longínquos e o mar tem uma revolta densa. Porque não tenho espaço e gostaria de ter a clareza suficiente para lhe dizer o que isso significa. Para dizer que meu corpo dói, meu espírito se contorce e meus olhos tornam-se baços. Mas você não está aqui! E eu não sei onde é aqui! Mas tudo não passa de uma ilusão que, cedo ou tarde, desmancha-se nos lábios. Um dia, não nos restará nada mais do que lembranças; eu que nem gosto de lembranças, que sou um desmemoriado. Talvez eu lhe esqueça e perceba que nunca lhe amei, que você sempre esteve certa e eu errei em tudo que tentei com você. Fui sempre um covarde a esconder-me no momento do soco, a esgueirar-me por palavras dúbias e jogar a culpa inteira em cima dos seus ombros. Talvez você possa estar certa, e eu errado, e eu moleque. Mas em algo eu devo ter acertado, mesmo que de raspão... Você é má e as pessoas más são fracas dentro de suas fortalezas; sua verdade me envenena, me afoga. Porque seu lado mal não precisa ser mostrado, basta que ele esteja ali, sob a luz enganosa de seus imensos olhos verdes. O amor é extremamente mau, vicioso. Mas tudo isso não passa de besteira, pois nunca saberemos ao certo quem somos ou o que é o amor. A verdade é crua e nos assusta, mas temos que viver com o medo, respeitá-lo e utilizá-lo quando necessário. Melodia desencontrada. Meu corpo pede o seu e minha alma perde a sua olhando estrelas. Mas algo em você é meu, algo tão profundo que você quase não consegue perceber, mas é meu e sempre será: Eu amo você.”


capítulo dezoito


As negras africanas teciam seus panos sobre os atabaques de beber o silêncio da mata íngreme, confundiam-se com seus teares de madrugadas verdes e a vida transcorria num rio de pedras transparentes, porque, antes da noite chegar, os lobos bebiam a água do rio e matavam a sede das estrelas; a sede ingênua das estrelas carregando seus milhares de milhões de anos e luzes. Nas tabas, deitados em redes ou camas de pregos, os índios tiravam da dor o corpo e do corpo o sofrimento. Os galos brigavam com suas esporas de aço e os mamelucos jogavam dados em cima das bananeiras, das longas filas de pau-brasil e caras vermelhas de sol. Peri dançava no centro do mundo movendo seu corpo, cantava. Os girassóis bailavam ao vento extenso dos campos dourados pelo trigo da terra, as grandes colunas e pirâmides pré-colombianas, os labirintos da civilização do tempo. Londres ou Amsterdã, Istambul de tendas e torres próprias. Ou Peri comprava uma bicicleta e se casava enfim. Ponto final. Sem dramas.


capítulo dezenove


O que teria dado na cabeça dessa infeliz?

- Você é alguma espécie rara de idiota? É natural ou você treina em casa? Que jogo enfadonho o seu, baixo e egoísta. Eu tenho sinceras vontades de lhe espancar. Incrível, não? Como é possível que eu sinta esse tipo de coisa tão hedionda?... Por que você insiste tanto? Amor? Não acredito. Como é cansativo o relacionamento com você; mesmo que tão esporádico. Mas sua malícia e maldade são tão profundas que eu chego a pensar que você é extremamente fraca.

Vejamos Peri agora.

Ele procura um sentido vago de razão e corre por um sem número de portas. Ele está sentado e pensando absortamente no que lhe acontece. Talvez encontre soluções brilhantes, talvez as tenha descoberto há muito tempo, faltando, apenas, o momento oportuno, aquele instante onde as circunstâncias propícias se encontram e produzem o acaso. Então pensa.

- O que você está fazendo aqui?
- Recebi um convite para passar o final de semana no iate de uns amigos.
- É? Eu mudei, estou morando perto do antigo apartamento. Vou lhe dar o endereço. Aqui está. O que você irá fazer amanhã?
- Vou andar de jet sky.
- Hum? Jet sky? Bom, muito bom. Diga-me uma coisa... (Você é alguma espécie rara de idiota?...). Que legal, formidável! - Você não liga mais para mim.
- É? Eu tentei ligar um dia desses, mas não deu. - Peri dissimulava, mas nem a quinta parte da dissimulação da mulher.
- Eu acho que não deveria ter passado aqui.
- Por quê? Você não sentiu vontade? Não vejo problema algum.
- Eu preciso ir embora, têm umas pessoas me esperando lá fora. A Cristina está aí. Sabe, aquela amiga em quem eu sempre falo?
- Sei.
- Então, a própria. Bom, deixa eu ir. Tchau.
- Eu lhe acompanho até a porta.

Ao abrir a porta, Peri percebe que a avenida em frente ao hotel transformara-se num rio da Juréia. Está em pé numa canoa e rema observando o céu e a encosta da Serra. Seus pensamentos o remetem aos tempos remotos, onde o espaço era sempre dia e a luz do sol, elétrica. Diminui a cadência de suas remadas, calmamente virando a canoa para a curva do rio. A sensação de um ato contínuo o invade através dos desenhos da correnteza e na resplandecência de suas águas ao sol. Um vento principia-se fraco e, num repente, transforma-se num redemoinho de força que ergue a canoa ao céu, enquanto Peri tenta segurar-se como pode. Num momento a canoa pára e está frente à frente com a entrada de uma caverna, no topo da Serra. Ele entra cautelosamente e, extasiado, vê o fogo de uma estrela brilhar no centro da abóbada. Um olho fala numa língua incompreensível, sobre os dias da vida de um homem comparados aos séculos de vida das rochas. Então, pergunta a Peri se gostaria de viver tanto tempo quanto uma rocha, milhares de anos, mas como uma rocha.

Vejamos os fatos; um turbilhão de pessoas que passam e se amontoam pelas areias e dunas de planetas distantes. Na Islândia os géiseres jorram suas respirações de baleia e o homem caminha no último lugar a ser habitado, uma cadeia submarina de vulcões, com sua superpovoação de crateras misteriosas que ligam a literatura ao centro da Terra. Gravitações.


capítulo vinte


Peri escuta o latido de um cão na rua e observa o tempo passando, ininterruptamente. Idéias de eterno retorno, ou coisa similar aos gregos. O fato propagando-se no tempo, no espaço. Repetindo-se indefinidas vezes pelo infinito de cada segundo, pelas proporções do imaginário e pelo tamanho assombroso daquilo que deixamos de imaginar, o universo por conhecer. O ser por vir existe e está emaranhado numa teia complexa ou anda com os braços soltos no ar ou... tudo o que podemos ou não intuir sobre o desconhecido. Mas é um mundo que coexiste com mundos passados e presentes, uma espiral de combinações matemáticas e naturais, ad infinitum. Talvez o homem não se engana quando crê num deus absoluto ou pensa na sua presença como fruto de sua fé, ou ainda, quando céptico, conclama Deus. Porque são paralelos, espécie micrômega de Voltaire. Porém, o homem que morrera num hospício, vítima de uma doença degenerativa causada pela sífilis, dissera que o abdômen impedia o homem de considerar-se um deus. Ou seria verdade, ou Nietzsche teria lembrado de suas palavras ao abraçar os cavalos açoitados na chuva, ao sair do teatro. Encontrara a razão que fugia aos homens do seu tempo? Ou teria ele pensado que o mundo fosse apenas uma divisão entre fortes e fracos, onde a bondade, unia-se ao estigma da guerra. O bom, o guerreiro. Porém imaginava a criação da palavra nascida das castas elevadas, como se o homem do povo não tivesse nem ao menos a capacidade de comunicar-se, tendência filosófica à inversão de sistemas e concepções de vida. Falava no além do homem, e esse parecia esquecer o homem. Então, quando olhava em frente, fixamente, e sentia o fluxo do eterno retorno, pensava no céu covarde dos cristãos e esquecia que apenas o trocava pelo pressentimento de seu eterno retorno. A elevação da alma ou do homem. Ambos, em lados diferentes, buscando o mesmo por caminhos adversos. Mas com que pretensão o filósofo pretende descobrir a verdade, ou pior, tê-la nas mãos? Verdade? O que é isso? Alguma espécie de pilhéria ou a idéia que cada um pode ter a respeito de qualquer coisa? Prerrogativas, sistemas árduos, cálculos fantásticos, construções, corolários e notas que não acabam mais. O caminho certo é uma perspectiva pessoal, apenas uma aprendizagem. O que se deve ter em mente é que a realidade, seja ela qual for, é múltipla e impregnada por um sem número de mundos. A cada um, um prisma. Agora quanto a totalidade ou concepções absolutas, pode-se falar, no mínimo, em presunção. É, justamente, quando o filósofo descobre a verdade que se torna um inútil. Que ele caminhe numa busca sem fim. E quiçá, conquiste o gosto pela melhora própria e do próximo. Porque tudo o que se faz, retorna como um bumerangue que atirado por várias mãos, no ar multiplica-se.


capítulo vinte e um


Sacos pretos de lixo plástico. Sacos plásticos de lixo preto. O carnaval, marchinhas saudosas, cocaína, álcool, telefones celulares, encontros e atropelos. No hotel, o carnaval chegara numa tarde de fevereiro, com sua festa de carne nua e montes e montes de bagagens e hóspedes ansiosos para aproveitarem cada minuto e cerveja. Depois de hospedados, sumiam na madrugada de folia, sem deixar vestígios ou números de telefone. Nenhuma serpentina ou columbina perdida pelo lobby... Losângulos, composições cubistas em cima da mesa: uma mulher dança enquanto outra a observa; ela está vestindo um sobretudo negro e tem na cabeça um capacete branco, mais nada, o sobretudo está aberto e sua nudez oscila com o movimento da música. Há um espelho e as mulheres se fitam. Duas mulheres amando juntas o mesmo homem entre pintoras dadaístas jogando xadrez e tecendo tapetes de penélope, o mundo mágico que se esconde de nossas vistas embaçadas pelo distante fog londrino, ou pela garoa de São Paulo, ou pela maresia densa de São Vicente, ou por qualquer outro lugar ou circunferência de tempo. Bares escuros de luz, mulheres com brincos no supercílio e roupas pretas e botas longas. Garotas punks no Viaduto do Chá. Grafites em edifícios altos e histórias em quadrinhos no cinema virtual. Beijos na boca.


capítulo vinte e dois


O deus do sono, ou como as baleias brancas enfrentavam os baleeiros. Milhares de milhas oceânicas e vilas à beira mar, pescadores queimados pelo sol de suas esperas píscias. Ou como o inesperado brinca em volta da realidade fraca dos fatos.


capítulo vinte e três


- Balneário Hotel, bom dia.
- O que acontece nesse hotel?! Eu estou tentando falar com vocês há vinte minutos.
- A mesa telefônica não funciona bem. É muito antiga.
- Uma ova! Escuta aqui, eu quero falar com o auditor.
- Um momento.

Peri sentiu o sangue subir muito rapidamente. Controlara-se. Procurou, pelos ramais, onde ele poderia estar.

- Alo.
- Alo. Carlos?
- Não...
- Eu quero falar com o auditor. Você não me entendeu?! Eu vou contar para o dono desse hotel que todo mundo dorme de madrugada.

Peri aguentara o quanto pudera.

- É o Sebastião que está falando? O auditor do Mendes? Ótimo. - Então chegou perto do fone e, sonoramente, escarrou.

Depois da venda, o hotel assumira um clima gélido, propício a conservação do veneno que escorria aos cântaros através da língua afiada dos funcionários. Os antigos viviam com medo da demissão. Enquanto os novos, vindos do Mendes, abriam em leque sua arrogância. Funcionários acostumados a denegrir, injuriar o outro. Semi escravos. Alguns trabalhavam de manhã à noite e não folgavam. Em suma, robôs. O modo como a nova diretoria controlava seus amplos negócios era rígido, beirando o despotismo. Os filhos do dono eram obrigados pelo pai a seguir o caminho dos antigos portugueses. Novas terras, padarias e hotéis. O Sr. Mendes fora filho de um guerrilheiro que vivera em Angola. Ao morrer deixara um saco cheio de diamantes escondido. O filho o achou e o tomou do restante da família. Com ele e muito trabalho, construíra seu império. Depois da compra do hotel, transformaram-no num zoológico, com os aparelhos de ar condicionado funcionando a toda força. Um mundo gélido e permeado de vaidades. Vários andares foram fechados, deixando o hotel resumido a poucos apartamentos. O último andar seria reformado, aguardando os outros por sua vez. Assim o hotel transformara-se num deserto, com suas amplas terras desabitadas, clima árido como em nenhum outro deserto. O deserto balneário de Atacama. Não tão grande, mas seco e frio à noite e efervescente no subterrâneo do dia. Para Peri a luta recomeçara, ou nunca havia cessado. Ao sair do hotel percebera que o pneu de sua moto estava furado. Uma crise de mau humor o invadiu; deixou-a numa rua paralela e foi para casa de ônibus. Seu humor não mudara. Mas, ora!! Por que prolongar desta forma uma sensação tão desagradável? Os fatos já haviam se sucedido e agora não adiantava consumir-se desnecessariamente. O que tinha de ser feito seria, e pronto.



capítulo vinte e quatro


São Vicente. Terra de índios e pau-brasil. Na praia das Vacas Peri olhava a Enseada e imaginava as terras do descobrimento. A Mata Atlântica exuberando-se. O Porto das Naus. Martim Afonso de Souza perdido num mar imenso, louco com os olhos fitos de deslumbramento nas terras nunca antes avistadas pela cobiça portuguesa. Os jesuítas trazendo a fé cristã e dizimando através de suas doenças; gripes e coisas do gênero. Escritos na areia. E agora? O visitante desprevenido caminharia pelas suas ruas e só notaria que São Vicente foi a primeira cidade, capitania hereditária, caso tivesse um olho experimentado e extremamente analítico. O passado deteriorou-se. São Vicente transformara-se... No que a cidade transformara-se? Transformara-se? Ou será que a cidade, visitada pelos incas e invadida pelos extraterrestres, consumira-se num sonho empreendedor e, por fim, acabara conhecendo o mistério dos gregos, vivendo a realidade debaixo da tênue linha do conhecido, aquilo que separa a particularidade do contexto genérico. A pedra silenciosa e sábia de um milhão de idéias difusas, São Vicente, com a extensão de seus fuso-horários e relógios biológicos ordenando os calungas, seres enigmáticos com seus chapéus e semblante de botos. Na Praia das Vacas, Peri mergulhara em um bando de gaivotas descansando na areia. Prendendo a respiração, uma idéia aflorou lugares e pôde ver que todo o pensamento que tivera, até então, era o fruto único de uma espécie de consubstanciação, um motivo pleno. Em São Vicente, num pequeno barco, do lado oposto às praias, na ilha. Olhou para o céu e viu uma intensa luz circular, um motivo móvel. A madrugada adentrava pelos poros e águas escuras. Numa velocidade absurda, a luz ziguezagueava, sem qualquer previsão de vôo, de um lado para o outro, aleatoriamente. Pasmo, boquiaberto e de respiração suspensa, perdido no espaço. A água do mar clareando-se. Botos do passado pulando em volta. O vento. A chuva fina que caía oblíqua pelos corredores do pensamento, o vento, impelindo a alma a viajar pelo desconhecido, o distante e o inacessível. O objeto voador parou na sua frente e por trinta segundos ninguém se moveu. Todos, em São Vicente, tiveram roubados de suas vidas, exatos trinta segundos. Ao se lembrar, Peri experimentou a sensação que a descoberta confere ao espírito; na Praia das Vacas olhava o mar e o passado chocava-se com as ondas do presente e o futuro era o retorno dessas águas à nova onda. Primatas plenos no seio do mundo sorvendo luz, semeando chamas, saques, albergues, dias, o claro e rápido trepidar dos corpos no espaço, a noite, a festa de uma luz tecendo prismas por entre buracos negros, conversas sobre a intransigência humana. O lixo que era deus jogado na sarjeta de uma rua novaiorquinamente paulista, a esquina de uma estrela. Assombro de tão altas tecnologias, edifícios, sanatórios, igrejas recicláveis e a fé dos turistas, pagãos contrapartindo-se na virgindade oscilante das descobertas. Latas e mais latas nas areias de um tempo praia, nas luas, cruas como se o inverno fosse hoje. Alucinação, realidade virtual de olhares sobre o infinito. Cercas, estacas, muros e arames farpados. O universo corroendo, correndo nu, com o corpo em chamas e o mundo em águas, dádivas. O olhar, insano, cruzando o campo extrasensorial do absurdo, frente à frente com o incógnito, o silêncio e a amplidão.

Peri, em disparada, com os olhos atentos e o espírito preciso. Um longo corredor de metal, altíssimas paredes lisas, frias. Um espaço, o vago abismo, o salto, vistas perpendiculares absolutas, apoteose de formas desconhecidas e claridades duvidosas. Sem saber como ou porque. Havia uma porta e é era preciso passá-la. Um guardião impedia a passagem. Disse-lhe que tinha que continuar, mas ele era impassível e não permitia. Era um ser de contornos lisos, de uma cor prateada, sem cabelos, roupas ou sexo. Sabia-se apenas que era um guardião. Peri tentou convencê-lo de todas as maneiras razoáveis que conhecia, porém findas as possibilidades de diálogo, o guardião tentou agredi-lo. Peri esquivou-se, porém o outro desferiu um golpe direto com o punho, acertando seu queixo. Com o impacto a cabeça de Peri tombou de lado, então, quando abriu os olhos, percebeu que estava numa cúpula. Escutou os gritos de uma multidão invisível. A cúpula era uma abobado de pedra, vazada por uma intrincada armação de metal, do centro avistava-se o céu, denso de nuvens azuis, meteoros e seres voadores. Um pedestal continha armas. Os dois se observavam e andavam em círculo, no momento mais inesperado um dos dois pularia em direção ao outro. O medo fazia com que Peri sentisse cada uma das possibilidades de movimento. Sua respiração rápida e profunda. Quando o outro saltou Peri acompanhou seu movimento e, segurando seu punho, impeliu-o para o chão. Ele se levantou, correu para cima de Peri e, numa seqüência de golpes, alternando pernas e punhos, soltava sua ira incompreensível. Peri seguia seus movimentos e desviava-os, ora com o cotovelo, ora com os joelhos. Quando o guardião abriu sua guarda, Peri sentiu o ritmo do impacto de seus movimentos, acertando com os punhos o maxilar, a cabeça e o queixo. Seu sangue era negro como um óleo de máquina. Peri saltou no alto e olhou o rosto de seu adversário, golpeou-o com toda a violência de sua perna. O guardião caiu ao chão. Do seu corpo inerte brotaram noites de vales sombrios, com suas árvores esquálidas e caminhos subterrâneos, cavernas e estalactites, cristais de rocha pura, tempos e luas desconhecidos. Peri estava no alto de uma colina e a abóbada transformara-se num pequeno galpão de madeira. A porta estava fechada, pelas frestas enxergava uma árvore cinza chocando-se com o alvorecer. Era uma criança e escondia-se na semi-escuridão de mundos mágicos. Lá fora, Peri observava, atônito, o pouso de enormes criaturas morcegos. Elas paravam ao lado da árvore e fechavam suas asas como um manto em volta do corpo; olhavam o horizonte, enquanto sussurravam diálogos imprecisos acerca do tempo. Peri sentia a proximidade de uma casa. Saiu pelos fundos do galpão e passou pela lateral. Ao atravessar a casa, era adulto e a via pelo lado de fora, na entrada principal. Um muro de pedra protegia o corredor de uma escada íngreme. Ao lado do portão dois gárgulas guardavam o caminho. A casa era branca e ficava muito alto nas nuvens. Peri sentara-se no terraço, em cima da amureta que o separava da queda. Por um momento distraiu-se e perdeu o equilíbrio, tentou segurar-se na colunas da amureta, porém, lentamente, suas mãos foram escorregando. Não sabia voar, a queda era estonteante, o medo um amigo; equilibrou-se no ar e principiou um vôo, ganhava altura e sensações de deslumbramento, a velocidade do vento no rosto. Voou de volta à casa; no primeiro andar, embaixo do terraço por onde escorregara, uma janela alta de vidro claro e pequenas armações de madeira, era testemunha da beleza de uma mulher nua. Peri olhou a brancura da sua pele, o contorno macio de sua cintura, o calor de seu colo e a volúpia de suas mãos e beijos impossíveis. Ela estava parada, entre ela e a janela, uma mesa convidava a deitar, enquanto sua face lembrava uma tristeza, impassível e bela. Olhou-a em profundidade e fechou os olhos. Ao abri-los, a casa das nuvens transformara-se numa falésia; era como uma recordação antiga, um quadro fugidio de algum amor disperso. As ondas quebravam com fúria a sombra de uma tempestade que se aproximava. Peri sentiu seu cheiro e mergulhou no mar, rochas em movimento, equilíbrio de ventos, seu corpo modificando-se com a velocidade, guelras, barbatanas, o mergulho violento e leve nas águas apartando-se, confluência de mundos difusos. O mundo das águas, milhas oceânicas, regiões abissais e incógnitos lugares de alheamento, o azul do mar. Quando se apercebeu, trinta segundos depois, estava a deriva no pequeno barco, ao lado da Ilha Porchat.



capítulo vinte e cinco


D. Dayse e D. Zulmira caminhavam pelo lobby do hotel, pois sentiam medo de caminhar pelas ruas, preferiam a segurança tranquila das paredes e corredores do hotel, um teto ao invés do céu.

- Parque Balneário, bom dia (novamente o dia em meio a noite espessa). - Peri escuta um sussurro, a mesma voz que matizava a madrugada com uma cor de fogo.
- Alo...
- Alo.
- Você está de botas?
- Estou.
- Quantas botas você tem?
- Cinco.
- Eu não acredito. Você deve estar mentindo para mim.
- É verdade. Eu só uso coturnos.
- Mesmo de dia?
- Eu fico descalço.
- Eu preciso lhe conhecer.
- Será que você não me conhece?
- Olha. Eu estou sentada na banheira, nua. Você consegue escutar o barulho da água? Estou brincando com ela.
- Só com ela?
- Não. Eu queria brincar com você.
- De quê?
- Eu começo.
- Não. Escuta. Você deixou a porta semi aberta e eu entrei. Você está de costas e eu lhe seguro levemente os ombros. Minhas mãos descem pelo seu dorso e acariciam seus mamilos. Você volta sua cabeça para trás e eu lhe beijo a boca.
- Eu sento na beirada da banheira e você fica ajoelhado na minha frente.
- Eu lhe beijo o corpo, mãos, seios, pescoço, nuca, colo, pernas, sexo e alma. Minha boca espuma e meu corpo lateja, seus olhos reviram-se e você geme, sussurrando. Então, eu lentamente penetro na sua vontade de ser possuída. Você me abraça e sente nossos suores misturando-se, contração de lugares e países abertos. Eu lhe deito no chão e me confundo com seus sonhos, viro e reviro seu corpo, por dentro, por fora. Mordo suas costas e seguro seus pulsos, deixo-lhe de ponta cabeça e mergulho em pé. A madrugada é densa e nos banha com seus desejos absurdos, quereres oblíquos.
- De quatro, me come de quatro.
- Eu seguro sua cintura e puxo seu corpo de encontro com o meu, bato em suas ancas e beijo-lhe nuca e orelhas. Peço para que você fique em cima.
- Eu levanto e me roço nas suas botas até chegar nas suas coxas. Então eu seguro no seu peito e me encaixo em você.
- Eu vou ter que desligar. - Peri olhava, quase sem acreditar, uma hóspede pedindo a chave e olhando sua cara pasma e excitada.

Lembranças. Desejos diários de encontrar você, que não conheço e imagino diferente do que é.


capítulo vinte e seis


Peri saiu pelas ruas procurando algo para entretê-lo do tédio manso das sextas-feiras. No dia anterior, duas mulheres foram a sua casa. Uma, com dezenove anos, outra com dezessete. Ao beijá-las, sentiu no seu corpo uma vontade férrea de consumir a plenos pulmões o fogo que ardia nos seus lábios, labaredas sobre a língua. Ele as abraçava e ria com uma alegria simples e natural, palavras que brotavam de sua pulsação alterada. Ficou parado na frente da mais velha e abriu seu zíper, a outra estava sentada numa cadeira ao lado da cama e olhava atentamente cada lance da língua de sua amiga sobre o corpo de Peri. Estavam fumando e a mais velha pediu para que ele passasse o cigarro a mais nova. Ao virar-se e entregar-lhe o cigarro, a mais nova ofereceu os lábios para que ele a beijasse, um beijo afoito e permeado das mãos da mais velha que deslizava-as pela extensão das costas e pernas de Peri, algum céu distante eclodia.

- Da próxima vez, você vai deitar na cama e ele vai lhe ensinar uma coisa deliciosa. - disse a mais velha à mais nova.

Esta fazia parte da primeira experiência do gênero que tivera, o momento onde pôde escutar a doce canção dos gemidos simultâneos de duas mulheres enlouquecidas pelo desejo mútuo. À margem da lembrança, Peri via o surrealismo que explodira desse encontro, cenas indescritíveis de corpos unidos e de bocas molhadas e semi abertas, cansaços, prazeres e ímpetos de força; penetração de almas, ela pedia para que ele lhe puxasse os cabelos e lhe batesse na cara, enquanto a outra, apenas de sobretudo e um capacete branco na cabeça, dançava embalada pelo cheiro do sexo e da fumaça dos cigarros, a música alta e as cortinas vermelhas, as costas unhadas, a nudez do desejo. Peri amava ambas que se amavam amando Peri. Agora, a mais velha estava na sua frente e trouxera-lhe uma outra mulher, pois brigara com a primeira e então não andavam mais juntas, coisas de mulher. Peri trocou-se e despediu-se, porque tinha que trabalhar e a vida marcava de ironia alguns encontros e tantos outros desencontros. Questão de tempo. No dia seguinte se encontrariam. Foi trabalhar.

No hotel a entrada de uma banda baiana o esperava; músicos, bailarinas, técnicos de som, iluminadores, produtores e uma série infinita de circunstâncias adjacentes. A parafernália moderna, a mídia que transforma as pessoas comuns em seres de outro planeta, a embriaguez do sucesso, a popularidade da música. Entraram e mais tarde foram-se embora para o show. Minutos depois duas tietes atrasadas chegaram perguntando pela banda, pois haviam marcado para irem juntas. Infelizmente, como era tarde e não havia mais nenhum hóspede que fosse para o show, elas preferiram ficar no lobby do hotel, pacientemente esperando pela sua volta. Falavam muita bobagem e sentavam-se provocantemente nas poltronas, davam-se largas risadas e comentavam suas vidas de tietes, mostravam as fotos que haviam tirado com as grandes personalidades e discorriam sobre suas intimidades e amores suspeitos. Eram tia e sobrinha com uma diferença de apenas um ano de idade. Quando a banda chegou, tiraram inúmeras fotos e subiram para os quartos dos músicos. Desceram duas horas depois e despediram-se ternamente de Peri. A ansiedade crescia. Saiu do hotel e foi para casa dormir, pois queria se poupar para o encontro da noite.


capítulo vinte e sete


Em cima das pedras Peri sentia as nuanças do equilíbrio transportando-o para as várias regiões do universo. O vento do mar e um sol forte na manhã de outono; à direita da praia, as gaivotas sentadas na areia brindavam as ondas com um gosto de renovação. Peri sentia o equilíbrio viajando pelo seu corpo, enquanto saltava pelas pedras e respirava-as em suas distâncias. Saltos, o movimento preciso dos olhos, os braços e pernas suspensos no espaço, o impulso e a chegada ao ponto destino. Peri corria e andava. Enquanto as gaivotas ficavam em sua meditação pacífica, os átomos das pedras vibravam e banhavam o invisível de movimento, os mesmos átomos que compunham seu corpo e faziam parte de muitas outras coisas, micro universos, mundos inumanos, deuses e concepções próprias. Peri sentia o vento no olhar e tudo não passava de um instante infinito, a brisa do mar, o cheiro das rochas, os sambaquis formados pela maré e, em contraste, o verde vivo do morro. O sonho. O momento seguinte, futuro porque não outro que pudesse vir a ser. Emblemas de antigas navegações. Troncos de árvores.


capítulo vinte e oito


Situações insanas. Um estado previsível de atitudes desordenadas, risadas. Que tolices não comete o homem?

Enfim elas vieram, as duas juntas. Depois de uma semana de ansiedade, Peri as encontrara por acaso, atravessando uma rua movimentada do Centro da cidade, pararam e ao mesmo tempo beijaram-no. Mais tarde se encontrariam, pois tinham ainda que fazer algumas coisas e era preciso tempo para agir. Duas horas decorreram e elas então chegaram; Peri controlava-se, sua vontade era de agarrá-las no exato momento de abrir a porta, mas ao invés disso, fez uma careta para disfarçar os músculos contraídos pelo desejo e, docilmente, abriu a porta. Entraram tímidas e aos poucos, ou talvez muito rapidamente, foram se mostrando mais à vontade. A mais velha usava uma mini saia preta, uma pequena camiseta azul grudada ao corpo, uma espécie de tecido acetinado em contraste com o vinil da mini saia. Ao se levantar mostrava generosamente o contorno de suas pernas. A mais nova jogava cartas na virtualidade do computador, uma posição mista de alheamento e comunhão. A berrante sutileza das mulheres. Quando Peri sentiu no ar aquele campo magnético impregnando o quarto com uma eletricidade dúbia, já era tarde demais. Talvez sua ansiedade e fome as tivesse assustado, ou uma esperteza peculiar que ele não soube perceber e que no momento foi decisiva. Talvez apenas quisessem se divertir às suas custas. Ou seriam vítimas de uma rede intrincada de ciúmes e vontades difíceis de dissimular? Ao se dar conta que seus intuitos caíam por água abaixo, a noite adentrava pelas frestas da janela e um céu que não se via em outros tempos singrava seus raios pela madrugada sem nuvens. Ou seja, elas o provocaram e se foram embora, simplesmente. Mas era preciso fazer algo. Peri levantou-se. Correu em disparada e, pacientemente, achou-se num turbilhão de caminhos sem rumos. Voltou para casa e, à meia noite e meia, dormiu.



capítulo vinte e nove


Uma mulher estava grávida. A criança, quando Peri a viu dentro do útero da mulher, tinha três grandes sulcos transversais no rosto e outros três no abdômen. Quando nasceu, dos sulcos cresceram patas de aranha e ela transformou-se num imenso inseto desconhecido. A mãe fugiu e tentou entrar num ônibus em movimento, não conseguiu e caiu. Peri estava no ônibus e viu quando ela se uniu a filha transformando-se no inseto que sempre fora e estivera escondido, geração à geração, dentro delas. Quando olhou para baixo, notou que o ônibus estava parado no topo de uma duna, ao lado de uma arca bíblica e de pombos nos umbrais de edifícios cariocas. Um coreto no meio da praça exalava desertos e era um lugar natural e solitário, visitado e habitado por seres distantes da compreensão humana. Âncora de navios em meio as dunas e canais de escoamento. Garrafas de refrigerantes de cola, rinocerontes banhando-se em oásis de miragem, helicópteros e pragmáticos beija-flores sorvendo o néctar das areias do tempo. Dentro do ônibus, agora vazio, Peri acelerava-o para alcançar uma estrada inacessível, espécie de caleidoscópio mundial, todavia, o céu de um azul apoteótico, delimitava a vastidão do pensamento, e as visões perimetrais sobre o deserto suspenso e transformado em ilha vulcânica, eram os cavalos islandeses e os babuínos espanhóis em embarcações egípcias sobre o Nilo. Palácios portugueses e vistas aéreas de Sintra. A maior floresta do mundo, ou uma vitória-régia boiando dentro dela.



capítulo trinta


Peri abriu bem os olhos e viu o mundo tal como ele era. Mas como seria o mundo para uma montanha? ou para um gato? Uma estrela? Para uma alga marinha. Meu Deus, como seria o mundo para uma alga marinha?

Quando criança, na entrada da escola, Peri sentava nas escadarias, com sua lancheira no ombro e roupa de uniforme, observava as pessoas passando e, por uma fração de segundos, existia em outras vidas, uma por uma, escolhida aleatoriamente.


capítulo trinta e um


Então cravou os dentes nas costas de alguma montanha inacessível. Alguma solidão capaz de subverter o sentido básico de vida, transmutá-lo para outros padrões de realidade. Abrangências. Peri levantou-se e energizou entre as mãos uma esfera de luz, dissipando as trevas com seu movimento de luta e equilíbrio; observou o nada, espécie de não significação contemplada no escuro do espaço. Ou seria mera impaciência? Peri remoeu sua impaciência, agravada, dia a dia, por insignificâncias que para um espírito maduro, não acarretariam mais que um torcer de nariz. Porém, ao invés de superá-la, Peri a aumentou. Passou o dia anterior e a noite inteira praguejando: cortaram sua folga, suas mulheres o haviam abandonado e a possibilidade de voltar a trabalhar de dia distanciava-se em meses à frente, seu humor tornara-se arredio e sua conduta algo mais rebelde. Diríamos desagradável, inoportuno, insensato, seco, áspero. Passara assim a madrugada, com os hóspedes nos seus devidos lugares e o lobby do hotel na semi escuridão. Pensava que poderia estar na rua onde era feriado e todas as pessoas se divertiam. Mas não. Ali estava ele, independente de todas as filosofias de vida, esmurrando portas, cuspindo pelo chão e esquecendo que existia algo mais do que suas frustrações e ansiedades. Assim que saiu do hotel, um guarda pediu para que ele parasse. Isto feito, pediu-lhe os documentos. Peri não possuía habilitação, sua moto foi guinchada e ele encaminhado para o Sétimo Distrito de Santos. Antes praguejara alto e o guarda voltara-se para ele com as seguintes palavras:

- Eu estou cumprindo o meu trabalho. No seu serviço, creio que você faz o mesmo. Então abaixa a bola, porque não adianta nada.

Peri fitou-o dentro de seus olhos e calou-se. Olhou sua farda, seu bloco de multas, sua arma e sua arrogância. Era um homem de trinta e dois anos, nascido em São Paulo, com a fisionomia também típica da polícia, bigode e cabelo curto. Na verdade, o homem que se chamava Antônio, sofria de uma calvície precoce, causada principalmente pelos dissabores da vida. Havia se separado a um ano, mudara-se de São Paulo e procurava esquecer os aborrecimentos que tivera. Mas antes de ser Antônio, ele escondia-se como um policial. Para ser mais exato, ele representava, aos olhos de Peri, a instituição policial, fosse ela militar ou civil. O homem vigiando, punindo, coagindo, extorquindo, torturando e matando o próprio homem, às vezes culpado, às vezes não, mas sempre vítima, seja da falta de educação, arrogância ou brutalidade típicas da polícia. Homens que trabalham contra os homens que estão à margem do que é correto, do que é aceito e do que é imposto como tal, confundindo os lados e ora, se igualando aos que combatem, ora superando-os. No distrito, enquanto esperava para ser autuado, um investigador com cara e jeito de ladrão, comentava ao delegado:

- Faz tempo que eu não trabalho ao sábado nessa porra! Hoje vou trabalhar pra mim. Você acha que eu vou dar dinheiro pro estado?!

Era um sujeito todo malandro, mas talvez esta fosse uma brilhante tática de disfarce ensinada aos policiais, homens de inteligência elevada e profundo sentido de sutileza. Lia o jornal do delegado e vez por outra soltava um comentário:

- Isto aqui é jornal de bicha. Eu gosto de jornal que tenha sangue: filho mata a mãe com alfinetes no pescoço. Não essa merda de jornal. Olha aqui! Não tem que matar esses filhos da puta? E esse moleque, acabou de entrar e vai ser delegado. Manda à merda o interino. Eu quero que ele se foda! Delegado?! Grande bosta. Mês passado, eu fui dezesseis vezes ao fórum. Por isso, se eu ver o ladrão passo pelo outro lado. Só pra não ter que ir ao fórum. Delegado! o senhor tem um real para me dar? Quero ler outro jornal.

O delegado, solícito:

- Está querendo me extorquir?
- O que é isso, seu delegado? - para depois comentar aos que estavam perto. - Se ele não tem, imagine eu?

Em suma, um sujeito agradável. Daqueles que ficam soltando piadinhas em voz baixa, enquanto outras pessoas passam e ele faz cara de idiota. Tudo isso para ser engraçado. O que consegue surpreendentemente bem. Peri observava tudo silenciosamente, apenas arrotando para que o conjunto das frases não lhe embrulhassem o estômago. Mas esses eram homens que viviam em outro mundo, um mundo diferente, com códigos ditados pela violência, acostumados com o lado bizarro da vida. Algumas vezes exercitando seu serviço com indiferença, outras com medo e outras ainda com uma espécie sórdida de prazer. Mas, antes de tudo, por incrível que pareça, são seres humanos que padecem dos mesmos males que qualquer outro ser humano, com seus vícios, virtudes e contradições. Pessoas que sofrem, que têm família, que se alegram e assistem televisão quando podem. Para Peri era melhor enxergar um pouco mais além de sua medíocre pessoa, superando seus desajustes de humor e aproveitando as sortes e reveses de seu caminho.


capítulo trinta e dois


O mundo era as borboletas enfileiradas de uma coleção, um mestre de braços abertos sobre três discípulos de cada lado, com um pavão acima da cabeça e inúmeras serpentes sobre os pés, um imenso dormitório vazio, o lance das chamas ou uma caixa de fósforos aberta na escuridão. Era ainda, três fechaduras sobre o movimento sonoro de um disco, o Egito Antigo, suas esfinges e a dança projetada no gesto da bailarina. Ou então, as pinturas pré históricas nas paredes de uma caverna, o baile dos braços no espaço, a explosão de um navio, o mar agitando-se na Idade Média, o movimento metálico nas mãos do homem, os soldados iludidos nos momentos de paz, o purgatório de Dante, uma lâmpada elétrica, duas esferas e um cone. Mais embaixo, era a conversa despreocupada de alguns amigos num bar, com suas caras de mau e demais esquisitices, facas sobre a mesa e um homem de cartola e bengala, à parte, sentado sozinho e olhando de soslaio um mosaico de mulheres. Era também, o deleite do casal, hipnotizado por observar o lançamento único de um foguete. Por outro lado, era as costas curvadas do sábio sobre os cálculos dos astros e suas influências sobre a saúde do corpo, um super herói de capa preta projetando-se num muro alemão, uma borboleta livre pousada no ramo delgado de um arbusto prestes a ser destruída por um batalhão de guerra, era uma praia com canoas na areia e o andar feliz sobre ela, imagens televisivas em preto e branco, surfistas em trens lotados experimentando a velocidade urbana. O mundo era uma cidade pictórica, com homens de chapéu e esquinas para o mar. Uma pequena tartaruga na palma de sua mão.

Peri estava sentado no escuro. À sua frente, os olhos de uma coruja sorriam malevolamente com uma boca escancaradamente humana. Seu pescoço era o sapato alto e vermelho de uma mulher; o tronco era uma complicada engrenagem de um relógio de bolso sobre a metade crescente de Marte; o abdômen, uma televisão que mostrava as imagens do homem pisando pela primeira vez na Lua, a Terra era o umbigo em cima do corpo de um violino, em cujas cordas navegavam lanchas. Os braços eram ao mesmo tempo o busto nu de uma mulher sem cabeça e as suas pernas cruzadas, uma mão segurando um bumerangue. As pernas, duas, ficavam do lado direito e eram meias escarlates com ternos cinzas e sapatos sociais. Peri deitou seu corpo de lado e fechou os olhos. Aos poucos, sentiu uma forte emanação de energia pulsando dentro de sua cabeça, como uma arma que se carrega e está prestes a disparar. Tentou abrir os olhos e não conseguiu, o mesmo se deu quando tentou mover as mãos. Peri sonhava que era um soldado andando por montanhas. Ele abaixou-se para pegar algo e contou ao outro soldado sobre sua cidade natal. Algum lugar longe e inacessível, talvez um vilarejo de clima agradável e povo hospitaleiro. Abriu os olhos e estava deitado no chão do lobby, embaixo da mesa dos mensageiros. As cinco horas levantou-se e a coruja tinha voado longe. Ao entrar na recepção, escutou uma murmurinho sem que pudesse distinguir sua origem. Foi até o balcão e, ao colocar sua cabeça para fora, viu algumas adolescentes sentadas no carpete com as costas no balcão. Eram fãs que esperavam seus ídolos, com suas máquinas fotográficas e caderninhos de autógrafo. Disseram que estavam ali há dias, mas não haviam perdido as esperanças, pois em breve eles apareceriam e elas enfim poderiam realizar seus sonhos. Peri as olhou mais uma vez e voltou ao seu trabalho. Mais tarde.




capítulo trinta e três


Na praia de Itaquitanduva, a manhã de sol e ironia banhava o mundo dos sonhos acordados, pedras e ondas selvagens. Uma índia de lábios de mel e cabelos negros como as asas da graúna, matava sua sede nas águas de uma bica e agradecia aos seus deuses a dádiva que recebia. Levantou-se e caminhou até a beira do mar, deixando que a espuma das ondas borbulhasse nos seus pés repletos de nudez. Sentou-se na areia e fez castelos de pingos, um sobre o outro, pacientemente. Peri encaminhou-se para seu lado e com uma concha na mão, disse:

- Há quem espere pelo amor toda uma vida, mas há outros que, olhando o horizonte, colocam uma concha no ouvido e escutam o barulho ininterrupto do mar. A verdade, é que o amor está sempre presente, porém, dificilmente nos damos conta que o distante está próximo e então, ficamos assim, construindo castelos na beira da areia e temendo a chegada das ondas.
- Seu nome é Peri?
- Seus olhos sonham? Ou são apenas belos o suficiente para iludir os céus?
- Você sabe quem sou?
- ...
- Eu sou a mulher que você sonhou.

Trrrrimmmm. Está na hora de acordar, deixar o mundo vago dos sonhos e ater-se a profundidade do real, ao mundo palpável e concreto. Ou seria apenas o acaso?



capítulo trinta e quatro


Peri olhava as ondas batendo na encosta da Ilha Porchat, com tamanha força que as águas do mar brilhavam ao projetar-se no espaço. As paredes da construção do mundo, gargantas marítimas, vozes celestes e cores púmbleas sob o sol. O inacabável. Estava no que restara do projeto de um prédio, amplos espaços vazios, rachaduras pelos alicerces e rochas como base, apenas as paredes e as escadas. Um tom sombrio de abandono em meio a claridade efusiva do dia. As paredes formavam um mosaico de desenhos e frases sobre os mais diversos assuntos, nomes, datas e tudo o mais que pudesse ser pichado. Uma sensação de altura o invadia. Olhou para o alto mar e ficou observando os navios que esperavam para atracar no Porto de Santos. Pensou nas naus de Martim Afonso de Souza, nos dias passados, no momento presente e nos dias vindouros; pensou nas ruas de paralelepípedos ainda banhadas pelo orvalho da madrugada e descobriu novos países. Numa das paredes, havia o desenho de um homem, feito a carvão, rudimentar e primário, apenas um contorno boiando no espaço, com os braços ao longo do corpo e as pernas esticadas. Sob seus pés, as rachaduras mostravam a armação de ferro por dentro do concreto, cada detalhe, no seu conjunto, formava o desenho de um vale acabando em um abismo. Olhou adiante e viu o azul do céu brincando com a brancura das nuvens, o verde vivo da mata e o dourado áspero do sol. Levantou-se.



capítulo trinta e cinco


O lobby do hotel fora visitado por uma armação metálica, um conjunto de canos que se encaixavam um ao outro, um ser geométrico; estava envolto por um plástico negro e no todo parecia-se com um platô. O teto havia se modificado e agora surgiam desenhos de gesso, linhas correndo lado a lado na sua extensão de velocidades díspares. Um ser silencioso que prostrava-se inadvertidamente no meio do lobby, tirando os móveis e as pessoas de seus lugares e transformando sutilmente suas características. As paredes, imensos quadros de madeira, tornaram-se marmóreas, uma ilusão criada pelo ser geométrico, uma alusão ao luxo, a ilusão dos olhos. Aos poucos Peri foi se acostumando com sua presença. As tietes, que ainda esperavam pelos seus ídolos, aproveitaram o visitante para esconder-se dentro dele, uma maneira drástica de fugir a perseguição dos seguranças, mesmo que até a gerência houvesse permitido, veladamente, sua permanência, porque, ao bem da verdade, um número tão expressivo de fãs no lobby de um hotel, era algo que fazia monta aos olhos e indicava-o como um bom lugar. Porém, os seguranças não davam ouvidos aos argumentos da gerência e continuavam a persegui-las incansavelmente. No meio dessa mixórdia de formas e seres enigmáticos, em determinada madrugada, um casal, ainda jovem, um tanto afoito, entrou no lobby e dirigiu-se a Peri:

- Boa noite. Por favor, qual o número do apartamento que fica ao lado da Praça da Independência, cuja janela está no oitavo andar e é a primeira da esquerda para direita? - Disse o jovem marido, denotando uma crescente ansiedade.
- Apartamento 801.
- Você poderia ligar para lá?
- Infelizmente não. A mesa telefônica está com um problema sério e nós não estamos conseguindo transferir os ramais. O hóspede está esperando por vocês?
- Está. Nós moramos no prédio ao lado e ele estava na janela fazendo sinais para nós.
- Podem subir, então. - Peri estava achando essa situação muito peculiar, estranha talvez. O que seria que estava acontecendo? Ora, um hóspede gesticulando para um casal no prédio ao lado, talvez estivesse querendo algo que um marido ciumento não permitiria. Mas o jovem parecia confiante, dando a entender que não percebia o desejo...

Momentos depois o casal voltara.

- Você tem certeza que é esse mesmo o apartamento? - perguntou o marido.
- Pelas descrições que você deu, sim.
- Bom, obrigado e boa noite. - Saiu resmungando à sua mulher que realmente só poderia ser aquele apartamento e, por algum motivo, o hóspede não quis abrir.

No outro dia, quando Peri preparava alguns relatórios, foi surpreendido pela presença do casal.

- Boa noite. Tudo bem? O hóspede mudou de andar. Desde ontem a noite ele está nos observando. Passa pela janela de toalha e fica fazendo gestos. Eu não tenho cortina no meu apartamento e ele não pára de olhar, mudou de apartamento para enxergar melhor.
- Você tem certeza que é a mesma pessoa?
- Claro que sim; ele tem o cabelo bem curto, é alto e magro.
- Eu posso dar queixa na polícia por causa disso. - Falou a mulher olhando nos olhos de Peri.
- Em que andar ele está agora?
- No quarto andar.
- Na mesma coluna?
- Sim.

Peri consultou os slips de entrada e notou que o lugar indicado pelo casal, não era de um hóspede que tivesse mudado de apartamento.
- Não é o mesmo hóspede, pois o de ontem partiu esta manhã. O apartamento indicado no quarto andar está ocupado por um casal.
- Posso falar com ele? - Perguntou o rapaz.
- Um momento. - Peri respondeu a contra gosto.
- Alo. Não é você que estava olhando a gente pela janela?... Não? Você tem certeza?... Desde ontem a noite... Você não estava hospedado no oitavo andar? Hum... Boa noite... Não era ele - disse a Peri. - Eu não estou louco. Eu tenho certeza. Se você duvida eu lhe levo em casa e mostro como ele fica olhando o tempo todo. Eu tenho certeza que é ele, você precisa acreditar em mim. Eu não sou louco.
- Vamos embora, é melhor irmos dormir. - A mulher o puxou delicadamente pelo braço e o conduziu pelo lobby do hotel. Poderia se dizer que a mulher experimentava um certo orgulho, um sabor de vaidade. As voltas e meneios do ciúme, esse monstro que se engrandece nas entranhas do pensamento e faz sofrer a quem ama.



capítulo trinta e seis


- E você? O que você acha de mim?
- Você?
- É. O que você acha de mim? - Ela estava sentada na cama e seus olhos verdes brilhavam com lágrimas invisíveis. Seu vestidinho rosa, seus tamancos aos pés da cama; no pulso usava o relógio que fora de seu pai, presente de sua mãe depois do falecimento. Então, Peri recordou-se dos seus últimos meses de vida, tornara-se uma criança, vivendo num mundo diferente do nosso, uma tristeza envolveu-o. Nesses momentos Peri poderia tê-lo abraçado, ter-lhe dado conforto e afeto; mas não conseguira, não do modo que quisera, pois a morte nos joga na cara tudo o que poderíamos ter feito e não fizemos. - Hein, o que você acha? - Disse a mulher tirando-o das recordações. - Por que você sempre foge quando eu lhe pergunto sobre mim?
- Porque sempre que você faz esse tipo de pergunta há algum motivo escondido.
- Como assim? - Peri ficou em silêncio. - Toda vez que eu lhe coloco contra a parede você escapa... Onde está o livro que você me emprestou?
- Encima da estante.
- O que você acha de mim?
- Eu acho que você é muito insistente e deveria respeitar meu silêncio, mas você não consegue. Não é verdade?
- Com você eu perdi a vergonha. É, é isso mesmo: eu perdi até a vergonha. Eu sou uma cachorrinha que ficou muito tempo presa e sedenta e, de repente, está livre; estou morrendo de sede e bem aí está um pote cheio de água. Não consigo controlar...
- Eu tenho pensado sobre o autocontrole, sobre como é importante frear os ânimos em circunstâncias adversas. Mas é tão difícil. É mais fácil amadurecermos o intelecto do que entendermos nosso lado emotivo; explodir nas horas erradas, falar quando o prudente era ficar calado, revoltar-se e jogar para o alto as chances de burlar o que nos achata enquanto seres humanos, porque destruir o que há de errado é uma meta no mínimo impossível, então, somos obrigados a adequarmos o que somos ao que se torna necessário; vemos os pequenos erros do indivíduo agigantando-se nas instituições públicas, como um brinquedo de níveis, assim, criamos o estado, a justiça, a polícia, a igreja, o mundo do trabalho e, principalmente, a comédia humana. A sociedade do convívio forjado, onde o real é apenas uma piada sobre o ideal convicto dos homens de direito; funcionários públicos, filas, processos, papéis, tudo o que cria esse lugar autômato regido por leis, paredes e conveniências. Arquivos, números e desaparecimentos por onde os “fortes” exercem seu poder de mímica. Uma casa de espelhos. Entramos nela e vemos, estarrecidos, nossa imagem deformada por inúmeros prismas... Em suma, a vida é bela.
- Será que eu sou tão chata assim pra você não me dizer como eu sou? - Disse a mulher saindo de um momento de torpor. Ela se sentava com as pernas abertas e os braços no meio delas servindo de apoio. - Eu não sou ruim com você. Por que você faz assim?... Eu preciso ir embora, vem cá me dá um beijo, me abraça.


capítulo trinta e sete


Era assim, uma questão de luta, incessante e sempre prestes a eclodir quando menos se esperava. Peri virou uma esquina e esbarrou num homem que vinha apressado, continuou a andar e quando olhou para trás o homem estava encarando-o:

- Que foi? - Gritou o homem, indo em sua direção.
- Que foi o quê?
- Que foi o que, o quê?!

Ao dizer estas palavras, o homem, enfurecido, passou a agredi-lo. Um jogo de ritmos, rumos e punhos. Ele era rápido e forte, alto, tinha boa seqüência de golpes e seus olhos eram negros e vítreos, como os olhos dos loucos. Peri sentira sua respiração mudar instantaneamente, a adrenalina correr pela corrente sangüínea, enquanto a visão do mundo restringia-se a luta, ao instinto de liquidar o adversário. O primeiro golpe foi um gancho de direita que, violentamente, acertara o queixo de Peri, um golpe rápido e inesperado que despertara a besta que repousa dentro de cada um de nós, o lado violento. Peri deu um passo para trás e absorveu a pancada, acertando, logo em seguida, um chute direto no joelho do homem, assim ganhou espaço, gingando o tronco e desferindo um jab de esquerda, um direto de direita e um cruzado, novamente com a esquerda; o homem perdera o equilíbrio ao tentar se defender, assim, desferia golpes sem direção que, ora eram bloqueados com a cabeça, ora eram defendidos com os braços, aproveitando o movimento do adversário para usar sua força contra ele. Como tivessem apertado seu círculo de luta, Peri usou os cotovelos e joelhos, contundindo e cortando a respiração do homem, quando ele chegou mais perto, Peri deu-lhe uma cabeçada no supercílio, provocando uma torrente de sangue. Empurrou-o com o joelho e saltou, no alto chutou-lhe a cabeça e o homem caiu. Peri olhou-o no chão e continuou a andar, sentindo um outro mundo, diferente daquele que se vê nos chips, nas fibras óticas, nos prédios e arranha-céus, um mundo pré-histórico.


capítulo trinta e oito


A Ilha Porchat luzia num cinza áqueo de sexta à noite, como um cheiro de cio propagando-se no ar; Peri saíra de uma festa, onde as mulheres andavam de maiôs pretos e sorrisos falsos nos lábios. Decidiu-se ir embora, mas a chuva repentina fizera com que parasse à porta de uma danceteria. Como não parasse de chover, entrou. Uma escada íngreme, de pedra e estreita, uma arquitetura labiríntica, portas altas, janelas em arco e uma impressão futurista na pista de dança. Ao entrar, ganhou uma bebida doce e vermelha, a qual bebeu para esquentar o corpo. As músicas se trocavam e as pessoas dançavam embaladas pela hipnose do ritmo, pernas e quadris, costas se arrepiando e mãos dançando sobre o corpo impregnado de sensualidade. As meninas entregavam-se à música como se estivem amando, singela e deliciosamente. No canto direito, em cima de um tablado, uma menina de seus dezessete anos, com jeans apertado e uma sumária camiseta, olhava para todos os lados enquanto rebolava seu sexo, um movimento circular que começava na altura da cintura e ia descendo até os calcanhares e depois subia e se quebrava; Peri dirigiu-se a parede de vidro, no lado oposto, de onde via refletida a imagem da menina dançando e projetando-se sobre a Enseada, exatamente no lugar onde as ondas quebravam, a Porta do Sol. A música e a bebida se misturavam, as imagens se chocavam na imaginação e uma onda de calor invadia-lhe as têmporas. Ela veio em sua direção:

- Você tem um cigarro? Disse com uma voz doce e suada.
- Tenho. - Peri pegou um cigarro e deu à menina, observando o brilho da chama.
- Obrigada. Você está sozinho? Não gosta de dançar? Eu adoro dançar, venho aqui todos os finais de semana. Eu não me lembro de ter visto você antes.
- Eu não conhecia o lugar. É a primeira vez que venho.
- Está gostando?
- Muito. Quer beber? - disse entregando o copo à menina. Você dança sempre assim?
- Assim como?
- Como se estivesse transando.
- Você acha?
- Acho lindo. Que tal se nos sentássemos naquela mesa?
- Prefiro ficar em pé, sentada eu não posso dançar.
- E essa vontade nunca cessa?
- As vezes, quando eu danço a noite inteira e esqueço o mundo. - disse a menina, com um sorriso malicioso entre a fumaça do cigarro e o gelo seco da pista, entre as luzes, cores e movimentos suspensos no desejo. A embriaguez dos corpos, a volúpia do olhar, a música, a menina e a mulher pulsando dentro de seus olhos e silêncios repentinos; Peri desceu os olhos sobre seu corpo e o sentiu, coxas, mãos, quadril, seios e nuca. Segurou sua cintura e a puxou para si:
- Certamente eu devo ter lhe conhecido antes. - seus lábios estavam perto um do outro, ela fechou os olhos e Peri a beijou, suave e obscenamente. O beijo. As línguas, a umidade da saliva, o calor da respiração, a intimidade que se revela e o mundo que desaparece. Peri passava as mãos sobre sua costas e elas, respondendo a vibração do toque, dançavam e se perdiam num mundo de sensações, as pernas se roçavam e os sexos se tocavam sobre a roupa. Estavam dançando e se beijando no meio da pista, sentindo de olhos fechados o brilho ensurdecedor das luzes, o mundo girando e a consciência perdendo o sentido vago da razão, enquanto, freneticamente, suas roupas eram desabotoadas, rasgadas pela vontade. Uma nuvem de borboletas os rodeava e um trapézio convidava-os a se pendurar; a menina estava de lingerie preta e a nudez de suas pernas deslizava pelo rosto de Peri, ele a segurou no colo e a colocou em cima de uma mesa, jogou a bebida sobre seu corpo e sorveu cada gota que deslizava pelos seus seios, colo, sexo, pernas, dedos. Ao penetrá-la, abriu os olhos e viu, refletido nos olhos semicerrados da menina, o gozo explodindo em coro através das borboletas e da chuva que os invadia na alma. O gozo.


capítulo trinta e nove

Eram três horas da manhã e Peri pensava, enquanto um jornal abria-se a sua frente: “Trinta e sete mil famílias sem terra, latifúndios, capitânias hereditárias, matança, homens de metralhadora executando trabalhadores da terra. Trezentos e nove anos de prisão para o soldado militar envolvido em chacina de crianças de rua. Prostituição de menores, ataques à bomba no Líbano, xenofobia na França, atentados terroristas, aumento global da taxa de desemprego, o câncer, a aids, o ebola, o racismo. Cento e doze míseros reais de salário mínimo. Os dois tipos de lagarto venenoso, os monstros e os dragões da academia de letras. Arames farpados, alfinetes garganta abaixo, gritos na noite humana, o lado escuro do dia. Rebeliões nos presídios, brigas na rua, tortura nas delegacias de São Paulo. Uma orelha humana no dorso de um rato. As armas de fogo, o dinheiro e o pensamento burguês. Coturnos pela madrugada adentro. Ou a incrível história do bruxo Foda-se. Ou saber que a raça humana não é eterna? nada? se comparada ao tamanho daquilo que não conhecemos?”

“O mundo é punk e Cândido está no melhor e possível dos mundos; violetas e latas de lixo, Deus atravessando ruas espantado com jingles artificiais, perguntas e suspeitas de resposta, uma canção. O mundo desce ao diafragma e se aloja no plexo solar, o mundo, o mundo é tudo isso que não entendemos, tudo o que não podemos aceitar e, no entanto, está face à face conosco, vindo em nossa direção, atropelando-nos. Onde está o amor? Alguém o viu por aí? Perdido em alguma rua desapercebida de sua presença? O final dos tempos. Mil novecentos e noventa e nove depois de Cristo, dois mil e um. Ou ainda viveremos muito, talvez para destruir o planeta e morrer com ele, ou então fugir quem sabe para onde. Seria possível? Por que essa porcaria de ser humano engana-se tanto? O que importa? Você já parou para ler os jornais e depois se perguntou, enojado, se conseguia lembrar das boas notícias, ou será que estamos propensos a lembrar-nos apenas das coisas ruins? por um acaso, você já se imaginou no meio de uma guerra civil, vendo seus familiares sendo executados e você sem poder fazer nada? Ou quem sabe no meio de um templo hindu de adoração aos ratos enquanto os fiéis morrem de peste bubônica? Este é nosso mundo, mas podemos criar outro. Incrível, não?”


capítulo quarenta

São Paulo, a megametrópole; explosão de cores, sons, fisionomias distantes e inacessíveis. Suores frios e arranha-céus. Ela vestia-se de negro e caminhava com um brilho dúbio nos olhos; Peri a observava e perguntava-se como aquela mulher pudera ter se transformado num vazio tão absoluto, pois só assim poderia explicar esse estado de mudança, esse constante processo de interpretação de vidas alheias. Modelos que a mulher tomava para si como se fossem seus. Estavam na escadaria de um metrô, fumavam um cigarro e a multidão de carros e pessoas atropelavam-lhes ao longe. A tarde fria ostentava um sol pálido. Peri estava em silêncio, sem conseguir olhar os olhos verdes daquela interrogação:

- Você gostou de me ver, assim, loira?
- Muito.
- Você é sempre tão irônico. Eu estou com olheiras. É por causa das festas, dorme-se tarde, levanta-se tarde. Ai, essas coisas, sabe? Me conta mais alguma coisa.
- Impossível.
- O que você tem feito, como está, sei lá, qualquer coisa.
- Tenho feito as coisas de sempre. E você? Está bem?
- Estou ótima.

Ela se aproximava de Peri, insinuando-se, enquanto Peri perguntava como aquela mulher podia ser tão descarada, quase como se não tivesse memória, ou vergonha. Ela lhe incomodava, uma sensação desagradável na boca do estômago.

- Me dá um beijo?
- Por quê? - Peri olhou nos seus olhos e sorriu.
- Um só, eu estou com vontade.
- Será?
- Tudo bem, você pode fazer um tipo. É seu direito.
- Se é o meu direito, vamos aproveitá-lo.
Ficaram em silêncio. Peri sentia o insustentável, a vontade de tê-la nos braços. A terra em transe. Controlara-se porque sabia que o prazer do enlace não compensaria o aborrecimento posterior. Era tudo.

- Terminou de fumar?
- Ainda não. Mas pode ir embora. Tudo bem. - Ela chegara perto de Peri e lhe dera um leve beijo nos lábios. Peri sorria silenciosamente enquanto descia as escadas do metro. Em breve estaria em São Vicente.


capítulo quarenta e um


Teriam levado anos e anos para colocar uma pedra sobre a outra, quem poderia saber?


capítulo quarenta e dois


O futuro. Tudo o que poderíamos ser num inextrincável jogo de anagramas, combinações do infinito no nome de Deus. Números. Letras e cores. Situações do fato. O fato mais que o instante. Adivinhações. Substituições.


capítulo quarenta e três


Cadeiras de madeira trabalhada, ipê. Máscaras de ferro. As bombas, fumaças, gazes, estilhaços e pedaços de construção. Argamassa. O cal, o caos. Saiu do cinema e perguntou se acaso a realidade não era aquela. Olhou assustado à sua volta. Os carros que passavam, os fios dos postes, os telefones públicos, bares, bancas de jornal, lojas, a calçada sob seus pés. À sua frente, seres semafóricos executavam sua encenação duvidosa, crianças dormiam dentro de caixas eletrônicos e a fina garoa caía obliquamente sobre seus ombros e pensamentos. Unhas. Ossos de milhões de unhas. Pele sintética, dentes de platina. Sobrecapas de chuva, chapéus. Chuva ácida. Segredos e sementes de guaraná. Conversas celulares. Diálogos perdidos na profusão de sons. Cápsulas espaciais, projetos de arquitetura futurista. A fé. Fez sinal e entrou num coletivo. Um homem cego levantou-se e pediu a caridade dos que estavam presentes e podiam trabalhar, desejando que nunca nos faltasse o pão à mesa. Seus olhos eram vazados por um azul sem vida e um helicóptero sobrevoava a cidade. Passou. Levantou-se e desceu. A rua era um tumulto de olhares que se concentrava em objetos móveis e rápidos como a imaginação e o medo dos passantes. Peri resolvera descer do coletivo, o vento roçava levemente seu corpo e agora estava numa rua escura, ladeada de árvores e casas antigas. Escutou vozes e música, a princípio muito distantes, mas que deixavam entrever uma festa nas proximidades. Sua curiosidade crescia com o desejo de conhecer outras pessoas e dançar a música do mundo. Virando uma esquina encontrou o lugar. Uma mansão com inúmeros carros e convidados aglomerando-se na porta de entrada. O portão de ferro estava guardado por tochas de incenso e seguranças desagradáveis. Um pequeno caos de vozes, pessoas, situações de ansiedade e tensão. Devido ao número excessivo de convidados, muitos que não se precaveram, ficaram do lado de fora tentando entrar. Os seguranças empurravam, as pessoas gritavam e a música, com suas meninas de penteados e tatuagens exóticas, misturava-se com o álcool e os ânimos alterados. A música acelerada e agressiva, a violência, a sensualidade. As pessoas dançavam e se jogavam na piscina decorada com balões de festa e serpentina plástica. Beijavam-se e se amassavam. Então uma briga começou na sala em frente à piscina, socos, joelhadas, gritos, aglomeração, chutes e, forte e seco, Peri ouviu o som de tiros. A multidão saiu correndo, atropelando tudo a sua frente. Duas pessoas passaram feridas, o sangue escorria de suas têmporas e manchava o couro de seus casacos. Uma pessoa inconsciente foi colocada em um carro, uma mulher chorava e gritava para que deixassem a coluna reta, as pessoas se aglomeravam em volta e, de repente, um homem passou pela multidão e deu três tiros na cabeça do homem que estava inconsciente dentro do carro. Peri ganhou as ruas e pensou sobre tudo aquilo enquanto bebia uma cerveja em frente à praia.


capítulo quarenta e quatro


Esquema simples de substanciação condicional. Fractais que se unem. A sociabilidade.

O fundamental era apegar-se ao fato que a realidade era múltipla, assim, qualquer pensamento teria seu correspondente, mesmo que escondido em outros significados, mas presente na teia das relações. Submerso. Então imagine que você está abrindo a porta do seu prédio. É noite e a lembrança de outras épocas invade-lhe o coração, um tempo em que você andava despreocupadamente nas ruas. Agora, você olha para o alto do prédio e percebe o céu da noite. O mundo está acabando. Os desertos se propagaram pelos continentes, o solo está podre para a agricultura, os rios contaminados e o ar cheira mal. Mas não há problema. Você entra no seu apartamento, senta-se na sua poltrona e reconforta-se. Você venceu. O mundo lhe pertence e não há uma viva alma pelas ruas.


capítulo quarenta e cinco


O quarto era um pedaço do mundo que era um pedaço do descabido concentrado em rumores de terras distantes e situações de surpresas. Comumente considerado, teríamos certeza de que tudo não passaria de um desvio na interpretação dos signos. Haicais que transmutaram o sentido dos fatos e os impregnaram de sentidos diversos em diferentes faces de ver-se o mesmo. Apoteose semiótica de gestos em palavras, letras que se mesclaram e criaram a religião dos sons no lugar do silêncio, onda de freqüência na constante dos universos não imaginados. O peso suspenso no ar. O vento dos continentes antigos. A copa das árvores. Peri olhou para frente e vislumbrou o seu horizonte propagando-se pelo infinito. Os números e os fatos em projeções de mundo ao longe. Estrelas do mar na areia da praia. Sereias suaves nas nuvens homéricas do pensamento e do ato. Contemplação ativa. Fatorial.


capítulo quarenta e seis


“É preciso que eu diga que ainda não a conheço, mas que desde há muito eu a procuro. Sei que sua beleza é inconfundível e abraça-me os sonhos; seus lábios são doces e suas mãos macias. Um dia eu a terei nos braços e direi o quanto a amo, o quanto esperei por ela. Ela se alegrará, o vento roçará seus cabelos e caminharemos de mãos dadas.”

































PARTE DOIS


Primeiro o incompreensível, depois aquela espécie de nonsense difícil de explicar. O filme era de uma banalidade incrível. Incrível porque fazia que acreditássemos no absurdo; é provável que estejamos prestes a perceber o conteúdo da felicidade no melhor dos mundos possíveis. Soluções inocentes e fáceis para os problemas mais profundos. E acreditar sempre que tudo está caminhando para o melhor, porque Deus ao fazer o mundo optou por esse mundo entre uma série infinita de possibilidades, sendo esse, como todos os outros, o melhor dos mundos. Assim, supõe-se o homem dentro de um contexto próprio ao homem, mas a humanidade não é o universo, assim como seu pescoço repleto de anéis colocados um sobre os outros à sua volta, ou os seios de silicone e as mini saias de vinil . O tempo de despertar para as coisas insones que viajam no tempo, nadam nos riachos de água límpida e secam-se na lua das madrugadas, das meias noites inteiras de avenidas nuas. Os seres que andam de trem pelas luzes da noite, holofotes e certezas de chegada. O nascimento dos horizontes, um trem para as galáxias distantes (distantes?).

Peri olhou a sua volta e percebeu o universo. Nada de tolices a respeito de macrocosmos e estrelas novas. Apenas o nascimento de um ser multifacetado. O hotel dividira-se e procriara-se. De alguma forma, enquanto estava sendo reformado, um embrião formou-se silenciosamente no centro do lobby, nutrindo-se e crescendo até que, num repente, fosse expelido em outras duas partes, com vidas e particularidades próximas. Assim o hotel transformara-se em três.

O caos; escadas sem fim, labirintos de corredores, salas, salões, bares, restaurantes, piscinas, saunas, quadras de tênis, limosines, intrigas e demais vicissitudes típicas do mundo hoteleiro: cartões de crédito, voucher, cheques, check in, diárias e meia diárias, late check out, apartamentos com telefone, televisão, frigobar, ar condicionado, canal de vídeo e camas king size. O hiperespaço e a velocidade da luz. O parto.

Partamos do princípio que o tempo é uma fusão de estados, lugares que se repetem em novas situações.



capítulo um


Enigma. As putas no bordel. A dança, o álcool e o show. Quando se deu conta, uma mão delicada entrelaçava os dedos sobre seus olhos. Segurou-a e acompanhou seu braço, virou-se e ela estava sorrindo e perguntando como ele havia passado esses últimos tempos. Incrível... Quando mais novo, Peri passava pelos lugares que já havia estado e lembrava-se de como estava seu espírito ao passar por aquele mesmo lugar em outra vez. A situação muda as peças do jogo, as regras e objetivos. Agora ela estava ali, à sua frente, como uma puta. Quando se conheceram ela era namorada de um amigo. Peri lembrava-se que ao entrar aquela mulher em sua casa, teve a impressão de que as coisas se repetiam. Uma à uma, milhares de vezes. Mas agora a situação era outra e essa repetição modificava o contexto da realidade imediata. Mas o caso fazia a mente de Peri pensar sem parar, incessantemente comparando, analisando e sentindo algumas nuanças do significado. Toda mulher poderia ser um puta, diferenciando-se apenas pelo fato de cobrarem à vista ou a prazo, um preço que varia de acordo com as sutilezas do espírito de cada mulher. Afora isto, a cama demonstra mais que qualquer outro lugar. Ou o que será que se passa na mente do homem quando o instinto entra em erupção e ele perde a noção de espaço. Ou o perigo. As mulheres dançavam e insinuavam-se, lembrava-se de como podiam ser filhas da puta, do que eram capazes. As mulheres querem igualar-se; mas por que igualar se é justamente a diferença que move e cria as coisas do lugar? Ou seja, quando Peri analisava uma mulher e comparava suas atitudes às próprias, sentia-se mal, porque o que era motivo de alegria para ele, na mulher era inaceitável. Fidelidade, casamento, família, trabalho. Por que o mundo era tão diferente? Mas o mundo é uma constância. E a dama torna-se puta e a puta torna-se dama. A verdade é que as mulheres são lindas com seu mundo inseguro e cheio de dúvidas e perguntas sem fim, espécie de inteligência emotiva, única.

Mulheres.



capítulo dois


- Então imagine que você pode concentrar toda a enseada no único ponto que fosse de encontro a uma onda. Um outro lugar, não habitado.



capítulo três


O lobby do hotel, reformando-se, amplo como o sempre; os hóspedes, D. Dayse e D. Zulmira, Sr. Morrison, Sr. Komentacs, Sr. Tarumoto. Os hóspedes iam e vinham, ora aos montes, ora esparsos como a neblina. Uma profusão de nomes e vidas que seguiam seus rumos e encontravam-se, de chofre, pelos tapetes do lobby. Vidas díspares.



capítulo quatro


A bondade humana, o comentário. Que tece fios, pequenos fiascos de pedra projetando-se em vidro. Areia na duna do tempo. Tornados, imensos ciclopes nas asas do vento. Nuvens densas num céu veloz entrecortando o sol. Peri olhava os índios a sua volta, os córregos da água do morro, as bicas, seus deuses e sua mata de outro nome. O sol do inverno aquecia a areia e ficavam sentados, de cócoras, observando o mar, as nuvens e seus significados. Em tempos, alguém se levantava e mudava de lugar, repentinamente. Como se a falar algo incompreensível e ao mesmo tempo de importância extrema, palavras que se chocavam com a maré trazida pelo vento e pelo impacto das ondas. O som-verbo da palavra, como se naquele ato de levantar-se, seus neurônios fundissem eletricidade diretamente no espírito.



capítulo cinco


“Que jogo é esse...? Ela me disse que não gostava de homens bonzinhos que lhe faziam a vontade a qualquer instante, que para tudo diziam sim. Disse que se sentia suja, canalha. Depois me perguntou se eu havia perguntado por que ela não me beijava e deu-me beijos no rosto e nos lábios. Estava bêbada e ao dormir roncava. Mas como pudera dormir? Será que terá sido o vislumbre da fuga alucinada dos rinocerontes pela savana dos desertos? Ou terá sido simplesmente o sono. Único e inevitável.

Dois dias depois estavam sentados num banco da praia conversando sobre o que havia acontecido. O jogo começara. Uma impressão de ser breve. Milhões de pensamentos, Peri tentava dormir e não conseguia, pensava, pensava, pensava. De início, sentira-se totalmente apaixonado, aquela espécie de amor que nasce da frustração e revolta o orgulho próprio; iludia-se imaginando o amor perfeito, perdido. Mas para que sonhar? A verdade era bem clara, seu encontro não fora bom, ela estava bêbada e comprometida, foi interrompido pela campainha de sua casa e o cheiro de churrasco na sua mão confundia-se com o cheiro do sexo. Um equívoco. Como se ela, naquela noite, pudesse ter saído com qualquer um. Por mais que tentasse se iludir, sabia que nada a traria de volta a seus braços. Mas tinha que provar a si mesmo que era capaz ou que havia sido um idiota. Contudo, o inusitado mexia-lhe por dentro, irritava-o ao ponto de tirar-lhe o sossego. Assim, quando a fitava, esquecia-se de tudo e comportava-se como um boçal, porque seus sentimentos eram mais infantis do que pressentia.

- Fala. Como aconteceu? - ela perguntou quando já estavam sentados.
- Estávamos na festa do hotel e, sob algum pretexto, eu disse que precisava ir até em casa e lhe convidei. Você aceitou e disse para que eu lhe levasse embora. Quando chegamos, você perguntou se podia deitar. Eu me sentei perto e, de repente, eu estava lhe acariciando.
- E eu deixei? - indignada.
- Então eu abri o botão da sua calça e desci o zíper, baixei suas calças até a altura dos joelhos. Aí tocou a campainha, eu abri a porta e dei de cara com uma mulher que eu saio há quatro anos. Eu a cumprimento e peço para ela ir embora. Volto para o quarto e resolvo continuar o que havíamos começado. Eu toco seu corpo e o beijo, penetro-lhe. Depois tiro sua roupa e você me abraça, agarra-me as costas, geme. Percebo que esqueci a porta da sala aberta e um amigo bate na porta do quarto chamando-me. Eu o despacho, tranco a porta e volto para você. O que eu deveria ter feito ao lhe encontrar? Porra! Eu devia ter parado, conversado com você, mas nesse determinado momento você quis continuar. Tentei mas eu já não tinha cabeça. Primeiro você estava bêbada e a possibilidade de achar que tudo não estava passando de um engano deixava-me desolado. Eu fui fumar um cigarro e você disse que eu preferia fumar do que ficar com uma mulher. Depois você chorou e disse que gostava do seu namorado. Então eu fiz você parar de chorar e lhe disse que a vida era bela. Ficamos abraçados. Dormimos, você acordou e disse que precisava vomitar, foi ao banheiro e não conseguiu. Vestiu-se, eu levei você para sua casa e no final você me perguntou como fazia para tirar aquele gosto horrível da boca.

Peri a via e sentia-se um idiota e achava que o melhor era esquecer tudo aquilo e aprender a tomar mais cuidado com o que se fala, com o que se conta e o que se espera. Ou seja, perceber que antes de mais nada, somos seres contando com ilusões a respeito do impreterível, do absurdo, do ridículo. Como cartas de amor que navegam mares portugueses de tudo vale a pena.



capítulo seis


Conjunto semiótico de verdades absolutamente inesperadas, síntese aquática de inícios. A língua, porque a noite vai dormir seu sonho. O verbo. O ato, ininterrupto. A noite com suas asas batendo em semicírculos de escuridão, furacão de desejos, átimos de loucura, o corpo, o corpo suspenso, vagando no espaço preciso do vôo, o fogo, labaredas de dança no ventre. A ótica do toque, vulcões cuspindo sua lava quente misturando-se com tudo o que se passa pela onda corpórea do mar. Oceano, céu em chamas.

Peri fora ao encontro com a certeza de que ela estaria lá, imaginou que ela tramara tudo para encontrá-lo, então, novamente pensou em um milhão de coisas e possibilidades e vontades contraditórias. Imaginou até o momento de tê-la nos braços. Beijá-la, porque ele a beijaria muito, beijaria até desfalecer a realidade e o mundo abrir-se num quadro impressionista. Mas ela não estava lá e o amigo nada comentou. Ficou sem saber como e porque as coisas aconteciam, os fatos, os edifícios, lugares e girassóis a procura da lua. A lata. Enlatada. Pasta. Ou então eles se encontrariam, a casa estaria deserta e eles se abraçariam pelos espaços vagos, ou então nada disso aconteceria e eles apenas conversariam a respeito da vida e se entreteriam a contar estrelas, ou ainda tantas coisas quanto o tempo pode imaginar. O problema era que Peri sentia que os dias a afastavam de si, mas mesmo sabendo que aquela não era a mulher azul, Peri lutava contra suas vontades e insistia em seduzi-la, conquista-la como quem conquista novas terras por mares desconhecidos. Talvez fosse apenas teimosia, obsessão, um ledo engano.


capítulo sete


“Observe a mata, seu verde vivo de um dia de chuva, o rio. Mas observe isto do alto, num ângulo de sessenta graus. Há um homem na beira do rio, ele está olhando para o horizonte e pensando despreocupadamente em algo que lhe foge à compreensão. Ele olha para o pico da montanha, virgem, inacessível, você acompanha seu olhar e se perde nas minúcias da montanha. Quando volta seu olhar para o homem, ele é atacado por uma fera, alta e de braços longos com garras nas mãos, coberta de pêlos claros, pardos. A fera o abraça e de repente você está no meio da mata e percebe que a fera virá a sua procura. Você foge. Está só e não conhece o lugar, corre aleatoriamente, pressentindo a proximidade da fera, sempre. Chega a um lugarejo e nota um pânico subterrâneo nas pessoas, elas também estão fugindo. Você entra numa casa e vê pessoas conhecidas, mas não entende como elas estão ali, porque você está em outra época. Uma casa rústica como em ruínas, as pessoas estão caladas e olham a brasa de uma fogueira. Elas levantam e saem correndo. A fera está por perto, escutaram os gritos de uma nova vítima e agora o mundo está totalmente diferente, você é quase uma fera com seu medo. Entra por uma porta aberta e se vê aprisionado num corredor. A fera está a sua frente. Do seu lado esquerdo há uma janela, mas ela está muito alta e você não consegue alcança-la. A fera lhe olha como se quisesse lhe falar algo, então, como você não a entende, ela pula pela janela e vai se embora. Você ofega, equilibra-se nas pernas e encosta-se na parede. Anda vagarosamente para frente, sem conseguir parar, pensando sobre a fera. Então você descobre que precisa encontra-la com tamanha urgência que lhe assusta. Você apressa os passos e chega a uma vila operária no pé da montanha, perto do rio onde você a viu pela primeira vez. Você está conversando com os moradores e explica-lhes que a fera também sente medo e não entende onde está. Ela faz parte de nós e dorme com nossos sonhos e acompanha nossa vigília. Agora ela está no rio e pensa com saudade na terra distante que deixou. A fera faz parte de nós, está na nossa alma, mente e coração. Não há como fugir”.

Peri abre os olhos e o mundo dos sonhos é a mata selvagem de seus sentimentos.



capítulo oito


O morro da Biquinha abria-se numa visão de estrela matutina. Peri vislumbrava o contorno da enseada, a fileira de prédios que a margeava, as pessoas na praia, minúsculas na sua distância. A ilha Porchat, no extremo oposto de seu ponto de observação, fundia-se na imagem única deste lugar, ondas que se quebravam longe da praia, gaivotas, carros e uma impressão histórica difícil de notar. Mais adiante, seguindo na direção da ilha, via a ponta dos guindastes do porto, navios que aguardavam sua vez na cidade portuária. Via São Vicente, Santos, Guarujá, cidades irmãs, o morro de onde as asas deltas e os paragliders pulavam no vento. Filhas de uma mesma terra hereditária, pulsação de lugares. A Capitania de São Vicente. O Porto das Naus, a Ponte Pênsil e o barco enferrujado na beira da praia. Desde então, São Vicente dividiu-se e emancipou cidades, o nome permaneceu, mas o lugar exato espalhou-se pela terra e tornou-se impreciso. Agora São Vicente é um múltiplo de lugares, cuja história desmembrou-se e criou populações diversas, calungas, nordestinos, estrangeiros, negros, brancos, índios, misturados no solo arenoso dos antigos paus brasil. Peri olhava e bebia o sol do meio dia, estava sentado com os braços em volta dos joelhos dobrados e fumava um cigarro, enternecido. Então lembrou-se de uma sensação negativa, algo que lhe mexia com o plexo solar e tencionava-lhe as costas. Escutou o barulho do vento no mato e virou seu olhar para trás.

- O que você está fazendo aí?
- Nada, só estou olhando. - Peri sentiu a adrenalina correndo no seu sangue. O tom intimista da pergunta o pegou de surpresa. O homem era jovem e estava com os pés descalços.
- Tome vergonha, rapaz!
- E você? O que veio fazer aqui?! - meio sem entender e querendo mostrar que não estava com medo.
- Eu vim trazer a consciência.

Peri ficou em silêncio e pensou que aquele homem podia ser um psicopata, um louco assassino prestes a matar. Ele estava calado e sentou ao lado de Peri.

- Olha o sol, o dia está bonito, não está frio e o mar está limpo. Isso não é bom? ...Qual é o seu nome?
- Você é daqui? - o homem perguntou depois de um longo silêncio.
- Sou. Qual é o seu nome?
- Jonas.
- E você? De onde veio?

O homem se calou e Peri observava que o seu silêncio estava povoado de um sem número de lugares e pessoas e sentimentos.

- Eu vim de um lugar que não existe e travei a maior batalha da minha vida.
- Qual?
- A memória. Eu fui até esse lugar que não existe para conhecer a felicidade plena, a bondade das pessoas, o amor. Mas agora eu estou aqui e o mundo é esses prédios. Se você não acredita na vida, se você deixa de sentir as coisas, tudo isso desmorona, todos esses prédios. Eu estou procurando um lugar para mim. O mundo é um círculo. Você começa aqui, segue todo esse caminho e, de repente, perde todas as esperanças, não sobra nada. Então você prossegue e quando chega aqui você encontra o caminho certo, o seu caminho, aquele que só você pode seguir. Fala alguma coisa. - inquiriu o homem.
- Eu estou falando.
- Você é daqui mesmo?
- É. Sou.
- Você já viu um pobre?
- Já. Vi muitos. A maioria é pobre e isso independe da condição financeira. Porque o homem não é o que tem, é o que faz, pensa e sente. Eu preciso ir embora. Que tudo de bom lhe ocorra.

Peri seguiu seu caminho e o homem ficou no morro contemplando, talvez, aquele lugar que não existe e está dentro de sua memória. O círculo do mundo. A consciência. Itinerário de Pasárgada. O lugar ideal. Amor.



capítulo nove


“Que move montanhas. O que move montanhas? Move? Move o quê? Montanhas, cordilheira de montanhas, Pirineus que se abrem ao nascer do céu. O Sol de todos. Porque movendo as montanhas o oriente ocidentaliza-se e o horizonte passa a ser dois pontos próximos ao imaginário, lugar relativo ao absoluto. Fé a todos os santos, deuses e semideuses. Fé que corre pelo sangue e propaga-se ao coração. Pulsa. Fé a todos os olhos, mentes e mãos suplicantes. Braços erguidos em comemoração. Oração, promessa, novena de mil dias. Porque o espírito é feito de fé e a fé move as montanhas. Remove e torna a mover”.

Peri olhou para o alto erguendo-se.



capítulo dez


Os corsários ingleses do século dezessete, Tomas Cavendish pilhando a cidade, saqueando e matando. São Vicente irmanada. A história de povos estrangeiros mesclando-se ao índio, ao pau brasil, a cana de açúcar e a escravidão do negro africano. Terras do antes, discussões acerca do Tratado de Tordesilhas, povoação e massacres. A história avançando seus passos, destruindo castelos de areia. Repensemos os fatos, ao bem da verdade, teria sido pouco falar de coisas tão precisas e de um modo vago, mas concluamos que a história é em si vaga, apenas uma reconstrução de fatos atados pelo imaginário, uma teia que se perde no meio de vozes duvidosas e documentos envelhecidos pela ação de mãos e olhos que se curvaram ao tempo. Mesmo o agora é falho pela percepção humana, a emoção o confunde e funde a momentos e idéias dispersas pelo ato.

O Parque Balneário teria sido fundado no ano de mil novecentos e seis. Antes o Internacional Hotel ocupava a faixa que vai da Divisa de Santos e São Vicente ao bairro do José Menino, mil oitocentos e noventa e cinco. A orla da praia desabitada, inacessível, mas vieram os bondes puxados a cavalo e as pessoas puderam deixar o centro, aquela região onde os manguezais não chegavam e as casas eram de pedra. O Parque era uma construção plana e quadrada, daquele tipo que se perde ao longe banhada pelo mar. Alguns anos depois, o hotel deu início a sua reforma, transformando-se num edifício de quatro andares, sustentado pelos seus jardins e cassino. Mil novecentos e vinte e oito, a reconstrução finda na sua primeira etapa. O hotel projetava-se em L, com suas janelas altas, curvas, suas pilastras e teto alto. O jogo e suas salas, salões e automóveis “último modelo”, chapéus e sobrecasacas, praias selvagens e bengalas de marfim. A década de trinta, quarenta, o porto, o crescimento do bairro do Gonzaga, homem que tinha aberto um pequeno bar e organizava corridas a cavalo na areia da praia. Os canais de saneamento. Década de cinqüenta, praias limpas e um porto atraentemente lucrativo, o turismo das elites, as famílias paulistanas, os homens de negócios que vinham ao Porto e deixavam-se ficar nos hotéis atraídos pelo jogo. O Parque Balneário resplandecia nessa áurea de anos dourados. Então o jogo foi proibido, a ditadura militar implantada e Santos transformada em área de segurança nacional, a década de sessenta, fatídica e violenta com seus decretos institucionais, suas torturas, mortes e desaparecimentos. Na década de setenta o turismo abandonado, as praias sujas pelo descaso das autoridades e o antigo Parque Balneário sendo destruído para dar lugar ao novo, com seus quatorze andares e o shopping center anexo. A família Doneux obtivera a compra e empreendera a construção, no mesmo lugar, com o mesmo nome e a mesma história.

As mesmas histórias, recontadas, repartidas. Recortadas e coladas, recoladas.


capítulo onze


A invasão se dera repentina numa tarde ensolarada de junho. Com suas enxadas, foices e pás entraram descalços pelo lobby do hotel, aglomeraram-se e sumiram nos elevadores. Estavam hospedados. A força organizadora do movimento dos sem terra, aqueles que lutavam pela reforma agrária, pela terra e o direito ao trabalho, à comida. Pão para quem tem fome. Uma névoa de mistério os envolvia. Ninguém, ao certo, sabia quem eram, seus nomes completos, suas vidas e procedências. Estavam lá, era inegável, mas o absurdo rondava-os. À noite, reuniam-se pelos corredores, sentavam-se no chão e conversavam sobre suas vidas, lutas. Muitos falavam e riam alto para esquecer a dureza de suas caminhadas. Peri os via no lobby, num misto de curiosidade e simpatia. Gostaria de aproximar-se e dizer-lhes que achava a sua luta justa e que, de modo algum, poderiam desistir. Mas eles eram esquivos e desconfiados, como se não aceitassem o fato de estarem ali. Sentiam-se contrariados, uma espécie de ironia que a vida tinha-lhes pregado. Aos poucos, trabalharam a terra e transformaram os corredores em área de cultivo. Nos andares baixos cultivaram o trigo, o feijão e o café. Do sexto ao nono andar, os corredores abriam-se em pomares de frutas cítricas e outras árvores frutíferas típicas da região nordeste do país, como o açaí; o restante dos andares foi transformado em pasto para as vacas, búfalos e aves que impreterivelmente os seguiam. O Parque Balneário transformara-se num hotel fazenda, modelo, verticalmente plantado na terra. Peri abandonara a gravata, o paletó e passara a caminhar a cavalo pelas dependências do hotel. Via-os num misto de surpresa e contentamento, o absurdo contemplado, efetivado. Acordavam cedo e trabalhavam, com um afinco assustador, sem tréguas ou desânimos desnecessários. Porém, seu trabalho exaustivo os felicitava com boas safras em suas colheitas; o tempo foi passando e a cidade, curiosa, perguntava-se como era possível que trabalhadores sem terra tivessem conseguido transformar um hotel cinco estrelas, turístico, num imenso latifúndio produtivo. Sabe-se muito bem que a língua do povo exerce uma pressão específica sobre a realidade, sobre os fatos como são. A mídia assimilou e transformou o fato, exercendo seu domínio de prevaricação mental, coordenação de signos, manipulação de conduta. Talvez, a mídia seja o exemplo moderno de toda a discussão que envolvia os filósofos em tempos passados. Seu poder de correlação é profundo e extenso, baseia-se numa assimilação de vontades íntimas e universais, as quais, captadas e elaboradas de acordo com um objetivo, induzem a conduta. “O dominador é a imagem do dominado”. Por esta e outras razões, os sem terra deixaram o hotel, numa manhã cinzenta de junho, indo sabe-se lá para onde, com suas enxadas nas costas e os pés descalços.

capítulo doze


Sorriso estelar, a Ponte Pênsil. Inusitada pelos anos, afora. A ponte, pênsil entre os mundos de outrora, imaginações e potencialidades. O pêndulo.



capítulo treze


O número quinze é um caminho que se bifurca, os dois lados da moeda. O lugar onde as paralelas se encontram.

Teria sido assim. Um simples e mero reencontro. Mas não. Peri pensava e sentia uma cadeia de possibilidades, interpretações acerca do óbvio. A lei do acaso.

“Fico tenso, suo frio, vejo cidades e as suas luzes acesas na noite, escuto o barulho dos carros com suas freadas bruscas e som de buzinas, o latido dos cães na distância, a presença da lua. Postes e folhas de árvores espalhadas pelo chão”.

Luz néon. Acrílica concepção de verdades esquecidas. Atlândida. Esquecer era todo o sono. Sonho de lugares, ruas sobre colinas e conversas importantes. Parentescos. Em qual dos mundos vivemos. Quem sonha quem. Arames farpados e tulipas sobre a cerca. A cerca. O quarto. Os retratos, livros. O pensamento livre da obrigação da lógica, do espaço ou tempo.

Peri olhava o mar entre os ramos das árvores, seqüência de sombras e luzes elétricas. Estigmas de folhas e flores. A onda, calma na sua existência iluminada por um halo de lua. Cheia.

Na China há uma muralha. Seu nome é a Grande Muralha da China. Imensa pelos tempos imemoráveis, sensação de ilha grega. Pedras sobre pedras, certezas e caminhadas. Passos na eternidade. Dentro do homem há uma muralha. Seu nome é Muralha do Homem. Dentro do homem há uma ponte que o une aos castelos de diferentes cores e formas, nos lugares mais longínquos, nos desertos e grandes florestas. Fora do homem, o homem constrói mais muralhas e menos pontes.

Delicatessen. Jogo de degraus humanos. A carne. Diríamos que Peri tivera um sonho. E que dentro deste sonho estivesse um outro sono de sonhos. O que restaria ao confuso conceito de virtualidade, enigmas de seqüências. Um palhaço, o circo televisionado em preto e branco. Enxurrada escada abaixo. O amor. Entre outras tantas coisas. Histórias em quadrinhos, universos inventados. Correspondências. Ou tudo isto o teria levado ao absurdo e profundo nonsense do filme, às suas cores e luzes precisas. O telhado banhado de sol, os irmãos e o som de sua música indefinível. Inefável aparição de sol. Ausência símia. Havia um modo pelo qual o mundo se transformava e tudo passava a ser uma mistura de signos e fatos, sensações áudio visuais.



capítulo quatorze


O Parque Balneário, com seus mármores importados revestindo o que antes fora madeira. O pé direito, marmóreas cores para cada canto, luzes e espelhos, estátuas plásticas. A reforma retocando seu ritmo de mudança, transformando lentamente o lobby do hotel num jogo de xadrez cubista, retro futurista. Um lance de dados em face da virtualidade do desejo, o espaço alçando vôo. Tudo o que poderia estar acontecendo no hotel fugia a mente de Peri, as mudanças processavam-se rápidas.

Depois do êxodo dos sem terra, o hotel passara a hospedar em seus apartamentos um grupo de jornalistas a serviço de uma eleição municipal, seres trabalhando dentro do espaço onírico da mídia, criadores de um tempo condicionador de idéias, substância intravenosa. Criaturas suspensas pela vaidade, pela competição, a inveja e a ganância. Intragáveis. Estavam no hotel por uma questão de favores políticos, essa sordidez que cerca a realidade em épocas de eleição. Enfim, os donos deixavam-nos ficar em virtude de possibilidades, prováveis futuros ganhos. Entretanto, como não pagavam, eram tratados com um certo descrédito; com a reforma foram obrigados a mudar incontáveis vezes, de um apartamento a outro, andares, bagagens. Afora isto foi passada uma determinação para que qualquer consumo feito pelo grupo fosse pago a vista. Indelicadezas típicas de uma visão empresarial e pouco hoteleira. O que na verdade bem sintetizava os procedimentos da nova diretoria, os Mendes. Seres de planetas portugueses, ambições inconsoláveis. Teriam começado, mais precisamente o pai, com uma pequena bicicletaria pelos lados de Vicente de Carvalho. Depois, começou a construir casas populares e sobrados. Com a construção dos sobrados, que passaram a ser cada vez mais solicitados, a família Mendes adquiriu um salto no espaço financeiro. Em pouco tempo construíam edifícios de luxo, shopping centers, hotéis, flats e motéis. Como teriam feito sua fortuna e moldado a personalidade da família? Em suma, a realidade empírica dos fatos. Quanto aos jornalistas, moldavam-se bem ao tipo de personalidade dos donos. Entravam com suas câmeras, fios e luzes, microfones e reportagens intermináveis horas afora. Riam, não dormiam e reclamavam de tudo. Mostravam seu lado mais cretino no momento em que tinham que pagar suas despesas ordinárias. Inventavam desculpas, forjavam acusações e afirmavam peremptoriamente que nada haviam consumido. Talvez o vício de moldar a realidade, essa construção infindável acerca do óbvio. Antes de tudo, eram hóspedes. Peri os observava e pensava no motivo real de sua estada.

Novamente a farsa tomando o lugar do circo, o espetáculo estonteante da propaganda. As eleições. Os debates e acusações, jingles mágicos martelando na cabeça do eleitor, fotos espalhadas pelas ruas, casas, faixas e televisões. O povo periodicamente enganado. Urnas eletrônicas, conchavos. O homem político, organizado, civilizado e profundamente confuso entre o natural e o artificial, transformação do mundo, sistemática e selvagem. O dinheiro movendo as coisas de seu lugar. O poder que consome os homens e os transforma em feras. A minoria dominando a maioria, sempre, no decorrer de toda a história humana, o mais forte e o mais fraco. Ao final, contam histórias belas disfarçadas em teorias políticas, estratagemas sórdidos. Explicações e ideais impraticáveis. Porque a teoria de nada vale quando se esquece que quem a cria é o homem. E de nada vale o esquema da mais perfeita e harmoniosa sociedade, quando o homem ainda é uma criança egoísta saturada de informação e tecnologia.



capítulo quinze


Ou a volta de Suvarin.

Antes teria sido um anarco-terrorista que vagara pela Rússia do século passado, exilando-se mais tarde no sul da França, nas minas de carvão. Silencioso, inteligente e preciso. Concebia a destruição como única forma de alterar a realidade, a qual era sórdida e impregnada do cheiro da podridão. Os miseráveis e os poderosos. Sua erudição e sensibilidade aliavam-se a um forte sentimento de revolta, uma revolta crua e pulsante. Era preciso destruir. Para isso, valia-se de seus conhecimentos com os explosivos. Era frio e calculista. Mas isto fora no século passado e, agora, no fim deste milênio, seu nome é Suvarin Suvakovsc Stanislaw I. Um gato negro.

Como tal mudança efetivamente ocorrera, é algo difícil de precisar. Concepções de lugar ou tempo de nada valem para o inusitado do fato. Há crenças que afirmam que os gatos negros teriam sido bruxos em tempos remotos. Os egípcios adoravam-no como o seu deus. Acreditar ou não em mundos diferentes é apenas uma questão de ocasião, basta perguntar-se. Há no mundo uma corrente de ordenação, cujos elos são infinitos e inalteráveis, sucessivamente interligados por uma seqüência de ordem. Porém, por ser infindável, tolera e engendra a mudança, um estado de caos permanente, um núcleo nos elos da corrente. O equilíbrio de todas as coisas, existentes ou não. Porque o inexistente é apenas o que não é observável.

Quando deu por si estava no Brasil, em pêlo e pulos. Peri o encontrou nas escadas de sua casa, era ainda muito pequeno e Peri o ensinou a voar. Notava-se algo de diferente naquele gato. Seu modo de andar e olhar, seus gestos leves e certeiros, sua agilidade e percepção de mundo.

Peri imaginava que Suvarin tivesse sido um corsário, acostumado a passar os anos no mar, guerreando e saqueando. Navios, vilas costeiras, terras virgens apinhadas de índios, negros africanos e nobres europeus. Com quantos homens Suvarin teria lutado? Aos poucos esta idéia foi se evadindo de sua mente e Peri começou a enxergá-lo tal como o via. Um gato. Diferente, mas um gato. As vezes acontecia de Peri olhar para o chão e vê-lo passar, mas quando observava melhor descobria que estava vendo seu coturno ou algo que o valha. Uma clara manifestação de projeção corporal. Outras vezes, Suvarin percebia o que estava acontecendo com Peri e chegava-se perto, deitando em seu colo. Naqueles momentos, seus olhos felinos abriam-se e deixavam ver o mundo. Peri observava e conversava horas a fio, enternecido com o jogo das luzes em meio ao verde do universo vivo e ótico dos olhos de Suvarin.

Peri aprendera muitas coisas com Suvarin. Seu modo de andar, saltar e defender-se. Aprendera o uso da força muscular precisa para alcançar, num salto, o ponto desejado, sem qualquer desperdício de energia. Sentira que era possível ligar-se as pessoas mais distantes, olhá-las de perto e deixar gravada em sua mente a sua presença. Suvarin era sua companhia, seu mestre e aluno. Alter ego.

Suvarin tivera três companheiras. A primeira foi uma gata negra de nome Shiva, muito arredia e difícil de entender; com ela tivera três filhos que se perderam no mundo. A segunda era malhada, um misto de cores em meio a sua docilidade, seu nome era Ci e dera a Suvarin seis filhos sadios. Nos dois partos que acompanhou, Suvarin mostrou-se um pai zeloso, cuidando dos filhos e ajudando a mãe. O tempo passou. Kit foi sua terceira, uma gata siamesa que só se comunicava por pensamentos. Não tiveram filhos, talvez porque fosse nova demais para isso.

Suvarin era, na verdade, um gato muito peculiar. Peculiar em demasia. Peri viu em Suvarin a sua vida, o modo como se relacionava com as pessoas.

Havia um problema. Suvarin urinava pela casa de acordo com seu humor, nada conseguia mudar esse hábito desagradável. Peri tentara todas as possibilidades que conhecia. Conversou, bateu, puniu, perdoou, beijou, compreendeu, mas não conseguiu que Suvarin parasse de urinar pela casa. Na rua, Peri sentia os territórios dos gatos, sua urina demarcando lugares. Esse cheiro entrava-lhe pelas narinas e revoltava-lhe os ânimos. Suvarin urinava até nas pessoas que iam visitá-lo. Como compreender o instinto felino comparado a persuasão humana?

Este ponto fora crucial em seu relacionamento. A questão era muito simples: “Você gosta de alguém, ou algo que lhe provoca mal. Você tem consciência de que lhe faz mal, mas mesmo assim continua mantendo a relação. O pior é que você sabe que não vai mudar, porém, uma crença infundada lhe faz persistir. E você persiste até onde pode aguentar. O limite de cada um. Será que precisamos manter um relacionamento que nos faz mal? Ou será covardia abandona-lo? Deixamos de aprender ou de persistir no erro?”

Suvarin ganhara as ruas.



capítulo dezesseis


A noite. Peri fora à uma festa, onde uma mulher lhe passara a mão na bunda e outra o convidou para dançar samba. Âmbar. A noite propagava-se pelo indefinível. Era um encontro de amigos, um numeroso encontro de amigos antigos com os anos entornando lentamente suas mudanças, formando famílias e vidas e horários diferentes, e mesmo com toda diversidade de histórias pessoais, eles se encontraram espontaneamente. Espontaneidade extemporânea. Quantas histórias parecidas e vidas diferentes, os anos formando seus elos. Pensamentos de distância, faltas e alegrias repentinas, porque na mesa como ao redor as pessoas riam e se divertiam, enquanto outras tocavam violão e cantavam empolgadas. A praia do Itararé era uma imensa tenda amarela, onde as barracas se alojavam e vendiam diversão. Músicas diversas, antagonismos de almas passando com seus corpos novos em folha. Luz da noite.



capítulo dezessete


- Esta luva é feminina. É leve e delicada, própria para os movimentos de uma mulher... Você não pensa em escrever sobre mim? Não dá vontade?
- Eu escrevo sobre você?
- Não tem cheiro?
- Tem. Está fechado, por isso você não sente.
- Como abre?
- Usa a caneta e puxa.
- Você já escutou essa música?
- Quem está cantando?
- Não me lembro, esqueci. Ai, eu me sinto uma retarda. Estou tentando fazer uma estrela e não estou conseguindo. Não, pronto, consegui. Uma estrela, uma estrela de cinco pontas. Não é tão bonita, mas é uma estrela. E eu gosto de estrelas. ...

Uma canção, minutos de tolerância máxima, acordes de um silêncio esquecido pelas luzes acesas de algum poeta em um beco de ruas velhas e paralelepípedos molhados de orvalho. O mundo de uma música a dois, sombras, entregas e delirantes saxofones ao longe do coração. Desertos lunares. Espaços forjados no escuro. Música e dimensão, preenchimento de lugar. Atemporalidade subterrânea de todas as coisas. Suscetibilidade. Propagação.



capítulo dezoito


Lá estavam ambos dentro de um ônibus em plena São Paulo abarrotada de carros, pessoas, vidas e tumultos. São Paulo carregada de suores, sons e palavras escritas; cidade transfigurada. Peri evitava olhar para os olhos da mulher, de cujo verde vivo emanavam cidades inteiras, sustos e vontades incoerentes. Toda ela era um enigma móvel, circunstância de fatos imprecisos. O tráfego.

- Por que você me irrita tanto? - disse Peri, calmamente penetrando nos olhos da mulher, sorrindo. - Incrível, não? Como será possível uma coisa dessa? - sentia-se seduzido, ternamente apaixonado. Naqueles momentos esquecia toda a raiva que a mulher lhe causava, o instinto subia-lhe às têmporas e tudo o mais passava a ser esquecimento. Apenas o instante propagando-se e esmagando o passado, fundindo e tornando novo. Celebração do espaço intangível entre todos os seres, olhares.

- Eu irrito você? - sua voz melíflua, olhos brilhando, com leves toques de prazer aflorando em seus lábios, sorrisos.
- Exatamente. As vezes eu sinto raiva, duvido de tudo e me revolto. Penso em inúmeras coisas. Calo-me ou falo, olho e você parece saber de tudo. Mas eu não acredito, fico pasmo. Então imagino-lhe pervertida, banal e vulgar. Louca e desequilibrada. Aí me apaixono pelo seu oposto, diferente do que você me fala e eu imagino. Ou será que sou eu que não tenho vergonha? Expludo e mando o mundo à merda. Foda-se. Mas não!

O trânsito arrastava-se moroso por ruas estreitas e apinhadas. O silêncio dos momentos em que observava ao seu redor os edifícios antigos, museus e velhas casas. Centros empresariais, arranha-céus de vidro. Figuras humanas dispersas, vidas unidas em multidões. Avenidas.

- Você é louco... Estou mudando. Tenho falado mais baixo, com calma. Não grito com ninguém e ninguém grita comigo. - ela falou representando cada uma das palavras e intenções.
- Sua personalidade é muito circunstancial.
- Ah! Sei. Eu vivo mudando. Mas olha, eu tiro de tudo isso uma porção que é o que eu sou. Tenho fé e acredito que vou conseguir as coisas, Deus está me olhando e me ama, quer o meu bem. Antes eu queria demais. E quando eu resolvi simplesmente viver, as coisas apareceram. - Peri a escutava e sentia que muito do que ela falava estava envolto de propósitos obscuros. Vagos sentidos, palavras e meias palavras; por mais que ela se esforçasse para ser clara e objetiva, sempre pareceria a Peri algo diferente e dúbio.

Desceram do ônibus. Em plena Augusta de vitrines, hotéis e pessoas apressadas. Pararam num cruzamento e atrás deles uma senhora inglesa falava com seus dois filhos pequenos.

- Listen! Listen! I payed six reais in this toys. Please! Be careful! - ralhava a mãe enquanto os meninos concordavam monotonamente e mexiam extasiados em seus brinquedos.

O coração na boca. Peri tinha que se libertar daquela mulher. Antes de encontrá-la, decidiu-se a não se deixar seduzir. Porém, passados alguns momentos sua determinação ia por água abaixo. Falava besteiras e irritava-se. Depois, ela vinha e lhe falava algo tão doce que, instantaneamente, esquecia-se da dor na boca do estômago, do mal estar inerente aos seus encontros. Sentia seus olhos brilharem, bastava abraça-la, beija-la, desejo férreo. Pulsação de quasares.

- Você é tão apaixonante. Seus beijos. Pele. Deus! Como eu gosto de deslizar minhas mãos pelo seu corpo. - Peri dizia a verdade, aquela mulher mexia com seus humores, ela sorria e tudo o mais parecia distante.

- Você me diz coisas lindas.
- Eu as sinto. Caso contrário me calaria.
- Você me acha louca?
- Que tipo de loucura? Você conhece alguém que não seja? ou será que apenas estamos enganados? Você me acha louco? Eu acho que sim. Mas a loucura é um degrau, um estado diverso da razão, o ponto de equilíbrio. O problema é que a maior parte das pessoas não sabe conviver com sua loucura. O louco pode agir normalmente por toda a sua vida, porém, em um único momento, bota a perder sua sanidade, joga fora tudo o que construiu dentro do mundo da razão e se perde numa profusão de situações específicas e atitudes genéricas. Ou vice e versa. Todos somos loucos. Caso contrário, como poderíamos sustentar a realidade?
- Meu olho está borrado?
- Seus olhos estão... - Peri entrava. Sabia que não poderia viver novamente com aquela mulher, que tudo estava acabado e o momento desencadeava-se pelas lacunas do tempo. Seu relacionamento fora intenso, aquela espécie de coisa que só acontece muito raramente. Amaram-se. Perdidamente. Estavam separados há quatro anos. Peri tinha a impressão de que, desde o primeiro momento que a vira, voltaria a encontra-la muitas vezes. Quando isso aconteceu, previu tudo o que aconteceria no seu conturbado relacionamento. Mas mesmo assim, resolvera continuar. Ela tinha dezenove anos e havia fugido de casa. A mãe matara o pai com tiros na cabeça. Viera morar em São Vicente. Nesta época, o crime rondava seus passos, roubos a mão armada, carros carteiras vidas ou comida. O tráfico e o movimento punk de São Paulo. Bancas punks, podres. Função. Estava perdida num poço que ela mesma havia cavado, quando deu por si, beberam toda a sua água e ela não conseguia sair do poço. Mas Peri tinha sede e coração. Por um ano inteiro conversaram a respeito de muitas coisas. Depois, na virada de outro ano, beijaram-se. Agora ela estava a seu lado andando pela Avenida Augusta, vestia um vestido negro com capuz e coturnos. Estava loira e de cabelos compridos, um brinco no nariz. Chovia, uma fina chuva típica de São Paulo. Não queria se separar, havia feito um pacto e saberia honrá-lo. Entretanto, sabia que poderia reencontrá-la apenas como um amigo, o que seria difícil. Porém, mais prudente. Menos doloroso, se bem que menos prazeroso. Em suma, por onde andaria a mulher azul? Um mundo por conhecer.



capítulo dezenove


Edifícios góticos. Em São Vicente chove há cinco dias, uma chuva persistente, quase ininterrupta. Peri pergunta-se. Dúvidas. Sons que se mesclam no passar da vida. Aprendizados. Dádivas.

HQ.

HC.

Inventam tudo. Cidades, nascimentos, nomes; correlações entre universos paralelos existentes na vasta planície da imaginação humana. Lugar secreto de cores e formas, palavras. Em Gothan City a cúpula dos arranha céus invade a interferência do homem e convida a viajar em seus tons mágicos. Um pensamento, uma verdade que une instantaneamente a inconsciência coletiva, um mundo fictício. Histórias de heróis e vilões, mulheres sedutoras e inesquecíveis, pérfidas e frias no calor de suas paixões. Mutantes com super poderes, exímios guerreiros, mercenários e homens que caminham entre os mundos, filhos de uniões impronunciáveis. O inimaginável tomando forma, porque tudo o que você imagina é tão somente algo que antes fora impossível imaginar. Então, resgatamos o inexistente e percebemos que ele é rico em detalhes. Extasiamo-nos. Que a vida passa por caminhos desconhecidos. Tetra dimensão.

Peri pensava.

Peri esperava.

Peri lutava.

Sonhava.

“Sinto o fluxo do sangue correndo pelas veias e artérias de meu corpo... e... Colho o vento marítimo. Eu estou tentando lhe dizer algo porque preciso. Não há dúvida, culpa. Apenas a enseada de São Vicente fitando, ganhando o espaço entre mim e você.

Que horas são? Será que já não nos vimos pelas ruas? Você me esqueceria? Seria capaz? Capaz de quê? qualquer coisa. Almas gêmeas. Você acredita. Não importa, o importante é que devemos aproveitar ao máximo nossas pequenas alegrias.”



capítulo vinte e um


O início. Momento de consubstanciação. Fatos. Encontro de.



capítulo vinte e dois


O lobby do hotel, circunstâncias obtusas, emancipação de atos suspensos no ar pelas pedras e mármores. Os anos que passam, céleres.

Ao abrirem-se as portas do Parque Balneário, o hóspede detém-se com a visão única de um imenso mural, jateado em areia sobre a pedra. O desenho representa o que seria o hotel no ano de mil novecentos e vinte e sete. O hóspede está passando por um corredor, aos seus pés, o chão é recoberto de mármore, formando num mosaico uma estrela, pedras de vários tamanhos formando o conjunto da visão que tem o hóspede ao passar por este corredor. As paredes, também em mármore, ostentam quadros e suas luminárias douradas, reproduções de detalhes, catedrais européias e sangue português. Acaso o hóspede tenha a curiosidade de virar-se para trás, notará, no mesmo tamanho e trabalho, outro mural. Este representando um projeto não concretizado, um sonho esquecido. Assim o hóspede chega ao lobby e encontra o segundo mosaico, uma estrela ainda maior que a primeira, imponente em seu tamanho e simplicidade. O Parque Balneário modifica-se a cada dia. Houve época em que o barulho da marreta e dos cortadores de pedras misturavam-se com a poeira e as palavras soltas inutilmente. Agora o silêncio se faz. Interrompido apenas pela entrada e saída dos hóspedes, carregando suas vidas e dúvidas, amores. Sr. Galanaway comprando flores e esperando sua mulher, ansioso e alegre com sua barriga e cigarros estrangeiros. Sr. Ota com seus fax intermináveis e sorrisos de não entendimentos, milenares conjecturas orientais. Os gerentes e seus assistentes encerrados em ternos, encolerizados, andando de um lado para o outro, os mensageiros, camareiras, cozinheiros, recepcionistas, a governanta, todos diariamente retornando ao hotel, convivendo como numa grande casa. Como explicar o que todos nós passamos ao trabalhar? Com a vinda dos Mendes, o hotel assumira o caráter agressivo da nova diretoria, baixos salários, turnos extensos e demasiadas exigências. O erro era constantemente caçado, apontado com tal alarido que a solução tornava-se inútil. Palco de incontáveis picuinhas, sorvedouro de veneno.



capítulo vinte e três


O fato é que as coisas ocorriam em tamanha velocidade que o mundo passava a ser uma simultaneidade de fatos e situações adversas. Peri observava as ruas.

“Se estivéssemos num ponto superior, ao observar a Terra não notaríamos o que nela acontece. Nada. Apenas uma esfera azul circulando no espaço. Quanta insignificância. Onde estará Suvarin? Suvarin! você me ouve? Eu me sinto ligado a você, onde estiver. Eu luto. Ao fechar os olhos vejo meu inimigo e o golpeio. O tempo parece que brinca. É insano. Hoje ela foi até o hotel; estava vestida com uma camisa de lã, vermelha, seus cabelos vermelhos, calça jeans. Parecia cansada, abatida. Disse que havia passado mal, teve febre e delirou. Dores de cabeça. Fora viajar para uma cidade do interior de São Paulo. Dormiu com o namorado. Mas acho que ela não o ama. Que pensamento medíocre, indecente. Talvez ela espere encontrar o amor. Uma vez confessou que tinha a impressão de conhecer-me em outra vida. Depois completou dizendo que uma mulher quando transa com um homem que não ama, cria e deixa seduzir-se por um karma. Quantas vezes a reencontrarei?... Atitudes, momentos dispersos, de fuga e medo. Instabilidade, inconseqüência. Instantes em que se transmudam os acordos mais tênues, inseguranças. Tudo o que falamos e esquecemos de agir, ou tudo o que falo sobre o que aconteceu, o que falo e deixo de fazer. Pensamentos de imagens persistentes, dormir e acordar. Quantas pessoas? As vezes você está no seu lugar e outra pessoa chega e lhe perturba a paciência, você fica meio sem entender, não querendo, mas a pessoa chega e insiste. Pessoas movidas por baixíssimos sentimentos, oclusos pensamentos. O momento em que a violência ronda nossos passos. Intimidação, o medo que paralisa. Então, fico e não me movo, escapo às pancadas, desviou-me.”

Peri brigara muitas vezes. Andava pelas ruas e alguém olhava para ele e, num repente, precipitava-se em sua direção. Brigara muitas vezes. Mas agora não quer brigar. Mas fala. Fala em violências incabíveis, sem sentido. Age num mundo teórico. Não tem medo e é como se o tivesse. Sabe que pode mas não vai.

A questão é simples. Existem coisas que não devem ser ditas. A palavra é forte e cria mundos, ora os destrói, ora os transforma. O verbo. Dizer é deixar de fazer. O homem sem medo. Como é possível que exista tal pessoa? Entregue a conjecturas Peri esquece o mundo a sua volta, a realidade imediata. O tempo passa rápido na sua lentidão. Como quando você está prestes a pular de um lugar alto e o medo domina suas forças. Acreditava-se que o medo era um monstro que dormia na coluna cervical de cada um. Se você sentisse medo e gritasse, o monstro continuaria dormindo. Mas, se você diante o medo se calasse, o monstro acordaria e romperia sua carne atacando quem causasse o medo. Arrepios na coluna. Quimificação espontânea, natural e instintiva. A força do medo. Domínio de trevas e imagens esquivas, rápidas e certeiras, sinistramente fortes, antigas em sua existência pré histórica. Mundo inumano. O animal que trança suas cordas e constrói navios.

“Onde está você neste exato momento? Será que dorme abraçando o filho pequeno? ou está pelas ruas?... Suvarin! Eu lhe vi atrás da igreja; tenho certeza que era você com seus olhos verdes e feição de quem não sofre. Sei que está bem e foi bom lhe reencontrar. Com você eu aprendo.”

Situações burlescas, músicas. Vidas em contrapartida. Instantâneas bombas de LSD. Peri sonhava com fugas impossíveis. Motos velozes e ventos cortantes.



capítulo vinte e quatro


Acordara num mundo difuso de lembranças e preocupações futuras. Recordara o dia em que se separara. Ela estava grávida e o mundo era um lugar inabitável. Não havia possibilidade, não conseguiam entender-se e os sentimentos, confusos, chocavam-se e geravam tumultos inexplicáveis. Dias cinzas em que Peri deixava-se ficar na janela madrugada adentro. Composição de luzes elétricas e sombras repetindo-se pelas paredes e portas de seu quarto. Efêmero. O sofrimento arraigava-se pelos seus músculos, tendões e pele. Peri a botara para fora de casa porque ambos vivificaram o caos e os lugares mais escondidos da inconsciência brotaram. O ciúmes. Brigavam e se amavam e discutiam e conversavam e choravam. Noite e dia. Promessas de melhora e vontades de abrir o peito. Olhos verdes com medo. O pânico, panos de prato pelo chão. Hematomas. Uma sensação difícil de separar. Sentimento. Peri chegava em casa e ela estava o esperando, sentada nas escadas tarde da noite, como um cão raivoso espera seu dono. Ela entrava. Estava grávida e Peri seria pai. Olhos verdes ensandecidos. A difícil separação dos corpos. Almas coladas. O número três. A letra “A”.



capítulo vinte e cinco


Cadeiras kafkianas. Olhos verdes furtivos. A Idade Média. Roupas sujas por lavar. Exposições concretas, reproduções e fatos dispersos. Ou para ser exato. Mil quinhentos e cinqüenta e quatro. A corte. Reis e rainhas com suas igrejas e sentimentos burlescos. Dádivas e dúvidas divinas. O sexo. Castelos de pedra. O tempo. Difuso.

- Olha o que você fez com a minha calça! Não, não passa a mão porque senão fica tudo preto... As vezes eu não consigo fazer as coisas mais simples, óbvias. Eu queria ver o limite, até o ponto de apagar. O branco. Você não tem sentimentos. É frio e calculista.

A palavra. Definição, chave da realidade. O mantra hindu. Oração a todos os santos. O som. Princípio.

- Em que sentido? - perguntou. Verdes olhos sorrindo, chorando silenciosamente. - O que eu significo para você? Eu sou importante?
- É. Muito importante.
- Em que sentido? - tornou.

Palavras. Dizer muito sem dizer nada é não dizer o que se quer ouvir.

- Você ainda vai sentir saudade de mim. Então, você vai descobrir a diferença das palavras. Vai sentir falta de mim, do meu corpo fazendo amor com o seu. E eu vou saber quando você estiver sofrendo.
- Isso vai lhe deixar feliz?
- As vezes eu me acho ridícula lhe procurando, indo atras, implorando.
- Encontrei esse alfinete no vestiário do hotel. Agora ele está espetado na minha calça.



Capítulo vinte e seis


Qualquer silêncio que se faça. Histórias para contar, repartir e encontrar explicações. Sequiosos motivos. Sol de ventos e outubros. O circo.

Quantos tantos forem os sentidos.

Os índios. Um povo pré histórico. No meio de suas tabas, ocaras gigantes onde o abaporú vem saciar sua fome de séculos, o vídeo cassete. TV a cabo. Fibras óticas, engenharia nuclear. Suas flechas e arcos e pinturas negras de guerra. Os frutos, raízes. Flutuação de mundos. Garimpeiros, posseiros, fazendeiros. A Mata Atlântica, Atlândida. O índio, elo de séculos afora, mistura homogênea de tempo. O índio. Quando Peri se apercebeu, o barulho da aves cessara e o silêncio invadira as costas litorâneas. Mensagens de histórias passadas, futuras lembranças atônitas suspensas por halos indecifráveis. O sol nascia, tênue com as forças de suas explosões, paradigma de constelações perdidas. Imensas telas, imagens teleguiadas sobrevoando o Rio Negro, o olhar afoito do índio, espelhos trocados por ouro, pentes. O Amazonas. Sentido de águas. Peri absorto no sonho dos mundos, lugares onde o incerto toma formas, lugares que se mesclam no tempo.



capítulo vinte e sete


Titânica viera de um mundo distante, envolta por energias desconhecidas, enigmas de um universo perdido, fios de eternidade que se cruzavam e lhe cortavam a alma. Sua beleza azul era um misto de ferocidade e fé. Um mistério.

Seu primeiro encontro dera-se num sonho. Ela flutuava com os braços abertos no espaço de sua nudez e Peri a amparava. Ela levantou-se e caminhou pelo estreito caminho dos jardins, sua sombra negra projetava-se com intensidade perturbadora pelos olhos de Peri, como asas imóveis que a faziam flutuar. Ela virou-se, lentamente sobre seus ombros e disse:

- No meu mundo eu sou uma guerreira, uma mulher não deve temer, deve estar sempre pronta a matar...



capítulo vinte e oito


O que traria o vento de volta, ou o que é a filosofia face à tecnologia.

“Quantos séculos avançamos em noventa e seis anos? a medicina, os transportes, a educação, a ciência. Agora compare aos milhares de anos restantes da nossa raça. O que fez a tecnologia explodir com tamanha força e intensidade, por que o nosso século é marcado pela velocidade estonteante do tempo? Uma velocidade trágica? O mais básico conceito de conhecimento sem sabedoria, ou simplesmente, informação sem conhecimento. Será que temos forças para imaginar o que é melhor, ainda resta espaço nesse mundo superpovoado por imagens e informação? Estamos na era da holografia, a realidade virtual, o microchip e o poder de destruição mundial aumentado inúmeras vezes. O que é uma arena romana, com seus leões e vítimas cristãs, comparada a uma bomba atômica? O homem evoluiu? Mas se não evoluiu, como será possível que ele viaje no espaço, ande de carro, vá ao cinema, tome coca-cola, tenha filhos e sobreviva?”

Peri olhava os dias dentro do quarto; imagens fragmentárias tecendo realidades, o mundo humano modificado, codificado por números e letras.

Solos de saxofone e um estranho vazio no ar, uma falta, uma lembrança vaga de alguém que ficou. Ficou, ou terá partido sem que se notasse, sorrateiramente. A velha idéia. Casas brancas no litoral sulino, brancas praias de areia fina correndo com o vento. O sol ameno de inverno, suas chuvas repentinas e suas árvores na praia, chuva espessa. O azul do mar na rocha, ilusão de séculos e alegrias inusitadas, horas de contemplação. Peri buscava as palavras, procurando-as no mundo vasto das realidades. Contemplação ativa, o mundo visto e sentido.



capítulo vinte e nove


Um novo começo, nada de negras africanas tecendo o tempo ou qualquer coisa que o valha, nada de estratagemas medíocres acerca do infindável mistério inicial, apenas a concepção única de que é necessário mudar, porque a mudança ocorre o tempo todo à nossa volta.

Titânica olhava o horizonte e um cheiro de sangue invadiu-lhe os sentidos, uma adaga penetrava-lhe a carne. Ela virou e cortou a cabeça de um guerreiro tronix. Em breve outros viriam perseguí-la. A Cidadela era um labirinto de ruas estreitas e formas frias. Àquela hora, Titânica fugia sem que ninguém se desse conta, sua nave era rápida e logo estaria a salvo.

O Deserto, difícil descrevê-lo com toda a sua crueldade, lugar inóspito. Sentinela dos caminhos perdidos. Titânica sobrevoava-o e sua coluna arrepiava-se enquanto seus olhos brilhavam. Três estrelas caíram. Um portal se abriu e o mundo passou a ser outro. Um mundo vago de luzes velozes e intensidade estelar. Quando abriu os olhos estava nos braços de Peri. Dentro de um sonho. Porém, o sonho se perdeu e Peri não sabe onde ela está. Ele a desenhou e viu que a conhecia. “Quanto tempo leva o sonho?” Mas agora Peri não sabe onde ela está e o agora é muito menos que o sonho. Um momento que contem a eternidade e a profusão dos lugares. Todavia Peri a tivera nos braços, sentira seu calor e a beijara ternamente. Depois as luzes acenderam e o mundo de Peri já era outro, mas era a certeza de que os mundos se encontravam, de que havia um lugar onde tudo passava a existir. Tudo. Titânica era de um mundo distante. Outra realidade. Anos podem ser segundos como lágrimas podem ser alegrias. Encontro de mundos paralelos.



capítulo trinta


Concepções aleatórias. Peri fora ao encontro de Suvarin. Rondava as ruas por onde achava que o gato estava, emitia chamados e o pensamento procurava-o. Ao virar a Igreja, depois da linha da máquina, Peri divisou o contorno negro e felino de Suvarin. Ele estava sentado e lambia uma das patas, ao avistá-lo, a pata ficou no ar enquanto o olhar dilatava-se com suas pupilas. Ele levantou-se e foi de encontro a Peri, desviou e subiu num muro. Ficaram se olhando e conversando silenciosamente, lembrando-se de tudo o que haviam passado juntos. Suvarin estava livre e arredio.



capítulo trinta e um


Porque o amor não se coaduna com a liberdade. Quem ama sente a posse, domina ou é dominado, ilude-se. Quanto do seu pensamento e vontade faz parte o amor, essa procura pela pessoa que lhe espera? Essa vontade incessante de achar.



capítulo trinta e dois


No hotel a reforma estava quase finda, dentro de pouco tempo teríamos um novo Parque Balneário. O regime de escravidão propagava-se com a velocidade do vento, as intrigas dissipavam a palavra e a verdade passava a ser um jogo de espelhos, um disforme e monstruoso jogo de espelhos. Minotauros perdidos em seus labirintos. O hotel transformara-se numa arena romana, onde a espada fora trocada pela força da realidade manipulada. O trabalho humano, organizadamente selvagem. Traições, hipocrisias, assédios sexuais, máquinas digitais, tolices e ambições desenfreadas. A arte de servir a si o que se quer servir ao outro. A luta e a vitória. Mas o que é vencer destruindo?

O trabalho humano tinha-se misturado com a máquina, a Revolução Industrial modificara sensivelmente o mundo, necessidades nascidas de outras necessidades. Agora a máquina faz parte do seu dia a dia, está na sua frente quer você queira ou não, ela substitui o seu esforço. Em contrapartida as taxas de desemprego aumentam em todo o mundo. Os que conseguem vender seu trabalho são obrigados a especializar-se cada vez mais. Nada do conceito antigo sobre a genialidade universal, o conhecimento ligado às várias formas do saber. Apenas o conhecimento específico. Ou o computador. Pois o mundo está superpovoado de idéias, pessoas e situações. A competitividade, a qualidade total e os blocos econômicos. Superpotências estrangeiras, países com sua ganância grandiosa resumida em micro-chips e armas poderosas. A produção mundial, a escassa divisão de riquezas, a ignorância em que se vê o homem. O absurdo cotidiano, o caos e a ordem mesclando os dias.

Mas como comparar o indivíduo ao todo? Seria possível compreendermos os mundos de cada individualidade?

Micrômega. Suspensos por idéias difusas os homens flutuam pela organização mundial. Espaço virtual escondido em cada uma das consciências. As vidas em particular. O todo em todas as partes.



capítulo trinta e três


Peri a olhava nas profundezas de seus olhos verdes; ela recostara a cabeça no balcão, as luzes do lobby semi apagadas e sua silhueta refletida no mármore. Dizia que estava cansada e com preguiça de voltar para casa. Peri acreditava que ela estava ali por sua causa, porque, secretamente, o amava, então precisava vê-lo para depois fugir; um jogo. Mas não, a realidade era outra. Ela estava ali porque sentia-se só. Era apenas isso. Uma confusão, uma lenha atirada na fogueira, uma faísca no feno. Peri pegou o caderno que estava em suas mãos e escreveu: “Eu te amo perdidamente”.

- Por que você escreveu isso? - lânguida.
- Pra você lembrar. Que por um momento eu amei você.

Trabalhavam juntos e viam-se diariamente. Nos primeiros dias havia sido difícil para ambos, uma emoção mal resolvida. E mesmo com tudo o que conversaram fora do hotel, essa sensação persistia, tornando incerto o convívio, um desejo que brotava e distorcia a realidade. Peri a esperava. Esperava pelo momento de tê-la nos braços e beijar-lhe a boca, atônito e extasiado como nunca. Tê-la nos braços e sentir nos seus olhos a paixão pulsando estrelas. Constelações perdidas de seu coração aflito. Peri a esperava pacientemente, aguardando. Ela o envolvia e o jogava no espaço. Peri tratava-a mal, cortejava-a, fazia-lhe as vontades, fazia a barba e cortava o cabelo, ignorava-a, era simpático e cortês, fazia-se de escravo, tolo, enfurecia-se, massageava-lhe as costas cansadas e tensas do dia a dia.

Agora é como se ela não houvesse dito nada. Por mais que Peri tentasse lembrar, as palavras da mulher se perdiam nos labirintos da memória. Como se ela apenas houvesse escutado. Quando Peri perguntava-lhe algo, ela respondia de modo vago, como se pensasse que estava dizendo sem realmente dizer, palavras obscuras. Mas Peri olhava para os olhos daquela mulher e tudo o mais passava a ser irrelevante.

- Você é louco.
- Louco?
- Ai, não sei, você é assim...
- Assim como?
- Não sei. Não consigo falar. - então sorria e era como se tivesse dito tudo.

Peri pensava, tentava compreende-la, achar-lhe o ponto fraco, o modo de seduzi-la.

- O primeiro dia a gente nunca esquece. Eu cheguei e tudo era novo. Eu achei que você não ia com a minha cara.
- É. E você tinha a impressão de que já me conhecia.
- De outras vidas.
- Você acredita que sim?
- Não sei, talvez fosse alguém que eu tivesse visto e fosse parecido com você.
- Visto onde?
- Sei lá, em qualquer lugar, numa outra vida.
- Ou talvez aqui mesmo. Quem sabe? - disse, seriamente.
- Você é tão engraçadinho.

Quando ela chegou, Peri estava ao telefone e estendeu-lhe a mão. Ela retribuiu e ficaram de mãos dadas.

Detalhes.



capítulo trinta e quatro


Sol a pino. Uma infantil cantiga rumando para as nuvens brancas de uma tarde fria em pleno verão. Mandarins e gueixas valsando nos ares do instante.

Na Somália as tribos nômades vagam pelo deserto a procura de água e comida. Dormem em tendas e circuncidam as mulheres. A operação é simples e grotesca. Trata-se da remoção do clitóris e dos lábios vaginais, os instrumentos variam de cacos de vidro à pedras afiadas. Depois costura-se o sexo mutilado, tornando-o estreito. Nenhum motivo religioso sustenta essa prática, apenas a cultura do povo, o hábito e a crença nas coisas do homem. Noventa e oito por cento das mulheres somalianas são circuncidadas. No mundo, dois milhões de mulheres por ano.

Nietzsche olhava as mulheres como seres inferiores, predestinadas as tarefas domésticas, aos cuidados da família e do homem. Um ser submisso e pouco inteligente. Nietsche acreditava na força. Mas o que é a superioridade da força comparada com as atrocidades que dela resultam? A crueldade, a covardia, a exploração.
















PARTE TRÊS


Consubstanciação. Teria bastado observar as vidas ao redor, as tramas que seguem seus caminhos diversos, os nomes e as datas. Ou simplesmente, teria sido necessário um conjunto absurdo de lugares e histórias, o maior número de exemplos para explicar o mesmo fato e suas peculiaridades.

Quando, há três anos, Peri entrara no hotel, a mata atlântica era um misto de ferocidade e estranhamento. Imaginara que se conseguisse durar um ano naquele lugar, estaria se superando imensamente. Logo no primeiro dia, abandonaram-no em meio a comandas, contas, cartões de crédito e um cheiro de comida invadindo as narinas. O caixa do room service era um lugar isolado por vidros, um balcão de cimento e azulejos brancos, uma cadeira torta, uma caixa registradora e dois terminais telefônicos no meio de um emaranhado de fios e calculadoras, tabelas de preços e cardápios.



capítulo um – 10/95


Conhecera-a em casa. Peri abrira a porta e lá estava ela com uma cadeira de praia na mão.

O sonho. Peri sonhara que encontrara uma mulher na praia e que essa mulher era uma pomba. Apaixonara-se e levara-a para morar consigo num apartamento em frente ao mar. O tempo ia passando e um belo dia um amigo fora visitá-los. A mulher viu um inseto sobrevoando-os e, com a língua, capturou-o e o devorou. A mulher então começou a derreter, tal qual uma boneca de cera. O rosto ia perdendo a forma, restando apenas o bico, um resquício de quando seu corpo era ainda o de uma pomba. Peri habituara-se a situação, sua estranha mania de olhar fixamente para o nada e aquele silêncio profundo que suas costas demonstravam. Então Peri acordou e pensou:

a. ela bate em sua casa.
b. imagina-a como uma mulher e mãe exemplar. Ela cuida de sua avó adoentada. Não sai de casa. É uma mulher separada que diz ter ficado casada sete anos. Separou-se porque não amava o ex-marido.
c. afirma ter uma filha.
d. tem uma família problemática.
e. numa noite, presencia-a amarrando a avó na cama, pois a mesma gemia de dor e não se calava.
1. ...
2. ela diz que tem uma segunda filha que, com dois anos de idade, ficara com seu ex-marido.
3. três dias depois, sobe à São Paulo e dorme na casa do ex-marido.
4. sua avó morre e ela passa a ter liberdade.
5. uma semana depois seu ex-marido desce e passa o fim de semana na sua casa. O mesmo toma um murro na cara.
6. começa a trabalhar em um supermercado.
7. recebe um telefonema e responde da seguinte forma: “Alo? Oi, Beto. Não dá para conversar agora estou com meu namorado e vou sair.”
8. afirma que o gerente do seu trabalho está assediando-a.
9. recebe um presente do gerente. Na mesma noite diz que está cansada e não quer transar.
10. diz que ficara casada seis anos, ao invés de sete.

Mas o sonho era uma lembrança de sonho, uma mensagem que lhe ficara no decorrer dos anos. Um fato que se propagava em seu pensamento e tecia comparações com a realidade. Peri se olhava e debatia-se com o significado das coisas, o aprendizado diário da superação. Peri arrastava-se no turbilhão dos pensamentos e das emoções.

“O que eu tenho a aprender é muito simples: 1- nunca cuspa para cima, nunca diga deste prato não comerei, esqueça o passado, tente viver como se o presente fosse mais importante que o passado, aceite, esqueça o ciúme, cuide-se, procure ajudar, não se aborreça, controle-se e saiba descarregar na hora e coisas certas. 2- deixe de se achar uma vítima, seja honesto consigo, trabalhe mais e suba na vida. 3- todas as mulheres são loucas, isto é inegável e iniludível, todos somos loucos, conviva, seja carinhoso, não pense só em sexo, previna-se, aja com sensatez, esqueça o óbvio, lute, não seja egoísta.”

Um mundo de mentiras. Cada um construindo a realidade de acordo com suas necessidades e conveniências. Mundo dúbio. Ela mentia, ora acerca de coisas importantes, ora em coisas pequenas. Mexia nos seus cabelos, olhava para o lado e ria desconcertada. Mentia mal, caía na rede de seus pensamentos e contradizia-se.

Fúria. Raios e trovões no céu denso de nuvens. Vento.

Mas o que é a confiança no outro? Confiar significa não se desiludir? Apenas se trai com a carne ou o pensamento é uma cadeia ininterrupta de suposições acerca do que é tão somente uma possibilidade? Para o quê?

- Aqui você percebe que ela voltou para a letra que estava? - perguntou Peri.
- Você sabia?
- Você é uma pessoa carente?
- Se eu sou uma pessoa carente? As vezes. São fases, momentos. Eu sou muito de lua, tem dias que eu me sinto carente. Posso ir ao banheiro?
- Ir o banheiro?
- É! Posso ir ao banheiro?
- O que acontece? Você é louca?
- Ai! eu não acredito (rindo).
- Por que você está rindo?
- Fica quieto. Vamos mudar de assunto. Esquece. Olha. Ah! Agora eu entendi, esse mouse deve estar com problemas. Isso está me dando sono. Bom, pode falar. Quem vê pensa que eu sou uma louca. Você exagera, amor! Quer que eu vá embora?
- Você vem aqui, pergunta se eu quero que você vá embora, vira a cara e espera que eu reaja com a maior delicadeza e compreensão possíveis. Por que você não vira para mim e conversa numa boa. Quer ir embora? Vai. Você não consegue conversar? Você é arrogante, o tempo todo falando uma coisa e fazendo outra.

O tempo chamando o espaço à consciência. O enigma de tantas vidas entrecruzadas pelos abismos e pontes da diferença.

“Então me deu uma coisa e eu corri para os seus braços macios e quentes, quase sem pensar em nada. Era como se eu estivesse lhe vendo e sentisse você me chamando. Então você fingia dormir e eu ficava irritado. Mania de se irritar com tudo. O que você deve estar pensando, agora, nesse exato momento? Está sentindo minha falta, porque eu sinto a sua”.

Ilusões. O que eram esses sentimentos que aproximavam e distanciavam em questão de segundos? Contradições, dúvidas, vontades. Diversidade de sons, palavras que iam de encontro ao ponto fraco, ao lugar onde não se consegue dominar. De onde parte essa voz feminina que canta uma música tão doce e agressiva ao mesmo tempo? O que se passa no coração de uma mulher? Quantos lugares, pessoas e circunstâncias? Os anos teriam passado e Peri poderia ter ficado apenas pensando, o que de nada adiantaria.

- Você está estragando o nosso relacionamento; não é mais carinhoso como era. Você me trata mal, sempre desconfiando, fazendo perguntas que não acabam mais, achando que eu estou o tempo todo mentindo. Eu sei que eu errei, menti. Mas eu disse que não vou errar mais. Você deveria parar e ver o que está fazendo. E não é com a primeira mulher que você faz isso. Acho que com as outras também foi assim. Se eu perdôo uma pessoa, eu realmente a perdôo. Você me fala tantas coisas desagradáveis que, na hora, eu fico calada para não brigar. Mas eu guardo tudo. E isso me remói. Eu faço tudo para lhe agradar. Tudo. Que merda!! Será que a gente não consegue ficar numa boa?! É tão difícil assim conviver sem brigas?!. A gente briga o tempo todo. Eu gosto de você, admiro seu caráter, não quero perder você. Mas eu não sei até quando eu vou aguentar.



capítulo dois


Assim que tudo estivesse acabado, assim que o tempo houvesse passado.

Assim.

Peri procurava a mulher azul. A mesma mulher azul que há tanto procurava. Incessantemente. Era preciso que deixasse de sentir como uma criancinha contraditória, sentimentos pequenos e intensos. Será que Peri não teria crescido? Estaria enganado acerca de seus sentimentos, ou seria o amor uma agonia crescente, tomando conta do pensamento e mudando as pedras do caminho? Por quantas vezes teria se enganado. Passado pela pessoa certa sem ter se apercebido. Ou será que a pessoa certa simplesmente não existe? Ou erramos e sabemos e continuamos a errar. Ou sentimos e nos enganamos. Ou nos tornamos neuróticos possessivos, obcecados pelo prazer de sofrer. Sussurros, imagens. Músicas diversas. Situações. O convívio.



capítulo três


Vozes que se prolongavam, murmúrios. Silêncios.



capítulo quatro


- Você gosta de me irritar, não é? - disse, sem que tomasse fôlego para continuar a outra frase, o pensamento que agride e faz agredir, a propensão à violência. - Você é louco! Que história é essa de ser todo gentil no telefone?! Acorda me irrita a manhã inteira. Agora. O que você pensa que é, um deus?! que eu devo obedecer e me sentir feliz?



capítulo cinco


A evasão. Invasão. Privacidade. Seqüência ininterrupta de fatos dispersos.

Vejamos as coisas por um outro lado, já que se torna tão difícil compreender a intimidade, a contradição de cada ato.

O século vinte, comparando-se com todos os outros anteriores, é um século onde a velocidade das transformações atingiu o absurdo. Hábitos, tradições, crenças, códigos genéticos, a própria história do homem correndo pelo seu sangue, habitando seus sonhos. Choque de gerações, uma a uma. Acorda-se e o tempo já é outro. Como as águas de um rio grego nunca são as mesmas. Imagine-se durante dez anos fazendo exatamente as mesmas coisas, do momento de levantar-se ao momento de deitar-se. Então imagine que, de uma noite para um dia, você simplesmente deixe de fazer as coisas que sempre fez e comece a fazer outras totalmente diferentes. Como você se sentiria? A raça humana encontra-se assim. Como se uma década fosse capaz de transformar o que, antes, demorara milhares de anos.

Ou seja: o que são todas as guerras da humanidade comparadas ao que sentimos com nossas desavenças? Sabe-se que numa guerra sofre-se muito, indubitavelmente mais do que qualquer briga de amor, por exemplo. Porém, desde que não estejamos diretamente envolvidos, não sofremos nada com as imbecilidades humanas. Entretanto, são as pequenas desventuras pessoais responsáveis pelas calamidades, somadas, é obvio, a uma rede de circunstâncias apropriadas.

Mudemos de foco. A mulher. No decorrer de milhares de anos esteve sempre num patamar de submissão ao homem. Em poucas décadas, ela foi capaz de fazer coisas que antes não sonhava. Hoje a mulher é ativa na sociedade. Não se submete, luta, canta o homem, paga pensão ao ex-marido, estuda, realiza-se profissionalmente.


capítulo seis


Jan Vinick entrava pelo hotel e dele saía sem que os dromedários se dessem conta. Vinick era adestrador de elefantes de origem belga. Era alto, gordo com pernas finas, como uma bola ou um desenho animado. Um de seus braços era paralisado e encontrava-se sempre no bolso da calça. Era calvo e tinha um modo ríspido de conduzir-se e falar. Talvez o braço houvesse sido um acidente de profissão. Talvez em um desses dias de espetáculo, um elefante, assustado com a multidão ou indignado com o cativeiro, tivesse imprudentemente esmagado-o. O que seria mister pensar em como se relacionava-se Jan Vinick com seus elefantes, com a carga de suas idades e vidas entrelaçadas com gerações anteriores as do homem.



capítulo sete


O que diriam os anarquistas do século passado ao verem o século vinte e um.

Vejamos, por exemplo, o caso da bioquímica, a engenharia genética. O método da clonagem, técnica que consiste na retirada de uma fração de DNA de uma célula e a colocação da mesma no núcleo de outra, faz da história do homem uma piada. Ao clonar o ser humano, a diversidade biológica restringe-se, pois os clones terão sempre as mesmas características do DNA original. Cópias e mais cópias. O papel do macho passa a ser desnecessário, tornando as relações do homem e da mulher totalmente distorcidas. Assim, quais novos padrões teríamos para a significação da família, das relações como o casamento, a educação dos filhos, ou seja, a própria estrutura da atual sociedade? Willian Reich considerava a organização social um micro estado, uma parcela menor da organização do estado, as células que o compõem. Caso tenhamos modificações nessa forma de estrutura, o próprio estado deixa de ter o seu grau intrínseco de necessidade. Mesmo sem o advento da engenharia genética, com seus clones e demais peripécias bioquímicas, a sociedade tem-se encaminhado para a sua restruturação, afirmando-se isto, em virtude da revolução que o mercado mundial tem passado nos últimos anos, uma situação mutante. Os empregos deixaram de ser duradouros, fazendo com que o profissional passasse de um emprego ao outro. Em contrapartida, com o advento da tecnologia moderna, a mão-de-obra tem se tornado, em maior escala, desnecessária, porque se produz mais com menos trabalhadores, ao mesmo tempo que o índice demográfico explode. Temos uma população maior e uma menor oferta de trabalho. O que será feito da massa dos excluídos, todos os que ficarão à margem dessa sociedade de ponta?

Entendamos as coisas de outra forma: é melhor rir.

Quando os replicantes estiverem clonados, perceberemos que as vicissitudes do homem não passam de uma procura absurda pela supressão de suas necessidades crescentes. Um desequilíbrio, o cerne da questão, incessantes necessidades. Fatores que se mesclam e transmudam os fatos. Contradições. A vida, enfim.



capítulo oito


Era um velho apartamento. Peri entrara e recordara-se de sua vida quando ainda era um adolescente. Abrira guarda-roupas, caixas e lembranças. Desde que sua família mudara-se, o apartamento permanecera fechado, sem que houvessem tido o interesse de alugá-lo. Estava absorto no passado, sentado na cama de seu antigo quarto, olhando uma camisa que agora não lhe servia, mas que lhe trazia a vontade de vesti-la novamente, como quem deseja reviver o que aconteceu. Escutou um ruído e, ao voltar o olhar, divisou uma criança correndo com um brinquedo na mão. Peri sabia que estava só; levantou-se e procurou pela imagem que lhe havia perpassado pelo inconsciente. Na sala, um senhor esguio, de cabelos brancos, olhava pela janela; seu semblante era calmo e transparecia a mesma sensação de quem recorda; era um espírito e contou-lhe como vivera.



capítulo nove


Escutando amigos na rua nos damos conta de situações muito mais apavorantes que as nossas próprias.



capítulo dez


Situações burlescas, modos de libertar-se de prisões imaginárias. O que teria acontecido ou o que teria restado? Após tantas brigas e tensões, desconfianças dúvidas ameaças separações, ou será que simplesmente as pessoas engolem a seco cada momento desagradável que passam juntas uma com a outra? Superar-se significa ser tolerante? Significa, por acaso, saber que é ridículo e continuar?



capítulo onze


Peri mantinha-se em casa. Resolutamente. Olhava pela janela e vislumbrava o quebrar das ondas nas rochas. O mar. O céu cinza de outono, nuvens densas pairando sobre a ponte. Pênsil como pêndulos, Peri sentava-se e esvaziava sua mente, seus pensamentos, preocupações, dúvidas, sentimentos. Mundo cinza, estranho mundo cinza.

Agora que tudo estava passando na velocidade típica dos acontecimentos, Peri deparava-se com as faces do espelho. Em “Entre quatro paredes”, nas palavras de uma de suas personagens, Sartre diz que o inferno é o próprio relacionamento humano. O outro joga-nos na cara cada um de nossos defeitos, nossos fracassos e imperfeições, funcionando como um estarrecedor contato conosco mesmo. Assim, vemos em suas palavras e atitudes o nosso próprio modo de pensar e agir, observamos o que somos através dos olhos de quem nos vê. Um labirinto de situações que nos cercam e englobam o que somos. O olhar do outro e a estética da máscara, da farsa e das intrigas. O poder absoluto das palavras, seus significados, jogos e repercussões.

Peri saíra para comprar cigarros.

O tempo que passou fez Peri pensar que ele tenderia a passar muito mais lento do que esperava.


capítulo doze


Ou como os mandarins valsam na China.

As ruas, confusão de almas pelo espaço acentuadamente urbano. Luzes, carros, faróis e pessoas pelas calçadas. A noite tênue de um mar revolto quebrando-se nas amuradas.

Quem teria se perguntado sobre o acaso?



capítulo treze


Com quantos paus se faz uma canoa. Depois de milhares de dias perguntando-se a respeito dos mistérios do universo Peri senta-se em frente ao riacho e observa a copa das árvores resplandecendo com os raios solares e o canto colorido das araras. O som das águas envolve-lhe os sentidos e, lentamente, sente seu corpo esvair-se da matéria bruta. À sua frente uma pantera olha-o nos olhos, calmamente sentada sobre o nada.

Peri anda pelas ruas e de repente uma erupção vulcânica estremece as casas e edifícios. A lava desce fumegante da cratera, as pessoas correm desesperadas e o céu transforma-se em nuvens de fumaça.

Peri acorda, levanta, assiste televisão, anda na praia, lê, almoça. À noite dorme e sonha, depois acorda e se levanta, toma leite, escova os dentes, assiste à praia, anda na televisão e lê o almoço.

capítulo quatorze


Sombras de uma noite intensa, flores estelares por sobre as cabeças desapercebidas do peso do mundo. Refluxos. Sementes aos ventos, cata-ventos e crianças vestidas com roupas coloridas, situações de sensibilidade extemporânea. Teriam surgidos mundos inteiros, porém a realidade é dura e brinca com o tempo, constrói lugares, pessoas e vidas em paralelo, entrelaça cada peça e tece seu jogo infinito.

Quando se deu conta tudo já havia mudado. Nada de bagatelas acerca do óbvio ou do instante de ser, apenas as coisas como elas eram, sem repercussões morais, éticas ou estéticas, os fatos em si com a carga de suas existências. Peri olhou para os lados e viu cada um de seus significados. Mas o que eram os seus significados? Somente sua personalidade conferindo uma distorção sobre o todo. Mas afora a razão que lhe permeava o espírito, sentia o mundo entrando-lhe através dos poros, dividindo-se pela sua circulação e espalhando pelo seu estômago, pulmões, pernas e cabeça. Um redemoinho de sensações. Então elas girassolavam dentro de sua mente e causavam-lhe pensamentos. Esses pensamentos se desenvolviam e provocavam novas sensações que voltavam à mente com mais e mais força. Como num verdadeiro labirinto cíclico.

Ulisses longe de casa, vagando pelos mares desconhecidos, longe de sua esposa, enfrentando sereias, rochedos e semideuses.

Mas Peri fechou os olhos e sonhou ter sonhado, assim:

Quando Wallace sonhou com sua vida, percebeu que havia muito mais vontade do que até então a força que o consumia. Não sabia se o que sonhara era sonho seu, ou se uma projeção irrecuperável de realidades dispersas no seu inconsciente. O tumulto que descortinara, era uma necessidade de paz, de encontro consigo e equilíbrio.

Lembrou-se de como a garoa caía sobre e entre sua visão das obras humanas. A tarde que passava por suas veias, velozes veias; pensava e, absorto, via a chuva que era cada um dos seus instantes, fatos, vontades e corridas disparatadas rumo ao horizonte rubro de seus olhos.

As peças de roupa ficavam estendidas em longos arames esticados no quintal. O colorido das tardes brincava com as tonalidades do vislumbre. O etéreo rondava cada nuança dos movimentos que o vento provocava. O olhar seguia a dança enquanto as crianças cantarolavam suas brincadeiras de roda. O tempo no silêncio do estio.

as negras africanas! como pude esquecer-me. Havia tantas coisas a resolver que, por momentos, eu me distraí. Mas ainda há tempo; todos os rumores foram passageiros e, juntando os fatos, nada teria sido como foi. O fio da meada se estendeu por horizontes afora e nossa imaginação deu lugar a outros instantes de lucidez.
Rápido! Temos que ser os mais rápidos. Decididamente não podemos perder tempo. The train arrives at NY after midnight. Let's go, now! If we lose the train, we'll have to go on boat. Did you understand me? Would you like to say over again? That's it, I don't have more time. I don't know, maybe I'm confused and very tired, but I'll try again. If I'll win, you'll love me.

uma noite como a outra que de dentro de outra mostrava as sobras da eletricidade constante das estrelas e vaga-lumes em êxtase. Daquilo que se divisava, a imagem de um menino repetido em si, olhava as sombras das lojas apagadas, e eram todas como as ruínas das antigas civilizações, dos povos inumeráveis que cercaram o mundo com sua sabedoria e com a tolice que fez verter o sangue de tantas terras. Uma sobre e dentro da outra noite, pessoas que passavam pelo corredor distraídas com sua contemplação, vitrines, telefones públicos a cartão, chamadas de alto-falante e demais vicissitudes que alegravam o passante despreocupado com a guerra no oriente médio ou os testes franceses de bombas nucleares; mas como era possível se preocupar se o momento no instante não existia? O final não seria nada mais que um deus absoluto e absurdo aparecendo do nada. Enfim, o tempo esquecia-se do impreterível e as águas de um mar próximo deslizavam nos pés de uma outra pessoa que também passava, mas olhava o sol se pondo no horizonte trêmulo de navios e portos longínquos.

O fogo da fumaça do cigarro que enfim fumava: ilusão de cores, coisas, pensamentos ruminantes, brincadeiras de criança, movimento de oscilações e
esferas concêntricas o fogo
da fumaça que
enfim fumava
era nada mais nada menos
que o universo entrecortado de objetividade

O que teria a força suficiente para transmudar a loucura a desordem

em liberdade
em êxtase e quasares repletos de tudo que não fora tempo

tudo isso para esquecer a distância que me afasta
e me torna tolo e romântico como um boçal

Perspicácia, o mundo ruiria se Wallace permitisse o indesejável; o caótico que permeava as esparsas ações de outrora chocavam-se com disposições prementes, vindas não se sabe de que exato instante. Árvores genealógicas pelos jardins e praças, sentimentos de responsabilidade e vontade de desejo; o que teria em mente? A verdade era que a chuva persistia e contra isso, apenas a lembrança de que em uma cidade desaparecida, choveu por mais de quatro anos. Nada a temer ou a imaginar. Somente...

Bastaria que os dados lançassem a sua sorte, um lance de dados e o que mais faria de virtual.

vítimas de um sol abrasador e longínquo e tecido com aquela espécie de objetividade própria aos astros. Tudo não passara de um mergulho no mar.

riscos rápidos
intensidade

teu cheiro que não me saiu da pele e inundou o ar da minha lembrança
meus pés que pisaram teu coração e dele extraíram o sonho

o sonho que era o sonho de teus sonhos
remoto como o olhar mais perdido

fiz castelos e construí os céus

e cego eu não notara sua presença, você estava ali, toda vestida de branco. Ao lado, um elefante azul brincava com um menino hindu. Quando você esqueceu de apanhar o chapéu que o vento levara, cem estrelas caíram perpendiculares ao seu desejo de céus. Os dados no chão imitavam pedras e seus olhos passavam céleres por um labirinto de coisas, todas elas condizentes com as possibilidades que você imaginava. Cacos de vidro num imenso caleidoscópio, mapas e cartas marítimas. Suas mãos voavam no movimento tênue da madrugada. Altas montanhas observando-nos e banhando de distância as chamas da fogueira, lua cheia crescente.

Wallace via o sangue escorrer e não conseguia atinar como as coisas haviam acontecido. Que espécie de rumor levantara tanta poeira?

Wallace quebrara os pratos, jogando-os contra a parede e o chão, o som difundia-se pelos labirintos da audição e pelos cacos espalhados. Palhaços de cara pintada ausentes de Severina. Como tudo acontecera; seria possível lembrar-se com precisão?

palavras mágicas, nomes e pêndulos. Os séculos. Os séculos. Vejam, os séculos estão mudando de roupa. Agora eles vestem a roupa nova do imperador. Talvez ela seja realmente muito bela, talvez não. Alguma dúvida sempre fica presente, seja pelo tipo de tecido ou seja pela forma que suas dobras têm. Quando o imperador a veste, pois ela, mesmo com todo o uso dos séculos, permanece nova, a metafísica de um determinado alcalóide entra em ebulição e os súditos curvam-se perante a sua beleza.

Peri estava deitado e escutou alguém lhe chamando, perguntando se ele não se levantaria. Acordou e percebeu que quem lhe acordara estava dentro do sonho. Dentro do sonho esta pessoa estava acordada e Peri dormia.

Quando acordou estava irritado. Lembrou-se da manhã que tivera, das discussões que se seguiram, dos maus humores e das necessidades da raiva.

Ainda criança, sentava-se em algum lugar da sala de sua tia e imaginava quebrando cada um dos móveis, a televisão, os sofás, estátuas e depois as paredes, o teto e, enfim, a casa.

As vezes, andava na rua e imaginava-se chutando o joelho de alguém que passasse, imaginava o joelho se partindo. Ou então, lembrava-se de alguém com quem brigara e simulava uma nova luta. Seu corpo respondia e as sensações de fúria tomavam conta de suas células.

Mas o significado dessa violência, era uma seqüência de fatos desagradáveis, como se na verdade eles fossem criados através de suas mentalizações. Um mundo dialeticamente hegeliano, com sua teses, antíteses e sínteses espirituais. A fenomenologia do espírito, o substrato das vontades. Paracelso acreditava que os espíritos podem lutar e ferir os corpos onde se encontram. Do mesmo modo, um espírito provoca lesões em seu corpo. É preciso não apenas tomar cuidado com o que se fala, mas também, com o que se pensa e sente. Pois tudo pode se materializar, as sensações, as vontades, a fé.

Então Peri andou por uma praia de areias brancas e leves, durante horas e horas sem pensar em absolutamente nada, um único pensamento que pudesse passar por sua mente.

Mas, como castelos que se quebram com as ondas, os pensamentos vinham e aturdiam-lhe o espírito, uma sensação difícil de remediar.



Capítulo quinze


- Como seria sua vida se acaso nós nos separássemos?
- Ela continuaria.
- A minha vida também.



capítulo dezesseis


Novamente a paranóia do ciúmes invadia Peri. Um único pensamento era capaz de suscitar toda uma história imaginária, dores, traições e mentiras. A razão se desvanecia e uma corrente de sensações envolvia-lhe o corpo, todavia, procurava apegar-se aos fatos mais do que em suas possíveis conjecturas.

Pela manhã, ela saíra para procurar emprego. À tarde, ligou para Peri.

- Oi, amor. Desculpa por ligar a cobrar. Eu vim para a entrevista daquele anúncio para promoções, aí o dono do escritório gostou de mim e achou que eu me daria bem na área de imóveis, como corretora.
- Que legal, amor.
- Agora ele vai me ensinar o serviço.

Quantas pensamentos diferentes ocorreram a Peri nesse momento? ...Inúmeros! e ao mesmo tempo unidos por apenas uma motivação. O ciúme. Ocorria-lhe que o dono do escritório tinha gostado dela por motivos pouco profissionais, talvez quisesse seduzi-la, aproveitando-se de sua posição e da situação que ela permitia. Peri sentia-se desventurado, naquele momento parecia que tudo o mais não daria certo. Então uma raiva súbita agitava-lhe o coração, fazia com que pensasse de um modo precipitado e agressivo. Pensou em ir até o prédio do escritório para espera-la sair; imaginou a cena da seguinte forma: está encostado em um carro, fuma um cigarro e observa a saída do prédio, então a vê saindo acompanhada do dono do escritório, encaminham-se para o carro e ele abre a porta, ela entra.

Tudo lhe parecia estranho. Por outro lado, talvez fosse verdade. Mas se fosse, caberia a ela dizer não. Ela diria? Peri estava esperando sua chegada, já eram cinco horas da tarde e o tempo passava com a lentidão de correntes. E dentro de si um tumulto estremecia-lhe o peito.



capítulo dezessete


Tendo passado pelo que passou, Peri lembrava e observava que apenas o instante é que conta mais do que suas próprias conseqüências.



capítulo dezoito


- Sonho tenso. - Disse Peri.
- Você está nervoso? Eu não sei por que você é tão nervoso, leva tudo ao pé da letra, não releva nada, tudo lhe magoa, deixa-lhe irritado. Mas você não aceita que as pessoas ajam assim com você. Por que você faz tanto drama? Quer sair, sai. Eu não posso, tenho que olhar minha filha.



capítulo dezenove


O eterno jogo de espelhos, mensagens e imagens repetindo-se no infinito espaço das palavras. Gestos. Atitudes dispersas somando-se e subtraindo conclusões. Pistas.

Onde estará Wallace? Teria caminhado tanto que esquecera de voltar? Ou andará a procura de novas terras?

Peri voltava seu pensamento a questões puramente reflexivas. Idéias. Mas as idéias não são os fatos. Ou então, o pensamento condicionado pela repetição constante de frases e imagens específicas, seria responsável pela mudança da realidade, mesmo que a realidade pessoal, intransferível. Se você afirma que uma coisa é determinada coisa, todas as outras coisas deixam de ser a determinada. Porém, com a infinidade de possíveis determinações, encontraríamos outra que fosse a que inicialmente você afirmou. Mas ora, se todas as outras deixam de ser à que você definiu como tal, como seria possível que outra também a fosse? Há níveis de existência que não podemos captar, ainda que, de um modo ou outro, interfiram em nossa condição. A realidade, seja ela interna ou externa, na sua amplitude e correlação espontânea, não pode ser observada em sua totalidade. Então, todas as afirmações, em maior ou menor grau, são sempre parciais, não contêm a realidade como um todo, mas apenas seus reflexos. Todavia, essa parcialidade não deixa de ter suas conseqüências; não é porque uma afirmação não é completa que ela necessariamente não traga conseqüências. A observação dos fenômenos naturais, sejam eles de que espécie sejam, traz, desde os primórdios do homem, conceitos que, independentes de sua veracidade, causaram as conseqüências ao homem. O pensamento não é nada se não consegue se adequar a realidade.



capítulo vinte

Peri olhava as sombras que se projetavam na penumbra do quarto.

Lembranças. Histórias passadas, impressões.

Susceptibilidades.

Enigmas. Quantas são as dúvidas que invadem seu espírito quando a realidade deixa um rastro de sonho?



capítulo vinte e um


Tudo que fosse cabível, explosão de fatos, reações em cadeia, códigos e éticas. Ou quanto isto é inútil. Quão medíocres são as farsas sociais, seus valores mesquinhos, ultrajes do bom senso prático. O óbvio disfarçado. Assim, Peri em trânsito pelos corredores e alas de castelos inimagináveis, pensava se um dia aprenderia, se seria possível a compreensão do que chamamos vida em sociedade. Entrelinhas.

Para a vida social é necessário que exista o fator da necessidade. Chamo fator de necessidade o aspecto mais sutil e instável que envolve o homem, uma série ininterrupta de transformações geradoras de transformações. O homem supre uma necessidade e para isso ele cria novas. O universo em expansão. A necessidade faz com que o homem viva em sociedade. Mas, quem um dia não a detestou? Suportou-a? Assim, para viver em grupo, é necessário que se crie normas, regras, leis, códigos, conceitos e demais peculiaridades da mente humana, da tentativa vã de adequar a realidade à consciência. Agora, imagine o tamanho da trama que o homem tece diariamente, o número de histórias, versões, intrigas e situações burlescas. O mundo gira. Mas quais são as verdades que não podem ser refutadas? As verdades que pertencem ao mundo físico, palpável. Não como alguns pré socráticos que foram apedrejados, porque afirmaram que um móvel lançado no espaço, jamais atingiria o seu alvo. A dúvida, a constante procura de adequação entre o que se necessita e o que se obtém. A eqüidistância entre o mundo total e o mundo meramente humano. O grande problema de todos os filósofos é achar que apenas a compreensão humana é capaz de captar o todo. Não obstante, o mundo é físico, e como tal responde, reage às modificações causadas pelo homem. Em maior ou menor escala, dos problemas ecológicos às brigas conjugais, a luta faz com que o homem perca a noção de conseqüência, pois, por ser germinada de possibilidades, a realidade futura transforma-se num lance de dados. O que se nota é a perda da consciência coletiva e individual. Uma luta injusta e degradante. Onde o mal aparece mais que o bem, onde a fraqueza transforma o homem em covarde. Ao que parece, os estados de espíritos mais negativos alicerçam a realidade do convívio humano e sua relação com o todo. Vejamos o seguinte, um homem ao saber de uma sentença judicial, envolvendo um atropelamento e omissão de socorro, proferida pela boca do seu advogado, olha a janela às suas costas e se joga do alto de um centro empresarial. No mesmo instante, várias e várias pessoas postam-se em volta do local, sedentas para ver e comentar a tragédia. Ao passo que no outro lado do quarteirão, um grupo de músicos andinos cantam no meio da calçada, com seus instrumentos típicos, suas flautas e o seu ritmo próprio. Poucas pessoas ficam em volta para apreciar a música. Pois a curiosidade humana, no decorrer de sua evolução, voltou-se mais para os perigos que ameaçavam sua existência, condicionando sua atenção no que pudesse lhe causar mal. Assim, ao abrir um jornal ou ver um noticiário, a tragédia humana é sempre mais comentada. Mas, quem não erra? Quem consegue ser perfeito, quem? Do que adianta falar e falar e falar? Se você pode estar certo, você pode estar errado. O maior problema da vida em sociedade é que se produz um modo de vida artificial. O homem com suas facções mentais se artificiaria cada vez mais, seja no modo de alimentar-se, vestir-se, respirar, andar, seja no modo de sentir. A história é simples, se o Sr. X afirma que determinada coisa aconteceu e com isso consegue fazer com que outras pessoas acreditem, então, aquela determinada coisa passa a existir no tempo passado, reinventando o presente. Pois, se as pessoas acreditam no Sr. X, elas voltam sua mentes ao passado e confrontam com as medidas a serem tomadas no presente, pensando em evitar posteriores problemas. Ora, em que fatos baseia-se o homem no meio de toda essa farsa? Ou por que a tecnologia não se coaduna com o mundo natural.

O homem não se desenvolveu em sociedade por causa da necessidade de seus instintos. Os instintos o levaram apenas às concepções de grupo; a precariedade de sua condição fez com que se apoiasse nos laços da família. Assim, com a constante luta pela adaptação, surgiu um elemento na mente humana que fez com que a vida passasse a ter um elemento diverso da realidade. O pensamento surgiu como fonte avassaladora, transformando e adaptando o mundo a sua volta. Fez-se a dicotomia entre instinto e pensamento, a diferença entre certeza e noção. O instinto contém o discernimento mudo e exato, sem explicação, enquanto o pensamento, perde-se no mundo das palavras, do raciocínio; o instinto baseia-se no princípio natural, na engrenagem viva que circunda cada coisa, é o elemento que une o íntimo do homem ao mundo como um todo, um agente consubstanciado. Porém, o mesmo instinto que faz com que se preserve, faz com que se destrua; e assim que o homem percebeu este fato inegável, foi obrigado a começar um processo do qual nunca mais se libertou, a contenção do instinto. Veio a grande armadilha, enfraqueceu o instinto e tornou-se escravo do convívio social. Nasceu a moral, uma tentativa absurda de substituir os princípios naturais.

Mas tudo isso não passa de tolice, estamos onde estamos e é impossível voltar. Resta-nos apenas o analgésico.



capítulo vinte e dois


O Parque Balneário Hotel.

Para Peri tudo estava modificado, desde a fatídica reunião que tivera com o assistente da direção, os gerentes e os demais recepcionistas. Os interesses que estavam em jogo aludiam à uma questão diferente do pronunciado; o Gerente pretendia derrubar o chefe da recepção que, por sua vez, queria derrubar o assistente da gerência. Uma reunião circense, onde palhaços e engolidos de fogo apresentavam seus dons. Lá estavam eles, reunidos na sala denominada de “aquário”, encolhendo-se dentro de máscaras e posturas silenciosas. Um jogo de significados dúbios, trapaças e chantagens sutis. Na mesa sentava-se o assistente da direção, o filho do dono, o ciclope de estatura baixa que trazia dentro de seu olho o irmão mais novo. Ao seu lado esquerdo, estavam o gerente e o seu assistente, feições sérias e tiques nervosos. Ao lado direito, o chefe da recepção e os demais recepcionistas à sua frente. Momentos antes de se iniciar esta reunião, houvera uma briga entre o gerente e os recepcionistas, ânimos exaltados. O gerente, com seus cabelos grisalhos, óculos grossos e infindáveis trejeitos, gritava com os recepcionistas, acusando-os de irresponsáveis, incompetentes, verdadeiras crianças no mundo adulto; os recepcionistas reclamavam de seus salários baixos e cobranças altas, a falta de confiança e o descontentamento geral; o gerente incitava-os a falar na reunião, que aproveitassem-na para fazer suas reclamações diretamente ao assistente da direção (um modo sarcástico de cumprir seus desígnios). Meia hora depois, a reunião começara.

O assistente da direção olhava a todos com desdém e aborrecimento. Na verdade era ainda muito novo e imaturo, um rapaz arrogante e irritadiço, incapaz de noções de respeito ou reconhecimento pelos outros. Depois de um silêncio que parecera uma eternidade, ele franziu as sobrancelhas e esfregou uma mão na outra.

- Estou esperando, podem falar.

Ninguém falou.

- Quem começa? - perguntou secamente.

Novamente ninguém falou.

- Eu quero saber o que está acontecendo. Qual o motivo de tudo isso? Por que tantos erros estão acontecendo?!

E em coro todos responderam:

- É. As coisas estão ruins. A recepção está uma droga.
- Isso eu sei. Eu quero saber o por quê. Quem começa?

Um dia antes, o chefe da recepção pedira para que ninguém falasse nada, mas nesse momento da reunião, ele falou:

- A recepção está uma merda!

Peri revoltara-se com aquela atitude; como podia ter dito uma coisa daquelas? seria possível? Todos os outros recepcionistas, apesar da revolta demonstrada dia a dia, se calaram e tentaram não demonstrar seus sentimentos.

- Vamos! Você, por que as coisas estão dessa forma? - apontara para Peri.
Naquele momento, Peri esquecera a prudência e o sentimento de preservação. A injustiça da política administrativa do hotel era, no mínimo revoltante:

- Hoje em dia as coisas mudaram muito. O hóspede, como consumidor, é cada vez mais exigente. Vivemos numa época onde a carência da relações humanas faz com que o indivíduo busque cada vez mais ser melhor atendido, sentir-se importante, notado e respeitado. O hóspede, além disso, precisa de simpatia, cordialidade, calor humano. Enfim, o bom atendimento. E para um bom atendimento é necessário investimento, estudo e uma prática condizente. Agora eu pergunto se terá valido a pena, todo o dinheiro empregado no mármore que recobre a recepção e o lobby do hotel, assim como o restaurante e o bar e os banheiros, se um hóspede é mau atendido. Por acaso o mármore recobre o descontentamento do hóspede? Ou será o contrário? É importante saber que o seu funcionário é um patrimônio, dele depende a relação direta com o hóspede, subestimá-lo é um erro muito grave. É óbvio que a advertência é necessária, mas ela deve servir para corrigir um procedimento errado, não se pode apenas punir, é necessário que se reconheça os acertos, incentive-os a acontecerem sempre. O problema é que as noções de qualidade são mais difíceis de definir em se tratando de atendimento. A preocupação pelo o que está errado subjuga a preocupação pelo o que está dando certo. Faz-se mais alarde pelo erro do que pelo acerto. Veja por exemplo como os setores se comportam um com o outro: não há um espírito de cooperação. A maior parte é hostil. A verdade é que se esquecem da relação mútua de necessidade. Um setor depende do outro para que o hotel funcione; tudo está intimamente ligado. Quanto a culpa ou responsabilidade, o que se nota é um constante jogo de empurra-empurra, quando algo acontece errado cada um tenta jogar a culpa no outro. Ninguém procura reconhecer o erro e tentar entendê-lo e corrigi-lo. Você diz que um erro não justifica outro, é uma máxima e tanto, porém um erro provoca outro erro. E se você esquecer disso, mais e mais erros irão acontecer.
- Não estão contentes, a porta está aberta para irem embora. Há várias pessoas que gostariam de trabalhar aqui.
- É verdade. Você já parou para pensar qual a média de tempo um funcionário permanece no hotel?
- O mau ou o bom funcionário?
- Não importa. Eu já vi vários bons funcionários saindo. Agora, como elevar e manter um padrão de atendimento com equipes que duram apenas alguns meses? Profissionais que entram sem experiência no ramo, sem preparação. Não há uma política de treinamento, o funcionário entra e é jogado para trabalhar. Quando mais tarde ele adquiriu experiência, aprendeu o serviço necessário para o básico de suas funções, ele se vê desligado do hotel. Seja por um motivo ou outro, a maioria parte por descontentamento.
- Pelo visto você não tem mais nada a aprender conosco.
- Pelo contrário, eu aprendo a cada dia.
- A reunião está encerrada. Mais alguém tem alguma coisa para falar? Não? Podem ir. Menos você - dirigiu-se a Peri. Olha, ninguém aqui é moleque. Quando você tiver a sua empresa eu posso até lhe ajudar, mas aqui você não sabe como é difícil administrar. Fala, o que você quis dizer?

Então Peri percebeu que seu emprego estava em jogo. Repetiu tudo o que disse antes. No final, se levantou e olhou diretamente nos olhos do assistente.

- Tem mais alguma coisa para me falar? - o assistente não respondeu. Tem certeza? Não quer me falar mais nada? Ótimo. Boa tarde.



capítulo vinte e três


O mar enfim agitara-se; o céu com seus ventos e nuvens cinzas descia às encostas do morro. A enseada de São Vicente agigantava-se com a tempestade que parecia chegar. Peri caminhava pela orla e as ondas batiam nas amuradas, explodindo em água e voltas, cruzavam-se e sucediam-se, uma a uma, ininterruptamente. A velocidade dos passos chocava-se com o movimento das ondas e o espaço físico tornava-se múltiplo; na mente de Peri as realidades espaciais se mesclavam e transformavam o entendimento - como quando se anda rente a um muro e olha-se para baixo, a velocidade do chão difere da velocidade do muro, que difere da velocidade da rua por onde se está passando. Mera questão de perspectiva. Ou o mar e seus bons presságios.



capítulo vinte e quatro


O Número Absoluto. Tela Plana de cores, dores, documentos, estigmas, idiossincrasias. Tudo o que pode e deve ser cometido, permitido. Assim, quando buscaram encontrar os restos mortais, acharam um punhado de terra e, imediatamente, pensaram na falta de sentido. O mundo lógico pareceu-lhes uma piada de mau gosto. O que fariam, então? Tente imaginá-los. A rua está escura e vazia, uma luz pálida ilumina as poças de água deixadas pelas ondas. Não, tudo isso é besteira. Você nunca conseguirá imaginar o que sente uma pessoa, o que se passa por dentro. O que eu lhe disse talvez tenha sido pouco. Esse é o problema.



capítulo vinte e cinco


“ Já não sei de mais nada. A verdade é que não estou sentindo nada. É muito difícil compreender, tem muitas contradições, se você levar muito a sério acaba enlouquecendo. Você se irrita e se irrita e isso não lhe leva à nada, apenas a um recrudescimento da alma. Digamos que exista uma doença que, aos poucos, endurece a pele. Então, ela se torna dura como uma carapaça e você não pode mais se lamentar, pois está rude e grosseiro como a casca de uma árvore. Uma árvore antiga, daquelas que se erguem gigantes aos céus e banham de sombra tudo à sua volta. Um mero silogismo, uma música. Agora nós brigamos, ela saiu para buscar sua filha na escola e ficamos assim, silêncio cortado de constrangimento. Enfim, a vida é bela. Talvez esqueçamos de alguns princípios básicos de felicidade, mas isso não é tudo. A felicidade, se fosse um estado habitual, constante, nos tornaria muito mais imbecis. Quando estava apagando o cigarro no cinzeiro, senti vontade de fumá-lo mais um pouco, então parei o movimento antes que o cigarro se apagasse por inteiro. Ele não apagou, mas me fez ver que, apesar de ainda estar aceso, tornara-se mais fraco e amassado. Fez-me pensar. Estávamos voltando de um passeio. Ao entrar pelo portão eu disse algo e ela perguntou o que eu dissera. Seu olhar estava perdido e eu imaginei que ela estava olhando um homem que vinha em direção contrária. Aquilo me irritou, parecia que ela estava absorta, olhando a ponto de não me escutar. Então gritei. Entramos no prédio e no elevador ela gritou comigo. Chegamos em casa e não nos falamos. Depois ela me disse que iria buscar a sua filha. Eu lhe disse que ela havia sido muito grossa.”

- Grossa?! E o que você me fez? Acho que você é louco. Deveria olhar mais um pouquinho para o que você faz. Mas não! Você está acostumado a fazer as pessoas de capacho.
- Vem aqui, senta do meu lado.
- Tira as mãos de cima de mim!
- Você pensa que está falando com quem?
Então eu segurei sua nuca e puxei seu cabelo.”

Incompatibilidades.



capítulo vinte e seis


A filosofia alemã, plena de sua grandiloqüência, substitui em Nietzsche uma pergunta farta de sua presunção típica. O conhecimento da verdade deve estar a serviço do homem, e não o homem ser servo da verdade. Há que se conhecer apenas o que é conveniente, proveitoso para quem obtém o conhecimento. Caso contrário, do que vale a sabedoria daquilo que nos traz dor, se nada irá mudar o fato? Ou a ignorância pode ser fonte de alegria? Peri caminhava pelas arestas do pensamento, um mundo vasto e repleto de enigmas, abstrações e encantamentos. Hegel considerava o pensamento como fonte motor da realidade; Feurbach olhava deus como a representação humana de deus, um fruto. Qual a chave para se entender a prepotência germânica? Teriam , por isso, causado a Primeira e a Segunda Guerra Mundial? O nazismo nasceu na Alemanha, não sendo mais que a personificação cruel da prepotência. Nietzsche ao falar do super homem plantou nas cabeças menos preparadas um ideal de raça superior, etnia pura e forte, homens loiros, altos e de olhos claros, superiores aos outros homens. A história humana, como já comentado anteriormente, é dividida entre dominados e dominadores, fracos e fortes, ou qualquer outra designação suficientemente precisa para definir esta estrutura antagônica. Mas o que impede o homem de se estruturar de modo homogêneo? Que sempre existiu desigualdade é uma parecer bastante coerente, mas como definir padrões de superioridade onde é exatamente a diversidade que possibilita a existência? A força física há muito deixou de ser um elemento qualificador de superioridade, a inteligência, unicamente, não é suficiente para definir o êxito que se deseja. Existem casos que fogem aos padrões, entenderíamos assim que estes casos pudessem ser considerados como exceção, porém, analisando a humanidade como um todo não podemos deixar de incluir as particularidades, caso contrário, cairíamos em um erro significante. Por exemplo, sabe-se que um renomado físico inglês, desvendador de mistérios matemáticos e astrofísicos, sofre de uma doença que lhe permite apenas alguns movimentos com os dedos de uma das mãos. Por outro lado, acontece que algumas pessoas com grande inteligência não conseguem adaptá-la às necessidades quotidianas, onde a vida requer um esforço maior que o intelectual. Ora! Por que alguém pode considerar-se superior a outro, se na verdade são as circunstâncias que definem a adaptabilidade e, por conseguinte, a superioridade? Não quereríamos dizer outra coisa?

Então Peri pensou nas mulheres que teve.



Capítulo vinte e sete


Tendo passado por onde passou, Peri.

No cinema o filme deslizava suas fotografias enquanto a alma transportava-se. Um anjo, ao levar para o céu uma criança, perguntou-lhe o que ela mais gostava em vida. A criança respondeu-lhe que gostava muito de pijamas e de ficar descalça. Mais tarde o anjo apaixona-se por uma mulher, perde a condição de anjo e, quando enfim consegue ficar com sua amada, ela morre. Um anjo lhe pergunta se valeu a pena e ele responde que sim, pois teve em suas mãos as mãos dela.

Peri chegara ao ponto; de um lado deveria mudar, consertar seus defeitos, conter sua agressividade, de outro lado teria que aceitá-la tal como ela era. Mas o que lhe adiantava discutir se a mudança não se processava, se os erros eram sempre os mesmos e os acertos cada vez mais difíceis? Se tentarmos relembrar o relacionamento veremos uma série de brigas e discussões permeadas por momentos de amor, como se tentassem semeá-lo no deserto. Ao bem da verdade, a intensidade de suas brigas foram mudando, a regularidade foi diminuindo, porém as palavras ecoavam com mais e mais profundidade. Estavam juntos há dois anos, dois longos e intensos anos. Haviam brigado novamente e o motivo novamente fora o ciúme de Peri. Desta vez ele não alterou a voz, não gritou, não berrou ou xingou. Peri se conteve.

Esmiucemos mais os fatos.

Agora ela estava trabalhando em um escritório de vendas de produtos de limpeza. A sala era dividida por esse escritório e um ateliê de uma costureira. Uma pequena porta os separava. Então, Peri sentia-se enciumado, uma sala fechada. Enfim, a imaginação, a insegurança e a possessividade de Peri faziam com que se sentisse amargurado toda vez que o homem que trabalhava com ela atendia o telefone. Outra coisa que o irritava era as roupas que ela usava. Digamos que nada indecentes, porém provocantes. Calças justas, decotes, mini blusas, lingerie sumária, saltos nas sandálias, batom, perfume e tudo o mais que aos olhos de Peri a tornavam decididamente insinuante. O modo como os outros homens a olhavam certificava o que Peri sentia. Desse modo, tornava-se enciumado. Gostaria que só a ele provocasse desejo. Ou melhor, que ela só provocasse desejo nele. Assim, pedia que ela evitasse determinadas roupas. O problema era que todas as suas roupas eram assim. Peri achava que uma mulher realmente precisava sentir-se provocante, porém não todos os dias, em todas as ocasiões. Uma vez ele lhe perguntara o que ela pensava que os homens imaginavam ao ver uma mulher com uma roupa provocante, ela respondeu que eles deveriam pensar em sexo. Então, obviamente, ela sabia. O problema é que algumas mulheres subverteram a beleza, transformando-a em um atributo quase sexual. A beleza romântica deixou de existir. E por mais que ele tentasse mudar o seu modo de vestir, nada a demovia de suas vontades. Enfim, voltemos ao novo emprego. Em uma tarde Peri telefonara para ela e o homem atendera o telefone, disse que estava em uma ligação e logo a passaria. Porém, ao invés de reter a ligação o homem desligara o telefone. Peri aguardou alguns momentos e telefonou novamente. Dessa vez ela atendera.

- Violeta. Boa Tarde.
- Alo! O que está acontecendo? - perguntou Peri.
- Nada.
- Como nada? Tem certeza que não está acontecendo nada?
- Não. Por quê?
- Porque eu liguei e desligaram o telefone na minha cara.
- Onde você está?
- Em casa.
- Ainda?! - disse a mulher com uma ligeira irritação.
- Eu já estou indo.

No caminho, um crescente nervosismo invadia Peri. Os pensamentos tumultuavam-lhe a razão e ferviam-lhe o sangue. Estava disposto a subir no escritório e ver o que estava acontecendo. Quando chegou, subiu apressadamente as escadas e a encontrou descendo.

- Vamos subir.
- Por quê? - perguntou assustada.
- Porque eu quero conhecê-lo.
- Você não vai fazer escândalo no meu serviço.
- Não, eu só quero conhecê-lo. Invente uma desculpa.

Depois, ela subiu, abriu a porta do escritório e chamou Peri, sem desculpa alguma. Peri não subiu. Ela desceu as escadas e saiu andando rapidamente. Peri foi atrás e quando conseguiu pará-la ela gritou que não queria mais vê-lo na sua frente. Ele foi embora.

Ou seja, os relacionamentos prosseguem enquanto as ilusões persistem. Imaginamos que podemos mudar, que podemos melhorar; acreditamos que os defeitos acabarão e, enfim, poderemos aceitar e sermos aceitos. Iludimo-nos pela força que o amor nos confere.

Mas mesmo assim, é preciso acreditar, antes que o vazio inunde os corações. Incrível, não?



capítulo vinte e oito


Desde que Peri saíra do Balneário Hotel, muitas coisas ocorreram-lhe, muitos empregos sucederam-lhe. A força da mudança arrastou-o por caminhos desconhecidos.

Nesse exato momento, se prestarmos atenção no significado obscuro das palavras e voltarmos nosso olhar para um ponto de nosso imaginário, veremos Peri sentado na recepção de um flat; está novamente trabalhando de madrugada, vendo as horas escorrerem por entre as linhas da noite. Veio de um jantar com amigos, está levemente embriagado e o flat fervilha com músicas ao vivo e festas de casamento, moradores que reclamam, hóspedes que não entendem nada e um tumulto subterrâneo de carros e vozes dispersas, entradas e saídas, acompanhantes pedindo chaves, telefone tocando, ligações externas, internas, luzes e buzinas, tilintar de copos e garrafas, um murmúrio que cresce e agiganta-se madrugada afora. Peri está triste, sem saber o que fazer com seus sentimentos contraditórios, caminhos que se bifurcam a sua frente, sinais, códigos e enigmas sutis demais para serem captados. Está trabalhando, está estudando e espera uma oportunidade, pois acredita que todos têm oportunidades na vida, bastando vislumbrá-las e, principalmente, aproveitá-las. Assim, espera pacientemente com seu trabalho, aprofundando seus estudos e sua determinação. Há muito tempo, em uma remota conversa com uma amiga, disse que as pessoas só poderiam vencer na vida, acumulando riquezas, através da desonestidade. A amiga respondera que com trabalho constante e muito estudo, seria possível mais que vencer na vida. Depois desse dia, Peri tomara para si as palavras da amiga e, desde então, vem trilhando seu caminho. Árdua e pacientemente.

Mas observemos melhor Peri. Seu coração está confuso e sua mente luta contra o que sente. De um lado sente falta, carência dos carinhos da mulher, dos seus abraços, risadas e beijos afoitos, por outro a razão lhe diz que o melhor é ficar só, pois o relacionamento tornara-se pesado e as brigas continuaram constantes. Quanto tempo Peri terá para resolver seus problemas pessoais? Sentimentais?! Conseguirá? Ou o peso de suas emoções esmagará suas costas cansadas? Ou então seus sentimentos serão leves e seus relacionamentos equilibrados? Está confuso e pensa se por um acaso a escolha de suas parceiras não terá influenciado no seu comportamento. Talvez, com isso, tente subtrair-se da culpa, arrumando subterfúgios para seus defeitos ao invés de simplesmente resolvê-los. Mas quantos dos presentes leitores, que ora se perdem ou se acham nas aventuras e desventuras de nosso herói, conseguem resolver seus problemas? Mas, enfim, pergunto-lhes: existem problemas insolúveis? ou somos nós que adiamos suas soluções?

Vejam, Peri se levanta e vai descansar, enquanto o outro funcionário toma seu lugar. Ele está deitado, seus olhos se fecham mas sua mente permanece acesa e, como em um filme, recorda pensamentos e cria novos. Palavras, fatos, cheiros, pedaços de diálogos, metas e toda uma profusão de idéias que lhe perpassam o espírito. Está calmo, por incrível que possa parecer. E absorto em seus pensamentos não consegue adormecer, sente os minutos somando-se uns aos outros. Em breve sua hora de descanso acabará. O sono dos justos será apenas à noite?



Capítulo vinte e nove


- Você não tem vergonha? Olha a roupa que você está vestindo, roupa de vagabunda - Pronto! Estava dito, para Peri o nervosismo havia subido de tal forma que não conseguia controlar suas palavras. Dois dias atrás ela havia recebido um telefonema. Estavam em casa e vieram avisá-la. Peri a esperou e depois, como estava atrasado, resolveu descer. Ela estava no corredor.

- Quem era? - perguntou Peri.
- A minha ex-sogra. Disse que minha filha está linda. Meu ex-marido se casou. Eles estão morando onde morávamos.
- É mesmo?

No dia seguinte disse que iria a São Paulo buscar sua filha mais nova que ficara com o ex-marido. Era um Sábado. A noite Peri saíra sem ela. Pensava no que significaria esse reencontro. No Domingo ela iria com a filha mais velha e o pai que lhe daria uma carona.

- Não se preocupe, eu não vou encontrá-lo. Pedi para a Neuza ficar com a minha filha me esperando em um ponto da avenida. Eu não gosto daquele lugar, me traz péssimas recordações. Tudo o que eu vivi naquele lugar. Olha, não se preocupe, eu só vou pegá-la e venho embora. É rápido, de tarde eu estou de volta. Eu não quero destruir nenhum relacionamento, sei que eles se casaram agora.

Afora isto, no Sábado, chegaram em sua casa o irmão, a mulher do irmão, a irmã da mulher do irmão e seu namorado, todos convidados a passar o fim de semana. A sua casa já estava mais que lotada. Mesmo assim, sem dinheiro, ela resolveu trazer a filha. Então Peri se perguntava quais eram os motivos que levavam aquela mulher a agir dessa forma. Que espécie de senso de realidade a norteava? Para Peri era um enigma. Outra coisa, há tempos Peri não falava com a irmã da mulher, em virtude de um processo longo e exaustivo, onde tudo o que lhes acontecia era contado à irmã. Dessa forma, e por outros motivos menos agradáveis, Peri e a sua cunhada pararam de se falar. Chegou-se a cogitar a origem do problema relacionada com o ciúme que ela sentia de uma namorada em relação a Peri. Sim, a irmã era homossexual. O que para Peri não significava nada. Porém, como a namorada da cunhada fazia muitas perguntas a respeito da intimidade de Peri, ela passou a ficar desconfiada e enciumada. Desde então, subterraneamente, suas relações modificaram-se, depois ela passou a querer destruir o relacionamento de Peri. Pois, além de tudo, culpava-os pelo fracasso do seu namoro. Uma pessoa amarga, fofoqueira, insegura, egoísta e má, que muitas vezes abandonou a irmã. Enfim, era alguém que Peri tinha que conviver, direta ou indiretamente. Assim, como a casa estava cheia e Peri não descia devido ao constrangimento que um encontro causaria, a situação do fim de semana agravava-se. Nesse dia a mulher e sua filha dormiram na casa de Peri.

No Domingo ela chegou as nove horas da noite. Tendo passado a tarde na casa do ex-marido. Quando chegou, Peri estava triste.

- Chegou tarde. Pensei que não iria demorar tanto.
- Que foi? Qual o problema de eu ter ido ver a minha filha. Você é muito egoísta, só pensa em você, você e você o tempo todo. Por que você não me apoia? É difícil ver alguém feliz além de você? Eu não fiz nada de errado.
- Não destruiu o casamento? - indagou Peri, ironicamente, tentando controlar seu nervosismo.
- Não, não destruí casamento nenhum. Olha aqui! Você... - então ela começou a gritar e acusar e repreender e criticar, numa profusão de palavras, Peri a empurrou.
- Você não tem o direito de gritar comigo, entendeu? - Peri gritava. Quem você pensa que é? Já não chega ter gritado comigo na rua, semana passada? Você não muda, vai ser sempre assim. Olha sua roupa! Você tem convidados na sua casa, um homem praticamente estranho e, no entanto, esta aí, calça de malha colada no corpo, calcinha enfiada na bunda, mini blusa. Você deveria ter um pouco de vergonha. Eu vou buscar um espelho, não é possível que você não tenha idéia do que está vestindo.

Resumamos os fatos. Quem era essa mulher para Peri? O que, na verdade, esse relacionamento trazia à vida de Peri? Podemos notar alguma esperança no fundo do relacionamento? Tentemos responder.

Primeiro: quando Peri a conheceu, se apaixonou. Depois, logo depois, descobriu coisas sobre o seu passado que o deixaram bastante desconfortável, talvez irremediavelmente magoado, pois sua imagem havia se quebrado. Mas estava apaixonado e, desde então, lutava consigo mesmo.

Segundo: afora os momentos de carinho, amor e prazer sua vida conjugal era uma constante de tensões, desconfianças, fofocas, preocupações e brigas, muitas brigas. Peri chegara a agredi-la fisicamente, em uma dessas brigas que se prolongavam por dias, perdera a cabeça e agredira-a. Seu rosto ficara marcado, seus olhos machucados e a lembrança dessa cena causava arrepios na alma de Peri. Desde então nunca mais a agredira, procurando controlar-se. Porém, a mulher era possuidora de uma língua ferina e, assim, as discussões prosseguiam e a mulher gritava. Peri se controlava. E se controlava e se controlava. A tensão permeava seu relacionamento. Outro fator preocupante era a inclinação que ela tinha pela mentira. Mentia muito e isso deixava Peri cada vez mais apreensivo. Era-lhe difícil acreditar no que escutava, pois a mulher mentia como falava a verdade. Não que Peri não mentisse, porém não com a mesma freqüência e por qualquer motivo. Afora isto, havia a família da mulher. Peri não falava com o pai e com a irmã dela, devido as constantes brigas que nunca ficavam só entre eles. Ela, junto com a filha e a irmã passavam por necessidades financeiras, pois ambas não conseguiam ficar muito tempo em seus empregos e o pai, que morava em outra casa, parecia não se preocupar muito, talvez devido a constância desses problemas.

Terceiro: para melhorarem seria necessário uma mudança drástica em suas concepções e modos de vida; seria necessário apagar as mágoas e as culpas; seria preciso aceitar um ao outro como eles eram, dentro de suas limitações, o que nunca ocorreu e que talvez nunca ocorresse. São vidas diferentes, talvez com objetivos diferentes. Ou seja, nunca saia com alguém com mais problemas que você.



Capítulo trinta


Na manhã do dia seguinte Peri estava deitado em sua cama. Alguém bate na porta. Ela entra, trêmula, chorando e muito nervosa.

- Eu nunca vou lhe perdoar! Agora quem não quer nada sou eu! Nunca mais eu quero lhe ver. Você me chamou de vagabunda, mas quem é safado é você!
- O que aconteceu? - Peri, sem entender nada.
- Eu não vou contar. Mas quem me contou não iria mentir para mim.
- Minha consciência está tranquila.

Ela saiu com as mãos tremendo e os olhos faiscando raiva. Peri voltou a deitar, quando estava quase adormecendo o interfone tocou, o porteiro avisava que iriam cortar sua luz. Uma conta atrasada que Peri havia esquecido de pagar. Cortaram a luz. Quando deitou-se novamente, uma britadeira, na avenida em frente, começou a quebrar sabe-se lá o quê. Peri sorriu para o que lhe havia acontecido e adormeceu. Quando acordou, tentou conversar com a mulher novamente. Porém, ela estava inflexível e trouxera para casa uma amiga que Peri detestava. Enfim, um típico jogo idiota.






























PARTE QUATRO


Contemos o óbvio. Recontemo-lo! antes que partam os navios com seus vapores e óleos queimando, suas ondas de metal pesado, boiando por entre mundos e mundos afora, como se o tempo estivesse cansado de contar suas horas, dias ou instantes de rápidos olhares. Recontemos os fatos e suas abrangências antes que os trens partam e se encontrem com os navios, transatlânticos de nossos corações. Aflitos, perdidos ou rejuvenescidos? Abramos os olhos para as ilusões do mundo, pois o rio corre e sempre encontra o mar. Agora que o tempo é outro e a realidade baila com suas cores indescritíveis. Abramos o coração e sintamos sua pulsação enigmática e incansável. O tempo urge! Ouçamos a música que atravessa paredes e invade as ruas. A música que faz dançar.

É preciso contar as conchas que estão na beira do mar. Tome-as na mão e interprete seus desenhos, leia-as como se estivesse lendo sua vida. As vezes, é possível enxergar a si próprio. Cuidado! Nas esquinas os carros derrapam e a chuva persiste em sua verticalidade relativa. Ande ou navegue, olhe, toque o olho do furacão, redemoinho de céus e noites e dias suspensos no etéreo de todo momento.

Assim é só assim.

Os desertos assolam a alma e o calor do dia vence o frio da noite. Não se esqueça: é preciso navegar, mesmo que por mares nunca dantes navegados.

Não sei o que digo... Todo o recomeço é difícil. Não importa, desde que seus olhos escutem as imagens que se despregam das palavras que ora voam pelos campos da virtualidade, pelos ares de nosso fôlego, de nossa respiração unida no indefinível. A literatura não tem fim, é um complexo ir e vir de palavras que se misturam nos mais diversos mundos, sonhos onde se tocam os corpos distantes. Estrelas e universos desconhecidos, lugares escondidos no mais íntimo pensamento de nossa solidão, união de gestos. Enigmas. Ou como o vento transformou-se numa luta. A dança do tempo.

Tenho muitas coisas para contar, uma a uma eu as contarei e recontarei. Depois... virão outras e outras.



Capítulo um


Alcemos vôo. A realidade é um paradigma cruzando significados e imagens; um olhar afoito sobre os campos do pensamento.

Agora que tudo havia mudado. Transubstanciavam-se os sentimentos e clareavam-se as noções de espaço.

Peri estava separado há quatro meses. Um belo dia, a mulher vira e lhe fala que gosta dele, porém não tem esperança que o relacionamento possa dar certo. Separaram-se. Não de corpo ou de alma, mas de algum modo impreciso. Estavam cansados um do outro, esgotados pela rotina árdua do relacionamento, enfim, inundaram-se de desesperança. Viam-se pouco, algumas vezes ficavam juntos e depois brigavam. A mulher o procurava pouco, nada daquele desespero habitual que demonstrava quando terminavam o relacionamento. Certa vez, por Peri estar com uma amiga em sua casa, ela provocou uma situação desagradável com seus gritos e acessos de ciúme. Uma semana depois Peri a vê entrando em um carro com um homem grisalho. Outra semana depois, sua mãe morre. No dia seguinte, ela liga para Peri e este a chama para conversar. Ele a consola, abraça-a e enxuga sua lágrimas. Ela se acalma e depois lhe pergunta se ele não sente vontade de fazer amor com ela. Olha nos olhos de Peri e o beija na boca. Fazem amor e ficam abraçados.

- Você não ficou com ninguém esse tempo que estamos separados? - perguntou a mulher.
- Não.
- Não acredito! Dois meses e você não ficou com nenhuma mulher? Logo você!? E aquela sua amiga, vocês não transaram?
- Não, eu não fiquei com ninguém.
- Não ficou. É mentira, você não quer me contar. Pode contar, eu não vou ficar com raiva.
- Não sei porque você acha tão difícil não ter saído com ninguém esse tempo. Eu acredito que você não tenha transado com ninguém.
- Eu transei.
- Ah! - Peri fingiu não ter escutado.

Depois ela desmentiu, disse que havia saído com um homem, mas que eles não transaram, apenas se beijaram. Depois desmentiu novamente dizendo que o homem apenas teria pegado em suas mãos. O homem a que ela se referia era um amigo do chefe do seu trabalho. Tinha quarenta e cinco anos e morava em São Paulo. Quando ainda estavam juntos esse homem a convidou para sair, ela havia contado a Peri. Disse que depois de muito tempo ele novamente a convidara e ela aceitara. Fora a vez em que Peri os vira. Peri achou a história absurda e no dia seguinte chamou a irmã da mulher para conversar. Então soube da verdade, eles estavam saindo há dois meses. Ou seja, a mulher o havia trocado. Bastante simples: ela estava trabalhando, não dependia mais de Peri e um homem mais velho e melhor posicionado começa a cortejá-la. Assim ela fez sua opção. Afinal de contas o relacionamento estava esgotado. Porém, dois meses depois, ela procura Peri dizendo que o ama perdidamente. E o que ocasionou isso? Bastante simples, o homem que ela havia optado não satisfez seu coração. Uma briga com a irmã e esse homem mudou a imagem que a mulher tinha dele e isso se somou a uma série de pequenos deslizes. Então ela voltou desesperada para Peri. Mas Peri sentia-se traído, ou pior, sentia-se trocado por um homem mais velho, justamente o que sempre temera. Uma amiga, em determinada ocasião, dissera a Peri que chegaria o dia em que a mulher optaria por uma situação melhor, um homem que talvez ela nem amasse, mas que a faria abandonar Peri. E foi o que aconteceu. Peri sentia-se enganado.

Algum tempo depois, Peri está dormindo e sonha que esta brigando com a mulher, insultando-a e agredindo-a porque ela havia transado com o homem. Depois, estava com seu pai em um barco e uma baleia cinza escura os acompanhava bem de perto. Peri pergunta ao seu pai se, depois de tudo o que havia acontecido, ele voltaria o relacionamento. Ele lhe responde que não. Logo em seguida a mulher acorda Peri e o mundo dos sonhos invade a realidade. Peri está nervoso e a mulher o empurra duas vezes. Estão discutindo e Peri joga a mulher no chão. Ela machuca o ombro. Peri se arrepende.

- Eu não lhe odeio, eu só estou me sentindo fraco, diminuído. Sinto sua falta, mas depois que ficamos juntos começo a me lembrar do que aconteceu e então eu vou ficando com raiva. Acabou a confiança que restava, o pouco que sobrava. Você voltou mentindo e à cada contradição, à cada detalhe, eu me torturo. Desculpe, eu não queria lhe machucar, eu não acho tudo aquilo que eu disse de você. Eu não...

A velha e mesma história, somente com uma roupa diferente.
Em quatro meses Peri recuperou os amigos, seu espaço, suas mulheres e sua tranquilidade. Por que voltar e perder tudo novamente? Para Peri era o suficiente.



Capítulo dois


O mundo dançava com sua música incompreensível, agitava e movimentava os corpos entregues ao devaneio do ritmo.



Capítulo três


Espaço ultra sideral. Peri na cadeia por porte de drogas.

Sensação ribonucléica, sombras, teria bastado o instante passado, se fosse outro que não aquele momento fugaz: “Agora é tarde, seja bem vindo”.

- Já tô no quinhentos. Quando chegar tô fora.
- Tirei da mão dele. Ele fumô, fumô, fumô e depois passô pro Marcelo.
- Agradecido por ter deixado dar um dois, Pezão.
- Falei alguma coisa? Eu não falo nada. Eu fito vocês fumando mesclado e não falo nada, não é?
- Bigode! Não vai afiar a faca?
- ... um real, um real. De repente a gente tá fumando um baseado e o Pezão grita: A bala! A bala! Cadê a bala? - tava todo desesperado. Não é pra dá-lhe um salve?
- Quem tem uma agulha pra costurar a cortina do boi?
- Ali! Ali!
- Aí, passa o bagulho, Pizza!
- Só vive pedindo, hein Bala?
- De quem é essa linha aí?
- Então, não empresta porra nenhuma.
- Não é assim não, Zé Galinha. Vai estragá a agulha.
- O cara ao invés de tirar um pedaço e fazer aos poucos...
- Ô! Num sei fazê o bagulho não!
- Caraco! Sonhei que a minha família inteira vinha amanhã me visitar.

Calor. Calor. O suor tornando a pele pegajosa, a mente entorpecida. Todo mundo no boi. Seria preciso uma quantidade absurda de neurônios para provocar o pensamento? Ou tão somente o inexplicável poderia surtir efeito? Um cheiro ruim, feias palavras e uma espécie indefinida de desconfiança mútua e absoluta. Sexta-feira, todos os dias. Mudanças bruscas, drásticas.

Certa vez Peri pensara se um único momento poderia mudar uma vida inteira. Caso alguém por um instante inadvertido de sandice fizesse uma besteira e fosse preso. Mas Peri não conhecia a cadeia. Não fazia idéia do que era. “Agora é tarde, seja bem-vindo”. Essas palavras escritas na parede do xadrez entravam e martelavam a cabeça de Peri, ao mesmo tempo que o tranquilizavam. Não havia motivo para tudo aquilo, nada que justificasse. Erros da lei, enganos da vida, figuras disfarçadas em posições confusas. Ou seria possível uma realidade diferente, onde duendes e ninfas brincassem com o concreto estúpido das cidades? Onde estaria Alice? Talvez correndo atrás de coelhos apressados ou sumindo em árvores ocas e caindo em labirintos literários. Ou apenas qualquer coisa que valesse o momento perdido. Lições recebidas.

- Ô! Acorda pra gente fumá.

...
Pessoas, pessoas e mais pessoas. Dezenas, centenas, somadas, divididas e multiplicadas. Regras. Uma tela de grade obstrui o céu. Observem, fitem atentamente as estrelas atrás da telas. A lua mingua e brilha. O céu é outro e promete sol.

Lista de abstinência:

• Janela;
• Maçaneta;
• Coca-cola gelada;
• Chuveiro;
• Espaço;
• Liberdade.

Espaço. Suscetibilidade de moléculas no ar, ritmo. O convívio forçado, absoluto. De novo as palavras saltando pelas grades e invadindo o espaço banhado de sol. O sol de um céu azul. Inteiro.

A Cadeia Pública de São Vicente era uma caixa de papelão sendo aberta e repentinamente cortada por telas de ferro, formando seis retângulos enferrujados. Do lado oposto a grade principal, olhando-se para cima, podia-se divisar uma pequena torre no canto direito. Algumas câmeras monitoravam a cadeia, na tentativa de impedir fugas. Sumário de atrocidades. Verdades atrofiadas.

Ou teria o sol se posto exatamente como antes ou seríamos loucos por acreditar. Poderíamos ainda estar sonhando em um mundo de vigília onde figuras apoplécticas movimentavam-se com a rapidez do insensato. A lei. A arbitrariedade do absurdo, o jogo das entrelinhas e consequências inesperadas, operadas. A lei, castelos de artigos e parágrafos e tolices que se mesclam, condensam-se e jorram pela boca dos advogados, promotores, juízes e latrinas estatais. A Cadeia Pública de São Vicente. A humildade, a fé em Deus, a paciência, a parcimônia. Figuras díspares que conviviam lado a lado, ligações, catataus. O comércio aberto das ligações: a troca do tudo por tudo, valores, pendências, promessas. Os códigos linguísticos, linguagem fragmentada, metafórica, extra sensorial. Seria o suficiente? A fé.

Um sono leve e persistente pesava os olhos de Peri. O ventilador lhe batia no rosto um vento seco e os pensamentos se perdiam nas imagens da televisão. Confuso mundo estático, imprevisto.

Produto interno bruto. Roupas íntimas na televisão:

- Olha só!
- Imagine essa mina na cama. Você tirando os bagulho
dela, só na moralina.
- Cachorra!
- Vagabunda!
- Gostosa!!!

O mundo televisivo entrando cela adentro, como se as grades fossem substâncias transpassáveis, como se o mundo se abstraísse e tudo passasse pelos transistores do velho aparelho de tv.

De uma cela avistava-se as outras. Luzes acesas, movimento contínuo de pessoas e objetos, cortinas, toalhas, colchões. Peças de um jogo apocalíptico. Superpopulação, explosão demográfica instantânea. A cadeia é o supra sumo do convívio, com suas regras, seus códigos e suas hierarquias. A cadeia ensina a paciência, a fé no que está além do homem. As vezes uma vontade rompe no peito: passar pelas grades e esquecer que existem outras. Entretanto o mundo de lá fora é o mundo aqui. As vezes, entram no xadrez e começam a agredir, socos e gritos. A violência está em cada olhar, em cada gesto que se esconde. Os presos esperam o erro, a circunstância que possibilita o estouro do ódio contido e fomentado pelas trancas. Algemas. Em determinados momentos os presos parecem crianças jogando papéis uns nos outros, brincando como brincam os meninos de tenra idade. As crianças são cruéis. Outras vezes, unem-se e se defendem zelando pela segurança e pela moral de todos.

- O cara ia mandá subi duas pedras. Eu falei o seguinte: duas pedras eu não quero. E ele disse que eu tava tirando ele, que eram duas pedras de cinco. Então eu disse que não fumava pedra. Mas eu fui soberano, fui sábio. Deus disse pra eu não vender o tênis.
- Mas o tênis era seu?
- Não! Era do moleque que atracou de madrugada.
- Mas foi o tênis do Menor ou do moleque que foi pra treta?
- Num quero sabê! Se subi aqui vai tomá um salve porque foi pilantra. Aqui é tudo bandido ruim, mas é na rua que é ruim. Aqui só se for zica.
- Você vai pra faxina?
- Vou. Eu vou pra faxina e vou dar uma força pros manos aqui de cima. E se a cadeia virá, vai ser água quente e facada. Meu barato é colocar ladrão contra polícia.
- No Dacar morreram sete.
- Fala pra ele!
- Aí, Níveo! Liga lá quem tá usando a água.
- Vamo embora.

O concreto. Teriam estado em muitos lugares sem sair da cadeia. Peri contava os dias e as horas passavam desorientadas. Lembranças da rua, das pessoas, dos encontros, dos projetos de vida. Não se via o horizonte. O céu brincava no quadrilátero gradeado da cadeia e nada mais. Somente as celas, a galeria e o pátio embaixo.

- Qué i’mbora, né Ciço?
- Quero. Mas os cara num querem deixá!

A lei. monstro sem pé nem cabeça. Peri em liberdade novamente.



capítulo quatro


Quantas coisas já não aconteceram a Peri? Uma a uma, ele as superou, paciente ou desesperadamente. Sabia que as provações existiam para que fossem superadas e que Deus exigia dele, apenas o que ele poderia suportar.



capítulo cinco


Peri ainda pensava na mulher. Quando fora preso, suas relações estavam conturbadas, então a mulher se aproveitou da situação e foi à cadeia. Consolou-o, foi atenciosa e carinhosa. Depois, com a liberdade de Peri, ela fez tudo para agradá-lo, era paciente, compreensiva e não demonstrava o seu ciúme. Todos os dias o procurava e, por incrível que possa parecer, não discutiam. Um belo dia, ele resolve contar à ela que havia traído-a com oito mulheres diferentes. Disse que contava isto para que pudessem ser sinceros, para que o relacionamento fosse baseado na transparência. E assim, pediu que ela lhe contasse o que realmente havia acontecido com ela e o homem que ela havia saído quando estavam separados. Ela lhe respondeu que nada havia acontecido, que o homem estava interessado nela e que ela não havia percebido. Quando percebeu, resolveu se distanciar. Depois, disse que sabia, desde o começo, que o homem a desejava, mas como ela gostaria de esquecer Peri, resolveu sair com o homem, mas que mesmo assim nada havia acontecido. Saíram por três meses e, segundo ela, apenas um beijo acontecera. Peri, então pensou o que faria um homem de quarenta e cinco anos ficar saindo com uma mulher de vinte e cinco apenas para conseguir um beijo. A mesma e velha história. Depois desta conversa, no dia seguinte, Peri resolveu voltar o relacionamento com a mulher. Os dois primeiros dias foram ótimos, porém, no terceiro dia, começaram as brigas. A paciência, o bom humor, a compreensão e o carinho subitamente sumiram. Três dias depois, as mentiras da mulher começaram a aparecer. Primeira: a mulher continuava tendo contato com a amiga que Peri não suportava. Segunda: uma vez, quando a mulher disse ter ido só à uma festa da empresa, na verdade havia ido de carona com o chefe. No outro dia, como a mulher não parava de discutir e mentir, Peri resolveu olhar a sua bolsa, dizendo que se ela não tinha mais nada a esconder, ela nada precisaria temer. Depois de muita briga, ela cedeu e Peri encontrou um número de telefone sem nome anotado. Ele perguntou de quem era e ela disse que não sabia. Ele subiu à sua casa e ligou. Um homem atendeu o telefone e disse se chamar Luiz. Ele voltou e perguntou à ela quem era esse homem, ela respondeu que era um grande amigo. Um grande amigo! Peri não acreditou, pois no dia anterior a mulher estava acusando-o de não ter amigos por sua causa. Então ela resolveu ligar para o homem para Peri constatar que eles não tinham absolutamente nada. Vejamos um fragmento do diálogo:

- Alô! Luiz? Desculpa eu estar ligando a esta hora. Sua esposa está aí? É que o meu namorado está pensando que nós estamos transando, que nós estamos saindo para beber cerveja...

A velha e mesma sórdida mentira. Peri não aguentava mais. Ter suportado todos os problemas da mulher era uma coisa, agora, suportar outros homens já era demais. Esse homem, novamente, era uma pessoa ligada ao escritório onde ela trabalhava, um cliente.

Peri tinha consciência de todas as suas traições, mas apenas das suas. Como não foi possível suportar a dúvida e como voltaram a discutir muito, Peri resolveu se separar da mulher. A reconciliação durou uma semana. Ele sabia que a mulher não mudaria, que viveria sempre em um mundo de mentiras, que nunca conseguiria encarar a realidade de frente, pois era fraca e não tinha a menor estrutura. Não era uma pessoa má, porém julgava-se mais esperta do que realmente era.

Era isso, ou era algo que Peri jamais poderia captar. Talvez Peri não tivesse sorte com as mulheres, somente se apaixonando pelos tipos errados, por aquelas que eram muito problemáticas, ou loucas. Mas se isto era verdade, se Peri se apaixonava por esse tipo de mulheres, será que ele não era assim também? Vejamos:

Como estava só, Peri saiu com várias mulheres. Na verdade, estava saindo a um certo tempo. Para ser preciso, logo depois que saiu da cadeia. Duas delas eram do seu trabalho (Peri estava trabalhando em um Flat). Contemos esta pequena história. A primeira era uma mulher que ele havia tido um pequeno caso meses antes, a outra era alguém que ele havia conhecido há pouco tempo. Ficaram apenas nos beijos. Um certo dia, depois de uma festa no trabalho, ele as convidou para irem à sua casa. Chegando lá, sentaram no sofá da sala, Peri no meio das duas. Ora acariciava uma, ora outra, ora as duas. Depois de algumas cervejas, uma das mulheres perguntou a Peri se ela podia deitar-se em outro lugar. Peri a levou para o seu quarto e, enquanto a outra estava na sala, começaram a transar. Em determinado momento, a outra foi ao banheiro e viu os dois. A que estava com Peri assustou-se, vestiu-se rapidamente e foi embora. A outra ficou, só indo embora, após Peri ter dito que sua ex-namorada poderia chegar a qualquer momento. Momentos depois, o telefone tocou. Era uma funcionária do Flat perguntando sobre uma das meninas, a que havia ficado. Resumindo a história: a que havia ido embora ligou para o Flat e disse que estava na casa de Peri dormindo no quarto, quando de repente acordou assustada com Peri masturbando-se nas suas coxas. Peri fora acusado de tentativa de estupro. Felizmente a história ficou resolvida, pois a gerência não acreditou e despediu as duas. Peri certificou-se que as pessoas são imprevisíveis e que, muitas vezes, escondem uma maldade fora do comum.

A outra mulher era alguém que acompanhava a vida de Peri há sete anos. A mulher de olhos verdes que sempre perguntava o que Peri achava dela. Nos momentos em que mais precisou, como na morte de seu pai, ela ali estava ajudando-o, confortando-o e acompanhando-o. Peri sabia que ela o amava, pois já havia suportado muitas coisas. Desses sete anos, ficaram separados dois, o exato tempo em que Peri estava com a mulher que quase o enlouqueceu. Quando soube que não estava mais namorando, ela o procurou novamente. Passadas as atribulações, a ex-namorada e as duas loucas que quase estragaram sua vida, Peri resolveu dar uma chance à si e à essa mulher. Começou a namorá-la. Estava tranquilo, pois nunca brigavam e a mulher fazia de tudo para agradá-lo, porque o amava muito e não conseguia ser diferente. Peri a respeitava.



capítulo seis


Um mês depois da separação, a mulher resolveu procurar Peri. Estava bêbada e gritava ao telefone; ligara para o serviço de Peri. Ficaram juntos, mesmo depois de tudo que Peri já havia passado. Poucos dias depois, a mulher é desmascarada. Uma pessoa lhe conta tudo o que Peri até então apenas desconfiava. Primeiro: a mulher teria namorado com o homem grisalho. Segundo: ela não só transara com o homem de quarenta e cinco anos, como também engravidara e tivera que abortar, com cerca de um mês.

Peri pensava:

“Eu tenho pena de você. Você é fraca, mentirosa e sórdida. Eu tenho pena de suas mentiras, pena de suas fraquezas, de sua burrice, de sua estupidez sem tamanho. Você mente para você mesma, de tal modo que acredita no que inventa. Durante seis meses você me fez passar como o mais imundo dos homens, mas você pode ter certeza que eu não engravidei ninguém, e nem me envolvi com ninguém por causa de dinheiro. Muito menos me envolvi com alguém casado, que é, ao que parece, seu tipo de homem predileto. O tipo que basta mentir um pouco, ser agradável e cavalheiro e lhe levar para sair. Tudo muito fácil e sujo. É uma pena, você perdeu quem você ama simplesmente porque você não se ama, não se aceita como é e nem aceita sua vida. Está sempre culpando os outros pelas suas frustrações, fazendo-se de vítima, de pobre coitada. Você não aceita nem ao menos o seu passado (que não pode ser mudado). No seu mundo de fantasia, você é sempre a vítima e os outros são os culpados. E quando se descobre que você não é a vítima que parece ser, você chora, se descabela e implora por uma chance. Uma nova chance. Na verdade, uma cadeia ininterrupta de chances. Eu gostaria que você fosse diferente do que é, gostaria que aquela pessoa que eu tanto amei quando eu conheci, não fosse uma farsa. Você me ama. É verdade. Mas o seu amor por mim não impediu que você fosse para a cama com outro homem; um homem vinte anos mais velho que você. E o pior de tudo é que você, mesmo quando a mentira é desmascarada, continua mentindo e mentindo e mentindo. Por que o medo de me perder não impediu que você fizesse tantas burrices?

Eu sinto pena de nós dois. Tanto amor jogado fora, tanto sentimento jogado na latrina das mentiras e das traições. O que mais me dói não é você ter tido outro homem, o que mais me dói é você ter dito que eu fui o único. Eu gostaria que você tivesse me escutado, tivesse acreditado que eu queria ser sincero, que eu queria recomeçar porque eu lhe amava e poderia suportar toda a verdade. Mas apenas a verdade, porque a mentira já havia me envenenado há muito tempo. Eu gostaria tanto que você tivesse mudado, como eu venho tentando mudar. Mas não!!! Daqui a pouco você se envolverá com outro homem e dirá para você mesma que eu fui o grande culpado de tudo. Sua banalidade apenas esconde sua dor, mas não a tira de você. Suas mentiras apenas camuflam sua vida, mas não a modificam.

Eu estava tão feliz, com medo mas feliz. E você estragou tudo. Desfez o sonho que começávamos a reconstruir. Hoje eu não comi, não dormi; estou fraco e suando frio. Espero que você tenha aprendido a lição, e se não aprendido pelo menos entendido. Nunca mais minta para você mesma, procure aceitar-se antes que você não saiba mais diferenciar a farsa da realidade, antes que a mentira lhe envolva os olhos e a boca por completo. Antes que você se perca de você. Porque se isso acontecer, eu nunca mais poderei lhe encontrar.

Ficamos assim: meio que mutilados emocionalmente. Ficamos tontos, sem saber onde estamos e o que fizemos um do outro.

Enfim, a vida é bela! Não é mesmo?”



capítulo sete


Estamos onde estamos e não podemos voltar. O caminho é longo e sinuoso.

Uma tristeza leve e persistente invadia os sonhos de Peri; um descontentamento sem sentido. Peri estava assim: duas mulheres o amavam perdidamente. Uma era a ideal, porém ele não a amava. A outra, era fraca e Peri a amava loucamente. Então sofria porque sabia que não poderia reatar o relacionamento; sabia que a mulher continuava mentindo e mentindo. Tinha total consciência de que ela não mudaria, ou mudaria apenas por um breve tempo, ou o teria nas mãos e depois o jogaria fora, porque estaria com dúvidas e o acharia novamente um monstro, ou arrumaria mais uma vez um homem que lhe fosse conveniente. Ou tantas outras coisas quanto se sentia desnorteado. Gostaria que ela fosse diferente, que fosse uma mulher madura, que pudesse se aceitar e que tomasse atitudes sensatas.

Mas ela não era assim e agora afirma que quer mudar e pede a ajuda de Peri. Mas Peri se lembra que em todo o relacionamento ele tentou ajudá-la. Lembra-se que lhe ensinou muitas coisas, entre elas a importância do trabalho e quando ela, enfim, conseguiu manter-se empregada, ela o abandonou para ficar com outro homem. Quando ela não mais dependia de Peri e sentiu-se segura para abandoná-lo, pois havia outro homem que lhe dava segurança.

Peri remói seus pensamentos e não sabe o que fazer. Ou melhor: sabe, mas não quer. Porque seus sentimentos estão irremediavelmente presos à essa mulher, mas a razão é contrária; a razão lhe diz que deve abandoná-la. Entretanto, espiritualmente, Peri acha que deve perdoá-la, que deve ajudá-la e entender suas fraquezas de caráter. Peri acha que deve ser bom, pois só assim crescerá efetivamente. Mas existem mágoas e medos profundos no coração de Peri. Mas existe uma força que o leva à mulher, uma força irresistível que o faz pensar, sentir e existir em um plano tão diverso da razão, da coerência; um vento que transporta suas palavras e as funde aos sonhos.



capítulo oito


Muitas coisas lhe aconteceram; independente das dúvidas você continuou, independente das mágoas, você prosseguiu. O tempo passou, você se casou e a vida continuou com seu ritmo incompreensível ao olhar humano. Quantas coisas teve que superar, em quantas outras você errou? Onde você está, Peri? Descendo uma escada escura e confiando em Deus para não cair ou sentir medo? Responda antes que seus olhos deixem de enxergar a luz que teima em aparecer no horizonte escorregadio de seus sonhos. Vamos! Levante-se e erga a cabeça.



capítulo nove


Peri corre em disparada, está na mata densa de seus pensamentos e sentimentos. Uma névoa encobre o caminho a sua frente, ele está nervoso e grita. Olha para o céu e parece que a noite caiu repentinamente.



capítulo dez


Palavras. Esmiucemo-las, comparemo-las. Façamos planos. Labirintos de palavras ou palavras únicas. Nada mais do que palavras. Sem que esqueçamos os atos, os fatos com sua força intempestiva.

As palavras são sinônimos de realizações. Não esqueçamos, as palavras são potências, seres que se multiplicam em velocidades diversas, que tramitam pela tênue divisão entre a potência e o ato. São os veículos da fé, as movimentadoras da realidade sutil de nossas almas.

Ou será o silêncio o grande segredo que se guarda atrás das portas e fechaduras dos cofres?

Meditemos. Sem palavras, meditemos com o vento brando que varre o sol no primeiro dia de novembro do ano quarto de nossas vidas. Olhemos lentamente as ondas quebrando sob os pés dos banhistas, as crianças correndo pela areia, as bolas, os vendedores de sorvete, os olhares dispersos das pessoas despercebidas do tempo; escutemos a conversa fragmentada pelos grãos de areia, as buzinas dos carros que passam pela avenida, os ruídos perdidos no esquecimento de nossas mentes. Sintamos o sonho que se desprende de seus rostos serenos, aquecidos e avermelhados pelos incansáveis raios do sol. Vejam! Quantos sonhos! Vontades de crescer na vida, de encontrar a metade perdida, de ter um carro novo, a marca tal, a viagem esperada, os braços da amante, tantos sonhos imperceptíveis buscando seus caminhos enigmáticos pela vontade de Deus.



capítulo onze


A velha e quase mesma história. Peri se casara com a mulher, estavam vivendo juntos há seis meses. As discussões e brigas continuavam, se bem que com menor intensidade e regularidade. Nos últimos dias o humor da mulher havia se modificado, estava menos paciente e mais agressiva. As ofensas se repetiam, tudo o que não poderia ser dito, o era. Criticava-se cada defeito, cada erro, generalizava-se a falha e demolia-se o caráter um do outro. E no meio de tudo isso, havia amor, carinho e compreensão. O grande problema é que eles próprios não se entendiam. Aos poucos viam desmoronar seu frágil relacionamento. Cada briga necessitava de muito energia para recompor o equilíbrio, e muito pouco para destruí-lo. Viviam assim, um dia se amando como loucos, outro se tratando como bebês e no outro se agredindo e se ofendendo profundamente. Uma corda bamba. A mulher o acusava de suas frustrações, dizia-lhe que era fraco, inseguro, cafajeste, safado, agressivo e uma série de outros predicados menos educados. Peri não ficava atrás, insultava-a também. Ele sentia que aos poucos o amor da mulher ia diminuindo, tornando-se cada vez mais fraco; parecia-lhe que ela estava triste, insatisfeita com a vida que levava, não mais suportando o ciúme de Peri, mas também não admitindo o seu. Brigavam, passava a raiva e depois se perdoavam, jurando nunca mais cometer os mesmos erros. Mas os cometiam. Sentiam o silêncio crescendo entre eles, as vezes dormiam separados, quando não admitiam sequer se tocarem, tamanha a raiva e as mágoas causadas pelas agressões e ofensas. Viviam assim, com alguns dias de tranquilidade e outros de fúria. Peri se perguntava se todos viviam assim, perguntava-se até quando viveriam assim, até quando ou quanto suportariam.



capítulo doze


Outra briga. Outra discussão. Mais uma briga. Menos um pedaço do coração.



capítulo treze


Baila o vento nos coqueirais, siris nos manguezais. O escuro canto das escadarias, a fumaça persistente do cigarro, um mundo oculto nas malhas do invisível, do imperceptível. Silêncio de terras de outrora. Rumores. Pessoas.

Na recepção do flat em que Peri trabalhava, as pessoas passavam carregando consigo o peso de suas vidas. Algumas deixavam dúvidas, outras reclamações e outras deixavam alguns agradecimentos sinceros e respeitosos. Eram iguais em suas diferenças, não importando suas origens, suas histórias, não importando seus nomes, idades e crenças. No fundo, eram todos iguais. Alguns moravam há anos, outros passavam horas. Comparando-se ao ritmo dos hotéis, esse flat era bastante parado. No começo Peri o chamava de paraíso. Mas muitas coisas aconteceram, muitas e muitas coisas em menos de dois anos. Como na vida de qualquer pessoa, dois anos equivalem a muitos anos, ou equivalem a dias, ou horas, ou apenas à recordações. Pedem suas chaves, marcam horários para serem despertados, pedem favores, falam de suas vidas, comentam seus planos. Passam, apenas passam.

Mas não era isso que Peri pensava. Estava preocupado com seu relacionamento. Sabia que estava novamente acabando, ou, digamos, tomando os mesmos rumos do passado. Não tinha idéia de como melhorar, de como evitar tantas brigas. Uma coisa era certa, ele nunca soubera tanto de si, como passou a saber depois desse relacionamento conflituoso. Sabia de si não apenas pelos conflitos surgidos no dia a dia, mas principalmente pela mulher, pois era dona de uma crítica mordaz e persistente, analisando detalhe por detalhe, cada frase dita, cada intenção, cada gesto, cada expressão facial. Por outro lado, ela admitia bem pouco as críticas dirigidas à ela. Assim, Peri, com assustadora minúcia, sabia de suas falhas. As críticas não se resumiam a ele, eram abrangentes e envolviam família, emprego, amigos, relacionamentos passados, ou qualquer outra coisa que pudesse incomodá-la. Havia amor, é verdade, mas que espécie de amor os unia? Estavam cansados e o cansaço crescia. Os erros eram muitos e os acertos difíceis.

Peri está no seu trabalho, e em breve, voltará para casa. Provavelmente a mulher estará dormindo, o que será melhor, pois evitará mais brigas.



capítulo quatorze – 05/09/99


Estamos em 05 de novembro de 1999, venta muito e o calor aumenta, em breve choverá. O mar está bravio e a maré, aos poucos, está enchendo. Peri abre os jornais de sua memória, as imagens desfilam e se misturam com as palavras e os sons. Um jovem estudante entra num shopping center em São Paulo. Assiste uma sessão de cinema americano e no final aponta sua sub-metralhadora para o público e começa a atirar. Três pessoas morreram. Um homem endividado, um gerente de uma pequena fábrica, casado, resolve cortar o braço para receber o dinheiro de um seguro e pagar suas dívidas. O golpe é descoberto e o homem processado. As chacinas viraram banalidade, todos os dias homens, mulheres e crianças são vítimas de chacina. Os órgãos oficiais estipulam como causa a guerra do tráfico. Outros pensam em acerto de contas. O mundo enlouquece, os hospícios abriram suas portas e os loucos contaminaram os sãos. Agora, a loucura é institucionalizada. Se o dirigente de uma nação resolver invadir outra, menor e menos poderosa, ele o fará. Poderá argumentar que tal ou qual país não está respeitando os direitos do ser humano. Então, ele invade e destrói em nome dos direitos universais. Os países pobres continuam sendo explorados, as pessoas pobres tornam-se mais pobres, a fome ainda mata, assim como algumas doenças que se consideravam erradicadas. O mundo floresce em tecnologias avançadas, o espaço torna-se próximo.

Mas como estará o relacionamento humano? As coisas simples e boas da vida?

Peri anda devagar pelas ruas e sente o vento contornando-lhe o corpo. Não quer pensar em seus problemas, mas eles insistem em aparecer. O dia é cinza como o azul de seu coração.



Capítulo quinze


O tempo vem passando e pelas ruas o sol se derrama em brilhos e o azul marinho completa-se com a encosta verde. Peri tenta fugir de seus pensamentos, mas eles o perseguem sorrateiramente pelas palavras que escapam de seus neurônios. O mundo inteiro de uma vez. O tempo passa e, em suma, a história é a mesma, acrescida, obviamente, das particularidades do ritmo da vida.

- É isso, eu quero me distanciar, resolver meus problemas, me encontrar. Sei lá, eu preciso disso, eu não quero mais depender de ninguém, quero trabalhar, ganhar minha vida – dizia Ceci, como se decorasse um texto passado pelos momentos que havia vivido com Peri. Não fique triste comigo, mas depois de tudo o que nós já passamos...
- Não, discutir o nosso relacionamento de novo não.
- Tá bom, eu não vou falar nada, senão você fica nervoso, vai ficar triste, é melhor não. E nós já nos distanciamos, nós não estamos mais casados, lembra-se?

E assim a história se repetia com seus diálogos intermináveis, lembranças e mágoas e raivas e frustrações e conflitos de sentimentos. Por que continuar? Por quê? Se tudo parecia terminado há tanto tempo? E se não tivessem se conhecido? Namorado, casado, separado, namorado, separado? Mas Peri amava Ceci e o tempo passava com o sol que banhava as ruas. Segunda-feira, meio dia. Dia e meio e ponto e vírgula.



capítulo dezesseis


Enésima qüinquagésima vez. O tempo fluindo como se fosse outro. A mesma coisa. Peri e Ceci haviam se separado novamente, perdendo o pouco que construíram no decorrer de cinco anos. A vida toma rumos diferentes e as pessoas se separam. Ou as pessoas se separam porque simplesmente não conseguem viver consigo mesmas.



capítulo dezessete


Esqueçamos, porque a vida passa rápido demais, tão rápido que quando nos damos conta os anos se foram e a vida tomou outros rumos. Não nos desesperemos.

Para que saber? Ocultar-se em pensamentos e mais pensamentos sobre o que nem ao certo se sabe. Lembra-se de sua infância, quando você assistia os filmes de ficção científica e ficava maravilhado com o que via? Carros voadores, telefones com imagens, robôs, naves espaciais, tele-transporte e tudo aquilo que em você causava espanto? Pois é, chegamos ao futuro! Aqui estamos e não temos como voltar. Podemos apenas prosseguir.

Boa viagem!



capítulo dezoito


Um mundo de lembranças! Tudo o que viria a acontecer fazia parte do passado. O passado, pesado como cem muros, marcando o rumo dos acontecimentos, inexoravelmente. Memórias; frases que foram escutadas outrora e que de repente sobem à tona da consciência e nos caem como se fossem adivinhações. Engrenagens de um mundo em movimento, translúcido em sua cegueira emocional.

Eis que Peri estava só. Fazia algum tempo que não via mais Ceci. Voltara aos amigos, aos exercícios, à literatura, enfim, tudo o que lhe fazia bem e preenchia os eventuais vazios que o tempo, com suas configurações complexas, produzia em seu cotidiano.

Daremos uma panorâmica.

- ...Você lembra daquele cara que eu lhe contei, que
eu tava saindo, alto, forte? – perguntou a amiga, ao telefone.
- Lembro, aquele que tinha queixo grande – disse Peri.
- Esse mesmo! Então, fiquei um bom tempo sem sair com ele, aí numa quinta-feira eu, enfim, o encontrei. E o detalhe é que sai com ele durante quatro meses e nós nunca transamos. Achei estranho, mas fazer o quê? Bom, nesse dia ele me levou para o motel. Falou para eu escolher qual eu queria e, inclusive, a suíte. Chegamos na suíte, ele abre a porta, me pega pelos braços e me joga na cama. Já queria transar! Eu disse não, vamos tomar um banho primeiro. E fomos para a hidromassagem. Lá ele fez quase de tudo comigo, uma loucura. Voltamos para a cama e no meio da brincadeira ele fica de quatro e coloca a bunda na minha cara e diz: - Chupa!... – Eu fiquei chocada. Um homem que eu acreditava homem, que eu babava. Eu não acredito, fiquei arrasada. Saí de lá me sentido um bagaço.
- Sei...

Na mesma noite, após essa conversa telefônica, Peri saíra com uma velha amiga para tomar uma cerveja. Quando de repente, ela falou:

- Eu estou com uma pessoa há um ano. É uma pessoa legal, carinhosa, me completa em quase tudo. Quase tudo.
- Como assim?
- Ah! Eu passo mal, subo nas paredes. Você sabe que eu adoro sexo. Tudo bem, um dia sim, outro não, de dois em dois dias. Mas ficar de madrugada vendo a pessoa dormir e você ali nessa situação. Assim não dá!
- Sexo é importante, mas também é perigoso. É como uma droga que você vai querendo mais e mais, e o que é pior: você começa a querer ter outros tipos de experiência.
- Não, sexo é muito bom. É só manter a linha.
- E outra coisa, não é porque a pessoa não quer todo dia que isso signifique que ela não gosta. Tem muita coisa envolvida, o dia que a pessoa teve, como está a cabeça... enfim, várias coisas. O problema é que a mulher acha que o problema é com ela. Mas, não é nada disso.
- Ah! Mas é muito bom, eu não fico sem. No resto é ótimo, é uma pessoa muito legal, madura, tem bom humor, enfim, o problema é que não tem todo dia.
- Engraçado, a maioria das mulheres não gosta de fazer sexo todo dia, se sente usada, sei lá.
- Peri, a pessoa que eu estou é uma mulher – finalizou a mulher com seus olhos verdes vibrando.

Era exatamente o que Peri pensara; o sexo precisa de limites, caso contrário podemos ser levados por um redemoinho de sensações que nos tiram do rumo. Os tempos novos, o homem fragilizado pelo poder conquistado pelas mulheres, as mulheres inebriadas com seu poder, cinco mil anos contra quarenta, vidas que foram mudadas, estruturas fragmentadas pela velocidade dos novos tempos.



capítulo dezenove


Mas voltaram. Passaram uma semana separados e depois tornaram a se encontrar e se beijar e conversar e discutir e se amar. Simples como dois e dois são um milhão de possibilidades. O que os unia? Aquilo que era responsável por sua união? Esse fio que os conduzia sempre ao encontro inevitável, era como uma sina, um karma, como se só assim os dois pudessem aprender algo que lhes faltava, algo essencial. Durante cinco anos se amaram e se digladiaram, passaram por inúmeras experiências, boas e também penosas. E por mais que tenham se ofendido e se magoado, voltavam a se encontrar. O que os unia, com tal força e freqüência? O que se passava no coração de Ceci depois de tantas brigas e falta de esperança?

Ceci estava trabalhando em uma faculdade. Era inspetora de alunos, trabalhava à tarde, chegava as 16:00 horas e saía à meia noite. O lugar era bom, era na verdade uma faculdade de Educação Física, pessoas bonitas e jovens, de bem com a vida, saradas, no jargão do meio. No começo, as pessoas com quem trabalhavam eram ótimas. Junto com mais dois rapazes, ela cuidava da faculdade, das luzes, abrir e fechar salas, alunos, professores, enfim, tudo aquilo que representava a realidade acadêmica. Um dos rapazes trabalhava na guarita, o outro nos andares, juntamente com Ceci. Esse rapaz, mostrou-se uma excelente pessoa, ensinou o serviço para Ceci, era atencioso, brincalhão, contava de sua vida íntima, da sua noiva e os dois assim conversavam nos momentos em que o trabalho diminuía. Ceci contava que estava separada, que não queria saber de homem, que estava interessada em trabalhar, em vencer na vida. Mas Ceci estava carente, acabara de se separar de Peri, sua vida estava difícil, estava sem grana, discutia com a irmã, se preocupava com a filha, vivia nervosa e triste. Passados alguns dias o rapaz disse ao superior que Ceci era um pouco nervosa para o trabalho, que ainda não aprendera tudo. Ceci se enervou e tirou satisfações, discutiram. Antes disso, Ceci foi observando que o rapaz era diferente daquilo que ele mostrara ser, era fofoqueiro, fazia intrigas, saía com as alunas da faculdade, roubava comida da lanchonete, era metido a malandro e assim por diante. Ceci não admitia as coisas, uma palavra mal expressa lhe tirava do sério e, então, seu tom autoritário aparecia. Ceci sentia necessidade de ser notada, desejada, considerava-se antes gostosa do que bonita. Sua vaidade, brincos, perfumes, saltos altos, a aparência que tanto lhe era importante, seu poder. Ceci era descontraída, falava besteiras, entrava na conversa, mostrava-se uma mulher liberal, pra frente, era sexy e sedutora. E depois de tanto tempo com Peri, a liberdade tinha outro valor. Assim estava Ceci, um pouco antes de voltar o relacionamento.



capítulo vinte


Mágoas, mágoas e mais mágoas, Ceci não suportava olhar Peri contrariando-a, o menor gesto, palavra ou intenção era responsável por uma série de constrangimentos, humilhações, voltas infindáveis ao passado, gritos, xingamentos, discussões e mais discussões. O relacionamento definhava e as brigas aumentavam. Ceci lembrava-se de tudo o que Peri lhe fizera e o seu pensamento envenenava-lhe o coração, estava confusa, revoltada, fragilizada. A vida lhe moia os ossos, os nervos afloravam à pele. Seu passado, as coisas que vivera com Peri, a filha que tivera ainda nova, o casamento com o ex-marido, a outra filha que ficara com ele, a falta de recursos e possibilidades, a família problemática, o pai ausente, o acidente na perna que quase lhe valera a mesma, as recordações do tempo que vivera com a mãe, as sucessivas madrastas, os sonhos de consumo. Enfim, a vida.

Depois disso outra briga e outra separação.



capítulo vinte e um


O mar estava em fúria, o vento soprava seus segredos e perpassava pelos olhares atônitos de quem fitava as ondas quebrando-se nas amuradas do calçadão. O azul do céu era frio e emprestava à realidade um tom de mistério, de forças naturais que se unem e produzem mudanças.

O sol pálido esquentava as esperanças de Peri, germinava em si um gosto pela liberdade, pelo avanço de seus ideais e sonhos. Caminhara pela praia, fora à Praia das Vacas e também vira o mar com suas ondas se formando na Garganta e se quebrando nas rochas da Ilha Porchat. O vento e o tempo que passavam.

Onde estará Ceci, estará trabalhando, estará em casa ou estará passeando? Estará triste, nervosa? Ou estará alegre, rindo de tudo o que lhe aconteceu? Será que conseguirão continuar separados ou voltarão um para o outro e serão felizes para sempre?



capítulo vinte e dois


Paulista Praia Hotel, como teria sido em seus áureos tempos, com sua fachada nova em folha, seu restaurante cheio, turistas andando de um lado para o outro no saguão, pegando e deixando suas chaves, banhistas que vinham e iam fascinados com as ondas do mar?

Peri passara por vários hotéis em Santos e, em cada um, se entregara e se envolvera. Os hotéis o fascinavam, suas histórias, seus hóspedes, funcionários, seu ritmo vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta cinco dias por ano, sábados, domingos e feriados, com sol ou chuva, ou seja, uma grande casa de estranhos.

Saíra do Flat em que trabalhara por dois anos e pedira para voltar ao Parque Balneário, o velho e bom Parque Balneário Hotel, tomado pelas garras da família Mendes. Dos filhos, o mais passara a comandar, tornara-se um homem, casara-se e seguia a tradição da família. No Balneário travava-se uma guerra fria, os funcionários não eram mais os mesmos e os que ficaram estavam consumidos pela áurea da intriga. Destilava-se veneno e a desunião fincava suas raízes destrutivas. Os mesmos conceitos arcaicos, a mesma supervalorização do erro e o menosprezo pelo acerto.

Um vento gelado percorria os corredores e rodopiava no lobby arrastando papéis, numa espécie de pasmo que serpenteava suas faces nos olhos atônitos de quem fitava o cotidiano, surpreendentemente novo. À volta.

O Parque Balneário reluzia seus mármores com a luz de suas arandelas e lustres dourados. Os hóspedes iam como as horas de um relógio, gregos, americanos, chineses, ilustres e desconhecidos.

Ainda retumbam os ecos das festas de outrora, quando o cassino lançava os dados e as roletas giravam suas cifras milionárias. O brilho do lixo polido incansavelmente

Peri ficara um ano no Balneário, primeiro passara alguns meses no Plaza e no Panorama e depois fora transferido. Poucos meses depois o promoveram a chefe da recepção, e assim começara o pesadelo. O assistente da gerência pretendia promover uma recepcionista, pela qual sentia amores desenfreados. Pouco a pouco, os dois foram minando o trabalho de Peri, esmiuçando seus erros e propagando-os, criticando e menosprezando. Uma tática sórdida e muito comum no mundo do trabalho, onde cada um usa as armas que dispõe para construir ou destruir. O trabalho nos mostra como somos, independentemente da fachada que usamos para nos esconder e proteger. Cuidados que tomamos, receios e desconfianças. Muros que erguemos. A política. O poder da meia palavra. A distorção entre o que se ouve e o que se fala. Assim os dois se comungavam contra Peri e tanto fizeram que um dia conseguiram manda-lo embora. Agora estava no Paulista Praia, decadente e esquecido pelo atual dono. Mas enfim, estava trabalhando e era isso que importava.



capítulo vinte e três – 10/05/01


Todas as coisas, modos, pensamentos, desejos. Peri acabara de completar trinta e um anos. A felicidade. Estava bem conservado, a vida não lhe deixara muitas marcas no corpo e seu rosto aparentava uns vinte e cinco anos. As entradas no cabelo permaneciam quase as mesmas, desde os quinze anos quando notara que era calvo. Era de estatura mediana, corpo bem definido e resistente. Seu rosto de traços marcantes com a boca carnuda, os olhos levemente puxados e o nariz forte, completava-se com a testa grande. Tinha um passo ágil, era leve e esguio.

Era seu aniversário; fora cumprimentado pela mãe, Ceci aparecera e desejara-lhe felicidade, seu tio ligara e conversaram um pouco. Seu aniversário transcorreu como um dia comum. Mas não era, porque neste dia completava trinta e um anos.

A meia idade, talvez um pouco mais, um pouco menos. Peri sentia-se bem, estava animado com a possibilidade de ir trabalhar em outros lugares, outros estados, outros países. Sua vida era boa, morava bem, era saudável, tinha amigos e sonhos. Assim vivia, aos poucos. E assim era feliz, independente das tristezas que às vezes sentia. Enfim, era preciso equilibrar-se na tênue linha daquilo que somos e desejamos, temos que viver e aprender, caminhar pelo bem. Sentia-se mais seguro, confiante e calmo. Tinha muita coisa à frente, muito que fazer e viver, muitas pessoas ainda por conhecer, lugares e situações por onde passar no decorrer de seus anos vindouros. O porvir.



capítulo vinte e quatro


Cai uma chuva fina e persistente entre os prédios e as pessoas, entre os minutos e as horas. A luz elétrica se funde com as gotas e as ilumina. É noite, faz frio e os apartamentos acesos parecem olhos fitando a chuva e o tempo. A avenida é um espelho refletindo as vidas que passam.

Peri saíra mais cedo do trabalho, sua intenção era encontrar uma velha amiga. No caminho avistou do ônibus um motoqueiro estendido no chão, uma ambulância chegava nesse exato momento. O ônibus partiu. Dentro dele as pessoas fitavam umas às outras, por falta do que fazer ou pela inerente curiosidade humana. Uma das pessoas era uma mulher que Peri conhecera ainda na escola, estava agora com vinte e nove anos, casada, uma filha de dois anos e meio e o mesmo ar jovial, simpático. Desceram juntos do ônibus, conversaram sobre como o tempo passa rápido e assim por diante.

A vida também passa.

Chegou em casa e ligou para a amiga, mas não puderam se encontrar, pois ela estava indo viajar para o litoral sul.



capítulo vinte e cinco


A chuva persistia no domingo. Na noite anterior Peri se encontrou com Ceci, assistiram a um filme, comeram juntos, conversaram, brincaram um com o outro e, no final da noite, Ceci não quis ficar com Peri; estava ainda magoada, desesperançosa, a vida com ele não dava certo e acabou desistindo de tentar, mesmo tentando. Não sentia vontade de abraça-lo, beija-lo ou acaricia-lo. Peri não entendia porque ela ainda ia a sua casa vê-lo, já que não queria mais se envolver. Peri estava triste e pela manhã chorara como uma criança, não entendendo porque as coisas aconteciam dessa forma e porque não conseguia encontrar alguém com quem desse certo. Não sabia se devia lutar por Ceci, se realmente era essa a mulher de sua vida. Tinha dúvidas, mas toda vez que pedia a Deus que lhe mandasse uma mulher para amar e ser amado, respeitar e ser respeitado, crescer e construir, era Ceci que aparecia em sua vida. Perguntava-se como era possível ficarem assim, não sabia se Ceci...



capítulo vinte e seis


“Foda-se, simplesmente, foda-se. Chega. Basta. Não quero perder a cabeça, não quero mais você. O mal que eu lhe fiz não tem fim e estamos perdoados, porque o mal que eu lhe fiz retornou. Então, então o quê? Se você já leva sua vida como se eu não existisse, como se eu não estivesse aqui. E esse sentimento que tanto lhe desagrada, essa vontade de se ver livre de mim, longe. É isso, apenas isso, chegamos ao fim. Espero que fique bem, eu vou procurar melhorar, continuar tentando, um dia conseguirei, mas enfim, estamos aqui e vivos, bem vivos. Então, é melhor aproveitarmos, não é verdade? Não vamos esquentar a cabeça. Vamos... não, não somos mais nós, somos eu e você. O ano vai ser do bem, não se preocupe”.



capítulo vinte e sete


Esqueçamos os fardos, porque a noite brota do dia. E outro dia é a melhor cura para a longa noite. Demo-nos as mãos e corramos pelos campos, pelas praias e pelos madrigais.



capítulo vinte e oito


O tempo passava e aos poucos Peri se acostumava à nova vida, sem Ceci as coisas eram mais fáceis. Acordara mal-humorado com uma ligação do trabalho, a gerente lhe pedira que trocasse de horário, mas ele antes pedira que lhe trocassem um dia de folga por outro, porque veria seu filho, e a gerente disse que isso era muito complicado, trabalhoso e que não podia. Então, Peri disse que tinha um compromisso e não poderia. O trabalho tem uma tensão constante, as pessoas de repente implicam umas com as outras, desestimulam-se, pensam em desistir, trocar de emprego, conseguir algo melhor. Enfim, o trabalho é isso, o resquício remoto de quando tínhamos que matar a caça ou colher frutos e raízes, uma luta.

O dia amanhecera cinza, como uma leve névoa encobrindo os olhos, projetava-se em outros mil dias e fundia-se com esperanças, memórias e sonhos. O mundo dos sonhos, cidade longinquamente dentro de nós, escutamos música e dançamos sozinhos o compasso da vida, baile sem fim...



capítulo vinte e nove


O tempo, novamente o tempo passando e reformulando lugares e pessoas, sensações e circunstâncias. Ceci procurara Peri e pedira para voltar, dizia-se arrependida, com saudades, não saía de casa, sentia-se só e percebera que Peri não era tão ruim como ela pensava, que ela própria tinha defeitos, não era perfeita, admitira que errou muito nos últimos tempos, que o magoou muito e que o tratava mal. Peri respondera que não queria voltar, era ainda muito cedo para isso.



capítulo trinta


Uma semana depois desse encontro voltaram; a história, caro leitor ainda inexistente, você já conhece, pois um dia nós também nos conheceremos, de um modo ou de outro.



capítulo trinta e um


Viagens intergalácticas, sistemas por explorar, pensamentos, rumores, vidas como as nossas, intuições, o mundo em volta do quarto, o mundo imenso na tela de um computador, na pequena tela de um computador. Pois o tempo é breve como o mais leve sorriso, o primeiro passo de uma criança, um click. Telas e mais telas, links, conversas nem tão fiadas, fotos, vídeos, lugares, hotéis, restaurantes, o que fazer, onde ir, o que comprar, assistir, vestir, pensar.

Mas para você que me lê, sem saber quem e onde, é difícil entender como eu posso querer entabular essa conversa. Nada mais simples, basta que pensemos que o tempo não é tão rápido assim como nos mostra o mundo moderno. Esqueçamos e lembremos deste instante como sendo situado fora do tempo. Assim você me lerá de outra forma, pois estarei a sua frente, ao seu lado. Espero que esteja bem e, caso não esteja, logo estará. As vezes, sinto dificuldade em contar-lhe tudo o que quero, gostaria de prender-lhe a atenção em cada palavra, em cada imagem que se desprende de nossa imaginação. Você sabe que eu não sei quem é você, não conheço sua vida, seu passado, seus parentes e amigos, mas leia-me como estivesse lendo você, pois eu nem ao certo sei em qual dia e em qual hora você está me lendo, pode passar dias, anos, séculos até você bater os olhos no que eu lhe escrevi, talvez você nunca me leia, mas enfim, o tempo passa quer queiramos ou não. Um abraço e até a próxima.



capítulo trinta e dois


Peri estava procurando um novo emprego, pois o Paulista Praia estava aquém de suas expectativas. Nos últimos anos empenhara-se para aprimorar-se e para construir um currículo em perfeitas condições de empregabilidade. Aprendera inglês, francês, espanhol, formara-se em turismo, fizera cursos na área turística e hoteleira, trabalhara em vários hotéis e amealhava uns sete anos na área. Estava procurando, mandando seu currículo para as mais diversas regiões do Brasil. Seus planos eram relativamente simples, pretendia encontrar um bom emprego, continuar estudando e dar aulas em alguma faculdade, pois o ambiente acadêmico lhe era saudável. Gostaria de trabalhar em grandes hotéis, gerenciando-os, conhecendo lugares, pessoas, costumes.

Um mundo inteiro, mundos inteiros, imensos por entre e sobre nossos olhares perplexos, encontrando-se, correlacionando-se num mudo momento de eternidade cotidiana. Peri acreditava que todas as coisas se comunicavam, de um modo bem diverso ao qual estávamos acostumados, mas enfim, uma comunicação feita de silêncio e segredo, de mágica. Lembrava-se de como falava com seus gatos, a maneira como entendiam e respondiam, era como se a idéia ou sentimento que Peri quisesse expressar passasse para o entendimento dos gatos. Outra vez, quando estava na Praia das Vacas com alguns amigos, vira uma borboleta grande, negra e azul, mas de um azul intenso e brilhante que se chocava com o negro, começou a observa-la e a fazer um pequeno som com os lábios procurando chamá-la, ela foi desenvolvendo círculos cada vez menores sobre Peri e, de repente, pousou no seu ombro direito. Ficou um breve instante e depois continuo seu vôo, sua vida que para nós parece ser tão rápida. Mas naquele momento, ele sentiu que o seu tempo e o tempo dela eram iguais, eram breves e eternos ao mesmo tempo.

Outra vez conversara com um cão que conhecera no litoral norte paulista, em Camburizinho. Seu nome era Duque, um cão de raça imprecisa e caráter muito amigável, fizeram amizade prontamente, depois de vencido o medo de Peri em relação ao tamanho de Duque. Nesta mesma praia encontrara um siri não tão simpático, mas que se prestou a uma pequena comunicação. Acreditava também que as plantas se comunicavam, as pedras. Um dia, vira um amigo para na frente de um jardim, sentar-se e começar a conversar em voz alta com a planta que estava a sua frente. No momento, pareceu-lhe que o amigo estava doido ou muito drogado. Agora compreendia que independente da loucura do amigo, houvera uma comunicação.



capítulo trinta e três


História à parte. Em Santo Amaro, bairro de São Paulo, havia uma família tipicamente paulista. O pai trabalhava como engenheiro químico, a mãe cuidava das filhas e viviam assim, cotidianamente como todas as famílias paulistas, iam ao parque aos domingos, o Seu Armando assistia aos jogos de futebol na televisão, chegava em casa às sete horas da noite, tomava uma cerveja, jantava com a família, brincava um pouco com as crianças, tomava mais uma cerveja, assistia o jornal da “Globo”, tomava outra cerveja, as crianças iam dormir, Seu Armando ficava um pouco mais na sala e Dona Sonia ia para cama.

Um belo dia Seu Armando apareceu com um cachorro em casa, ainda filhote, lindo como todos os filhotes, brincalhão, espontâneo, enfim, a casa se encheu de alegria. Era o que faltava a vida cansativa que sem querer estavam vivendo. O cachorro foi crescendo, melhor falando, a cadela foi crescendo. Seu nome era Lyla e foi se tornando o xodó de Seu Armando, assim como foi crescendo absurdamente, mais até para o tamanho da casa em que moravam, na verdade um apartamento de três quartos. Mas viviam felizes, Principalmente Seu Armando que dia a dia via seu carinho aumentar e ser correspondido, comparava-a aos seres humanos, considerava o amor canino como a amais pura forma de abnegação e entrega ao dono, podia-se estar bravo de saco cheio com o trabalho indignado com a falta de dinheiro e mesmo assim ali estava o cão, subserviente em seu amor sem máculas, sem remorsos, sem culpas, sem cobranças. Quando estava trabalhando não via a hora de voltar para casa para ver Lyla. Talvez pela ansiedade começou a beber também no trabalho, cada vez mais e mais. A família estava preocupada, Seu Armando estava muito mudado, não assistia mais à televisão, bebia cada vez mais e se tornava distante, sue mundo era a bebida e a cadela Lyla. Dona Sonia não dormia mais tranqüila, o comportamento de seu marido era muito estranho, parecia que ele gostava mais da cadela que da própria família, que da própria mulher. Sentia vergonha de conversar sobre esse assunto fosse lá com que fosse. Se as filhas comentavam alguma coisa, ela lhes dizia que era normal, que seu pai gostava muito dos bichinhos e o que mais lhe vinha à mente para explicar essa história tão absurda. E o tempo foi passando, Seu Armando perdera o emprego, depois arrumara outro e o perdera novamente e assim consecutivamente.

Um belo dia Dona Sonia entra no banheiro e Seu Armando está em cima de Lyla. Dona Sonia deixou o marido e foi com as filhas morar com a mãe. Seu Armando continuou no apartamento com Lyla. Agora Lyla dormia na cama que era de Dona Sonia.

Os anos foram passando e Lyla adoeceu, Seu Armando ficou louco quando ela morreu, entregou-se de vez à bebida e foi morar na rua.

Esta é a história romântica entre um homem e seu cão, um amor que atravessou as fronteiras do aceitável e trouxe a ruína à vida dos amantes. O absurdo contemporizado, o amor, estranho e indefinível. Ou o que a vida pode fazer com as pessoas quando amam a pessoa errada, ou quando decidem que o amor humano simplesmente não existe, restando apenas os jogos de futebol na televisão e a cerveja de todo o dia. Mas resta-nos uma pergunta, será que se encontraram depois da morte?



capítulo trinta e quatro


Enfim, chove uma fina chuva de inverno fraco depois de um dia de ventos quentes e sol a pino.



capítulo trinta e cinco


Como vai? Tudo bem? Espero novamente que sim. Há minutos atrás comecei a escrever uma continuação do capítulo trinta e três, algumas alusões que me vieram à cabeça, algo como a substituição das relações do afeto que modernamente tornou-se comum. As pessoas trocam o objeto de suas relações por seus animais domésticos, casais que não têm filhos, idosos solitários, crianças companheiras e enfim, de um modo ou de outro, todos nós que já tivemos algum animal, um cachorro, um gato, um hamister, um peixinho, uma tartaruga, um passarinho, uma iguana, um cavalo, ou seja, um ente que se personifica, ganha um caráter inconfundível e se mescla ao cotidiano. Pensava essas coisas e fui logo escrevendo sobre o amor e sua difícil definição, escrevi poucas frases e apaguei tudo. As vezes, relendo o que escrevo sinto vontade de mudar algumas coisas, algumas mudo, outras deixo como estão. É sempre uma via de mão dupla, múltipla, com cada via abrindo-se em outras e em outras. O pensamento pode desencadear reações em cadeia, podemos ser levados a construir lugares, acontecimentos, muitas vezes partimos de uma preocupação presente, algum problema que mexa com nossos neurônios, então expomos para nós mesmos uma série de conseqüências, previsões e pressentimentos, e neste momento vivemos o que pensamos, nesse exato e exíguo momento. Depois voltamos à realidade temporal, porém é como quando saímos de um cinema, ou descemos de um cavalo e começamos a andar, temos a impressão que a experiência não terminou. Enfim, é melhor agir do que pensar, não é verdade? Como será que você está agora, será que sofre? ri? embriaga-se? assiste tv? está chovendo? é dia ou noite? Como você está nesse exato momento? Onde?



capítulo trinta e seis


Universo em expansão, figuras geométricas vagando pelo espaço sideral, substância etérea transmudando o meio. Peri estava na recepção do Paulista Praia quando chegou um senhor mostrando ares de ser conhecido. Perguntou onde era o banheiro e sumiu. Momentos depois voltou dizendo que era jornalista, trabalhava numa grande rede de telecomunicações e precisava se hospedar, pois estava fazendo uma matéria na região. Tinha os gestos ríspidos, falava com péssima dicção, atropelando as palavras e o sentido das frases, usava uma calça social azul, uma camisa branca e um blazer muito maior que o necessário. Estava visivelmente embriagado, ou realmente era louco, ou ambas as coisas. O Hotel Paulista parecia atrair esse tipo de hóspede, como um imã poderoso, de todos os tipos e manias estranhas, assim contavam as gerentes do hotel, ambas grávidas, lembrando-se dos hóspedes que causaram problemas, como aquele que se hospedou no segundo andar e começou um cerco sobre a camareira, quando não havia ninguém no corredor, ele se aproximava sorrateiramente e, quando menos se esperava, estava atrás dela tentando puxar conversa, até o dia em que ele tentou agarra-la. Foi preciso chamar a polícia, pois ele estava transtornado, babava, gritava e esbravejava. Outra vez, um hóspede, ao ser acordado pelo barulho do telefone, desceu a recepção gritando que sofria de insônia, estava muito nervoso e começou a xingar todo mundo. Novamente chamaram a polícia e ele teve que deixar o hotel.

As horas passavam lentas, algumas pessoas pediam suas chaves, algumas ligações telefônicas e depois desapareciam nas entranhas do hotel. Lá fora os carros desfilavam pela avenida, ininterruptos em seu ir e vir. A noite estava fria e o tédio levava a mente de Peri a recordar as pessoas com quem havia trabalhado em outros hotéis. Seus pensamentos divagavam e iam por lugares estranhos, situações imaginárias e fragmentos de memória, tudo tamborilava em sua cabeça e o minutos arrastavam-se pesadamente pela recepção do hotel. Os lobbys dos vários hotéis em que trabalhara mesclavam-se uns aos outros e produziam um imenso caleidoscópio de sons, conversas, burburinhos, toques de telefone, lembranças, presentes, chaves de carro, mensageiros, bagagens, aromas. Tudo tamborilava na mente de Peri, estagnada pela sensação do absoluto, uma espécie de energia paralisante e estarrecedora, capaz de transmudar a concepção de toda realidade. Liguori era um rapaz de vinte e nove anos, recepcionista do Balneário, entre outros, agora trabalhava em transatlânticos, dava a volta pelo mundo e quando passava pelo porto de Santos sempre aparecia para contar como a sua vida mudara, as pessoas que conhecera, os lugares, as sensações, o trabalho do navio, os longos meses longe de casa, os amores. Era um companheiro de farra, através dele conhecera os segredos da vida na zona portuária de Santos, suas ruas escuras e malcheirosas, seus bares e suas prostitutas, a zona de Santos, poética dimensão do absurdo, paradigma dos desejos e das distâncias. Guilherme era um mentiroso nato, mentia sobre tudo e todos. Da última vez que o vira, ele lhe disse que estava administrando quatro hotéis ao mesmo tempo, dois na Baixada e dois em São Paulo, além de estar dando aulas de hotelaria. Era incrível, pois Guilherme mentia com a naturalidade das mulheres, era compulsivo, ao mesmo tempo que hilário. Trabalhar em hotel é como uma casa multiplicada por jogos de espelho, criando andares e coberturas, subsolos e piscinas, saunas, campos de golfe, salas de ginástica, centro de convenções. O centro gravitacional.

As horas não passavam. O tempo, abruptamente, parecia ter parado. O silêncio começou a invadir a recepção, estendeu-se pelas ruas, pelos bairros, pela cidade, os hóspedes pararam de chegar, os carros não passaram mais, as pessoas sumiram e Peri continuou na recepção do Hotel Paulista esperando um hóspede que nunca mais viria. Ficou ali, parado, olhando fixamente para fora, convencido de que um dia isso aconteceria. Fechou os olhos e quando os abriu uma onça pintada se aproximava lentamente, a mata úmida do orvalho encobria mistérios e enigmas a serem desvendados. A onça o fitava e de longe sentia seu cheiro, como que o aproximando de si, saboreando sua existência humana. Seus olhos negros, fixos nos de Peri, os músculos rijos, prontos para o bote, a respiração suspensa, o barulho do vento e, de repente, o salto, no espaço exíguo entre os dois, o salto, o espaço cortado, as garras, os dentes. Peri esquivou-se para um lado e a onça foi parar do outro. Fitou-o por mais alguns momentos e foi-se embora. Era sempre assim quando se encontravam, os mesmos gestos, os mesmos olhares, a mesma dúvida do confronto. Peri não se preocupava, a terra era imensa e o mar não tinha fim, os deuses o protegiam e a pesca era tão boa quanto a caça, as frutas eram os regalos da natureza, o mundo como tinha que ser. Levantou-se e caminhou em direção contrária a da onça, nesse momento pensava em Ceci, nos seus lábios carnudos, nos seus cabelos negros e no seu jeito de rir. Parecia uma criança de tão feliz, escapara da onça e iria encontrar Ceci. O dia radiava em sol e os córregos refrescavam a caminhada, o mundo era simples e bom, natural e equilibrado. À noite dormiria com Ceci e no dia seguinte acordaria e iria caçar e entre a noite e o dia amaria como só os sonhos são capazes.



capítulo trinta e sete


Elektra Andréas, a mulher de mil faces e armadilhas, fatal, guerreira, ferina, caleidoscópio de personalidades múltiplas, enigmática, branca, loira, morena, magra, punk, gorda, hippie, metaleira, traficante, produtora cultural, mãe, estelionatária. Elektra Andréas, a branca pura, a cocaína, o brilho das anfetaminas. Teria sido muitas coisas, personagens nascidos da gama infinita de sua mente dúbia, múltipla. Com ela Peri tivera um filho, conhecera-a numa tarde de fins de maio, sob um sol que projetava as sombras dos prédios sobre a areia do mar. Ela estava com um graveto na mão e desenhava na areia:

- O que você está fazendo?
- Estou lendo um livro sobre mandalas e estou tentando desenhar uma delas.

Nessa época ela tinha os cabelos curtos, negros e com poucas tatuagens cobrindo o corpo. Fugira de casa temendo a mãe, uma fanática religiosa que matara o marido para se defender da violência cotidiana. Vivia sob o estigma da perseguição, imaginando que a qualquer momento a mãe apareceria e a mataria também. Casara-se com um rapaz de São Paulo, um pequeno ladrão e trambiqueiro que passava a maior parte do tempo viajando, tentando vender camarões aos restaurantes.

- Você gosta de esoterismo?
- Gosto, aliás, gosto de muitas coisas. Qual é seu nome?
- Peri.

Depois disso se encontraram durante um ano, Peri ia ao seu apartamento e ficavam conversando enquanto as horas passavam. Tinham-se como amigos. Um dia ela se separou e na passagem do ano novo Peri a beijou. Um mês depois estavam morando juntos e assim ficaram por mais dois anos. Ao final do relacionamento ela engravidara e voltara para a casa da mãe em São Paulo. Elektra mudara a vida de Peri, com ela passara a ver o lado negro, sórdido e perigoso da vida, tornara-se irascível, agressivo e revoltado com os padrões do mundo. Mas tudo isso já havia passado, arrastando-se dez longos anos.



capítulo trinta e oito



“ Suas vaidades, seus temores, suas confusões mentais, detalhe por detalhe você se desvenda, mostra sem querer o que pretendia esconder, é assim, o modo como eu lhe vejo, sinto, quando você mexe nos cabelos, ou quando coloca o dedo na boca, ou fala sem parar com um sorriso sarcástico nos lábios. Como seria possível? Como? Você me tira a tranqüilidade, não me gera confiança, do seu lado a cada momento eu lhe ponho em dúvida, porque temo seu jeito de ser, é isso. Você é muito simpática, extrovertida, conversa com todo mundo, sei que tudo isso é normal, mas a isso se mescla o como você se veste, fala, sorri, como toca nos decotes, parece-me que em cada gesto seu há um pouco de sensualidade, de malícia, de vaidade. Talvez seja engano meu, apenas projeções do meus medos, mas talvez seja a mais pura realidade. As vezes você me parece o tipo de mulher que se tem somente por uma noite. E eu tive muito mais noites do que deveria. Hoje você me disse que poderíamos ser amigos, seria ótimo, mas ficou um gosto amargo.

É hora de acabar, foi um prazer conhece-la, aprendi muito com você, tive momentos maravilhosos, cheios de amor e carinho, mas acabou, o outro lado venceu, aquele que teimou tanto em voltar, o lado chato ciumento agressivo possessivo. Estou só e espero que a minha vida mude, que eu possa ser feliz, que eu possa lhe esquecer, deixar de pensar em você, em tudo o que poderíamos ser e não fomos. As vezes lhe vejo passar e fico triste, bravo, choro sozinho como uma criança sem a mãe. Depois passa, eu sei que vai passar e chegará o dia em que eu poderei me relacionar bem, ser feliz do lado da pessoa que amarei e que me amará. Não é impossível, eu lhe digo, um dia darei certo com alguém. Mas antes eu tenho que dar certo comigo. Comigo mesmo. Penso que devo estar só agora, é melhor, do que adianta me iludir e depois... Não. Eu gostaria de estar com alguém agora. Seria muito mais fácil. Provavelmente eu tenha que passar por isso. E quando eu menos esperar acontecerá uma coisa boa em minha vida. Você vai ver as coisas mudarem e mesmo se não veja não importa, você tem a sua vida e eu a minha. A mudança já começou e o novo nos aguarda a cada manhã, a cada esquina, palavra, olhar”.



capítulo trinta e nove


Ídiche kop. Valeria a pena? Conseguiriam separar-se?









PARTE V


“ triste como um blues, sinto a falta que você me faz, de chegar em casa e lhe ver me esperando, falta da comida na mesa, da toalha molhada, dos risos, do espaço que você preenchia. Sem seus abraços a vida fica vazia, sem carinho, sem tardes de sol, sem filmes com pipoca. Mas agora tudo é distante, você tem outra vida, conheceu novas pessoas. Eu continuo só, não porque queira, mas porque não apareceu ninguém, uma única mulher para me amar e perdoar. Sei que ainda é cedo, só se passou um mês, porém a ansiedade as vezes é grande, sei que isso me cega, que talvez a pessoa certa, se é que existe, esteja ao meu lado e eu não veja; talvez seja só uma ilusão, mas que me ajudaria muito, ajudaria. Você já deve estar com outro, mais um. Isso me deixa puto da vida. Se eu estivesse com outra seria mais fácil. Esqueça, é muita pieguice falar sobre isso com você. É isso aí, espero que esteja muito bem. Um beijo na bunda.”



capítulo qualquer um


Sendo assim é melhor despertar desse sono, dessa névoa que encobre os olhos e retarda os sentidos, antes que as naus partam para seu destino e Peri fique abandonado na ilha por longos anos, sozinho, sem ter com quem conversar. Mas ainda é cedo.

“Hoje é sexta-feira, 16 de novembro de 2001, espero que esteja bem. Aqui já é noite e o tempo voa pelas palavras soltas no espaço fugidio de nossa imaginação. Poderíamos ter nos encontrado e assim nos conhecido. Algo casual, natural, algo como esbarrar na rua, descer no mesmo elevador, pedir uma informação, sentir uma força estranha em um olhar, um brilho enigmático, uma idéia sedutora. Assim poderíamos ter nos conhecido. Mas eu não lhe conheço, não sei patavinas de você, absolutamente nada, não sei se você é bela, se seus cabelos são longos ou curtos, se sua pele é macia, não sei do que você gosta e muito menos do que você não gosta. Sei que você não me conhece, mas um dia irá conhecer. Espero que nos entendamos logo de início, que nossa pele reaja à química de nossos olhares, que nossas idéias se harmonizem e que tragamos amor e tranqüilidade um ao outro. Vai ser muito bom lhe conhecer, desde já estou curioso. Depois que nos conhecermos, vou lhe mostrar o que estou lhe escrevendo agora e no momento que você ler...

Já sinto sua falta, quero crescer com você, amar sem medo, sem mágoas, sem tantos erros, quero paz, sentir prazer ao seu lado, ajudar e ser amparado, brincar, fazer as coisas que gostaremos de fazer quando estivermos juntos. Estou lhe esperando, demore o tempo que demorar. E quando chegar esse momento, vou lhe abraçar e lhe respirar lentamente, sentindo cada partícula sua, cada gesto, idéia e sentimento. Quero que você me sinta, quero lhe respeitar e ser respeitado, amar e ser amado. Quero sentir você deitada no meu ombro, sorvendo cada instante de eternidade.

Estou lhe esperando. Até lá.”



capítulo qualquer dois – 23/11/01


“O mais engraçado é que ontem eu sonhei com você, mas só depois me lembrei. Estávamos conversando e você me dizia que estava namorando, então pensei que isso já fazia um tempo, mais ou menos o tempo que estamos separados. O telefone tocou e acordei, só conseguindo lembrar deste fragmento. Creio que realmente nos encontramos. Quando cheguei em casa, depois do trabalho, fui para a janela e fiquei fumando e lembrando de quando eu lhe esperava chegar do trabalho, olhava cada ônibus que passava e ficava esperando até você aparecer; era um misto de ansiedade e desconfiança e alegria. Hoje não lhe vi chegar. Então fui para a janela da sala e percebi que havia um rapaz sentado na escadaria de entrada. Alguma coisa me disse que ele estava lhe esperando. Liguei a tv e através do circuito interno fiquei observando a portaria. Logo você desceu, trocou algumas palavras com o porteiro, arrumou o cabelo e saiu, foi em direção ao rapaz, inclinou-se e lhe deu um beijo. Neste momento desliguei a tv. Sexta-feira, meia noite e vinte minutos, vinte e três de novembro de 2001. A história se repete. Da outra vez foi assim também, a diferença é que o outro tinha o dobro da sua idade e esse de agora é mais novo que você. Eu continuo só, as mulheres que já conhecia negam-se a transar comigo, as que eu conheci agora, também. Ando me sentindo meio rejeitado, pelo visto desaprendi como se seduz, conquista-se uma mulher. Não sou feio, tenho bom papo, mas mesmo assim não aparece ninguém. Pode-se dizer que estou com pressa, é verdade, mas você já está namorando. Deve estar se dando bem, o nosso amor acabou, não demos certo e nunca daríamos, espero que seja feliz e que eu possa lhe esquecer cada vez mais e cada vez mais me distanciar. Quando lhe conheci, por algum motivo, associei-lhe ao sonho que tivera com uma pomba, ela se transformava em mulher e nós nos casávamos, vivíamos felizes até que um dia ela derreteu por conta sabe-se lá do quê. É assim, um dia a mulher que amamos simplesmente derrete na nossa frente. Enquanto escrevo você deve estar com ele, nesse exato momento. Espero que um dia você me procure e queira voltar e que eu possa lhe dizer não. É o que eu deveria ter feito da primeira vez, teria evitado muitas coisas. Mas não podemos mudar o passado, está feito, acabou. C’est la vie, mon amour. Nunca mais beijos e carícias e brigas sem fim, nunca mais o amor que tivemos e perdemos.”



capítulo qualquer três


“Estou lendo sobre o Carandiru, o maior complexo penitenciário do país. É tudo a mesma coisa, a cela é igual em qualquer parte. A cela. Estou preso porque não encontro ninguém, há três meses não transo, beijo muito pouco e ninguém diz que me ama. Encontrei a Rosa, mas ela também não quer ficar comigo, ela é linda, não, não é linda, mas o amor que um beijo seu me suscitaria seria capaz de torna-la a mais bela rosa de qualquer jardim. Não a vejo há uma semana, hoje falei com ela pelo telefone, ela me chama de mi corazón, eu a convido para sair e ela diz que não. Combinamos de caminhar amanhã de manhã, contudo amanhã choverá e ela terá uma nova desculpa para não nos encontrarmos. Fiz um poema tolo em espanhol para ela, “La Rosa”, seria tão bom se pudéssemos namorar. Conheço-a desde a infância, na esquina da rua Candido Rodrigues com a Frei Gaspar, em frente a praia do Gonzaguinha. O tempo foi passando, ela foi se distanciando e um dia foi para a Espanha. Voltou a pouco tempo. Encontramo-nos, caminhamos pela praia e conversamos muito; ela disse que aquele momento era especial, que não fora apenas o acaso que nos reunira. Agora essa frase não tem mais a mesma conotação. Ainda não sei o que ela quis dizer, se meu pobre coração afoito escutou algo diferente ou se ela realmente dizia que ficaríamos juntos. É tudo muito confuso, a realidade se mescla com minhas carências. Sinto-me inseguro, sem-graça, sem sal. Queria tanto lhe ter nos braços, Rosa, afagar seus cabelos e beijar levemente seu rosto, sentir sua respiração junto com a minha. Mas você também não está aqui, estou só. Foda-se.”



capítulo qualquer


A imagem dos carros que passavam pela rua projetava-se fragmentada no vidro da porta lateral. No lobby do hotel as pessoas passavam e faziam a mesma pergunta, como se houvessem combinado a fala. O dia estava cinza e repentinamente frio. Peri tentava chamar a atenção de uma menininha que passava no colo da mãe, ela voltou o olhar e lhe deu um tímido sorriso, pleno da sinceridade das crianças. Sentiu-se feliz. As horas arrastavam-se com o silêncio do hotel, minuto por minuto numa calma incompreensível. Domingo.

Peri estava em um novo hotel; ficara cinco meses no Paulista Praia atendendo hóspedes com hálito de cachaça, ouvindo reclamações e procurando outro trabalho. Conseguira. O Palladium era um apart service em São Vicente com cento e noventa e oito apartamentos, alguns moradores e poucos hóspedes. Sua construção demorou treze anos, duas torres de nove andares com um restaurante as unindo, piscina na cobertura, home theater, salão de eventos, apartamentos com tv a cabo, ar condicionado, telefone, frigobar, banheira com hidromassagem, cozinha americana, serviços de recepção e arrumação. Enfim, mais uma célula do imenso organismo hoteleiro. Peri já conhecia algumas pessoas de outros hotéis, trabalhara com eles em épocas e lugares diferentes. Aprendia a se adaptar.

Enquanto isso seu pensamento era insistentemente levado à Ceci. O amor da mulher acabara, restando apenas alguma consideração e carinho, isso quando não eram tragados pela raiva e pelo rancor. Estava cada vez mais fria e distante. Era isso, o amor enfim acabara, depois de tantas brigas, traições, acusações e desilusões. O amor acabara e restava a Peri manter-se longe. Mas Peri não conseguia, invariavelmente voltava a procura-la, durante cinco anos de brigas e desentendimentos, Peri sempre voltava a procura-la, era como se uma força o impelisse em sua direção, como se um imã poderosíssimo o atraísse. Não tinha jeito, por mais que compilasse para si inumeráveis razões para separar-se da mulher, por mais que a raiva tomasse conta de si, momentos ou dias depois, Peri era vencido por essa força. Parecia um vínculo de dependência, como na relação do drogado com as drogas. Peri temia a solidão, temia não encontrar outra pessoa para dividir os momentos e isso o torturava, pois estava do lado de uma pessoa que não o amava mais, de alguém que não era como ele gostaria que fosse, alguém que não acreditava que as coisas pudessem mudar. Ceci todos os dias reclamava da vida, ora dos parentes, ora do emprego, ora de Peri. Sentia que no meio de tantas preocupações a mulher acabara por esquecê-lo, distanciando-se cada vez mais e mais. Peri estava perdido, sabia o que fazer mas não conseguia, estava se tornando um covarde e perdendo a estima própria. Sentia-se triste e perguntava-se porque as coisas ficaram assim. Mas no fundo ele sabia, sabia de tudo que cometera, sabia de seu ciúme doentio, de sua hiperatividade sexual, de seu nervosismo e de sua agressividade. Peri maltratara muito a mulher, era natural que o amor fosse acabando depois de tantas coisas jogadas na cara, depois de tantas ofensas. Enganava-se, por um lado era verdade tudo o que fizera, mas por outro Ceci também fizera as suas. A questão é que não sentia mais forças para julgar. Quem afinal de contas era ele para julga-la?



capítulo um


O que você faria se o mundo fosse acabar?



capítulo dois


"Abraço-lhe na distância e sinto o amor que se acabou, afago o vazio dessa distância, mexo-lhe os cabelos, deslizo minhas mãos pelo seu silêncio, eternizo beijos e verto sonhos. Você não está mais ao meu lado, não estamos um ao lado do outro. Juras de amor, carinho, prazer, caminhadas pelas pedras das praias, água de coco no final da tarde, sorveteria, planos para o futuro. Vejo ilhas, solidões por onde passam meus passos, imensidões. Você não está mais ao meu lado, é verdade, com o tempo foi acabando. Panos de prato na pia da cozinha, bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro, o doce dos seus lábios, o amargo de nossas brigas. Estou aqui."



capítulo três


"Ontem procurei não pensar em você, como em todos os dias tento. Consertei a porta do box que por tanto tempo ficou quebrada, é que antes não me sobrava tempo, sua companhia me completava e eu não tinha vontade de fazer outras coisas, só ficar ali, ao seu lado, vivendo. A noite joguei futebol na praia e machuquei o pé, depois tentei encontrar uma amiga, mas ela não veio. Estou só. Você já deve ter alguém, o que você mais quer é me esquecer, eu sei. Não tem problema, nós erramos tanto. Estou triste, sinto sua falta, sinto falta de alguém para conversar, para beijar e rir, mas vai passar. Cedo ou tarde, eu também encontro alguém. É preciso ter paciência, domar a ansiedade e não se iludir com a primeira que me aparecer."



capítulo quatro – 14/10/01


Domingo, 14 de outubro de 2001, os Estados Unidos e a Inglaterra bombardeiam o Afeganistão há alguns dias, a eminência de uma Terceira Guerra Mundial é assustadora. O Afeganistão é um deserto miserável onde o Taleban governa com mão de ferro, as mulheres usam burgas para esconder a beleza e a própria feminilidade; os homens usam barbas e turbantes na cabeça; as crianças olham suas casas destruídas. Todos são islâmicos. Os Estados Unidos são uma rica nação que controla o mundo, a moda é uma arte e as mulheres tudo podem, a religião é diversificada. No Afeganistão a música é proibida, mas nos Estados Unidos o showbusiness vigora. Os terroristas islâmicos explodiram o World Trade Center, mais de cinco mil mortos. Os americanos clamam por vingança, os afegãos também. O mundo gira e girassola horrores transformados pelas telas de tv. Nas mesquitas e catedrais o homem se curva diante Deus, nas ruas caminha apressado e come o pão de cada dia. Uns temem que um míssel os atinja, outros temem novos atentados terroristas. O perigo se mostra no desconhecido rosto de um suicida, nas asas de um B-52, num porta-aviões, numa pedra, numa bomba ou num spray com antraz. O perigo gera o medo, o medo cria a revolta e a revolta insandece o homem, seja ele turco, americano, japonês, alemão, brasileiro, britânico ou paquistanês, seja ele de que parte for, que religião tiver.



capítulo cinco


Tudo o que tiver. Proteínas, carboidratos, pastas de dente em tubos. Tudo. Burburinhos de conversas paralelas no hall de entrada. Os hóspedes, vários em sua mesmice turística dividida em segmentos bem delineados, poder aquisitivo versus ocupação. O luxo dos hotéis, o serviço personalizado, seja bem vindo, boa tarde, é um prazer, pois não, senhor, obrigado, senhor. Peri no meio do mundo hoteleiro, universo de paradigmas, silogismos e enigmas. Peri pasmo lutando contra si.

"Você está muito bonita, sua pele reluz, está bronzeada e sorridente, mas o que se passa dentro de você? Será que está feliz dentro desse seu vestidinho florido? E esse sorriso, toda essa graça e simpatia são sinceros? Será que no fundo você não sente minha falta, bem lá no fundo será que você não está triste e desconsolada? Enfim, eu não lhe faço falta. Provavelmente a separação foi um alívio para você. Agora você pode fluir sem constrangimentos toda a sua superficialidade. Deve estar se divertindo bastante, conhecendo novos amigos, rindo feito uma louca e se pintando como uma vaca. Mas vou acabar me acostumando com sua falta, o tempo passa e nem um único dia é igual ao outro. Não quero mais ser um covarde com medo da solidão, vou enfrentá-la, serei forte. Sei que no final sairei ganhando. Estou me acostumando, hoje meu coração nem disparou quando eu lhe vi saindo do elevador. Estou ocupando meu tempo, faço ginástica em casa, jogo basquete todas as terças e quintas-feiras, quando folgo nas segundas-feiras jogo futebol na praia e quando faz sol caminho pela beira do mar. As vezes saio à noite, mas são poucas oportunidades, estou preferindo ficar em casa, é onde me sinto mais seguro, creio que não estou perdendo nada, as pessoas nas ruas são muito superficiais e é realmente preferível ficar em casa do que se aborrecer por aí. Não quero me entorpecer. Fora isso vejo o meu filho quando vou a São Paulo, o que me deixa muito feliz. Seu amor é tão simples e sincero, sua admiração por mim é espontânea e quase fantasiosa. No Dia das Crianças o presenteei com um livro, espero que ele goste. Eu lhe disse que com aquele livro ele poderia se divertir muito e que quando ele acabasse de ler eu gostaria de le-lo também."

A noite navegava as suas horas e em breve Peri retornaria para casa, depois de mais um dia de trabalho. Hoje é domingo.



capítulo seis


Circuito gestão, Palladium Apart Service. Uma horda de senhoras cinquentonas e solteironas invadiu o hotel, armadas até os dentes, bombardeando a recepção com perguntas estúpidas, cenas desagradáveis e telefonemas intermináveis.



capítulo sete


Noventa e sete dias e sete horas de um minuto que se foi, o mundo se consumindo em guerras covardes, o desejo humano tropeçando em virtualidades, músicas psicodélicas, harmonias e acordes, notas, ritmos e escalas, o mundo inteiro sobre as rodas de um carro, sob as teclas do piano.

- Onde estão seus olhos?
- Eu não sei.
- Esqueceu?
- Esqueceu de quê?
- Não importa. Eu estava lhe esperando.
- Eu também.
- E pensar que estávamos tão próximos.
- E tão longe ao mesmo tempo.
- É verdade.
- Você sente saudades?
- Do quê?
- Do tempo em que você não me conhecia.
- Não.
- Eu também.
- Quer mais um gole?
- Quero. Amanhã vai fazer sol.
- Tomara, quero ir à praia.
- Vamos na ilha.
- Desliga o computador. Eu adoro essa música, é linda,
eu sempre quis estar aqui, eu amo você, muito ...

Palavras, frases desconexas de um contexto aparentemente caótico.

"Você me deixou e só consigo me lembrar das coisas ruins que eu fiz pra você. As vezes me lembro de quando eu abria a porta e você aparecia com aquela carinha de criança fazendo manha, eu abria os braços e enchia seu rosto de beijos, sorrindo também como uma criança. Não tenho mais esse afeto, esses momentos simples e eternos. Faço muitas coisas para preencher o vazio que você deixou. A vida continua, mas sem você ficou tudo diferente, por um lado acho que foi melhor, estou mais tranquilo, mas por outro... eu não sei. Queria ter dado certo com você, eu persisti tanto, mas errei muito também. Queria não ter errado, queria ser perdoado e que voltássemos um para o outro, totalmente destituídos das lembranças amargas que nos deixaram essas cicatrizes pelo corpo longínquo de nossos corações. Você procura um novo amor, eu também. Você já deve ter outro alguém, eu ainda não. Estamos assim, as vezes lhe vejo pelas escadas, ou entrando ou saindo do prédio, ou lhe vejo chegando do trabalho, estamos distantes, perdidos um do outro, como se não tivéssemos nos conhecido, amado, como se não tivéssemos sonhado tantos planos. A realidade é outra, é diversa de nossos desejos. Se pudéssemos mudar o passado, consertar os erros do passado, mudar nossos defeitos, tentar de novo confiantes em que iríamos dar certo. A realidade é outra e é complexa."

- Acorda, amor. Já são oito e dez, você está atrasado - disse Ceci estendendo um copo de leite e lhe dando um beijo.



Capítulo oito


A Mata Atlântica se descortinava a frente de Peri, sua exuberância, sua profusão de cores e formas, seus cheiros, sons, sombras, histórias e espíritos. Peri tocava a terra e entre suas mãos a vida escorria com todos seus significados e mistérios. Levantou-se, saiu correndo pela mata e viu tudo se transformando pelo movimento.



capítulo nove


"Cabelos de medusa noves fora menos um quatorze, o que seria a palavra, ou a manifestação pura do silêncio, o vento invisível por sobre as ondas dos madrigais. A menina estava sentada nas escadarias da escola...”


capítulo dez


“O vento sempre, lento e perene como um deus esquecido, suave. O vento perene de teus olhos sonhos me inebriando de ilusões perdidas, o vento, sereno e claro de transparência verde, obtusa sensação de sufoco, olho para você e você se abre toda, depois diz que não, que não é assim, que tudo seria um engano, que, enfim, você não quer, mas o que você gosta é de se sentir desejada, vendo os homens babando, seu ego infla e suas inseguranças somem repentinamente, farsa, jogo medíocre de sedução barata, não nos pertencemos e afinal de contas quem somos nós não é exatamente o que esperávamos. Você tem vários homens, ligam, pedem, imploram, você se satisfaz, mas no decorrer do tempo você não fica com ninguém, sabe por quê? Porque você chama a atenção demais, é sempre esse jogo de sedução, esse teatro que você cria para entreter sua tristeza. Amanhã você vai para São Paulo e vai levar nosso filho, amanhã é seu aniversário e você vai para o casamento da irmã de seu amigo, amanhã. E outro dia, e outro e mais outro. Apenas mais um. Meu filho nem pediu para ficar, parece que gostou da idéia de ir com você. A verdade é que sou um idiota, desde o começo eu disse a mim mesmo que não me envolveria novamente com você, então aqui estou eu lhe agarrando e lhe furtando beijos com o coração disparado e o olhar brilhante. E no entanto você me disse tantas coisas, chorou com tanta tristeza, dançou com tanta leveza e cantou e cantou e cantou... Eu fiquei ouvindo, absorto num mundo de sons, sua voz alçando vôo, seu corpo insinuando sonhos, minha vontade era lhe ter nos braços, sentir seus olhos por dentro, rasgar essa máscara que lhe encobre, fazer você se enxergar tal como é, linda, sem adornos demais que ofuscam a sua verdadeira beleza que é feita de enigma e luzes negras, você ri. É melhor assim, pelo menos você não me odeia mais e nem tem planos mirabolantes para me matar. As coisas mudam, mas o engraçado é que me parece que você nunca deixou de me amar, mesmo quando me odiou. Vou olhar nos seus olhos e você verá os meus. Se tudo fosse diferente.”



capítulo onze


“O mar balança seus cabelos como se o vento enrolasse seus pensamentos, um a um, como conchas que se perpetuam pelo espaço afora, o espaço de nossas mãos separadas pelo abismo de nossas dúvidas, de nossos desejos díspares. Os edifícios que engulam a lua, antes que a sombra projete seu rastro pelos seus olhos. Veja, o canto que você canta, o canto de nossa casa, as lágrimas de seus olhos verdes sutilmente deslizando, tornando garoa o véu do seu olhar perdido de amor. O meu olhar perdido sabe-se lá porque, vendaval, nuvens de tudo o que já foi, foi, foi-se para sempre como a bruma da manhã de ontem estraçalhada pelos longínquos raios solares viajando galáxias, desviando de órbitas desconhecidas, quasares de nossas ignorâncias, vontades interestelares. Olho seus olhos e neles vejo medo, confusão, um mundo de ruínas, translucidamente sombrio, vejo rios, mares e oceanos. Mas o que se pode dizer? Fazer? Estamos onde estamos e o movimento produz mudanças, samba nas nossas cabeças rechaçadas de sol, poeira das estrelas, areial de nossas constelações. O mar, onda por onda, grão por grão, peixes, algas, dunas, nossas mãos espalmadas de encontro ao céu. Nada disso. Peri. Apenas a música refazendo a imagem, o sol banhando nossas frontes despreparadas e as ondas banhando nossos pés descalços, apenas o passar dos anos e suas histórias, contos, romances e sinfonias, o medo de nos amarmos, de sofrermos, de nos encontrarmos nus diante do que somos, espelhos.

Assim, assim e assim, somente assim, apenas. Pronto feito telefone, feito o mundo, assim. Você e uma janela aberta, a brisa que nela entra, calma. Serena.

Mas você diz que não teve a intenção, é seu jeito. Eu finjo acreditar e lhe vejo chorando porque seu amante não lhe telefonou. Eu rio, lagoa, sapo engulo tudo. Apoteose de sensações, mangues e lodaçais, siris, carangueijos. O cheiro, perfume da vida, apito, cuíca, berimbau, atabaque, agogô, o carnaval de avenida, samba enredo, adereços, porta estandarte, mestre-sala, o amor perdido em algum lugar recôndito de nossos corações, por onde andará.”


capítulo doze


Bruma, fumaça dispersa por sobre o campo marítimo de nossas cartas jogadas pelo chão, rasgadas, desfiguradas de seu sentido primeiro, inefável sensação de desgaste, o tempo passa, rápido, enigmático, ondas lunares, edifício de nossas inquietudes, desbravemos os campos, as pradarias perdidas e as selvas. Dormiremos acordados, longe um do outro.

Elektra fechara os olhos e dormia seus sonhos, ruas e avenidas de São Paulo, música e urbanidades, seu coração perdido apaixonado, Peri vendo suas lágrimas, seu olhar distante, fixo. Ou então tudo não passara de um engodo, um simples caso de perturbações vulcânicas, sísmicas palavras de contexto duvidoso, jogo árduo de palavras, poses, posses, luminárias importadas e jardins de inverno, lofts, incandescência de nossas viagens, cidades, o mundo como um lance de dados. O mar a noite é um rumor de ventre. Elektra se levantara, dispersa do sonho, longe de seus abraços e soníferos beijos. Longe como o vôo, a nuvem, o passado. Um silêncio os envolvia, Elektra o evitava, disfarçava, fingia que não entendia. O que se passava dentro de seu coração, o que enfim suportaria o peso dos anos? O que aconteceria?

Peri jogara futebol na praia, levara seu filho consigo.

Um mundo diferente, transparente. Uma ilha, um morro e as ondas pra ficar olhando. Um mundo transparente, diferente. Nada de pedras pelo meio do caminho, nada de mares portugueses, nada de tolices demais. Um mundo simples, sincero. Um mundo dois feito chuva e rio, riso, gargalhada sob os telhados, os pingos da chuva, a chuva de verão, abrupta. Seus olhos verdes são imagens suspensas na profundidade de seu vazio, de seu oco único, intransferível e atemporal, o núcleo que lhe suspende no ar e lhe joga pelos lados, sacode-lhe os ombros e ruge diante seus olhos verdes serenos de revolta.



capítulo treze - 08/01/02


Chove no dia 8 de janeiro de 2002, há oito anos Peri doara sangue pela primeira vez, a mãe de uma amiga precisara porque a quimioterapia estragara seu sangue. Você chega, faz um exame para saber se não está com anemia, passa por um entrevista onde lhe fazem uma série de perguntas, se tem tatuagens, se teve relações homossexuais, se sofreu algum acidente, se recebeu sangue, se contraiu sífilis, alguma cirurgia. Depois você se senta, uma enfermeira amarra seu braço e lhe enfia uma agulha com uma mangueirinha, você abre e fecha a mão e sente o sangue se esvaindo lentamente. Quando acaba você ganha um lanche e vai embora. Alguém receberá seu sangue e será salvo. O seu sangue.

“Chove em São Vicente, uma chuva fina que acinzenta o céu e faz o mar se acalmar. As calçadas ficam vazias porque as pessoas se recolhem com medo de se molhar. No aparelho de som, Cartola canta suas tristezas de velho malandro. Cartola tinha samba nas veias, tristeza nos olhos e música nas mãos. Meu filho escuta e pergunta o que é. Eu digo que é Cartola, sambista antigo. Elektra lava as roupas no banheiro e continua melancólica, por vezes me olha e diz algumas palavras. É só, o dia continua cinza e simples, cotidianamente diverso.”



capítulo quatorze


Agora que o mar acalmara Peri olhava pela janela e sentia a brisa percorrendo seu corpo. Elektra se distanciava, em breve voltaria para São Paulo levando consigo o filho, Peri veria a casa e a sentiria vazia, faltando.



capítulo 15/01/02


Chove, faz sol, chove, faz sol novamente e novamente chove, cai a noite, chove. Jazz, darling, it’s raining. O amor foge por entre nossas mãos molhadas pela chuva, escorre, gota à gota, nos seus olhos, em minha mente tonta de paraísos imaginados. O vento celebra o vazio.



capítulo 29/01/02


Os olhos esbugalhados, estava bêbada. Raios! Novamente embriagada, novamente perdida, ligada. Inventou uma desculpa e saiu sabe-se lá para onde. Peri estava cansado, cansado de seu desprezo, estava farto desse jogo idiota. Poderia pensar muitas coisas, sofrer com os pensamentos ou se libertar de vez desse torpor que Elektra lhe provocava. Horas antes haviam discutido, ela dizia estar nervosa, ansiosa, vítima de TPM, mulher. Logo iria embora, o que definitivamente pouparia Peri de situações desagradáveis, poderia agüentar um pouco mais sem precisar se enervar. Logo ela iria embora. Chegou a falar em voltar o relacionamento, mas isso certamente o deixaria louco, iria lhe trazer tanta intranqüilidade e incertezas que os dois acabariam novamente brigando e Peri não queria mais brigar, queria paz, viver harmoniosamente, sem desconfianças e tormentos.



capítulo 08/02/02


Ceci voltara numa tarde de domingo pedindo um pouco de ração para sua gata. Foi ficando, ajudou Peri a arrumar o guarda-roupa, desceu para sua casa e depois voltou com um vestidinho azul colado no corpo. Elektra foi embora e não se falaram mais. Tudo havia passado como sempre.



capítulo 22/02/02


...



capítulo 24/03/02


“Domingo, chove, ontem fez sol, era sábado e na praia o vento percorria nosso corpo. Você deve saber muito bem com quem faz um filho, pois é para o resto da vida. Eu liguei, ela vai ver meu número no seu celular, se retornar e me perguntar o que eu queria, vou dizer que iria convida-la pa ir ao horto, caminhar por uma trilha, sentar numa clareira, fumar um, conversar, olhar dentro dos seus olhos e beijar seus lábios. Mas ela é casada há dez anos, é linda, tem um corpo escultural, cabelos levemente cacheados, é loira, sorri com facilidade e adora cerveja. Somos amigos, mas ela é muito atraente e aos poucos seu rosto está se fixando em mim, imaginamos coisas. Ontem na praia surgiu uma conversa sobre filhos, ela disse que já estava se conformando em não ter tido um filho e, de repente, ela vira para mim e diz: vamos fazer um filho? Eu disse que seria um filho lindo. Nós trabalhamos juntos no mesmo hotel. Minha cabeça girassola. Mas chove. Ela é casada e não entendo como o marido lhe dá tanta liberdade, ela é casada mas parece solteira, alguma coisa está errada, quem ama cuida, não é possível, com uma mulher dessas! Outra coisa, por que ela sai tanto sem o marido? Se ela o amasse era natural que ficassem mais tempo juntos. E fico aqui preso em pensamentos e sentimentos confusos, fechando os olhos e lhe vendo sorrindo. É só, apenas um torpor que não posso deixar me vencer.”



capítulo 27/04/02


Peri voltara a encontrar Ceci.



Capítulo 01/05/02


Agradecemos o trabalho com todas as suas horas extras, a labuta, seus adicionais noturnos, sua produção diária, seus turnos, suas vinte e quatro horas, agradecemos.

Num mundo distante sílfedes voavam a procura de Peter Pan, enquanto no mundo real a chuva caía persistentemente e molhava a fachada dos prédios.


capítulo 04/05/02


“Agora que o sono mina minhas vistas cansadas e a mente desvela pelo mundo acordado, escrevo, leio e releio, respondo, pergunto, anseio... Agora, não mais do que agora. Você se foi e eu fiquei nessa hora insone de sua falta, lembrando, rememorando seu sorriso. É tarde, eu sei. O amor já acabou, apenas cinzas frias num cinzeiro esquecido no canto da sala. Na madrugada de hoje não chove.”



capítulo 05/05/02


Peri acordara as nove horas, sua mãe tocou o interfone e avisou que um amigo estava perguntando se ele iria à praia, sua mãe subiu, conversaram um pouco e ela se foi levando uma vasilha, pois estava fazendo carne assada com batata, arroz a grega e farofa com uvas passas, mais tarde traria para Peri. Levou algum tempo para sair, fumou um baseado, tocou um pouco de teclado, pôs uma bermuda e foi. Chegou a praia e encontrou o amigo de infância, quando se conheceram tinham doze ou treze anos, desde então se passaram vinte anos tão rapidamente que chegamos a duvidar de nossa memória. Jogaram frescobol por uma hora e depois foram caminhar, subiram a ilha Porchat e quando desceram, passaram pelo Itararé e foram beber um suco de abacaxi com chá mate. Lá encontraram uma amiga e começaram a conversar sobre a vida de outros amigos, o que lhes acontecera, como estavam e outros assuntos mais corriqueiros, daqueles que usamos apenas para deixar a conversa viva, contínua. Despediram-se e continuaram a caminhada, ao chegar no campo de pouso das asas-deltas observaram algumas aterrissagens e resolveram voltar. Peri foi para sua casa, almoçou, sua mãe ligou e perguntou como estava a comida, respondeu-lhe que estava ótima, o que sem sombras de dúvida era verdade, desligou o telefone e continuou a comer, pensou que se tivesse uma companhia poderia estar melhor, mas enfim, a comida estava excelente e isso já era o bastante. Terminou o almoço e comeu um pedaço de chocolate do tipo meio amargo, acendeu um cigarro e leu um pouco, o telefone tocou novamente e um amigo avisou que estava passando na sua casa. Fumaram e jogaram uma partida de xadrez, Peri perdeu, estava com o jogo ganho mas se distraiu. Cantaram também, fizeram uma versão de uma música do Jorge Bem Jor, mudaram o ritmo, a harmonia, transformaram samba-rock em rytim’m’blues.



Capítulo 10/05/02


Vejo um inseto voar tão alto que parece um pássaro. Fixo o olhar através da janela e, de repente, ele some no ar. Acordo com a campainha.

Trinta e dois anos. São oito e meia da manhã e o sol pálido se mistura com a umidade do ar, o mar está calmo, aparentemente calmo, pois suas correntezas profundas são fortes e extensas. Feche os olhos, sonhe, um mundo melhor, onde possamos, enfim, nos amar, abraçar, sentir tudo o que somos num deslizar de mãos afoitas. Sonhemos, porque a vida passa rápido e somos somente passageiros desta incrível viagem, alegremo-nos com cada pequena coisa, por podermos andar, sorrir, encontrar amigos, amar, trabalhar, alegremo-nos para que sintamos a plenitude de estarmos vivos em cada gesto, em cada olhar, palavra, vivamos e que não nos preocupemos em demasia, porque tudo passa.

Peri limpou a casa, Ceci apareceu e o ajudou um pouco, estava com o pé engessado e não dava para fazer muita coisa. Peri a olhava e sentia vontade de agarra-la, mesmo sabendo que ela não o amava mais, sequer o desejava. Continha-se, mas depois perdia o controle, a vergonha e a agarrava. Ela o repelia, falava em outro e dizia que ia embora. Peri não agüentava mais se sentir rejeitado, ora por Ceci, ora por Elektra, ora por qualquer uma. Precisava se apaixonar, sentir alguém que o amasse e o desejasse, que o abraçasse e procurasse seu carinho, seu bem estar, alguém que olhasse para ele e fizesse planos para o futuro, alguém para dividir a solidão, conversar e ficar em silêncio, confiar, equilibrar.

O tempo úmido de uma noite de outono, o barulho dos carros na avenida, a música no aparelho de som, a luz da lâmpada elétrica, a luz amarela dos postes de iluminação pública derramando-se e clareando a noite, as peças do xadrez, as esperas da vida, os segundos do minuto. O mundo girando, dia a dia, estação por estação, ano a ano.

Peri coça os olhos e escreve para passar o tempo, pressenti-lo escondido nas letras de seus pensamentos, escreve e espera, olha pela janela, atende o telefone, volta a escrever, pensa em comprar um isqueiro, pois o seu ficou com...



24/05/02


O tempo passa, ora chove, ora Peri anda para esquecer, para não pensar em demasia. Mas chove; como pode chover tanto nesta terra? O ritmo de uma música antiga revigora lembranças da adolescência, um tempo onde era mais fácil acreditar que tudo era possível, um tempo de se divertir, aprender, conversar, conhecer novas pessoas, um tempo em que se ficava sentado no calçadão da praia e isso já era uma diversão, ficar ali, sentado, conversando com os amigos, achando graça em tudo. Hoje as coisas parecem mais difíceis, apesar de termos mais conhecimento, mais comodidades, mais liberdade. Talvez seja um engano, apenas um estado de espírito passageiro.



26/05/02


Momento de olhar para si, valorizar-se, encontrar atrativos, gostar da própria companhia.



28/05/02


O dia não começara muito bem, o gerente logo quando viu Peri chamou-o para sua sala e disse que não estava satisfeito com seu trabalho nos últimos dias, era preciso mudar ou ele o substituiria. No almoço foi para sua casa, ligou para sua mãe, conversou um pouco, contou o que lhe acontecera pela manhã e desligou. Tentou ligar para uma amiga, mas o celular estava em caixa postal. Ligou para Ceci e a convidou para subir em seu apartamento, ela respondeu que não queria. Estavam assim: depois de tudo o que passaram Ceci não o amava mais, estava apaixonada por outro, desprezava-o. Peri ainda a amava mesmo sabendo que não queria mais viver com ela, estava só, era isso, não encontrara outra mulher porque não tirava Ceci da cabeça, por mais que tentasse e pedisse a Deus ela sempre aparecia em sua vida. Algumas vezes se sentiu mais distante, porém ela reaparecia e Peri experimentava uma nova recaída. Sentia-se com a estima não muito elevada, era difícil esquece-la e o fato dela não o amar mais o deixava triste. Ela estava amando um rapaz mais novo, desempregado e que não queria nenhum relacionamento sério com ela, ele aparecia um dia e depois sumia. Muitas vezes Peri viu o olhar triste de Ceci, um olhar triste e cheio de saudade, nesses momentos Peri se convencia que ela pensava no rapaz. E nessas idas e voltas uma tristeza mansa invadia seu peito. Tinha esperança que um dia esqueceria Ceci e encontraria outra mulher que lhe fizesse bem.



capítulo 29/05/02


Uma sensação de bem estar acompanhava Peri, o sol de outono tornava o dia claro e brilhante, leve como uma pluma, preciso como o vôo de uma ave marinha no momento que apanha o peixe.

Quando do saiu do trabalho para almoçar encontrou um amigo e combinaram de ir na praia mais tarde. Chegou em casa e o telefone tocou, era a Rosinha perguntando se no dia seguinte, feriado, iria trabalhar, Peri disse que não e marcaram um encontro para o dia seguinte, quem acordasse primeiro telefonaria para o outro. Agora estava escrevendo e se perguntando quando publicaria seu livro, se é que o publicaria. Seu projeto de criar uma página na Internet do livro estava atrasado, era necessário recomeça-lo, aproveitar o tempo vago para se ocupar com coisas produtivas, estudar inglês, espanhol e francês. Voltara a treinar, o que lhe era muito proveitoso, pois a sensação que a endorfina causava em seu corpo era agradável e parecia persistir mesmo depois dos exercícios, a luta o estimulava mexendo com seu equilíbrio, força e precisão. O mundo mudava e Peri o acompanhava, passo a passo, lenta e prazerosamente.



capítulo 30/05/02


Alguns filósofos consideravam o mundo como fruto de nossa vida interior, uma projeção dialética de nossos pensamentos e emoções. Salvo o exagero, a concepção é bastante interessante, pois de um certo modo, o mundo é o que reagimos, tanto física quanto intelectualmente, é o que pensamos sobre os acontecimentos que faz a diferença, não apenas o acontecimento em si, os judeus sabem bem o significado do pensamento positivo, produtivo, onde uma dificuldade, um tormento, é em si uma nova oportunidade.

Ceci acordara Peri dizendo que tinha uma coisa para lhe perguntar. Estava triste, apreensiva. Eram aproximadamente três horas da tarde.

- Você se lembra se quando a gente morava junto eu disse para minha filha que se ela quisesse experimentar maconha, ela poderia pedir para mim? Ou se a gente fumava na frente dela?
- Não, a gente sempre evitava. Mas eu não me lembro de você ter dito isso para ela. E mesmo se tivesse dito, é melhor experimentar em casa do que na rua, pelo menos se tem mais apoio, é mais fácil de alertar sobre os problemas que a maconha pode causar. Por quê? Ela está fumando?
- Hoje vieram em casa os pais de uma amiguinha dela, eu desci e eles me falaram que ela estava com uma turma de amigas que resolveram comprar vinho, ficaram bebendo e depois decidiram fumar maconha para experimentar. Uma das meninas passou mal e elas a deixaram sozinha na praça e foram para à praia. Os pais acharam a menina e ela lhes contou tudo.
- Você já conversou com ela?
- Não, ela ainda não chegou. Eu procurei por vários lugares e não a encontrei, fui até a Antônio Emerick, fui na praça depois da linha da máquina, e nada. O pior é que ela sabe que os pais da menina estavam vindo me contar.
- Calma, não adianta ficar brava, bater na menina e depois se arrepender. O problema é que ela tem muita liberdade e está numa fase em que se pensa que se sabe tudo. Outra coisa, ela é muito vaidosa e é muito nova ainda, já imaginou se com uns quatorze, quinze anos ela aparece grávida?
- Nossa! Nem me fala uma coisa dessas, eu acho que eu morria.
- Por isso que é melhor conversar agora do que depois.
- É verdade, ela é muito vaidosa, não que eu seja contra a vaidade, mas ela precisa se preocupar com outras coisas...

Enquanto Ceci falava sobre os defeitos da filha, sobre sua arrogância e vaidade, Peri via um reflexo de Ceci, via a filha seguindo os passos da mãe.

- Eu me sinto tão sozinha, é tanta responsabilidade.

Ceci chorou, se levantou e foi embora. Peri se trocou e desceu para caminhar.



capítulo 03/06/02


Os dias passavam e Peri se perguntava por onde andava a mulher azul com seus olhos cheios de ternura e as mãos repletas de paixão. Será que sua carência era tão grande, assim? Não conseguiria viver sozinho? Teria sempre que ir em sua busca ou viver na eterna esperança de encontra-la? Peri queria ter alguém ao seu lado, alguém com quem caminhar pela areia da praia, olhar perdidamente o mar, abraçar, fazer carinho, conversar horas a fio, discutir os livros que leram, as vidas que viveram, alguém para olhar dentro dos olhos e se achar. Amar. Peri sentia-se só. Precisava amar e ser amado por uma mulher que o fizesse feliz ou teria, ele mesmo, que ser feliz? As vezes parece que é muito mais fácil jogar a responsabilidade de nossas vidas em outras pessoas, ou nas circunstâncias, mas somos os únicos que podemos nos fazer feliz. Os únicos.



capítulo 06/06/02


E a vida navegava seus mares de desassossego.



capítulo 07/06/02

- Fala, o que você sente? Vamos conversar, de repente você fica parado, o olhar triste...



capítulo 11/06/02


Peri se perguntava o que mudara, o que acontecera com sua confiança, seu brilho, o que sucedera para torna-lo ressabiado, introspectivo. Estava ficando velho, não gostava mais de sair para baladas, não acreditava nas coisas e nas pessoas como acreditava antes, porque antes acreditava em tudo, ou melhor, acreditava em si. Quando tinha treze anos era certo que mudaria o mundo com sua crença, seu ideal, ou então, morreria em algum país distante lutando por uma revolução; os livros que lia com voracidade lhe enchiam o espírito e tudo era possível, o mundo se descortinava diante seus olhos curiosos . Aos vinte a juventude lhe pulsava nas veias e um brilho profundo iluminava seu olhar, acreditava no amor e se deixava levar pelas emoções, sentia-se cheio de virtudes, lutas, pequenas conquistas, era confiante e forte. Mas agora, aos trinta, tudo parecia ruir, duvidar, começava a se olhar e via alguém cheio de incertezas, alguém que precisava se reconstruir, pois a vida foi mostrando o que ele era, o que sentia e o que fazia. E muitas vezes o que fez deixou-lhe envergonhado, arrependido. Apesar de todas as conquistas, seu emprego, seus estudos, os amores que sentiu, percebia que não era o super homem que imaginava, era apenas um homem comum, errando, sofrendo, culpando os outros e a si pelos fracassos cotidianos. Aos trinta anos estava lutando contra si, contra suas fraquezas, suas carências e solidões. Estava aprendendo a ser feliz, a driblar as dificuldades da vida, a abandonar antigas posturas, a refletir verdadeiramente sobre quem era e a ter coragem. Sonhava com amor e aprendia a viver só enquanto sua cara metade não aparecia.



capítulo 12/06/02


Dia dos namorados sem namorada.

O céu se fecha e densas nuvens de chuva encobrem o azul do mar. Peri recebeu um telefonema da avó de seu filho, estava pedindo dinheiro e contando em detalhes as dificuldades financeiras. Peri não tinha mais paciência para escuta-la, nos últimos nove anos a ladainha nunca cessara, discorria sobre todos os sofrimentos que passava, reclamava, reclamava e reclamava. Quando não permitiu que Peri registrasse seu filho, alegou que ele não tinha dinheiro, sobrenome, esperava que um outro homem registrasse seu filho, alguém rico, alguém que se casasse com Elektra. Mas isso não aconteceu e agora elas pedem dinheiro para aquele que esnobaram. É a vida com suas voltas.

Peri tinha dúvidas se seu filho era seu mesmo, faria um espermograma. Quando adolescente namorara uma menina por um ano e ela nunca engravidou. Com Ceci ficara seis anos e ela também nunca engravidou, porém com um mês de namoro com o outro rapaz ela ficou grávida. Eram dúvidas que precisavam ser esclarecidas.

Ganhava pouco e a mãe lhe ajudava, pagava o condomínio, ajudava aqui, ali. Precisava ganhar mais. Mas essa era uma situação geral, a maioria das pessoas que conhecia estava em dificuldades financeiras. Sua independência era ilusória, apesar de também ajudar a mãe quando ela ficava sem dinheiro. Era preciso trabalhar em um hotel que tivesse mais movimento. Estava pensando em voltar para um hotel que trabalhara e estava com um mega projeto para Santos. Se fosse recontratado seus ganhos aumentariam. Por enquanto estava no Palladium e ali ficaria até conseguir algo melhor, ou progredir ali mesmo. Já conseguira, estava como chefe da recepção, faltava ganhar mais.



capítulo 26/06/02


Agora que o tempo havia passado.



capítulo 29/06/02


“... e deitado ao seu lado vejo as cinzas frias de nosso amor, sinto o beijo que não nos demos, o abraço que ficou por dar. Vejo o seu sono e estou ao seu lado acordado. Você dormiu no meio do filme e eu fiquei. Olho para você, evito pensar, mas sinto e é tão triste sentir o amor apagado. Pergunto-me por que ainda estou aqui lhe procurando, tentando lhe abraçar. É muito triste. O que fizemos? O que estamos fazendo ainda? Queria esquecer todas as coisas ruins, todas as mágoas, todos os nossos enganos, para poder fechar os olhos e ver o futuro, nós dois juntos, um ao lado do outro, felizes à toa. Seria muito bom se pudéssemos nos superar. Sinto sua falta, um ano e meio depois, eu ainda sinto sua falta, falta do seu amor, atenção, presença... Eu sinto falta de você. Seus olhos, suas brincadeiras. Hoje é diferente, muito diferente: você não me ama mais.”



capítulo 30/06/02


“Fico na janela lhe esperando chegar. Você não chega. Tocou a campainha e também não era você. Estou a uma hora na janela, em pé, olhando para todos os lados. Momentos antes chorei de soluçar, como uma criança, então fiquei imaginando o que eu lhe diria quando você chegasse. Mas o que eu diria? Que faz um ano e meio que sofro por você, que estou cansado de sofrer, que não agüento mais lhe amar, que essa espera é vã? Eu olho pela janela e não lhe vejo, você não vai chegar, nem vai me amar mais, nunca mais. O Brasil é pentacampeão, você está no meio da praça da Independência, no meio de milhares de pessoas vibrando e comemorando. Mas você chegou. Provavelmente eu não sei o que direi, ficarei olhando para você sem dizer nada, você ficará irritada, brigaremos e eu prometerei que nunca mais vou lhe procurar.”



capítulo 27/08/02


Um sol de inverno banha a baía de São Vicente.



capítulo 23/09/02


Os signos mesclam-se no espaço etéreo do sonho, propagam-se pelo tempo e germinam realidades. É isso. Ou mais do que isso.


capítulo extemporâneo


Os dias no Palladium Apart Service haviam acabado e para comemorar Peri dera uma festa. Convidara as amigas do trabalho que convidaram outras amigas, convidara também mais três amigos, os mais chegados, além de um que tocava violão e cantava muito bem. A festa foi ótima, com muita cerveja, risos e música, era uma quinta-feira que se estendeu até a madrugada. Quatro dias depois foi para Maresias, litoral norte de São Paulo, visitar um amigo que estava trabalhando em um hotel por lá. Na segunda-feira curtiu a praia, conheceu o lugar e descansou. No dia seguinte resolveu deixar alguns currículos pela cidade, isso fora à tarde e à noite seu celular tocou. Era de um dos hotéis perguntando se Peri ainda estava pela cidade, Peri respondeu que sim e as sete e meia da noite estava fazendo uma entrevista. Meia hora depois estava trabalhando. Assim sua vida mudava abruptamente. Teria que mudar de cidade, abandonar os velhos hábitos, deixar o apartamento, mas enfim, era melhor do que ficar desempregado, procurando emprego em Santos, onde já trabalhara em quase todos os hotéis. A vida novamente mudando. No começo ficaria na casa do amigo até encontrar um lugar para si. Não sabia ainda se a mudança valeria a pena, havia dúvidas, se o dinheiro seria suficiente, se o convívio na nova casa seria bom e outras tantas coisas que se passavam por sua cabeça. Pensava em Ceci, quando saíra de São Vicente eles haviam brigado e o remorso lhe revolvia o coração.

Nos primeiros dias sentiu-se muito só, um lugar estranho, sem amigos, onde tudo ainda estava por descobrir. Ligava para Ceci quase todos os dias, logo ela viria lhe visitar.



27/11/02


O tempo vaga pelas ondas do sol, inebria e sementeia calores, muda as dunas do lugar.



capítulo 28/11/02


...



capítulo 05/12/02


Uma tartaruga baila pelas águas transparentes do oceano Atlântico, duas estrelas do mar deixam-se ficar por sobre a superfície dura de uma pedra lisa, Peri mergulha e encanta-se com o novo mundo, cores, formas, brilhos e uma sensação aquea de vôo.



Capítulo 07/12/02

Enquanto anoitecia e o cheiro da chuva subia pelas narinas, enquanto os telefones tocavam e os hóspedes passavam pela recepção, enquanto isso. Uma sensação. Duas ou mais maneiras. O tempo passava e o hotel lotava, apartamentos com vista ao mar, ar condicionado, sacada privativa, árvores de natal, pisca-piscas e Ano Novo. Altíssima temporada. As escadas e seus degraus. Recepcionistas, garçons, manobristas, governantas chatas e neuróticas e preocupadas com suas próprias frustrações, inebriadas de desgosto.

A noiva passa pela recepção acompanhada de seu pai, maquiador, familiares e seguranças, celebrarão o casamento nos jardins do hotel, um altar foi montado com velas e cruzes, o padre aguarda, o noivo sua, pois está calor e parece que vai chover, mas não chove, a conversa dos hóspedes no lobby do hotel se confunde com os ruídos da festa de casamento que agora se transformara numa festa rave, mas o vento repentinamente se enfurece e varre a decoração enquanto ...



capítulo 13/12/02


Vejamos as coisas por outro prisma, pelo melhor ângulo, sintamos os bons ventos, o nascer e o pôr do sol, a chegada das luas e das ondas.



capítulo 25/12/02


Natal. Luzes, festas, ligações telefônicas, ausências, presentes. No hotel os hóspedes, como sempre, reclamam do barulho da festa, talvez chova ou já choveu, é que na recepção perdemos o sentido do tempo, muitas vezes não sabemos se é dia ou noite, se chove ou faz sol, se o tempo realmente passa ou se somos nós que passamos. Os judeus não comemoram o natal porque não acreditam em Cristo, enfim, eles vieram antes de Cristo, o que não significa muito, posto que vários outros povos vieram antes também. Mas como entende-los, suas motivações, as perseguições que sofreram e as que fizeram. Por que renegaram Cristo? Dingle bell.

Peri estava trabalhando das 19:00 as 07:00 da manhã, sem folga e sem intervalo para descanso, mesmo assim conseguia aproveitar o dia, acordava as 11:00 e ia para praia, trazia pedras do rio e decorava o jardim da casa, rastelava o gramado, cortava o mato que crescia, fazia ioga e mergulhava sempre que o mar permitia, quando não, meditava. Uma vida simples e boa. Em casa estavam Ceci, sua mãe, o marido, a filha e uma amiga de Ceci, o amigo que morava na casa, sua namorada e sua mãe. Ou seja, super ocupação. Levando-se em conta seu horário de trabalho, as coisas estavam bastante difíceis. Primeiro porque nesta época do ano era muito difícil alugar uma casa, pois todos esperavam ganhar muito mais dinheiro alugando apenas para a temporada; segundo, o convívio com o amigo começa a se tornar estressante. Pequenas coisas que passariam desapercebidas não fosse a vontade de trazer Ceci para morar consigo, o que não seria possível com o amigo ainda morando na casa. Uma situação difícil de se resolver, principalmente pelo fato da casa ser excelente e Peri não querer abrir mão dela. Por seu lado o amigo não tinha condições de suportar sozinho as despesas da casa, mas também para ele era difícil deixa-la, em virtude da temporada. Mas Peri acreditava que logo as coisas se resolveriam.

A Serra do Mar aparece invisível, os hóspedes taciturnos com a chuva que não pára circulam pelo exíguo lobby do hotel. O presidente da Mercedes Benz italiana deixa o hotel e viaja para Angra dos Reis, reserva em hotel cinco estrelas com diária a R$ 718,00 e motorista para leva-lo ao preço de R$ 900,00. Tudo muito caro e fácil. Mas é natal e o seu espírito passeia pelos olhos e frases dos hóspedes, natal com Papai Noel barbudo, com roupas de frio e neve nos trópicos brasileiros. É natal, ho-ho-ho-ho!



capítulo 27/12/02


Por mais que o tempo passasse as coisas com Peri e Ceci pareciam não mudar, era sempre a mesma história, o ciúme de Peri, a intranqüilidade de Ceci, as discussões constantes, as frases intercortadas de um rancor velho e sem sentido. Mesclavam-se tantas emoções que o resultado era um quadro de mau gosto. Talvez o que Peri precisava aprender com Ceci era que ele não deveria viver com ela, ou o que deveria ter aprendido já aprendera não restando muito mais. Ceci não o escutava, seus conselhos, seus pedidos, apenas a reclamação constante da mulher sobre o seu jeito, sua cara amarrada. Peri trouxera-a para Maresias na esperança de viverem bem, mas as coisas não estavam caminhando para este rumo, primeiro pelo temperamento dos dois, segundo pela filha de Ceci que não queria deixar São Vicente. Peri pensava se o esforço desprendido realmente valia a pena, ansiava por uma mulher que também o ajudasse, que o deixasse tranqüilo. Enfim, a mesma e sempre velha história.



capítulo 13/02/03


O tempo varrendo de sol nosso rosto bronzeado, a água clara do mar nos convidando a voar em sua transparência e os grãos da areia nos ensinando a mudança. Peri mergulhava e via cardumes de peixes, estrelas do mar, ouriços, moréias, tartarugas, corais, algas, pedras e muita beleza. Seu corpo flutuava e sua mente aos poucos ia se tornando lenta até desaparecer nas ondas do mar. Então sobe à tona e um hóspede pergunta pelo gerente, Peri vai chamá-lo e quando volta o hóspede lhe dirige a palavra, o dono do hotel está por perto e ouve tudo:

- Eu acho injusto estar pagando uma diária maior do que os apartamentos 44 e 45, eles estão com diária a R$ 200,00 e estão há apenas três dias. Inclusive eu que trouxe esses hóspedes para cá.

- Sim, sim. É verdade, nós veremos o caso e logo retornaremos a nos falar.

Então o dono do hotel chama Peri de canto e diz:

- Tá vendo? Você não me consultou, diária a R$ 200,00 não existe, olha o problema que causa. Eu não quero hóspede no meu hotel, eu quero dinheiro.



capítulo 15/02/03


E o tempo passava em Maresias, Peri pouco ia a São Vicente, a vida aos poucos se adaptava por si mesma. Ceci trouxera a filha e a irmã para morar juntas com ela. O hotel se esvaziava e esperava pelo carnaval, último fôlego de ocupação. Quando amanhecia chovendo não havia muito o que fazer, as horas passavam lentas e o sono pesava as pálpebras. Trabalhava bem menos agora, durante a semana trabalhava durante o dia e nos finais de semana trabalhava a noite. As perspectivas haviam mudado, no início pensava que ganharia rios de dinheiro, depois foi percebendo que as coisas não eram assim. Pensava no dia em que ganharia muito dinheiro. Sabia que a vida não estava fácil, tudo muito caro, juros altos, desemprego, mas também sabia que apesar de nunca ter ganhado muito dinheiro levava uma vida boa. Maresias era uma nova etapa de sua vida, talvez passasse a mudar de cidade freqüentemente, indo de um lugar a outro do Brasil, conhecendo pessoas e trabalhando em novos hotéis. Em breve faria trinta e três anos e se lembrando de tudo o que vivera percebia que muitas mudanças o acompanharam desde seu nascimento, a vida nômade da infância, a juventude repleta de idealismos e a maturidade mostrando a vida como ela pode ser.



Capítulo 24/03/03


Com fé. Que move montanhas imensas, transpõe tempos e concretiza. A fé, razão suprema do inconsciente, dádiva de luz, som e silêncio. Fé.


capítulo 29/03/03


Poderíamos tantas coisas, pensamentos, insinuações. O mundo como ele é e a nossa vaga noção do todo, imprecisa. As coisas aconteciam rapidamente como em um redemoinho que carregasse consigo casas, carros, plantações. Ou ainda o mundo como um complexo jogo de palavras indizíveis, invisíveis aos olhos cotidianos. Peri olhava em volta e a mata Atlântica era uma caverna à noite com as feras esperando do lado de fora. Parecia-lhe que pequenas atitudes seriam capazes de mudar as pedras do caminho, inseguranças que passavam e iam embora. A incerteza de nossas mentes e a concreta existência do mundo dos fatos. Peri ora errava, ora acertava, mas começava a se preocupar com o saldo de suas atitudes. Contrabalançava as opiniões alheias com as suas, pensava, refletia e ruminava suas divagações, orava pedindo perdão e ajuda. Sentia-se certo e de repente achava-se equivocado. Tudo começara quando conectou o computador da recepção a internet e acabou quando uma recepcionista esqueceu-a ligada durante quinze horas. Pela manhã os donos pediram que mandassem os dois embora e no final da tarde mudaram de idéia.



capítulo 04/04/03


O tempo varrendo a fúria, arrasando os mares e transformando as rochas. O tempo. Outra briga e outra e mais outra, sempre o mesmo ainda.



capítulo 12/04/03


É difícil começar algo que já teve seu início, melhor seria se começasse tudo de novo, ou simplesmente começar outra história. Esquecer Peri, Ceci e toda essa história desconexa, mal acabada. Seria melhor outro começo, um desenrolar mais coerente, menos fragmentado, mas é tão difícil dar o primeiro passo, na verdade sabemos que depois do primeiro passo fica tudo mais fácil, porque talvez passemos a intuir o rumo que tomaremos, ou não. Ou seja, uma típica frase sem sentido na qual você afirma algo para depois nega-lo ou deixar em dúvida. Digamos assim, então:

A tarde fria de outono tinge de cinza as ruas vazias, Wallace caminha com passos largos e assovia uma música que acabou de inventar. Está ansioso, mal conseguira dormir a noite passada, a manhã custou a passar como um fardo imenso que se tem que carregar, pensara em cada detalhe, o que falaria, como gesticularia, onde estaria e, principalmente, o que omitiria. Não que estivesse omitindo com intenção de prejudica-la, digo, a história, mas sabia que certos detalhes ficariam melhores se não fossem revelados. Mas se fossem, o que mudaria na história? Enquanto pensava nessas tolices o tempo passava e rapidamente à distância que faltava ia diminuindo, logo estaria na rua...

Parece bom, muda o tom da narração e pode despertar a curiosidade. Mas qual seria essa história, quem Wallace iria encontrar para deixa-lo preocupado? Talvez pudesse ser apenas um caso em que não houvesse acontecido nada, um pequeno atraso, um desvio de percurso, algum velho amigo que encontrara por acaso e ficara conversando sem sentir o tempo passar. Ou então, a imagem de Wallace caminhando na rua com um ar apressado e um buquê de flores secas na mão. Digamos que era um encontro passional, Wallace estava atrasado, seu carro quebrara momentos antes do encontro, no meio do caminho percebe que sua carteira havia sumido, resolve roubar flores de uma vendedora que estava distraída e acaba flagrado, começa a correr, tropeça, cai num barranco e, sem querer, despista seus perseguidores. Ou ainda, continua a andar e se depara com uma imensa bola de luz sorridente que o leva para um zoológico intergaláctico junto com Moonshadow e seu estranho gato. Wallace o olha atentamente e o escuta tocar flauta e quando a melodia acaba ele está novamente andando pela rua, encaminhando-se para seu encontro.

Parece bom. Seria.



capítulo 27/04/03


Peri chega ao hotel...



capítulo 01/05/03


Viva o trabalho! O hotel se agigantava com a chegada de um feriado que todos acreditavam fraco. Um sol repentino alçava a taxa de ocupação a patamares elevados, hóspedes chegavam, ligavam, conheciam apartamentos, sumiam, reapareciam e olhavam tudo com uma esperança solar nos olhos. Enquanto isso o cerco se apertava em volta de Peri na figura de um gerente que, desconfiado até as orelhas, analisava cada um de seus passos e perguntava, esmiuçava, pressionava, inquiria e supunha uma série de probabilidades e dúvidas. Peri estava de saco cheio, tinha vontade de jogar tudo para o alto e sair fora, esquecer o emprego, o casamento, as dúvidas, a instabilidade, seus defeitos, suas mágoas. Enfim, sair por aí na certeza de que o melhor aconteceria. Não se preocupar com contas a pagar, em progredir na profissão, em subir de vida, em dar certo no casamento. Não queria mais saber se estava correto ou não, se era um melhor ser humano ou um crápula imbecil. Ceci novamente pensava em ir embora, largar tudo e recomeçar sua vida em São Vicente, não suportava mais as brigas e percebia que sua vida não estava muito boa, não conseguira emprego e as chances de consegui-lo estavam cada vez mais distantes. Além disso, sua filha tornava-se rebelde e incitava-a a deixar Peri.



capítulo 03/05/03


Ceci não foi embora, ficou. Peri acreditava na fé, sabia que tudo daria certo, por mais que as coisas teimassem em dar errado. Estava pensando em prestar um concurso público, ter segurança no emprego, viver com tranqüilidade. No hotel sua situação não era boa, seus superiores não estavam gostando do seu trabalho e não lhe davam o aumento prometido; alugara seu apartamento em São Vicente e um mês depois a inquilina saiu, era preciso aluga-lo novamente o mais rápido possível. Pelas suas contas logo estaria endividado. Mas mesmo assim acreditava que tudo daria certo, o amor venceria, a fartura sobreviria e a paz reinaria. Bastava acreditar, lutar e esperar, pois a vida era simples e boa na crença, na esperança e na certeza dos dias vindouros. A fé.



capítulo 06/05/03


Um tornado atinge Basehor, no Estado do Kansas (EUA), deixa um rastro de casas destruídas e trinta e cinco mortes com a força incrível de seus ventos a trezentos quilômetros por hora. A natureza se agigantando e o homem diminuto recolhendo os pedaços, reconstruindo com a tenacidade de seus milhares de anos, lutando, adaptando-se, aproveitando os infortúnios para crescer e fortificar-se, multiplicando-se, sobrevivendo, concebendo.


capítulo 13/05/03


As coisas pareciam que desandavam de vez, tudo caminhava de uma forma estranha e Peri achava-se cada vez mais intranqüilo. Perdera o emprego em Maresias, o relacionamento era apenas uma sucessão ininterrupta de brigas cotidianas, seu telefone havia sido cortado e uma espécie de desesperança lhe preenchia o coração. Estava de volta à São Vicente, novamente procurando emprego e tentando reconstruir sua vida. Seus pensamentos se confundiam e pensava se na verdade era um bom homem. Começava a acreditar que não, que estava muito distante da bondade humana. Percebia-se mesquinho e pequeno diante os problemas que enfrentava, sentia-se diminuído, burro, estúpido e incapaz. E então pensava em tudo que poderia ter feito no momento certo e não fez, tudo que poderia ser evitado e não foi, nas palavras que disse e feriram tantas pessoas, nas palavras que não se permitiu pronunciar e poderiam mudar tanta coisa. Refletia em quanto se esforçava para mudar, ser mais inteligente emocionalmente, se elevar fora da mediocridade cotidiana, então se lembrava de como antes era altivo e bondoso, tão cheio de sonhos e sentimentos elevados. E assim se recordava dos primeiros amores e concluía que exatamente ali começara a se conhecer como uma pessoa diferente. Lembrou-se da primeira namorada, ainda na adolescência, de como seu ciúmes doentio começava a se pronunciar, lembrou-se de como sofrera depois desse relacionamento, de quanto tempo ficara sozinho. Depois veio Elektra com a qual conheceu o lado negro da vida, a maldade humana, os maus pensamentos, a revolta incontida e a dor. Com Ceci não fora diferente, apenas mais duradouro. Lembrava-se também dos empregos que tivera e como sempre se portara de uma maneira inadequada, quantas oportunidades perdidas, jogadas fora por pura infantilidade. E assim, no meio de seus pensamentos atribulados, repletos de uma sensação ruim, perdia-se na realidade e não fazia nada. Ceci jogava em sua cara todos os seus defeitos, inseguranças, erros e Peri era obrigado a ver-se tal como era. Nessa sucessão de brigas olhava para si e percebia que não sobrava muita coisa boa. Estava com trinta e três anos, dentre pouco tempo estaria velho para o mercado de trabalho e talvez não encontrasse alguém que pudesse lhe suportar. O que estava fazendo de sua vida todos esses anos? O que faria agora?



capítulo 18/05/03


“Amor, tudo acabou. Novamente tudo foi por água abaixo. Brigamos, e o que não foi nossa vida juntos a não ser essas brigas sem fim. Oh, amor. Tudo acabou.”



capítulo 24/06/03


“Há tempos não escrevo, minha disposição esbarra num sentimento de angústia que me impede de escrever. Aconteceram tantas coisas... Estou confuso, indeciso e impaciente, meu humor muda ao sabor dos ventos e ora estou confiante em dias melhores, ora me sinto apático diante os fatos. Não estou trabalhando, não estou estudando e não estou namorando. Passo o dia conversando com amigos, fazendo exercícios, jogando xadrez, procurando emprego e assim por diante. As vezes não aparece ninguém em casa e as vezes parece que todos combinaram de me encontrar. Penso que tenho uma certa importância na vida das pessoas, daquelas que por um motivo ou outro se aproximaram da minha vida. Em alguns momentos sinto que de certa forma eu os influenciei, fiz com que refletissem e pensassem de um modo diferente. Mas isso acontece muitas vezes sem que nos apercebamos. Uma frase que soltamos no ar pode ser captada no nosso mais profundo íntimo. Por isso é melhor que falemos boas coisas, que reclamemos menos da vida que temos. Porém, tenho tanto a falar e não sei como, porque os pensamentos se aglomeram, fundem-se e partem para caminhos diversos. O pensamento que tentamos controlar é uma fonte inesgotável de energia, um paradoxo do tempo e do espaço, uma miniatura infinita do universo. Quantas coisas gostaríamos de não pensar e ainda assim pensamos? Se, realmente, pudéssemos controlar o pensamento e pensássemos apenas coisas boas? Ou se pudéssemos extrair o lado bom de tudo, mesmo daquilo que nos provoca dor e sofrimento? Se ao invés de pensar no pior, pensássemos no melhor? É preciso aprender com os erros, vencer os vícios. Enfim, vivamos cada momento.

Um dia desses encontrei meu tio na casa de minha mãe e, então, conversamos por alguns momentos. Meu tio sempre foi um exemplo de retidão, em toda sua vida agiu acertadamente, sem arroubos, sem aventuras, sem nada que pudesse ser atacado pela feracidade da língua alheia. Conheceu minha tia na infância e na adolescência namoraram e depois se casaram. Seu primeiro emprego, na fábrica de papel em Cubatão, durou trinta e seis anos. Ou seja, uma vida correta e linear. Então pensei na vida do meu pai e pensei na minha. Que diferença! Meu pai passou a vida mudando de emprego, ia de um estado a outro, Amapá, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Amazonas, enfim, uma vida nômade. Só na Baixada Santista moramos em Santos, São Vicente, Cubatão e Praia Grande. Infância nômade, tentando imaginar como seria uma amizade de longos anos. Hoje tenho amigos de longa data. Moro há anos no mesmo lugar. E o meu pensamento oscila e penso em todas as coisas ao mesmo tempo, todas as mulheres, todas as dúvidas e todos os anseios.”



capítulo 27/06/03


A Juréia, litoral sul do estado de São Paulo, em Peruíbe, é um canto mágico do mundo, um lugar afastado do olhar humano. Quando chegamos, pela estrada de terra, temos a impressão de que algum animal pré-histórico passará na nossa frente. Ficamos absortos e perdidos no silêncio entrecortado apenas pelo canto dos pássaros.

Há dez anos Peri estivera nesse lugar, fora na semana em que seu filho nascera. Estava com vinte e três anos, sem saber que rumo tomar em sua vida e com a cabeça cheia das idéias típicas de quando somos jovens. Agora ficara em silêncio. Fora com dois amigos que sempre vão para lá, estão preparando a terra para plantar pupunha, uma espécie ecologicamente correta do palmito, posto que o Jussara uma vez cortado não cresce novamente, levando-se em conta que para atingir o tamanho do corte são necessários doze anos. Enfim, a mata o envolvera e o silenciara quase por completo. Era como viver há cem anos, uma casa sem luz elétrica, sem encanamentos, fios, plugs, sem tv, apenas o rumor da mata, a luz dos lampiões, o fogo da lenha queimando no fogão, o corpo cansado pelo trabalho do dia e os olhos lentamente se acostumando com a escuridão da noite. Um lugar sem vizinhos, sem calçadas e muros. O pensamento tornava-se lento e as palavras desnecessárias. Acordavam antes do nascer do sol, acendiam a lenha para preparar o café e partiam para o trabalho, cortavam as árvores caídas, capinavam e, pouco a pouco, limpavam a área para o plantio. O suor escorria e as mãos doíam, carregavam toras de madeira e as amontoavam para fazer uma fogueira. Paravam para mais um café, voltavam para o trabalho. E assim analisavam a mata caída, qual melhor modo de cortar, como limpar as áreas adjacentes às árvores caídas, fazer suportes com forquilhas de outras árvores para encontrar o melhor lugar para o corte, onde a serra não fica presa com a pressão do tronco que está sendo cortado. Depois do solo preparado seria plantado o pupunha, mil mudas de pupunha. E o que é interessante nesta espécie de palmito é que ao ser cortada automaticamente nasce outra muda, assim como acontece com as bananeiras. Exatamente o que o diferencia e o torna mais atrativo diante do palmito Juçara, visto que o mesmo cortado não nasce mais. Quando parávamos para almoçar e fumar uns cigarros conversávamos pouco e sentíamos paz. Uma vez entramos na mata e caminhamos por duas horas, fora de trilhas e da presença humana, apenas o mistério e a fascinação diante de tão magnífico labirinto. No final do dia, Peri plantou pinhão, abóbora, maracujá e mandioca. O pinhão demora cem anos para dar frutos.



capítulo 03/07/03


“Escrevo e cravo meus dentes na superfície tenra das palavras. Delicio-me”.



capítulo 14/07/03


...



capítulo 30/07/03


“Estou parando de fumar mas minhas células a cada instante clamam por nicotina. Depois passa, espero. Quero simplesmente dizer não ao que me faz mal, quero e luto, procuro dominar meu pensamento, entretanto logo em seguida me pego fumando bitucas que ainda ficaram pelos cinzeiros, feito um idiota saboreando a pior parte do cigarro. E quantas outras coisas em minha vida não se processam exatamente desta forma? Sei bem do que estou falando, estou me referindo à ... Droga, parece que não consigo esquece-la, apesar que desta vez estou sentindo um certo mal estar na boca do estômago quando a encontro, ou mesmo quando passo pela sua porta, assim como me aconteceu com Elektra. E este é um claro sinal de término de sentimento. Não importa. Estou parando de fumar e meu cérebro treme com a falta de nicotina, assim começo a fumar maconha como se estivesse tragando um cigarro e sorrio diante minha malícia. De qualquer modo a vida vem melhorando, voltei a trabalhar e isso preenche uma lacuna enorme, pois me motiva a outros vôos. O ano que vem quero começar a fazer mestrado, dentre dois anos estarei apto a lecionar em universidades, será ótimo, o ambiente acadêmico, a fomentação de idéias e conceitos e teses, o contato com pessoas que estão, de um modo ou outro, lutando pelos seus sonhos. É! Hoje fiz meu almoço. Preparei arroz branco com frango xadrez e batatas, achei ótimo, modéstia a parte, ou mesmo porque me encontrava assaz com fome.”



capítulo 01/08/03


Vagam as horas numa profusão confusa de segundos dispersos. E enquanto as moléculas do tempo arrastam-se e semeiam futuros...



capítulo 02/08/03


...meu amor, meu amor por ti imenso como só o mundo poderia. Ah! O universo conspira e eu sonho acordado com os teus olhos. Durmo nem sei porquê. E os sonhos se mesclam e um a um eu os como, imagino-os reais e os vejo em tua íris aberta. As horas caem de arranha-céus enquanto passo minhas mãos pelo teu alento e vago pelas notas mágicas de tua canção, silenciosa como os beijos da noite infinita. Meus olhos pesam e formam dunas, mares e constelações. Sonho acordado com teus abraços. Abraça-me! Abrasa-me!



capítulo 03/08/03


Peri sonhara que estava dando uma festa. Estava ligando para algumas pessoas que ainda não haviam chegado. Quando voltou um homem começou a discutir com ele e os dois brigaram. Peri lhe desferiu um golpe certeiro e o homem foi embora. Peri saiu da sala e entrou no quarto, Ceci estava varrendo o chão, mal humorada, azeda:

- Que história é essa de distribuir cigarro para todo mundo? Gritou Ceci.
- O dinheiro é meu e eu faço dele o que bem entender.

Então Peri, desesperado com o sonho, desperta. Estavam separados e não se viam mais, exceto as vezes que se encontravam pelo prédio. Nem sequer conversavam, reduzidos a uma troca mal humorada de cumprimentos. E a vida assim passava, Peri sentia-se, enfim, liberto. As poucas vezes que se deparava com Ceci, sentia um mal estar na boca do estômago, uma sensação desagradável que o repelia automaticamente, a mesma sensação que tivera com Elektra e que significava o fim de um sentimento, de um laço que por tanto tempo apertara sua vida.

Dormira. Acordara em meio a outros sonhos, outros mundos por imaginar. Era meio dia, olhara no relógio e pensara se ainda conseguiria dormir mais um pouco, talvez. Resolvera levantar-se, olhou para o céu e percebeu o tênue sol de inverno tingindo a avenida com seu dourado único e indizível. Tomou café e telefonou para algumas pessoas, a tarde teria uma festa e queria confirmar a presença de algumas amigas. As quatro horas passaram em sua casa e foram para um quiosque na praia beber cerveja. Ficaram até as cinco e foram para festa. Enquanto isso Peri pensava em quanto desejava aquela mulher que estava ao seu lado com o sorriso mais contagiante que tivera o prazer de presenciar. Então olhava para seus olhos que teimavam em fugir, em desviar de sua tentativa de se aprofundar e perder-se. Queria lhe dizer tantas coisas que ficaram caladas por tanto tempo, exprimir-lhe através do que considerava pouco tudo o que sentia, das palavras que saltavam do coração e invadiam-lhe a mente. Sentia a respiração faltar e suspirava com seus sorrisos, seus meneios de cabeça. Absorto viaja por um universo de possibilidades, por um passado que, se fosse diferente, a traria aos seus braços. Pensava que todo aquele amor poderia ser seu, se algum dia tivessem se falado, beijado e sentido um ao outro. Mas ela estava ali, recém separada e namorando com um amigo de Peri. Era o fim, principalmente porque percebia que ela sentia alguma coisa por ele, mas por que faltava a coragem para lhe perguntar? Por que as palavras calavam na garganta e não subiam à tona do mundo palpável? Por que ela não poderia ser sua? Enfim, primeiro ela era casada e quando se separou Peri estava morando em Maresias. Mas talvez nada disso fosse verdade. O fato era que Peri começava a entender que era melhor tentar do que ficar pensando em todas as possibilidades não realizadas. Chegaram à festa, logo de início avistara outra amiga, uma cantora com a qual tivera um sonho há anos, estava com outra amiga que conhecera recentemente. O final da tarde se prenunciava e as pessoas chegavam, se cumprimentavam e cantavam. Vários músicos se revezavam no palco e misturavam suas tendências, blues, bossa nova, rock´n´roll, música popular brasileira, uma miscelânea de compositores, ritmos diversos e uma agradável sensação que percorria a todos e perpassava o espaço. E assim se prolongou a festa por horas a fio, sem que Peri se resolvesse a lhe falar e tentar lhe beijar.






capítulo 09/08/03


“Estava voando. Em sonho, é verdade. Antes estava conversando com umas amigas em um bar, uma delas passou mal, olhou em minha direção e vomitou. O vômito esbarrou em meu rosto e me senti instantaneamente enjoado. Saí correndo para não vomitar ali também. Corri bastante e vomitei umas duas vezes. Quando voltei, elas já não estavam no bar. Acordei, porque me senti enjoado novamente e, sem sombras de dúvida, não gostaria de vomitar. Abri os olhos, virei-me e voltei a dormir. Estava voltando de Santos sem saber ao certo o que eu fora fazer por lá. Em determinado momento, quando chegava próximo à Divisa, avistei Ceci, ou alguém que, de longe, se parecia com ela. Andei mais rápido para me certificar e quando me dei conta ela havia desaparecido. Percebi então que eu estava voando, não muito alto, digamos que um pouco acima das pessoas que andavam pelo Calçadão de São Vicente. Quando passei por um grupo de pessoas que conversavam animadamente, um cachorro correu no meu encalço, era o cachorrinho da D. Vera, uma conhecida de infância, voltei para traze-lo de volta à sua dona. Percebi que uma outra amiga, antiga amante, estava sentada próxima com outros amigos meus. Cheguei para cumprimenta-la, havia tempos que eu não a encontrava. No meio da conversa ela pergunta onde ficava o banheiro, porém usou uma outra palavra para designa-lo, o que achei estranho e procurei ser irônico ao perguntar se o significado da palavra era realmente banheiro. Ela disse que sim e que era o melhor lugar para se vomitar, posto que sentia náuseas. Talvez tivesse usado outra palavra apenas para disfarçar seu mal estar. Enfim, acordei novamente.”

Outro dia, ao sair do prédio onde moro, avistei uma pomba no exato lugar onde vi Ceci pela primeira vez. Parecia-me doente, por vezes inchava o corpo e parecia maior. Mais uma vez lembrei-me do sonho com a pomba. Sonho antigo.”



capítulo 14/08/03


Maresias voltava à mente de Peri, rondava seus pensamentos e o fazia rever seu posicionamento. O que realmente lhe acontecera? Relembrando os fatos percebia que se transformara, seu caráter havia mudado e sua consciência vagara por dúvidas. Culpar Ceci por tudo o que havia acontecido era, no mínimo, uma atitude covarde. Mas quanto de sua presença não o influenciara, não mudara o rumo de suas preocupações? Lembrava-se de quando Ceci queria ir embora, fazendo o máximo para acreditar que o lugar não era bom, que não ganharia dinheiro suficiente para arcar com as despesas. A verdade, simples e clara, resumia-se na falta de amor de Ceci por Peri. Acreditando que as coisas seriam diferentes em um lugar como Maresias, Peri acabou percebendo que, mesmo longe, nada mudara. Continuaram com suas brigas intermináveis, suas dúvidas e desconfianças. Tormento era o que lhe sobrava, tumulto de idéias e comportamentos díspares. Entretanto, teria que assumir que suas atitudes eram responsabilidade sua e de mais ninguém. Quando voltaram para São Vicente e se separaram uma semana depois, as ilusões foram acabando e sobrou apenas a convicção de que nunca dariam certo. Peri já não conseguia olhar para Ceci e vê-la como a mulher de seus sonhos, sabia que ela saíra com outros homens e a percebia como realmente sempre fora, uma mulher fútil, superficial, sem base psicológica, disfarçando sua baixa estima em atitudes arrogantes. Sabia também que Ceci só ficara com ele devido sua covardia diante a vida, caso contrário já o teria deixado há tempos. Seu modo intempestivo, sua arrogância e sua ferina forma de falar, aos poucos, foi deixando Peri cada vez mais para baixo, ao ponto de sentir-se diminuído, estressado e insatisfeito. Recordava-se de quando, após se separarem, voltaram a se encontrar e transaram, quando Peri foi beijá-la, ela repudiou o beijo, dizendo que era melhor que apenas transassem. Quanto Peri não se iludira? Quanto não engolira de seu orgulho para ficar ao seu lado? Tudo em vão. Ceci não prestava, era fraca, preguiçosa, promíscua e burra. Dizia-lhe que saíra com outros homens, mas que depois, quando estava deitada tentando dormir, sentia-se vazia. Mas como poderia se sentir diferente se, em todo esse tempo, ela nunca se preocupara em ser melhor, em valorizar-se por dentro? Não, Ceci era apenas vaidade, uma mulher vazia que precisava com todas as forças se sentir desejada. Uma sensação de inconformismo que a cercava e fazia com que nada lhe parecesse bom. Ceci era uma garota de programa. Quando se conheceram imaginava-a perfeita, mas uma semana depois um amigo lhe alertara. Porém, Peri achou-se em um grande dilema, de um lado gostava da mulher, de outro via-se obrigado a superar seus preconceitos, o que não foi possível, porque, mesmo ficando com Ceci, a desconfiança roubou sua paz. Ledo engano. E assim viveram por sete anos, longos e tumultuados anos. E se Ceci não o deixara também é porque não prestava tanto quanto ele. Meses antes de voltarem e Ceci ir para Maresias, ela voltara a se prostituir, ficou sabendo só depois que se separaram, o irmão dela lhe contara após um briga entre eles. Hoje não é possível ver Ceci e imaginar-lhe deitada ao seu lado, lhe tratando como um bebê. Peri agora conhecia Ceci tal como ela era: uma puta, safada e mentirosa, cheia de artimanhas e sortilégios. Peri se apaixonara por uma puta, era isso. E por sorte acabara.



capítulo 15/08/03


Força! Ânimo! Coragem! O sono pesa os olhos de Peri que lentamente cede, misturando mensagens e imagens desconexas, dispersas pelos meandros de sua mente cansada, envolta em dilemas insolúveis, em problemas imaginários. Cão sem dono, vagabundeando pelo sonho, torpor. Porre. Vontade de juntar suas lembranças e rasgá-las uma à uma, como cartas de amor sem destino, como promessas vazias, como se rasgam fotos. E se tivessem sido felizes? E se tivesse encontrado um novo amor? E se não se sentisse tão só? O que importa se chora ou se cala ou grita feito louco? Que coração escutaria seu lamento monótono? Quando encontraria outro alguém? Quando enfim se apaixonaria novamente?



capítulo 16/08/03



Algumas vezes Peri se sentia triste, outras, como agora, sentia-se bem, com esperança, qual esperança não sabia ao certo, era mais uma sensação de bem estar que lhe invadia. Estava bem, tranquilo, sem brigas e preocupações desnecessárias. Quando estava trabalhando sem folga, permitia-se poucas coisas, aliás, sem folga era impossível fazer muitas coisas, assim percorria as horas do dia descansando e jogando xadrez com os amigos, andava pela praia e se exercitava em casa. Afora isto, acalentava planos, em março do próximo ano pretendia fazer um curso de mestrado, desta forma poderia muito em breve ampliar sua atuação profissional, pretendia lecionar turismo em faculdades. Talvez em três anos seria possível mudar de vida, abandonar o ramo hoteleiro com suas escalas subumanas de trabalho, suas poucas e lentas chances de crescimento e seus salários baixos. Imaginava como sua vida mudaria, como seria prazeroso lecionar, as pessoas que conheceria, as idéias que lhe viriam, as informações e discussões. Era um sonho que acalentava há anos e que, quando realizado, lhe possibilitaria uma vida mais independente, mais livre de horários e turnos sem fim. Haviam ainda alguns empecilhos, uma dívida que precisava saldar na faculdade, a possibilidade de conseguir um bolsa de estudos e o dinheiro para pagar as mensalidades. Aos poucos iria conseguir, batalhando e se esforçando. Era preciso também se estabelecer no Palladium, posto que a bolsa de estudos dependia do convênio entre a faculdade e o hotel. Como estava trabalhando de madrugada, tornava-se mais fácil estabelecer-se, pois as cobranças e pressões eram menores. Acreditava que suas chances eram boas e lutaria para conseguir o que queria. Havia também sua vida emocional, mas isso era uma outra luta, feita mais de espera e confiança do que, efetivamente, uma procura incessante, acreditava que o amor surgiria quando menos esperasse. Não pretendia se casar, morar novamente com outra pessoa estava fora de suas ambições. Percebeu que o convívio era algo difícil e, em certo grau, destrutivo. Estava bem morando sozinho, tinha sua liberdade, não devia satisfações a ninguém e podia dispor de seu tempo como bem lhe aprouvesse. Estava feliz, comia bem, morava num bom apartamento com vista para o mar, recebia seus amigos, tinha uma saúde invejável e não lhe faltava dinheiro. Reclamar do quê? Não era melhor agradecer? Assim levava sua vida, tranquila e pacientemente. Não desejava mais as mulheres como antes, sexo por sexo não lhe agradava mais, era preciso carinho, envolvimento e respeito. Assim, sentia-se livre do desejo que lhe acompanhou por tanto tempo tornando-o escravo de si mesmo. Era preciso abandonar outros vícios, como o cigarro. Mas isto, aos poucos conseguiria.



capítulo 19/08/03


Enfim, o sonho, sono, mundo. O fundo. O sorriso da terra, a espuma do mar, o brilho do sol, um dilatar de pupilas. O vento. O onde, como e porquê. O tempo, mistério. Você foi passear e esqueceu da vida que levava, sua casa, sua família, seu cachorro, suas plantas, carro, móveis, cartas de amor e fotografias amareladas, simplesmente saiu e andou por quilômetros e mais quilômetros, por dias, meses e anos, sem rumo.

“Ontem eu lhe vi pelo circuito fechado de tv. Como sempre você mexia o tempo todo em seus cabelos, colocava, insinuantemente, o dedo na boca, sorria, olhava para câmara, observava as pessoas que passavam. Você não muda, é sempre a mesma, a mesma coquete de sempre disfarçando suas frustrações, brincando com suas superficialidades, procurando o tempo todo despertar desejo. Mas sei que no fundo você é pura ilusão.”

Enquanto Peri espera as horas passarem para ir embora, enquanto as músicas tocam, enquanto o sol nasce, enquanto os olhos se abrem para o futuro...



capítulo 20/08/03


Ella Fitzgerald teria entrado de supetão, não fosse o complexo quebra-cabeça das coincidências. O palco enfumaçado pelo ar viciado escondia o rosto sorridente de Charles Chin, mas atrás de seu sorriso havia sempre um misto de mistério e obviedade. Desde o primeiro momento, Ella percebera o imediatismo de suas intenções, seu jeito despachado, sua conversa fácil e seu sorriso amplo, assim, de alguma forma ele tocara em algum ponto visceral de Ella, como se a obrigasse a recordar de algo que propositadamente esquecera, algo profundo e inquietante; do mesmo modo Charles era obrigado a olhar para si e ver-se refletido nos olhos dela, em suas palavras, atos e intenções. Fumava um cigarro e perguntava-se por qual motivo ela ainda não chegara, estava a um canto do bar, encostado na parte final do balcão, um pouco depois do vaso com palmeiras, única planta a sobreviver naquele árido solo do jazz, digo, árido para uma palmeira. Não sabia ao certo como lhe contar, obviamente ela recusaria, diria que estava sem dinheiro, que o aluguel vencera e assim por diante. No fundo ele não a culpava, mas o que fazer, era preciso arrumar algum.

Enquanto isso Peri sentava-se na recepção e parecia-lhe que se encontrava em outro mundo. Ou, na verdade, o mesmo mundo, tal qual o conhecia, se é que poderia conhece-lo, já que se perdia em sua multiplicidade e complexidade. Não lhe era cabível entender o mundo como um todo, ao tentar faze-lo sobrava-lhe apenas uma imagem tosca, mal acabada e generalizada por demais. Não lhe era possível dizer que o mundo era isso ou aquilo, se o homem era bom, ou se era mal, se a natureza ou a sociedade o definiam com tal ou qual coisa. Acreditava no livre arbítrio assim como no destino que para ele era o cruzamento dos vários mundos circunstanciais que o cercavam, digamos, uma casualidade no centro estático do destino. Se por um lado achava-se plenamente responsável por seus atos, percebia que muito dele se devia a fatos externos a sua vontade e, dentro desse encontro, perguntava-se ainda se não estava sendo guiado pelas mãos inexoráveis do destino, tal como quando criança acordava com a estranha sensação de fazer parte do sonho de alguém. Outras vezes perguntava-se se era possível viver a vida de outra pessoa, trocar as personalidades, ou ainda, a crença infundada de que sua mãe era, na verdade, uma série de mães, exatamente iguais, diferente apenas quando comparadas na linha do tempo. Coisas que pensava na infância, algumas recordações, a mão cheia de piche que jogara na parede dos fundos de uma casa na pequena cidade de Pinhalzinho, no interior do Paraná, ou quando subia nos pés de goiaba e balançava-se em seus galhos, estarrecendo-se com a força da goiabeira, a qual fornecia uma excelente forquilha para estilingues. Lembrava-se também de quando fecharam as comportas da Light, em Cubatão, e o rio ficou raso, era possível observar os cascudos escondendo-se embaixo das pedras, mas mesmo assim fáceis de capturar. A memória lhe causava espanto, perguntava-se como era possível guardar tantas informações que lhe pareciam tão tênues, não, não é a palavra correta, melhor seria flúidicas, imateriais comparadas com a eletricidade de seu armazenamento, a sofisticada teia de neurônios, suas ligações e seus mistérios. Plasticidade. By the way, amanhã estaria de folga depois de nove dias trabalhados, ou melhor, nove noites.

Do outro lado de outra cidade, Angélica fazia aniversário. Esperara aflita por aquela data, enfim, era seu aniversário e era preciso comemora-lo. Fazia dezoito anos exatamente quando acordou de um sonho. Sonhou que acordara e quando piscara seus olhos voltara a sonhar que estava acordando e por mais que tentasse não conseguia deixar de fechar os olhos e sonhar novamente. Sentiu-se presa, sem saber o que fazer, como aquilo lhe acontecera e por quanto tempo esse sonho perduraria. Toda vez que abria os olhos não lembrava do que acontecera, porém ao fecha-los e voltar a sonhar, uma vaga noção do que estava acontecendo invadia sua mente confusa. Talvez o sonho durasse apenas um instante, digamos que o tempo que o corpo levava para novamente cair na cama e, assim, ao encostar as costas no lençol ela acordava de novo. Mas nesse mísero instante repetido à exaustão, ela construía uma outra vida, um outro mundo que ficava perdido entre seu mundo acordado e seu mundo de sonho. Talvez nunca estivesse estado acordada, dormira todos os dias da sua vida. Talvez.

Ainda era noite e no mesmo bar enfumaçado Ella recostara-se na parede oposta ao tablado... como amava aquele homem, como ele a tirava do solo e fazia sua cabeça girar e girar, pensava nele todas as horas de seu dia, cantava para ele e para ele vivia. Preocupava-se, atormentava-se mas alegrava-se com seus carinhos e galanteios. Agora que o vira não sabia mais o que falar, o que fazer. Como prosseguiriam depois do que aconteceu? Ela se sentiria capaz de perdoa-lo e abraça-lo novamente como se nada houvesse acontecido, como se não soubesse de nada? Porém falar-lhe seria desprezível, nada mudaria, ficariam apenas dias e dias em conversas sem fim. Ela perdera a confiança e não adiantaria voltar atrás, conhecia-se muito bem.



capítulo 21/08/03


Estamos sempre recomeçando, não importa o quão avançados estejamos, em qual ponto precisamente paramos... Contamos e recontamos as mesmas coisas, amamos os mesmos amores, sentimos a mesma dor e buscamos a mesma alegria. Queremos ser felizes! Encontrar a cara-metade, estabilizar-se na vida, ter o carro do ano, comprar a casa de campo ou no litoral, criar nossos filhos, plantar uma árvore, escrever um livro, usar boas roupas, comer bem, estar ao lado de companhias agradáveis e interessantes. Queremos o melhor. Queremos esquecer um pouco nossas dores, chateações, erros e frustrações. Esquecer que somos fracos e erramos e depois nos arrependemos e erramos de novo e choramos, esquecer nossas perdas e desenganos, as contas para pagar. Queremos simplesmente nos sentir plenos de satisfação. Andar na praia, comer pipoca, ver o pôr do sol, beijar quem se ama, assistir um bom filme e ler um bom livro, sentir o arrepio causado por mãos que deslizam pelas nossas costas, queremos a felicidade com todos os seus deliciosos detalhes, seus cheiros e feições, queremos terminar a página e começar outra inteiramente nova, colocar um ponto final no que passou, virar e escrever a nova página.



capítulo 23/08/03


Peri acordara suando, com as costas e o resto do corpo molhados, era dia e o sol de inverno esquentava a alma gelada das pessoas. Levantara-se e quando estava tomando banho lembrara-se do sonho, aliás, de pequenos fragmentos do sonho. Sonhara que seu pai estava expulsando-o do apartamento, que todo esse tempo ele o perseguira com suas implicâncias, atormentara-o e criticara-o, uma discussão generalizada se propagou na sala envolvendo sua mãe, irmã e outras pessoas que não reconhecia. Acordou assim, desnorteado.

Perguntava-se o que havia mudado. Sentia-se distante das mulheres, parecia-lhe que o medo de sofrer impingia-lhe uma barreira. Estava escaldado e de nada mais adiantaria ter uma mulher nos braços. Talvez. E todos esses anos quis se apaixonar, mas conhecendo as mulheres como conhecia, não conseguia se encantar, o que é um elemento essencial para paixão. A mulher azul, seu ideal de feminilidade, simplesmente não existia. Era triste, porém era a verdade. Antes ainda se perguntava por onde ela andaria, quando a conheceria e como seria bom esse encontro. Agora sentia-se só, triste e desesperançado. Afora isto, levava sua vida, trabalhava, fazia planos, procurava por algo melhor, buscava compreender a si e as pessoas a sua volta. Tentava intuir a verdade da vida, ou suas várias e infindáveis verdades. Sentia que uma nova fase se iniciara, não traduzida por eventos externos, mas uma mudança que se processou lentamente dentro de si. Obviamente que muitas das suas reflexões partiam do mundo externo, eram fruto direto desses eventos. Todavia, era dentro de si que as verdadeiras revoluções se processavam, alterando o modo como interagia com o mundo. O incrível mundo de Peri.

Sabia que não deveria se enclausurar. Agora começava a perceber o real papel de Ceci em sua vida. Nos últimos anos Peri lutara incansavelmente contra dois de seus defeitos, a agressividade e a sexualidade exacerbadas. Ceci, de certa forma, estragara-o. Com a alegação de constantes problemas ginecológicos, Ceci insistia em relações masturbatórias, impedindo a penetração, afora isto, o beijo, o verdadeiro beijo ardente, feito de lábios e línguas que se fundem, estava abolido, restando apenas um leve selinho, um rápido encostar de lábios fechados. A sucessiva recusa da mulher, aos poucos, foi minando o erotismo de Peri, tornando-o inseguro e escravo de suas fantasias. Emocionalmente resumiam-se a uma série ininterrupta e viciosa de mágoas, dúvidas e cansaço. E quando não brigavam, Ceci o tratava como criança. Além do que, quando conhecera Ceci, estava farto da vida promíscua que levava, não tendo gratificações que compensassem o emprego de tanta energia e pensamento, pois seu pensamento sempre foi atraído por imagens e fantasias eróticas, naturalmente. Mas com o passar do tempo foi percebendo o quanto era perigoso envolver-se com as pessoas, pois além do perigo, havia ainda a possibilidade de frustrar-se e isso o deixava inseguro. Sua concepção mudava e hoje procurava o sexo permeado de paixão e sentimento, algo verdadeiro, autêntico e extasiante. Ou seria melhor se iludir e se entregar a caça? Não, iludir-se só aumentaria o problema, não resolveria nada e ainda as chances de frustrar-se eram grandes. Assim, procuraria esperar pacientemente, procurando entender-se melhor e permitindo que outras pessoas o amassem.



capítulo 25/08/03


Chove! Peri fecha os olhos e vê a eletricidade de seu pensamento percorrendo as extensas conexões de seus neurônios, uma luz azul que se propaga célere pelo insondável.

Ontem pela manhã uma névoa densa encobriu a cidade e a tarde, quando acordara, o sol resplandecia em calores inesperados. Foi à praia. De longe já se escutava o som das raquetes de frescobol, sua batida violenta e repetitiva no vai e vem da bola, a tensão dos reflexos projetados para acompanhar e interceptar sua trajetória, os ataques e defesas, as bolas salvas quando tudo o mais parece impossível, o ritmo, a rapidez e a força que emanam do movimento. E tudo isso representado por equações matemáticas, analisado e computado. Conta-se primeiro o números de toques, posto que o objetivo é manter a bola o maior tempo possível longe do chão, depois computa-se o número de ataques, que são as batidas mais rápidas e violentas, as defesas e a média de ataques da dupla, pois em um jogo onde apenas um ataca e o outro somente defende, demonstra-se falta de equilíbrio técnico na dupla, afora isto, registra-se o número de bolas salvas, creditando maior pontuação para aquelas bolas que parecem perdidas e são salvas, não de um modo leve e vagaroso, mas sim com uma batida seca e forte, um ataque preciso. O frescobol exige concentração, reflexos ágeis, alongamento e resistência. Alguns que não o conhecem podem pensar que o esforço neste jogo é insignificante, ou que se concentra apenas no braço que segura a raquete, porém depois de trinta ou quarenta minutos jogando, percebe-se o quanto se exige dos músculos do corpo como um todo, ao agachar-se, ao esticar-se para alcançar a bola, ao contrabalancear o peso do corpo ora em uma perna, ora em outra e mesmo, infelizmente, quando se tem que correr atrás da bola. Além da questão puramente física, podemos observar um estado de concentração comparável à meditação, visto que os jogadores tem sua atenção e seu pensamento voltados exclusivamente ao jogo, destituindo a realidade circundante do seu caráter absoluto, restringindo-a a um nível secundário, somente levada em consideração quando ameaça o andamento do jogo. Assim, a mente caminha pela trajetória da bola e condensa-se quando ela é rebatida, afastando todo e qualquer pensamento que desvie a atenção. É um jogo contra a gravidade.

Um hóspede bêbado pára na recepção e desfia seu senso de humor banal; talvez esteja com o coração encharcado de tristeza, talvez lembre de sua vida e pense em tudo que poderia ter feito e não fez, talvez recorde-se de seus amores, ou de seu único e grande amor e o canto de sua boca retraia-se imperceptivelmente. Está com quarenta e sete anos, repleto de pequenas manias que foi adquirindo no decorrer da vida, amargurado por um vazio que o consome e o faz enxergar a vida por um prisma tosco e negativo. Desiludido se afoga lentamente na bebida, sua única e verdadeira companheira de tristezas e alegrias. Sua filha lésbica e adolescente o preocupa e o consola da solidão. Seus olhos míopes estão cansados e a fraqueza se instala em sua moral. Está bêbado e suas graças não têm graça alguma. Pega o telefone e liga para a filha, pede para que ela deixe a porta aberta. Fica olhando para a tela do circuito de tv, rindo como um boçal, um riso fraco, amarelo. Pede para ser despertado as seis e quinze da manhã e sobe para seu apartamento. Minutos depois sua filha desce com a namorada, uma mulher visivelmente mais velha, feia, com os traços e o andar masculinizados, muito baixa e tacanha. Vão embora e a recepção volta ao seu vazio habitual da madrugada, os minutos escorrem pelo teto e espatifam-se no chão.

Ao chegar na beira da praia avista um conhecido e pergunta se está com suas raquetes. Jogam aproximadamente por vinte minutos, o que é muito pouco, apenas o suficiente para começar a aquecer, pois os primeiros movimentos são quase sempre inseguros, imprecisos e fracos. Nos primeiros trinta minutos é necessário que o corpo adeque-se ao jogo, quando mãos e braços incham e tornam as rebatidas mais fortes e precisas. Depois, o ritmo se instaura e o jogo passa a ser mais veloz, as batidas tornam-se certeiras e os reflexos ficam concentrados. Mas enfim, tiveram que abandonar o jogo, pois o amigo estava esperando um navio atracar no porto para ir trabalhar, havia comprado um caminhão e fazia o transporte de carga dos navios. Entraram na água para se refrescar e água estava límpida e gelada. O amigo foi se afastando e Peri notou que uma mulher passava a parte de baixo do biquíni para uma amiga, foram se aproximando mais e suas bocas foram se encostando e se beijando, num profundo e longo beijo. As pessoas em volta pareciam não notar nada, parecia que a alegria das meninas passava desapercebida. Não que o lesbianismo provocasse ainda algum espanto, mas o fato de estarem dentro da água, num Domingo, numa praia pública e movimentada, pudesse ser sinal de despudor. Simples hipocrisia. Peri ficara excitado ao ver aquele beijo sincero, gostoso e alegre. O amigo não notara o que acontecera, reforçando ainda mais a idéia de que ninguém mais tivesse notado. Despediu-se e foi embora para casa. Chegando tomou um banho e deitou-se para ler, estava relendo, ou melhor, tentando ler novamente o “Jardim dos Finzi-Contini”. Nas primeiras vezes que tentara o livro lhe pareceu chato, com uma narração cansativa e superficial, mas, decorridas várias páginas, perto do final, percebeu que realmente apreciava a prosa do livro e que o modo como escrevia e pensava o seu autor eram muito bons. Momentos depois o interfone tocou e avisaram que uma amiga estava subindo.



capítulo 26/08/03


Depois de muito refletir Peri foi cortar o cabelo, extensão de sua alma. O mundo parecia-lhe alegre na tarde cinzenta e fria, as ondas arrebentavam no calçadão e as pessoas maravilhavam-se com o espetáculo.



capítulo 28/08/03


A percepção é nossa porta para o mundo. Através dela situamo-nos no espaço e no tempo. É o modo pelo qual percebemos e através do qual podemos interagir. As percepções podem ser físicas, intelectuais, emocionais e espirituais, todas elas contribuindo para o nosso real entendimento do mundo em que vivemos. As percepções físicas situam-se nos nossos sentidos, a visão, o tato, o olfato e a audição, são através delas que nos demos conta do mundo físico. Percebemos o frio, o calor, a dureza dos objetos, a forma das coisas, sua profundidade, largura, altura, peso, distância. Situamo-nos no mundo físico. As percepções intelectuais são responsáveis pela relação que fazemos de todas as informações que apreendemos, a leitura dos signos e seus significados, sua compreensão e aplicação ao mundo prático e teórico. É através das percepções intelectuais que estruturamos a idéia que temos do mundo, é a significação dos dados que sinalizam nossa interação. As percepções emocionais são as que...



capítulo 29/08/03


Dançam as palavras num vai e vem de sentidos, bailam emoções num redemoinho de significados, seus verdes olhos apagados, olhos verdes bêbados de música, comoção de todos os sentidos. Scarlet aparecera-lhe em sonhos no meio de uma multidão de hóspedes, olhara-o e o seduzira instantaneamente. Depois sumira como névoa no sol. Agora estava ali, novamente ao seu lado, real, palpável e ainda assim misteriosa. Via-lhe as feições e o sorriso meigo, as mãos delicadas, a pele clara e lisa, os cabelos finos e curtos. Assombrava-lhe a voz aveludada e seu jeito ímpar de cantar, pois quando cantava seus poros se dilatavam e por eles o universo evaporava, seu corpo então era música, compasso, ritmo e harmonia. Peri pasmava e olhava-a profundamente, buscando cada sinal, cada pequeno gesto que indicasse seu desejo, que lhe possibilitasse perder-se na ilusão de seus braços, de seus lábios finos. Mas, inadvertidamente, Peri a olhava e, pasmo, estancava qualquer esboço de ação. Paralisado sorria e procurava falar o mais possível, encantá-la com seus pensamentos, com seu raciocínio e perspicácia quando o melhor era tê-la nos braços, sentir-se apaixonado, ternamente acalorado, abrasado e entregue aos seus desejos. E por que Peri não fazia o que tinha que fazer, o que gostaria de fazer? Parecia-lhe tão simples, bastaria olha-la nos olhos, se aproximar e tocar seus lábios levemente. Ou então lhe falar sobre o que sentia, a curiosidade que lhe despertava, o deslumbramento e a poesia que via emanar de suas mãos. E parecia-lhe tão quente, sensual, tão maravilhosamente íntima, fogosa e apaixonante. O que não faria pelos seus favores, pelo seu amor desenfreado, frenético e cativante, pois assim o imaginava e consumia-se em sonhos quando então a realidade se desfragmentava numa composição cubista e passava a vê-la projetada em mil telas que se agigantavam pelos céus, pelos cantos da casa, pelas praças e pelas janelas abertas dos edifícios. Delirava e seu torpor transpirava pelo corpo, escorria pelas suas mãos e inundava-a abrindo portas e estrelas. Scarlet rodopiava e cantava, encantada com o fantástico mundo a sua volta, estarrecida com as notas que voavam e alcançavam os carros nas estradas, as antenas de tv, as taças, os brindes, a festa. E de repente ia embora deixando Peri atônito olhando os navios partindo do cais, enquanto sílfedes bailavam alegres em volta de sua cabeça. Tudo o mais então era breu, uma escuridão sem fim onde Peri mergulhava e se afogava de amor, embriagado pela paixão não consumida, pelo desejo irrealizável. Arfava.

Voltara a encontra-la depois de telefonar-lhe e convida-la para uma festa em sua casa. Não tinha muitas esperanças de que ela viesse, ligou para matar a saudade, pois desde que voltara da Itália, onde morara e cantara por uns tempos, não a vira mais. Era-lhe uma amizade querida e, além de tudo, sentia falta de conversas inteligentes. Agora que a tinha novamente ao seu lado, não sabia como conquista-la, seduzi-la e se deixar seduzir. Queria-a como ela era, sem mais nem menos, sem compromissos, deveres, cobranças, queria-a de um modo fugaz e profundo ao mesmo tempo, mas impacientava-se e diante dela não conseguia mais que elogia-la, sorrir e entabular conversas e mais conversas e taças de vinho. O que aconteceria? Conseguiria vencer suas barreiras e tê-la, enfim? Ou passaria por mais essa frustração?



capítulo 30/08/03


Estava na recepção do Palladium, abrira uma gaveta e se deparara com uma pilha de cds. Escutou o “Tribalistas”, com Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, então se lembrou novamente de Maresias, quando lá o escutavam. Lembrou dos bons momentos, de Ceci correndo pelo jardim tentando se desviar do jato de água que esguichava da mangueira, dos dois sentados no gramado, encima de uma toalha, olhando os raios oblíquos do sol e sorrindo sem mais nem porquê. E dançavam pela sala, riam e caíam no chão, e então a saudade de quando saíam de manhã e caminhavam pela praia, brincavam e corriam pela areia e pasmavam diante de tanta beleza, encheu-lhe o coração. Maresias foi a derradeira tentativa de viverem juntos, mas o amor é sujo, é feio, egoísta e rancoroso e seus corações são tortos e torpes, aleijados. E os dois se separaram pela última vez. Nada mais de caminhadas, de esperança, de água de coco com açaí, apenas lembranças e distâncias. Acendeu um cigarro e viu a fumaça subindo lentamente até o teto da recepção, sabia que não poderiam nunca mais voltar, tudo era longínquo e frio, não restavam esperanças nem ilusões. Apenas lembranças que com o passar do tempo se desmanchariam como a fumaça do cigarro que agora fumava. Restava-lhes a vida para viver, o que era mais do que suficiente.

Peri então pôs a saudade de lado, deu um chute na tristeza e voltou ao trabalho, à magnífica realidade das horas, ao deslumbramento dos minutos. Precisava fechar o sistema, conferir os setores, ordenar as notas fiscais, atender os hóspedes com suas vidas e histórias particulares, indiferentes, todos eles, à vida de Peri.



capítulo 04/09/03


O mundo, o mundo como um todo, absoluto, infinito, inebriante e misterioso, deslizando por cima de nossas cabeças, de nossos pensamentos céleres como estrelas cadentes. Nossos sentimentos, nossos incríveis e inadmissíveis sentimentos, sensações, perguntas e entregas, respostas, renúncias. Peri sentia vontade de lhe abraçar, de passar ternamente a mão pelo seu rosto, dizer-lhe que a queria bem, desejava vê-la alegre, em paz consigo mesma. Gostaria de dizer-lhe que ainda se lembrava de seus bons momentos e que eles ficariam sempre em sua memória, como quando corriam pela praia, um atrás do outro, rindo e fugindo, felizes da vida. Mas os fatos não deixavam de inquietar Peri, depois de tanto desprezo, como poderia, agora, voltar tão repleta de amor, de saudade, de carinho e de desejo? Abraçou Peri longamente, dizendo-lhe o quanto sentia sua falta, beijou-o sofregamente. Estava feliz por revê-lo, sorria e brincava como criança. Era seu aniversário e não sabia se ele ligaria para parabenizá-la, disse que as sete horas da manhã havia subido na cobertura do prédio e que chorara pedindo a Deus que mudasse sua vida. Peri também gostaria que sua vida fosse diferente, que ela, enfim, encontrasse seu caminho e que seu caminho fosse repleto de alegrias. Abraçava-a e sentia seu perfume, a textura da sua pele, seu coração pulsando pelo corpo inteiro, olhava-a e se surpreendia com esse amor pungente, repentino, aumentado pela separação, imaginado pela saudade, pensado e repensado nos momentos de solidão, comparado, analisado em minúcias por sua mente acostumada à tarefa. Ceci voltara. Mas Peri já era outro, seu sentimento havia mudado e então a via distante, por mais perto que quisesse ficar. Ela lhe disse que se tivesse muito dinheiro iria morar no mato e o levaria junto. Dizia ainda que gostaria de passar sua velhice com Peri. Na verdade, sua volta era apenas o fruto de uma vida desgastada, onde o amor cedia espaço ao sexo, à banalidade do sexo sem envolvimento. Afirmava ter amantes e que os satisfazia quando sentia vontade, quando não estava estressada o suficiente para lhes rejeitar o desejo. Peri evitava o ciúme, sabia que seria um longo e tortuoso caminho de sofrimento, tantas vezes trilhado e conhecido em demasia, assim, quando Ceci lhe jogava com tão pouca sutileza sua intimidade, ele sorria e procurava pensar em outras coisas, no fundo sabia que se seus amantes fossem bons o suficiente ela não mais o procuraria, nem sequer pensaria nele. Sua volta possuía um gosto de derrota, de frustração, de tristeza e assim afirmava que somente Peri a suportava. Tarde demais, pois ele continuaria a levar sua vida tal como estava levando, sem grandes arroubos e preocupações desnecessárias, não gostaria de se ver em situações penosas por causa de um sentimento tão desgastado, sem futuro. Mas mesmo assim guardava um certo carinho por ela, queria seu bem, porém não o suficiente para destruir sua paz. E por mais que ela tivesse amantes não agiria da mesma forma, não se entorpeceria com paixões baratas para ocupar o vazio, somente para se entreter, havia tantas outras coisas mais produtivas a fazer, tantas outras preocupações, e se o amor surgisse, que fosse de um modo natural, espontâneo, não uma fuga, mais uma fuga.




capítulo 06/09/03


O primeiro dia lhe encheu de uma alegria sem tamanho, seus beijos, seus abraços, a felicidade que Ceci demonstrava ao vê-lo, tudo era surpreendente. Mas depois, logo depois, no dia seguinte, a tristeza sorrateiramente se instalava em seu pensamento, as dúvidas brotavam, dúvidas não, na verdade Ceci deixara-lhe bem claro que tinha amantes. Quantos seriam? Tinha amantes, mas tinha amor? Talvez vaidade, desespero, superficialidade. Vivia no seu mundo de problemas e preocupações sem fim e se entorpecia com sua sensualidade, brincava com seu corpo e o dava a brincadeiras. Tinha amantes, provavelmente um diferente do outro, vindos ao prazer do acaso e da insinuação.

- Eu disse para minha irmã que você ficou bonzinho e eu fiquei ruim. Justo agora que você está tão bonzinho... – Ceci olhava para baixo, como se olhasse para si. – Eu vou sair, descansa um pouco, quando eu chegar venho aqui... Senti tanto sua falta, pensei que você não fosse me ligar no meu aniversário. Com quem você estava trepando ontem a noite? Você não fala o que acontece, não é? Não estou namorando, eu tenho amantes que quando estou bem dou uma saidinha. Não sou uma mulher para ficar sozinha.

Não havia dúvidas, Ceci mostrava-se tal como era, um jogo complexo de espelhos, imagens, montagens. Mentiras. Não conseguia acreditar em suas palavras mesmo quando ela lhe dizia a verdade descaradamente. Gostava dela? Mas como suportar essa sensação de tristeza que o invadia? Como fazer de conta que nada disso o atingia? Se pelo menos ela o poupasse de lhe contar suas intimidades, mas não, parecia que isso lhe dava certo prazer, uma certa superioridade. Peri, nesse tempo todo, ficara com Jade e mais ninguém. E ficara com ela porque gozava de uma intimidade de muitos anos. As outras mulheres pouco o interessavam, ou não interessavam o suficiente para animar-lhe a vontade. Estava escaldado e olhava tudo com um certo receio, um reflexo que o impedia de entregar-se, pois de antemão destruía a ilusão que pudesse vir a formar-se. O encantamento assim se dissolvia antes de efetivar-se. Peri via Ceci nas outras mulheres, em seus comportamentos, em suas frases, seus trejeitos, suas vaidades e isso o desestimulava. Talvez encontrasse alguém diferente, o que muito o agradaria, pois assim se sentiria livre de Ceci, desse sentimento que o acorrenta e o torna triste, inseguro e introspectivo.



capítulo 10/09/03


Agora via as coisas de outro modo, olhava-a e descobria outros valores. Depois de seis dias ainda não haviam brigado, sequer discutido, mas sabia que assim que Ceci o tivesse não mãos, tivesse novamente domínio sobre ele, não tardaria para mostrar-lhe seu lado mais ferrenho, onde seu gênio impetuoso proliferava em detalhes acerca de tudo o que pudesse lhe passar pela cabeça. Pequenos e grandes problemas minavam seu pensamento e a tornavam irritadiça, rompia em bravatas a título de nada, discutia, escarnecia e destilava seu veneno enquanto reclamava da vida. E assim ia, e para Peri, se assim ainda não estava, era apenas uma questão de tempo. Ceci feria as pessoas para se defender, era o modo que encontrava para disfarçar suas fraquezas. Muitas vezes a dor deturpa a realidade. Ceci vivia uma vida difícil, com restrições e preocupações constantes, morava com a filha, a irmã e o irmão em um apartamento de sala, cozinha e banheiro. Nenhum deles trabalhava e obrigavam-se assim a um convívio muito mais efetivo e difícil, hora após hora, dia após dia. Dessa forma, era natural que Ceci ficasse mais na rua do que em casa, também era natural que procurasse um novo amor, alguém que a tirasse desse mundo que não conseguia resolver. Ou seja, era uma pessoa comum com todas as suas dores, seus erros e acertos, seus prazeres e alegrias, alguém que procurava a felicidade, que pretendia amar e ser amada, ter uma família, um lar, poder trabalhar honestamente, ganhar seu dinheiro, estudar. Apesar de sua agressividade, Ceci possuía uma meiguice de criança com a qual era capaz de ter arroubos de bondade. Acabara de completar seus trinta anos, logo se perguntava sobre a vida que levara e o futuro que a aguardava. Olhava para o espelho e via as marcas do tempo e o sentia passando rápido demais. Peri a adorava, mas não gostaria de viver novamente com ela.



Capítulo 11/09/03


Há dois anos Peri encontrava-se sentado em frente a tv; pasmado com o que via não ousava levantar-se e quando tudo parecia ter acabado, dado o inusitado trágico do fato, a segunda torre explodiu. O World Trade Center transformou-se num espaço aberto, uma cicatriz enorme no coração da ilha. Suas conseqüências são sentidas ainda hoje. Nesse dia Ceci passava pela sala e perguntava a Peri o que estava acontecendo, estavam separados há sete meses, ele lhe respondia e ela descia para sua casa.



capítulo 21/09/03


Quando voltou do banheiro notou que o silêncio transbordava. O mensageiro não se encontrava na recepção, procurou-o na frente do hotel, chamou-lhe pelo rádio, verificou se estava no refeitório e não o encontrou. O telefone não tocava, nenhum hóspede chegava ou partia. Peri escutava os pequenos barulhos da noite, o leve murmúrio da madrugada, e pensava se algo diferente estava acontecendo ou prestes a acontecer. Impaciente resolveu ir embora, estava farto e abandonava o hotel a mercê dos hóspedes. Na rua não se via viva alma, nenhum carro passava, nenhuma garrafa se quebrava na calçada lançada por uma turma de baderneiros, apenas o lento pesar dos minutos. Foi em direção a praia e o mar repleto do negror da noite acariciava-lhe o rosto a distância. Olhou em volta, decididamente, algo estava acontecendo, algo misterioso e sem sentido.



capítulo 23/09/03


Nada do que ouvira ou sentira, nada do que conhecera e experimentara, o sol rompia a fria tarde e brilhava nas encostas da Ilha Porchat, Peri escrevia e pensava em tudo que lhe acontecia, nos seus desejos, nos seus medos, sonhos, vontades, percepções. Um complexo suceder de pensamentos e lembranças e previsões, imagens, diálogos imaginários, supostas circunstâncias, fragmentos de sonho. Seu pensamento rodava num motor-contínuo, pensava em Ceci, pensava em sua vida, no que lhe estava acontecendo, no que significava estar novamente com Ceci, mesmo que sem as amarras da relação, sabia de tudo, ou quase, ou o que lhe era cabido saber, não tinha mais ilusões, suas desconfianças agora eram certezas, porém não o machucavam mais, não o ensandeciam, sabia da verdade e ponto. E quando um pensamento mais pitoresco invadia-lhe a mente, procurava mudar o foco e pensar em outra coisa, pois caso contrário, ficaria somente se martirizando. Entretanto eram pensamentos recorrentes que cresciam a medida que seus encontros aumentavam.

- Mesmo que eu mude, que eu não saia mais, fique na minha, você nunca mais vai confiar em mim, nunca mais, não adianta. Eu fico me perguntando o que estou fazendo aqui, mas eu sinto a sua falta, penso em você. Você me faz falta. – Ceci estava sentada na cadeira da mesa da sala, de costas para a porta de entrada, evitava olhar para Peri e, em alguns momentos, ficava em silêncio.

Era um diálogo difícil, Peri queria mostrar-lhe que gostaria de ficar com ela, mas não ficaria, mesmo ficando juntos algumas vezes. Dizia-lhe que estavam cansados de saber que não conseguiam viver juntos, que o recomeço era sempre maravilhoso, mas depois começavam a brigar por nada, que agora lhe dava toda a liberdade que ela sempre quisera, não mais perguntava sobre onde ela esteve ou com quem ou o que fez, não lhe cobrava nada, gostava dela, mas percebera que todo o controle que tentou exercer sobre a sua vida foi em vão.

- ...apenas um faz de conta sem sentido em que você fingia que obedecia e eu fingia acreditar. Do que valeu? Você tem sua vida e sempre a teve. E será mesmo que você está disposta a levar uma vida diferente? Ou será que sua liberdade não é mais importante, não ter a quem dar satisfações, fazer o que lhe aprouver, ir para barzinhos, ter suas amigas, se divertir como você gosta. Ninguém para lhe cobrar. Eu sinto muito, gostaria de ter dado certo, sei que você também, mas já faz muito tempo que estamos tentando.



capítulo 25/09/03


Giovana Doria fizera uma reserva no flat e não viera, Peri olhava para o slip e procurava, lendo o seu nome, descobrir algo sobre sua vida. Quem era essa mulher que não aparecera? Teria filhos para quem transbordar seu amor de mãe? Amaria algum homem que não a compreendia? Sua independência profissional seria sua meta de vida ou seu sonho era morar numa casa branca em frente ao mar de alguma cidade distante? Giovana Doria bailava na imaginação de Peri, flutuava em dúvidas e conjecturas, substituía a noção do concreto e diluía-se na sua condição de espera, enigma. Não a conhecia e por isso poderia fazer dela o que quisesse, poderia imagina-la de qualquer forma, construir complicadíssimos enredos, encontros fortuitos, lembranças do que não aconteceu. Mas o que a impediu de vir? Algum acidente, mudanças nos planos da empresa, talvez esquecera-se do dia da viagem e ainda hoje pensa que só viajará amanhã, perdera o vôo? Provavelmente Peri não irá conhecê-la, não saberá quem é, como são as suas mãos e como se movem suas costas quando se vira de repente e olha para trás. Giovana Doria é um paralelo para Peri não pensar em Ceci, pois Giovana não existe, é tão somente um nome que dança na frente dos olhos de Peri, é alguém que não virá, que não amará e que não saberá de suas verdades indizíveis.

Horas antes Peri estava na festa de aniversário da irmã de Ceci, trinta e dois anos e algumas pessoas presentes, bolo de aniversário sem vela, vinho e cerveja, patês e risoles. Um vizinho de Ceci e uma amiga atiçavam a imaginação doentia de Peri e o fazia perguntar se alguma vez os três já não haviam se envolvido. A amiga, que mora no mesmo prédio, descera sozinha e avisara que estava esperando o namorado, um rapaz de vinte anos que não se dera conta do tamanho do problema que tinha pela frente ao se envolver com ela, pegara na mão do amigo de Ceci e a levara aos seios enquanto dizia que estava perdidamente apaixonada pelo namorado. Ceci já se encontrava embriagada, com o rosto vermelho e a fala amolecida pelo vinho, conversava também com o rapaz e a intimidade que desfrutavam fazia a mente de Peri se povoar de cenas desagradáveis. Imaginava os três tendo um caso, ligando um trecho de conversara que lhe falara sua mãe, quando alguém escutou as duas conversando pelo interfone, dizendo que sairiam com um mesmo homem. Para Peri Ceci era uma puta e a amiga uma sem-vergonha. Pela manhã desse mesmo dia Peri transou com Ceci no apartamento dela com as janelas abertas, Ceci não se incomodou, apesar dos pedidos de Peri para fecha-las. Ao terminarem, levantou-se, olhou para fora e comentou que haviam dado um show. Ceci era mulher carente, sem bases, que fazia do sexo e da sedução uma fuga para seu sentimento de inferioridade. Através da arrogância e do sexo podia se sentir melhor, conseguia inebriar-se e superar momentaneamente sua baixa estima. Não notava que este comportamento só a levaria para baixo, cada vez mais baixo num imenso espaço vazio. Assim se sucediam seus relacionamentos esporádicos, homens que a procuravam por sexo e diversão, um mundo fútil e repleto de ilusão onde se entregava para esquecer de quem realmente era e de como era sua vida com todos seus problemas, frustrações e fugas sem fim. Ceci voltara a procurar Peri exatamente por causa disso, não havia encontrado ninguém que valesse a pena, ninguém que a valorizasse, óbvio que sentia algo por ele, mas era um sentimento já muito desgastado. Peri não enfrentaria novamente os problemas de um relacionamento com Ceci, sentia vergonha de estar com ela, lembrava-se de que esse tempo todo Ceci se comportara como uma puta, enquanto o reduzia ao desprezo, dois anos nos quais foi tratado como o pior dos homens, enquanto ela era tratada como uma vulgar por homens que se sucediam na sua vida. As vezes dizia a Peri que não ficara com tantas pessoas quanto ele imaginava, que na verdade era quase uma santa. Peri a olhava e sorria tristemente por dentro, pois no fundo sabia que Ceci vivia de ilusão. Entretanto estava decido a não mais se injuriar, sabia a verdade e dele dependia aceitá-la sem que para isso tivesse que se arruinar emocionalmente ou mudar sua vida; sabia que nunca mais moraria com ela novamente, nem namoraria ou teria algum tipo de compromisso. Não lhe perguntava nada, não reclamava de suas roupas vulgares, de seu comportamento insinuante, simplesmente se calava e se afastava. Tratava-a assim, como merecia, como se trata uma mulher que se deseja somente por algumas noites. Sentia vergonha dela, de seu jeito vulgar, de suas roupas provocantes, de sua necessidade ilimitada de se sentir sedutora, pensava em todos os homens com quem já estivera e olhava-a com desprezo. A verdade é que só a suportava quando estavam sós e dentro de casa e mesmo assim, as vezes, lhe era difícil aceitá-la. Ceci gostaria de encontrar um homem mais velho para sustentá-la, não se sentia capaz para isso. A paciência de Peri diminuía e um dia ele não mais veria Ceci, pois afora seu comportamento amoroso, ela descontava em Peri todos os seus problemas, enquanto ele fazia o possível para lhe ser agradável, gentil e bondoso; vivia mal-humorada e afundada em problemas, nada lhe era suficientemente bom, e quando se avistava a solução de um problema, mesmo assim Ceci não se sentia satisfeita, como se a existência de problemas fosse a condição básica para se manter em pé, pois assim podia destilar seu veneno e seu mau humor, maltratando as pessoas que conviviam com ela. Já com as pessoas que tinha menos intimidade era sempre alegre, jovial e descontraída, independente das dificuldades que a acometiam. Estava com trinta anos e se comportava como quando tinha vinte e dois e se conheceram. Como estaria Ceci daqui a dez anos se continuasse vivendo desse jeito? Como ficaria quando sua beleza se esvaísse com o correr dos anos?



capítulo 27/09/03


“Fico. Entre sair e ficar, fico. Pensei em ir até a ilha Porchat, nas pedras, fumar um, ler um livro, olhar o mar, mas será que só isso me resta, sei que estou reclamando de barriga cheia, mas é que...”

O vento balança calmamente as cortinas brancas da sala e me entremostra pedaços do mundo lá fora, linhas imaginárias que bailam entre o que estou e o que sou, meu pensamento vaga e escuta músicas ao longe, meu ser é um ir adiante, rumo ao futuro desconhecido, ao enigmático passar das horas. Divago entre mundos, virtualidades, potencialidades e esperas, uniões impensáveis. Corro em disparada, perco o fôlego, acendo um cigarro e releio na fumaça o que escrevi um dia. A paixão explode pelos meus poros, embriaga-me como um vinho doce, sinto-me preso em suas garras, me liberto. Sou louco e são, seus olhos me cegam sem que me fitem, meu corpo esfria e meu coração acende procurando seu calor. Onde estará essa mulher que me encantará e trará luz para todos os cantos da casa, que resplandecerá diante os meus olhos e me abraçará? Mas o futuro é uma linha tênue entre meus olhos cansados, abertos às madrugadas, aos sonhos que revelam o que somos. Sou o que estou.

Então me calo, passo os dedos pela minha fronte pensativa, repleta, incessantemente construindo universos. Paro, fico. E ficando vou-me embora para Pasárgada ou Stambul, encontrar a mulher que quero ou andar desatinado pelas ruas, esquecer e ver o mundo novo em folha.”



capítulo 02/10/03


O que perderia enfim? A mesma cena de sempre, cala-se, levanta-se e vai embora, peremptoriamente. Há quantos anos ela não a repetia? Desde o primeiro encontro foi assim, estavam na sala do apartamento de Peri, chovia a cântaros e a noite não convidava ao passeio, conversavam. Todo o tempo ela se levantava e dizia que ia embora, Peri insistia para que ela ficasse. Não sabia que isso se repetiria por tantas e tantas vezes.



capítulo 03/10/03


Então pensava se todos os sonhos que tivera antes não teriam sido um longo e silencioso preparo, um treinamento dentro das profundezas do que seria. Acordava suado, pasmo, o lençol encharcado, lembrava-se dos sonhos como se estivesse vendo um filme em primeira pessoa, cada detalhe, cada sensação.

Teria Ceci voltado a se prostituir? Quando uma garota de programa vinha ao hotel para atender um hóspede, Peri pensava em Ceci e se perguntava com quantos homens já não teria se deitado, quantos orgasmos não teria fingido com seus gritinhos e frases vulgares, seus trejeitos de puta. Cem, duzentos, trezentos, como saber, talvez nem ela soubesse, mesmo que tivesse coragem suficiente para responder. Mudaria de vida? Peri conseguiria um dia esquecer? Não, nunca mais. E o que então fazia ao seu lado se no fundo a rejeitava? Procurava se iludir dizendo a si mesmo que não se envolveria, não se preocuparia com o que ela estivesse fazendo, mas isso era ilusão, pois remoía seus pensamentos e não conseguia se libertar. Afora isto, era obrigado a escutar pacientemente todas as suas reclamações infindáveis, suas mudanças bruscas de humor, as frases alusivas ao seus amantes. Era tão somente humilhação. Sentia-se assim, incapaz de conseguir coisa melhor, fraco, humilhado por uma situação que estava fora de seu controle, que o tornava dependente e infeliz. O desejo que ainda sentia por ela aprisionava-o e deixava-o suscetível aos seus encantos e se acaso era repelido, o mundo desabava. Acordava e dormia pensando em Ceci, sofrendo, vasculhando seu íntimo à procura de uma saída, de um conforto para suas dores. Era preciso abandona-la de vez, não dar ouvido às suas súplicas quando, por algum motivo, ternamente sentia sua falta e o procurava. Peri tinha que ser forte, lutar contra suas fraquezas, arrumar uma amante que o consolasse, que lhe desse alegrias para entorpecer-se, não uma mulher que no fundo o rejeitava, que o queria somente como uma solução para seus problemas, um refúgio para sua vida atribulada de contrariações, alguém que pudesse maltratar para se desafogar de suas mágoas e frustrações. Se ao menos Peri sentisse que ela o desejava, mas não, quando transavam parecia-lhe que estava lhe fazendo um favor, por comiseração, como se somente ele sentisse prazer e lhe fosse odiosa a idéia de se entregar por inteira. Um prazer rápido, sem beijos, masturbatório. Por vezes parecia-lhe que seu desejo causava-lhe raiva, indignação, como algo anti-natural, doentio, não enxergava que esse desejo era o reflexo de um amor que ainda pulsava, que se alimentava das migalhas, dos restos do que fora um dia. Ceci nunca entenderia, seria sempre essa mulher coquete, repleta de traumas e frustrações, de medos, angústias, raivas e desprezos por si e por todos. Uma mulher que não ama, atrai-se, que não faz amor, trepa.



capítulo 07/10/03


A tarde cinza. Enquanto as nuvens se desmanchavam próximas a praia das Vacas Peri caminhava pelo Calçadão de São Vicente e pensava no que escreveria quando chegasse em casa, talvez transformasse a narrativa de seu livro de filosofia em primeira pessoa, algo como um romance, o que talvez fosse covardia de sua parte, um receio de que não fosse capaz de dar fôlego à obra. Ao passar pelas árvores e contempla-las lembrou-se que eram árvores vindas da Índia, chamadas aqui de “chapéu de sol” ou “pé de cuca”; a filosofia também viera de lá, a nossa filosofia que teima em analisar, explicar, generalizar, conceituar e provar o óbvio das coisas. Peri queria chegar em casa e escrever alucinadamente, sem parar, queria sentir o veio da criação e expressa-lo na velocidade estonteante do pensamento. Caminhava e seus passos rápidos completavam sua fisionomia preocupada. Procurava não pensar em Ceci, mas como sempre seu pensamento ia naturalmente em sua direção, aos seus braços irrequietos e beijos ausentes. Há cinco dias ela não aparecia, não lhe procurava, resolvera, talvez, deixa-lo em paz, livre de seus aborrecimentos, de suas reclamações sem fim, de seu veneno mordaz. Seus sentimentos não eram mais seus, nem dela, nem de mais ninguém. Muito já se passara, muito se cansara e se desiludira consigo e com ela, somente um gosto de não ter dado certo. Por que até agora não encontrara outra mulher? Por que tanto tempo esteve preso à Ceci? Sempre os mesmos pensamentos, os mesmos sentimentos e os mesmos acontecimentos, uma história que se repetia pelos anos, que o revirava por dentro, que o colocava face à face consigo, com o que era e sentia.



capítulo 09/10/03


À noite Peri ganhara duzentos reais jogando “vinte e um” com um hóspede, um jogo que durara duas horas aproximadamente e no qual, em determinado momento, se vira sem dinheiro até para comprar cigarros, porém a sorte foi virando e Peri começou a ver seu monte de dinheiro indo e vindo até que o hóspede ficasse sem o dele. No final, bêbado, vomitou na recepção e pediu seu dinheiro de volta, emprestado, dizendo que pagaria dois dias depois. Foi assim que a sorte soprou naquela madrugada para Peri. Mas como sentencia o dito popular, “sorte no jogo, azar no amor”, não tardou para que Peri sentisse na pele essas palavras. A manhã nascia calma e resplendorosa com um céu azul sem nuvens, o mar calmo refletia-o e convidava ao mergulho. Peri se trocou e foi à praia com um amigo jogar frescobol, lá encontrara a amiga de Ceci da qual não gostava e insistia em cumprimenta-lo com um sorriso banal. Logo depois avistara Ceci, sentada ao seu lado. Passaram juntos o dia anterior, começaram a assistir um filme horrível e pararam, depois transaram e ela foi embora. A bolinha caiu perto e ela o chamou, pediu para jogar e ele respondeu que logo que acabasse a partida com o amigo, jogaria com ela. O amigo foi embora e Peri o acompanhou, Ceci o chamou e pediu que na volta ele lhe trouxesse uma cerveja. Foi-se com o amigo, pegou algumas coisas em sua casa, despediu-se do amigo e voltou para praia. No caminho comprara a cerveja que Ceci lhe pedira, o que fizera com que mudasse o trajeto. Pelo Calçadão, antes do local onde elas estavam, Peri de longe reconheceu o vizinho de Ceci, ele estava de cócoras passando bronzeador na bunda e nas pernas dela, que estava deitada em uma toalha. O coração de Peri disparou, tomou um gole da cerveja, sua garganta repentinamente secou e sua mente lutava para não acreditar no que acabara de ver. Quando se aproximou o vizinho levantou-se e foi sentar ao lado da amiga, Peri o cumprimentou e sentiu suas mãos lambuzadas pelo bronzeador, entregou a cerveja à Ceci que lhe agradeceu com o mais cínico dos sorrisos e, depois de um breve silêncio, agradeceu também ao rapaz por ter-lhe passado bronzeador. Peri olhou para o mar e disse que tinha que ir embora. Foi-se com a cabeça tão tumultuada de pensamentos ruins que seu corpo tremia a cada passo. Chegou em casa e fumou um baseado, ligou para uma amiga e foi encontra-la na praia do Itararé. Chegando lá desabafou com a amiga contando-lhe o que acontecera. A amiga que já sabia de um bom pedaço da história olhou-o e não se surpreendeu, apenas lhe disse que isso era esperado e que ficar juntos depois de separados era perda de tempo. Caminharam um pouco e se despediram. Novamente no Calçadão procurara evitar passar onde acreditava que eles ainda estivessem. Envolto nesses pensamentos e em outros mais sombrios foi despertado pelo amigo que passava de moto e o reencontrava, convidando-o para jogar frescobol novamente. Peri respondeu que não iria e contou-lhe também o que acontecera. Seu coração se envenenava, cego andava pela rua num passo rápido e nervoso. Foi para casa, tomou um banho e se deitou. Tentou dormir, mas o sono lhe escapava, pois a cada vez que rememorava a cena, acendia-lhe o ardor da indignação. Deitado no escuro do quarto sua mente girava.



capítulo 24/10/03


A recepção do Palladium Belvedere projetava-se no espaço como a proa de um navio singrando mares. Os mágicos, hóspedes noctívagos, iam e vinham com mulheres e convites para o jogo a dinheiro. Na esquina do flat dois rapazes escutavam música e fumavam maconha fora do carro, embebidos de juventude e rebeldia nem sentiam as horas da madrugada escorrendo pelos seus olhos baços. As horas, minutos e deslizes do tempo. Peri se perguntava, se alarmava e se confundia, jogava tudo para o alto, dava de ombros, resolvia e sentia-se seduzido pela vida, por seus detalhes, por seus cotidianos, por suas belezas ímpares, por todas as emoções que significavam estar vivo. Então, pleno de um sentimento transbordante olhava para o mundo imediatamente à sua frente e descobria-lhe as peculiaridades, as singelezas que moldavam sua aparência em cujo mundo aparente via as malhas que criavam o invisível, os mundos infinitos que existiam entre o seu olhar e os objetos vislumbrados.



Capítulo 26/10/03


Quantos bastas já não foram dados? Quantas separações e promessas de nunca mais se olhar, raivas e mágoas sem fim? Mas ainda assim, depois de tanto tempo não conseguira se desvencilhar, por mais raiva ou desprezo que sentisse voltava sempre a encontrar Ceci, sempre. Perguntava-se se o fato de morarem no mesmo prédio transformava a proximidade excessiva num impulso ao encontro; questionava muitas coisas para tentar explicar o que acontecia, entretanto a dúvida era sua amiga inseparável, pois os sentimentos se amontoavam e se dispersavam deixando-lhe o pensamento confuso e o coração tonto, e assim, embebido de um sem número de complexos sentimentos, divaga pelos caminhos tortuosos de seu amor, ora tomado pela ira, ora transbordando em afeto. Ainda amava Ceci? Seus sentimentos eram seus mesmos ou eram projeções de suas carências? Era melhor se distanciar, viver sua vida de solteiro e coisa e tal, disso estava cansado de saber, porém por que não conseguia? Por que lhe era tão difícil não pensar em Ceci, não se preocupar, não se interessar por sua vida? Ficaria quanto tempo assim, angustiado por sentimentos contraditórios? Quanto tempo mais levaria, quanto tempo mais aguentaria? Pouco antes ligara insistentemente e ela não o atendera, saíra do trabalho e fora à sua casa, Ceci também não lhe atendera. A raiva o dominava, impingia-lhe uma série de pensamentos desagradáveis e acelerava as batidas de seu coração. Decidia-se pela enésima vez que a deixaria definitivamente, que nunca mais lhe telefonaria ou lhe procuraria, estava cansado de saber de todos os motivos que sustentavam essa mais que acertada resolução, pois na verdade não gostaria de voltar a namorar ou viver junto e por outro lado o relacionamento sem compromisso era desejável e insuportável ao mesmo tempo. Se sentia sua falta? Sim, era inegável. Mas com o passar do tempo se acostumava com a falta e acabava por preenche-la. O que tinha a fazer era não ceder às suas procuras e ao próprio desejo de possui-la. Desvencilhar-se, desatar os nós.



capítulo 28/10/03


K. hospedara-se no flat numa Segunda-feira de chuva insistente e monótona. Das três da tarde às nove horas da noite atendera três ou quatro clientes. Vira seu book na recepção, fotos com e sem roupas mostrando cada um dos atributos de seu trabalho que já lhe rendera um carro novo e um apartamento; devia ter uns trinta anos, era loira e baixa, magra com bumbum arrebitado e seios fartos, olhos claros, um jeito manso de falar, quase que com um tom de cansaço, o que contrastava com seus gestos insinuantes, seus olhares e sorrisos fortuitos. Pagara novecentos reais por um mês adiantado que, segundo ela, era conveniente, pois muitos clientes, por serem casados, preferiam encontra-la em um lugar menos comprometedor que um motel. Uma vez contara que morara na Argentina e depois se perdera na vida devido ao fogo dos portenhos, depois voltara para o Brasil e para os novos clientes. Parecia que vivia muito só, entretanto, apesar da tristeza que deixava, sem querer, transparecer, afirmava que levava esta vida porque queria crescer, ter suas coisas, pagar seus luxos. Na sua frente os homens a tratavam bem, eram gentis e graciosos, porém quando virava de costas comentavam maldosamente sua vida, chamavam-na de puta, de coitada, de vagabunda e assim por diante. Era realmente triste vê-la com seus olhinhos pedindo aceitação, respeito, procurando por algo que não se apresentava diante de suas vistas, que se escondia e fugia. Com quantos homens já não se deitara, quantas vezes não fora maltratada, quantas e inúmeras vezes não escondera o que fazia com medo do preconceito, desse mesmo preconceito que fazia os homens desejar e menosprezar as putas? Em determinada ocasião a vira andando pela rua, usava uma boina, camiseta branca e botas, andava com a cabeça baixa e os passos rápidos, talvez temesse ser reconhecida ou estivesse simplesmente com pressa, ou triste por algum motivo desconhecido. Seria puta por mais quanto tempo? Até seu corpo ainda reter o viço da sensualidade ou conhecer um homem rico que a tire dessa vida, sonho de toda prostituta? Por que, com o dinheiro que ganhava, não estudava e procurava outra profissão? Estaria irremediavelmente presa a vida que se acostumara?



capítulo 30/10/03


Os sons da madrugada, risadas dispersas na inconstância do pensamento, carros que chegam, hóspedes que saem sorrateiramente pela madrugada afora, reclamações, perguntas e saudações, chaves.

K. entrara na recepção abatida, contara que haviam arranhado seu carro quando o manobravam pela manhã, que se esforçara muito para consegui-lo e exigia que o manobrista viesse pedir desculpas, única exigência para que não cobrasse o prejuízo. Por outro lado, ela só notara o arranhão depois de ter saído do flat, o que enfraquece a veracidade de sua afirmação, pois, se de outro modo ela houvesse notado assim que o manobrista lhe tivesse entregado o carro, as coisas seriam diferentes, levando-se em conta que o lugar onde o carro estava não era alcançado pelo foco das câmeras. Comentara também que o administrador ligara para seu celular como se fosse um cliente, perguntando em que flat ela morava e se a recepção sabia dos seus programas. O administrador soubera do que estava acontecendo porque K. colocara um anúncio no jornal indicando que atendia em um flat, juntando isso aos comentários dos funcionários tornou-se fácil descobrir a verdade. Estava com os cabelos presos em coque e no final de uma corrente que pendia-lhe do pescoço, um crucifixo de ouro repousava no colo dos seios, via-se em seus olhos uma tristeza antiga e cansada, falava baixinho e mostrava-se inconformada, indignada com o preconceito que a tornava menor do que era, que a desvalorizava enquanto pessoa. Afinal de contas, era uma hóspede e devia ser tratada como tal, se recebia clientes em seu apartamento isso era problema dela, pois pagara um mês adiantado e muitos outros hóspedes recebiam visitas. Depois de desabafar pegou a chave do carro e foi embora.



capítulo 31/10/03


Sonhara a noite toda com Ceci, um longo, torturante e repetitivo sonho, acordava e quando voltava a dormir sonhava-o novamente. Não se lembrava muito bem do sonho, vinham-lhe apenas alguns fragmentos, como o último, onde está sentada ao seu lado em um sofá e tem em suas mãos algo que deixa escapar quando abaixa seu corpo em direção ao chão, seus braços estão esticados e suas mãos em concha; lembrava-se também que toda vez que a encontrava, via os fatos se sucedendo, um a um, tal como antes de sonhar, até que chegava a cena final: quando abria enfim as mãos, o que quer que seja que estava ali, naquele momento, sem que conseguisse ver, pois era como se fosse realmente invisível, corria em direção ao futuro, para a frente dos dois que ficavam sentados no sofá e de repente esvaeciam para retornar ao começo do sonho que não conseguia lembrar.

Na noite passada havia-a encontrado, na verdade, Ceci entrara em seu apartamento enquanto estava dormindo, dissera que estava preocupada, pois pensara que Peri tivesse perdido o horário para ir trabalhar:

- Ah! Você está de folga. Que bom! Eu só entrei porque a porta estava aberta e eu perguntei na portaria se você já tinha saído e me falaram que não. -Passaram-se alguns momentos, ela estava em pé, ao lado da cama onde Peri estava deitado. – Achei ridículo você não ter retornado minhas ligações.
- É? No sábado eu liguei várias vezes e você simplesmente não me atendeu.
- Lógico! Você estava bravo, já tinha gritado comigo. Pra quê? Pra brigar mais?
- Por que você disse que não estava saindo com ninguém?
- E eu não estava.
- Não? E quem era que vinha lhe buscar de carro, de madrugada?
- Isso faz tempo.
- Tempo? Uma semana antes da gente brigar.
- Quem lhe contou? Os porteiros? Só pode! Quem ia ficar me vigiando de madrugada?!
- Não importa.
- Claro que importa!
- O que importa é que você estava saindo com alguém. E ainda ficava me cobrando se vinha alguém em casa.
- Você não me dá segurança nenhuma, fica com outras pessoas, não quer ter nenhum compromisso. O que você esperava? Mas, eu não estou saindo com ninguém agora. –Momentos antes seu celular tocara e ela respondera que estava ocupada e não podia falar, abriu a porta do apartamento e foi continuar a conversa no corredor; seria sempre isso, sempre. – Eu quero saber quem lhe contou...

Peri não ficou com Ceci, esta noite se controlou, não sentiu vontade; ficava parado sem falar muito, olhava-a e percebia que na verdade não era bonita, nem seu corpo era tão atraente quanto se imaginava, ficar naquela situação seria continuar sentindo-se mal, incomodado, humilhado, diminuído. Não sabia ao certo o que fazia Ceci lhe procurar, talvez fosse porque não via nos outros homens o que via em Peri: uma história. Relacionamentos fugazes, encontros nas madrugadas, sexo, dinheiro, diversão, apenas superficialidades e lodo. Pediu para tomar um banho e depois foi embora.



capítulo final


“Não passo de um homem medíocre, alguém que não se destaca na vida, nem no amor, nem no trabalho e nem na arte, sem grandes atrativos ou dons especiais. Sou exatamente o que temia quando adolescente, um homem comum. O que transformo à minha volta? O que acrescento? Que diferença faço? Quem, nesse exato momento, sente minha falta? Quem me ama de verdade e me admira? Sou apenas um homem, um homem a mais. Escrevo para ninguém e amo quem não existe, aliás, escrevo mal e amo como um covarde. Trabalho à noite e os sonhos invadem-me os olhos e meus pensamentos vagam como ondas oceânicas e açoitado pelos ventos e pela dureza dos rochedos meu coração divaga, rompe suas comportas, transborda e clama pelo olhar de quem não vê, e apesar de tudo, mesmo sendo um homem que não passa do comum, um elo misterioso me amanhece a cada dia.”



capítulo 22/12/03


Maresias voltava aos pensamentos de Peri, ora trazida por uma música, ora por uma foto; lembrava-se das caminhadas até Paúba, dos churrascos no jardim da casa, dos banhos de mangueira, dos gatos brincando no gramado, do cheiro de comida, dos cafés da manhã na varanda, da lua nascendo atrás da Serra do Mar. Um saudosismo que o invadia e o transportava para Ceci, para seus braços quentes e voz melíflua, seus sorrisos e gritinhos, suas mini-saias, seus olhos cor de mel. Mas o amor é sujo, ingrato, desampara-nos e finda, como se nunca houvesse existido o beijo. Ceci era uma mulher fútil, incapaz de amar novamente, envolvida com vários homens, jovens e velhos, interessada mais em dinheiro do que em amor. Peri a amava, sentia que o mundo sem ela era vazio, sem sentido, sentia falta de seus carinhos e principalmente do amor que acabara levado pelo vento dos acontecimentos. Nunca mais a teria, aos poucos ela se transformaria numa lembrança distante que iria um dia se desvanecer como a fumaça de um fogo extinto.

Sentia-se muito machucado pela vulgaridade de Ceci, pela sua falta de respeito, o modo como conduzia sua vida. Gostaria que fosse diferente, que Ceci demonstrasse ser uma mulher centrada, equilibrada, alguém que se valorizasse. Como desejaria que pudessem esquecer tudo e voltar a se amar, sentir novamente o amor consumindo os minutos de cada uma das horas. Quando em Maresias iam à noite para a praia e ficavam deitados na areia olhando estrelas e escutando as ondas do mar quebrando uma a uma, envoltos num abraço calmo e profundo, Peri procurava captar cada detalhe daqueles momentos para eterniza-los, para guarda-los na pupila de seu míope coração.


capítulo 23/12/03


Peri decidira ficar só, não entregaria mais seu coração, não procuraria entender. Ficaria perdido, suspenso em alguma nebulosa distante, pensando mundos incompreensíveis, olhando para onde aponta o dedo de Deus.



capítulo 31/12/03


Pessoas. Datas e acontecimentos, cumprimentos, telefonemas. Jingles. Os hóspedes passam pela recepção. Chaves, códigos de etiqueta. O tempo escoando minuto a minuto e as lembranças passando uma a uma em nossas cabeças, as tristezas que não queremos ver repetidas, as alegrias que ansiamos realizarem-se sempre, a lista de coisas que devemos deixar de fazer e as que começaremos. Ano novo, novo ânimo, hálito, um halo que envolve os céus e os mares, as oferendas, os desejos incontidos, os olhares. Os fogos pipocando inundando o céu com seu colorido explosivo, o fascínio, os olhos brilhando, as risadas e os suspiros. Abram-se as portas e as janelas.



capítulo 03/01/04


As mulheres entravam na vida de Peri. E saíam e depois reapareciam.



capítulo 10/01/04


No Palladium Apart Service a lua aparecia entre os prédios, cheia e baixa no céu sem nuvens, Peri tomava um café e a olhava estupefato; na recepção, eternos hóspedes e ligações telefônicas.



capítulo 16/01/04



Peri estava cansado, cansado dos hóspedes e suas grosserias, cansado de Ceci e sua futilidade.



capítulo 26/02/04


Parecia-lhe que todas as mulheres haviam se transformado em putas, ao menos as que Peri conhecia. De uma forma ou outra todas tinham se prostituído. Ceci também, antes de conhece-lo e todas as vezes que se separaram, contabilizando, e este é um termo adequado, cinco homens por semana, em um ano daria aproximadamente, digamos, uns duzentos homens. Duzentos desconhecidos com os quais se deitara, dera prazer e recebera dinheiro. A vida como ela é. Certa vez recebera um telefonema da sua cafetina pedindo para que ela se encontrasse com um homem em um motel no qual ele a esperava, ao chegar deparara-se com um quarto escuro, mal conseguia vê-lo, já temendo que fosse alguém conhecido, pediu para que ele se aproximasse e quando o fez, o homem estava com um gorro preto na cabeça, apenas com os olhos e a boca de fora, saíra correndo, desesperada, temendo que fosse algum doente, algum maníaco. Descobrira depois que o cliente era o próprio marido da cafetina, pois o carro era o mesmo e o marido aparecera com um gorro da mesma cor. Peri escutara essa história estarrecido, tentando disfarçar a repulsa que lhe causava; pensava em todas as vezes em que ela se encontrara com seus clientes.

- É preciso ter muito estômago – comentara quando ela lhe contou.
- Você vai ficar chocado, mas eles me tratam muito melhor que um namorado ou um marido – dissera-lhe Ceci.

Realmente ficou. Dava-lhe a impressão que o que fazia não era nada de mais, era algo agradável que a divertia e lhe trazia dinheiro. Então imaginava ela se deitando com homens velhos, desconhecidos aos quais se entregava sem pudores, se exibindo, dando risada, bebendo e gozando se masturbando, dançando e exibindo-se, chupando-os e falando besteiras. Seria possível que um dia ela voltasse a ser uma mulher normal? Duzentos homens ou mais. Por mais que tentasse Peri nunca a perdoaria, nunca perderia o medo de estar com ela e encontrarem de repente um cliente que a reconhecesse, que a visse somente como uma puta. Dificilmente largaria essa vida, não se submeteria a trabalhar para ganhar trezentos reais por mês se com a prostituição ganhava muito mais, cedo ou tarde se prostituiria novamente, o vício estava instaurado e uma vez puta, sempre puta. Era apenas um questão de tempo e necessidade. Talvez estivesse cansada dessa vida e procurasse Peri, um porto seguro que a consolasse e onde pudesse repousar. Mas tudo estava perdido. Como poderia amá-la? Segurá-la nos braços e chamá-la de “minha esposa”?

Entretanto, quem era Peri para se julgar superior, melhor? Por acaso era algum homem santo? Alguém que pudesse olhar para seu passado e não se arrepender de nada? Ou seria um safado, mau-caráter?



capítulo 11/03/04


E o tempo passava ora célere, ora moroso. O sol rompia as nuvens e se propagava no mar inundando-o de luz.



capítulo 25/03/04


...


capítulo01/04/04


Um belo dia Ceci lhe telefonara dizendo que Carla estava com ela e a noite iriam jantar juntos. Peri chegou do trabalho e as encontrou em casa, jantaram e beberam vinho, conversaram, riram, analisaram, pensaram sobre o que estava acontecendo e imaginaram o que poderia acontecer. No final da noite dormiram. Ao amanhecer as duas estavam doentes, na verdade uma forte recaída de gripe, sentiam febre, o corpo doendo, indisposição, uma com a garganta inflamada, a outra com o ouvido, Peri tomou conta das duas. No terceiro dia estavam melhor e Ceci teve um acesso de ciúme, discutiu com Carla e desceu, Peri logo em seguida desceu atrás dela, Carla, enquanto os dois discutiam no apartamento de Ceci, foi embora para sua casa. Quinze minutos depois, Carla entrou no apartamento de Ceci, chorando, dizendo que ao chegar em casa suas malas estavam arrumadas. Peri ofereceu sua casa para que ela ficasse por um tempo, até encontrar um lugar para si. Neste ponto a vida de Peri começou a mudar, um mês já se passara desde então, pouco tempo para tantas coisas. Peri olhava as duas e pensava.



capítulo 06/04/04


A cabeça de Peri girava com as mesmas histórias, a pungente contradição de Ceci o magoava, se bem que não o surpreendesse, pois, de certa maneira, o que acontecera era-lhe totalmente previsível. Desde que Carla entrara em sua vida, Ceci o bombardeou com um ciúme fora de propósito, despropositado porque, nos últimos meses, Ceci levara sua vida sem se preocupar com Peri, mas quando viu que seu domínio sobre ele poderia acabar face ao perigo da presença da nova mulher, acometeu-se de sentimentos contraditórios e fez da vida de Peri um verdadeiro inferno. As discussões nasciam a troco de nada, um sorriso, uma frase diferente, um olhar, tudo era motivo para brigas intermináveis. Ceci jogava e manipulava, descontrolada e agressiva. Peri se equilibrava numa corda bamba, pisava em ovos. O amor da mulher parecia renascido e ainda com força maior, dizia-se fiel, apesar de Peri ter-lhe dito que o melhor seria se ambos continuassem sua vida como era, sem compromissos que, com certeza, os exasperariam. Ceci batia o pé, afirmava que não saía com mais ninguém, que gostaria de mudar sua vida, deixar para lá as pessoas que não lhe davam importância, que não a valorizavam, dizia-se outra mulher, diferente daquela fútil e superficial. Mas as coisas não eram bem assim, por vezes, Peri surpreendeu-a ao telefone com um ex-namorado, Ceci afirmava que não conversava mais com ele, que tudo era passado e que o amante ligava insistentemente e que ela não o atendia. Dessa maneira, podia cercar-se de Peri e fazer-lhe todo o tipo de pressão para que mandasse Carla embora de sua casa. As idéias iniciais de Peri já haviam mudado, o clima tornava-se pesado com uma série ininterrupta de discussões, Ceci exigia, mandava, brigava, jogava um contra o outro. Até que um dia contaram a Peri que o ex-namorado fora na casa de Ceci e lá ficara por quase duas horas, momentos depois de Peri ter saído para o trabalho. Desceu para falar com a mulher, para desmascara-la mais uma vez, para lhe jogar na cara as ofensas que, no fundo, Ceci merecia. De certa forma, não era nenhuma surpresa, cedo ou tarde, sabia que isso aconteceria, o que foi um alívio, apesar da dor e da raiva, pois as exigências de Ceci não coincidiam com seu comportamento. Estava novamente livre de um peso, de um relacionamento desde o início fadado ao fracasso. Seu coração endurecia, as mulheres pareciam sombras de Ceci, reflexos de seu comportamento lascivo, de seu ego carente de volúpia, de seu pensamento sujo pelo interesse.



capítulo 07/04/04


O ser humano é imprevisível; uma borboleta bate suas asas na África enquanto chove em Nova York e as moças dançam em Saigon. O sentimento é intransigente, pode ser pedra e pode ser pluma, pode ser tudo e pode ser nada. A areia das praias rola com o vento rente ao chão, os coqueiros curvam-se e as palavras alçam vôo. Abrimos os olhos e o mundo é outro, diferente e melhor.



capítulo 08/04/04


Quantos pensamentos contraditórios podem coexistir em nossa mente? Peri chegara em casa e a casa estava vazia, as luzes apagadas e os móveis e objetos no mesmo lugar que os havia deixado ao ir trabalhar; não fizera sua hora de intervalo, ficara o tempo todo no flat. Carla não lhe telefonara e não passara no flat como havia prometido, provavelmente ficaria um tempo sem aparecer e quando aparecesse viria rapidamente para apanhar suas coisas. Novamente a solidão se aproximava e o amedrontava, teria que se readaptar, fazer as coisas que fazia quando encontrava-se só, teria que ocupar seu tempo, rever amigos e esperar que as coisas melhorassem. Cedo ou tarde encontraria outra pessoa, a cara-metade, a alma gêmea. Sabia que pensaria no passado, que sentiria saudade de Ceci, sentiria sua falta. Mas o que lhe adiantava sua presença se não conseguiam se dar bem? Se sempre e sempre a história se repetia e brigavam? Não, não era o que queria, na verdade, era o que queria, porém a certeza do mal que causavam um ao outro o assustava, não gostaria de passar pelas mesmas coisas, escutar as mesmas ofensas, as exigências e os julgamentos cotidianos. Entretanto, sentiria falta do carinho e da companhia de Ceci. Se Carla tivesse permanecido as coisas seriam mais fáceis, teria uma companhia constante, uma amiga. Seria mesmo sua amiga? Ou teria realmente se aliado à Ceci? As dúvidas permaneciam, Ceci afirmara que Carla havia visto seu ex-namorado no elevador, Carla negara até o último momento, Ceci acrescentara que ela não apenas o havia visto, como também a aconselhara a não contar para Peri, pois temia que ele não aceitasse, não acreditasse que poderia não ter acontecido nada entre eles. Em quem acreditar? Em ninguém?

O sol doura as águas do mar, resplandece em nossos olhares; sob as rodas da bicicleta o mundo passa com a paisagem que passeia. No lado da Ponte Pênsil de quem vem de Praia Grande, sentando-se na amureta do lado direito e olhando para adiante avista-se, entre a Ilha Porchat e os prédios à sua frente, a Ilha Urubuqueçaba, uma visão surpreendente para Peri que sempre passara por ali e nunca notara esta peculiaridade, lembraria de tirar uma foto com a Pentax que fora de seu amigo falecido. Jef era um bom amigo, conheciam-se há quase vinte anos e nos últimos se aproximaram mais. Peri considerava-o um exemplo, tinha quarenta e dois anos e ia de bicicleta até a Juréia, em Peruíbe, passava semanas no meio do mato e depois voltava da mais completa solidão. Era soropositivo desde os vinte e dois anos, contraíra usando drogas. Antes de morrer vencera a doença, sua carga viral estava zerada. Aprendera muitas coisas com ele, era uma pessoa muito habilidosa, sabia construir, reparar, dava um jeito para tudo, encadernava livros, arrumava bicicletas, que era, ao lado do basquete, uma grande paixão. Certa vez estavam do outro lado da Ponte do Mar Pequeno, fumando e conversando no meio do mangue, Peri perguntara-lhe se não sentia falta de uma mulher, ele disse que não, que já estava acostumado e que sentia uma certa barreira por causa da aids. Tempos depois ele apareceu com uma namorada, uma antiga amiga que conhecera em Itú, sua cidade natal, ela se mudara para Praia Grande e eles se reencontraram, o relacionamento durou até que ela mudou para São Paulo e tivera que se internar por problemas de saúde. Tempos depois arrumou outra namorada, uma mulher que também morava em Praia Grande e freqüentava o mesmo grupo de soropositivos que ele ia periodicamente. A mulher também gostava de drogas e o relacionamento foi conturbado desde o início. Jef era um bom amigo e, as vezes, Peri andava de bicicleta ou caminhava e lembrava-se dele com saudade, nunca mais iriam jogar xadrez ou conversar sobre suas vidas, seus amores, seus sonhos. Mesmo assim sentia-o presente em sua lembrança, nas boas recordações que nada e ninguém podem nos tirar.



capítulo 09/04/04


Ceci foi na feira, Carla não respondeu seu telefonema e nem apareceu, o dia está cinza, é feriado. Ontem saíra com uns amigos, pessoas que conhecera na adolescência, iriam para um bar em Santos com música ao vivo, mas a cocaína foi mais forte e eles resolveram ficar num bar em São Vicente porque era mais perto da boca. Uma pena. Peri foi embora para casa e os deixou lá. Ao chegar viu tudo apagado, o silêncio preenchendo o espaço vazio e estático. As coisas melhorariam com certeza, logo encontraria alguém legal, alguém em quem confiar.



capítulo 11/04/04


Peri estava no trabalho quando o mensageiro avisou que Priscila o esperava na recepção. Aproveitou e tirou sua hora de intervalo. Ao vê-la achou-a bonita, estava mais magra, os cabelos curtos e loiros, os olhos negros como olhos de recém-nascidos, vestia uma sandália de salto alto, calça com um cinto que se afivelava pelo lado e uma blusa azul com botões. Sorriu quando o viu e o abraçou. Foram para casa de Peri. No caminho passou o braço pela sua cintura e ela o abraçou, andaram assim conversando sobre o tempo que havia passado desde a última vez que se encontraram, a tarde estava clara e límpida. Chegaram em casa e conversaram enquanto fumavam, estavam na sala, sentados um de frente para o outro, Peri recostou a cabeça em seu colo e ela lhe afagou os cabelos e as costas. Levantaram e foram para a sala de ginástica. Ela lhe disse que estava fazendo musculação, que suas pernas estavam lindas e torneadas. Peri pediu para ver, abraçou-a pelas costas e foi desafivelando o cinto. Ajoelhou-se a sua frente e baixou sua calça lentamente. A calcinha branca e transparente bailava sob seu olhar, suas mãos deslizavam por suas pernas e quadril, colocou a calcinha de lado e mordiscou-a com os lábios, Priscila sorria e chamava-o de safado, a janela estava aberta e dos outros prédios algum curioso poderia estar observando, se deliciando com a cena. Levantou e a beijou na boca, segurou-a pela cintura e a levou para o quarto ao lado. Beijaram-se em pé, Peri deitou-a na cama, tirou suas sandálias e sua calça, beijou-lhe na boca e foi descendo, sua língua contornava cada detalhe, brincava com seus gemidos, segurava-lhe as pernas abertas e olhava para seu rostinho se contorcendo. O sexo, pulsando e semeando sensações. Ela beijo-lhe o sexo, fazia-o deslizar pelo canto da boca, segurava-o entre as mãos e o apertava, esfregava-o no rosto, cuspia e tornava a lambe-lo. Ela deitou encima de Peri e rebolou, esfregando-se e passando a língua em seus seios, segurava suas ancas e fazia com que ela viesse para frente e para trás, puxou-a de encontro a sua boca deixando-a de joelhos encima de sua boca. Depois, gritando obscenidades, ela ficou de quatro e chupou-o enquanto ele passava a mão em sua bunda e massageava-lhe o clitóris, ela gemia e perguntava se estava gostoso. Colocou-a de bruços, beijou-lhe as costas e passou as mãos pelo seu corpo, beijou novamente seu sexo sem pelos, sentiu seu gosto, seu calor, sua textura. Ficou por cima e penetrou-lhe lenta e profundamente enquanto mordia suas costas. Afastou-se e trouxe-a para si, ela de quatro olhando de soslaio para Peri que olhava seu corpinho indo e vindo de encontro ao seu sexo, engolindo-o, fazendo-o desaparecer e reaparecer, úmido e duro. Apertava-lhe a cintura, puxava-a e beijava-lhe a boca...



capítulo 13/04/04


A Praia das Vacas continuava ocupada pelos índios, Peri pagara dois reais para entrar. Deitou-se na areia e ficou escutando o mar, duas crianças índias brincavam na água, ao seu lado esquerdo um bando de gaivotas descansava enquanto sua mente procurava não pensar naquilo que lhe desagradava, concentrou-se em sua respiração, sentindo o ar entrando e saindo de seus pulmões, sentindo a areia embaixo de si e o céu na escuridão de seus olhos fechados. Levantou o dorso, esticou as pernas e segurou a ponta de seus pés, os tendões da perna se esticavam e doíam. Queria paz, queria que as coisas não tivessem acontecido como aconteceram, queria que a Praia das Vacas fosse Maresias e assim, com os olhos fechados, imaginou Maresias, sentiu ao seu lado a encosta do morro, as pessoas passando pela rua, as aves voando perto das rochas, o mar se quebrando em ondas perfeitas, escutou o barulho da cidade, sentiu seu cheiro e lembrou. Abriu os olhos e a Praia das Vacas continuava ao seu derredor, os seus pensamentos continuavam os mesmos e as mesmas crianças brincavam na água enquanto as gaivotas voavam ao redor das pás do ventilador que giravam no teto da sala de sua casa de janelas fechadas e luzes apagadas. Um índio de sapatos, calça e camisa social sai do meio da taba e persegue um rapaz que estava com seu cão brincando na praia, Peri gira com o mundo numa perspectiva panorâmica, Faixa de Gaza, Marrocos, Amsterdã, Manágua, Sidney, Grand Cannion, floresta amazônica. No meio da mata os abaporús regorgeiam as cidades que engoliram, alimentando de chips seus robôs famintos.

Ceci está na esquina de seu prédio conversando com uma amiga, gesticula muito e parece indignada com o que fala.



capítulo 10/05/04


Sonhara que estava no Rio de Janeiro, sua perna estava infeccionada na altura da coxa direita e não acreditava como ainda não lhe estava doendo. Quando melhorou foi com uns amigos conhecer a praia que ficava perto de onde estava; na volta conheceu uma família que o acolheu e o levou para casa, havia uma festa e Peri sentiu-se feliz. Quis ajudar e quando abaixou-se para pegar uma travessa de palha que estava no chão, encontrou várias moedas e como gostava muito de moedas, principalmente as de um real, pois eram grandes e bonitas, colocou-as no bolso. Levantou-se e foi para a sala. Depois andou pelo prédio para apreciar a vista, parecia-lhe que estava numa encosta rochosa em frente ao mar, olhou-o demoradamente. Uma moça encostou ao seu lado e conversaram, depois foram para o apartamento da família, uma rica e prestigiada família do Rio de Janeiro que, desde o primeiro momento, demonstrou um afeto profundo por Peri. Já estava anoitecendo quando a matriarca saiu com um dos netos para ir ao banco, dissera que o Rio ficara muito perigoso e por isso o neto lhe acompanharia. Peri ofereceu-se para ir junto, mas como estavam muito preocupados com sua segurança e bem-estar, pediram para que ele ficasse. Passou a noite conversando e era como se há muito se conhecessem.



capítulo 06/07/04


O silêncio esconde-se entre os barulhos da avenida enquanto a chuva tinge de cinza a visão de quem passa; Peri fuma um cigarro. São dezessete horas e dezoito minutos, antes eram dezessete e dezessete, exatamente há um minuto (mas como poderíamos precisar se não estávamos olhando os segundos?), dezessete é um número formado do algarismo um com o algarismo sete, somando-os chegamos ao número oito, assim procedendo com as horas e os minutos teremos oito mais oito, que são dezesseis e somando seus algarismos teremos então o número sete, que é a perfeição. Desta maneira, somando-se todos os números anteriores chegaremos ao número cento e quarenta e dois onde, novamente, o resultado é sete.



capítulo 13/07/04


Ceci sumira numa bela manhã de domingo. Teriam enfim acabado o relacionamento?



capítulo 31/08/04


Estava com a janela aberta, a mesma janela que ficara aberta desde a primeira vez que a viu, de frente ao computador olhava distraidamente para fora, na esperança de revê-la, tal como um ímã que a cada momento fizesse com que repetisse o movimento. Não sabia ao certo se ela morava no apartamento em frente ao seu, poderia ser um apartamento alugado para temporada, esse foi seu primeiro pensamento, pois a vira numa tarde de domingo, estava com um amigo conversando na sala e, de repente, ela apareceu na janela com seus cabelos cumpridos, ruivos e soltos ao vento, a pele clara e a expressão de uma inteligência viva e doce, um olhar distante e profundo como quem procura. A luz está acesa e ela não aparece, talvez não esteja em casa, talvez tenha vindo apenas para visitar um parente. Ontem a encontrara na avenida, estavam atravessando ao mesmo tempo e cruzaram seus caminhos, infelizmente ficou mudo, sem conseguir pensar em algo que a despertasse, algo que a trouxesse para si. Pensava se a mesma curiosidade que o invadira também a contaminara ou se, ao notar a constância do seu olhar, não se sentira incomodada, talvez pudesse estar se sentindo invadida. O fato é que hoje ela não aparecera na janela, ou melhor, num relance tão rápido que mal dera para notá-la.



capítulo 03/09/04


A fumaça do cigarro que se apagara ainda pairava, tênue, na mente de Peri. Os fatos se entrelaçavam e formavam um intrincado e agradável mosaico; nos últimos tempos se cercara de pessoas queridas, conhecidas desde a infância e que ainda mantinham seus laços de amizade, vidas que seguiam seus caminhos e se encontravam, Peri sentia-se feliz, praticava pugilismo, caminhava na praia em manhãs de sol, escrevia, beijava, perdia-se olhando o mar, sonhava seus sonhos incompreensíveis e via na vida algo de bom, uma música que o fazia dançar, sorrir e gargalhar. Nada de muito especial acontecera em sua vida, o que verdadeiramente mudara era o modo de enxergá-la, de reagir aos acontecimentos, encarava-a de outro modo, procurava aproveitar seu tempo, desfruta-lo em sua sutileza e simplicidade, agradecia cada momento, cada fato, conversa, pensamento. Sentia-se livre, ágil e resistente. O mundo dançava e só agora percebera o contentamento desse baile inexplicável, como se até então fosse surdo para sua música, cego para sua beleza oblíqua. A janela estava aberta e os prédios com suas outras janelas abertas mostravam suas luzes acesas, seus pedaços de vida, peças que se encaixavam uma a uma, invisíveis e envolventes.



capítulo 11/09/04


“ Vejo a avenida com suas luzes e carros e pessoas, há um posto de gasolina na esquina, acabo de ver um filme que lembra um poema de Vinícius, “a vida é a arte dos encontros...”, que também lembra minha vida. Nesse momento você pode estar acordada e olhando pela janela, refletindo seu brilho. Ou passou por mim e eu não disse nada, apenas olhei e lhe remeti ao esquecimento, ao plano das coisas que poderiam ser e não foram. O silêncio das horas não me deixa escutar suas histórias, um dia você vai ler tudo o que eu escrevi antes de lhe conhecer, talvez você pense que poderia ser qualquer uma, mas não é, por isso eu não lhe vejo, porque você não é qualquer uma, é minha, é sua e de mais ninguém, livre. Mãos dadas ao vento.”



capítulo 29/10/04


“Escuto músicas que baixo da internet, conheço pessoas, ando de bicicleta, as vezes desço a ilha de skate a 55 km/h deslizando no asfalto como se a rua fosse uma onda..”



capítulo 15/11/04


“Enfim consigo escrever, há tempos pequenos problemas com meu teclado me impediam. Mas agora é tudo diferente...

Fui a um show de rock, uma banda santista que se projetou nacionalmente, tenho 34 anos e as vezes penso se não estou agindo como um adolescente, se não deveria estar casado cuidando da minha família, trabalhando muito e engordando em frente a tv. Enfim, tenho que voltar a trabalhar, estou no meu horário de intervalo e já estou atrasado. Então penso em todos os meandros que se mostram no trabalho, desisto de pensar, temos uma vida cheia de responsabilidades, etiquetamos as pessoas e as colocamos dentro de roupas de marca, de carros possantes e ideais de vida, assistimos filmes nacionais e estrangeiros, escutamos músicas do mundo inteiro, pasmamos e nos afogamos em informação, mas estamos sós, você e eu estamos sós, não é verdade? Ou seria apenas um momento que passa, a vida pode ser tão surpreendente...chove. No hotel Valeska está na recepção enquanto M. se conecta à internet e finge que ela não está ali a sua frente, sua sobrinha também está lá, chateada porque perdeu a carteira e o celular, Wolverine, o outro recepcionista, perdeu a carteira também, foi ontem quando fomos ao show, bebemos muito e dançamos como loucos, suando, agitando o corpo e cantando. Talvez saiamos outras vezes, eu, M., sua sobrinha, Wolverine e Valeska. M. é um rapaz aficcionado por internet e carros, sua sobrinha tem dezessete anos, uma verdadeira potranca, Wolverine gosta de desenhar e está a procura de uma namorada. Trabalhamos no hotel.”



capítulo 28/011/04


Ellen tem 21 anos, faz faculdade de jornalismo, seu namorado está foragido... Ela me olha com seus olhinhos pretos, me convida discretamente... me engana...


capítulo 05/12/04


O ano se aproxima, seu fim próximo nos convida a pensar, como sempre, nas mesmas coisas, projetos, sonhos, mudanças; sei que é cedo para falar em ano novo, entretanto, com a velocidade que o tempo passa, não é de se espantar. Foda-se, o velho e bom bruxo foda-se, foragido no inconsciente lunar de nossas existências, perdido em reentrâncias absolutas, maquinando revoluções perdidas e planos mirabolantes. Mas voltemos ao futuro, incógnito nas dobraduras do papel, ponto extremo de um cais escuro, onde as rotas se modificam ao sabor das tempestades e dos ventos. Ventos marítimos, Elíseos, lisos laços percorrendo o corpo, eriçando a pele.



capítulo 02/01/05


Ceci, como era de costume, reaparecera. Bateu em sua porta, entrou, sentou-se na cadeira da sala e falou sobre sua vida num tom despretensioso. Acabou dizendo que sentia muito sua falta, que na verdade ainda o amava e lembrava de sua companhia, das noites em que assistiam filmes, do peso de sua perna sobre seu corpo quando dormiam, das infindáveis conversas.




capítulo 21/01/05


...saibamos viver! Peri olha os peixes no aquário e vê uma nova era. Enquanto isso, a chuva de janeiro persiste fina e monótona caindo na avenida, o samba que vai tocar, passando por suas gotas e molhando-se na sua melodia tresloucada. Saudemos os ventos, que levem para longe as nuvens pesadas de chuva! Meu amor, olhei nos seus olhos e vi a mais bela manhã de sol! Para que assim sigamos juntos...



capítulo 01/02/05


Jade ligou para Peri, ruídos de carros no trânsito e a voz entrecortada:

- Tudo bem? Preciso falar com você. Que horas vai ser seu intervalo no trabalho?
- Acho que as oito. Pode ser?
- Pode. Vou passar em casa primeiro.
- Tudo bem.
- Faz tempo que você não me liga. Esqueceu de mim?
- Não. E você?

Desligaram o telefone e Peri ficou pensando qual seria o assunto da conversa, o que Jade queria lhe dizer. Imaginou várias coisas, algum problema financeiro, alguma briga com a família ou talvez quisesse apenas desabafar, reclamar da vida ou ainda dar-lhe uma boa notícia. Tomou banho, trocou-se e foi trabalhar. No flat o serviço foi tomando seus pensamentos e esqueceu-se de pensar que havia alguma coisa a mais naquele telefonema. Chegada a hora de seu intervalo foi para casa e Jade não havia aparecido. Trinta minutos depois o interfone tocou anunciando-a.




capítulo 20/02/05



Peri voltou para casa e se deparou com a morte de um peixinho. Bem sabia que isso aconteceria, seu comportamento estava estranho, não ficava mais com seu par, escondia-se em cima do filtro do aquário como se buscasse a solidão para morrer em paz.



capítulo 21/06/05


Antes de nada o silêncio, absoluto e longínquo, etéreo. Antes do silêncio o nada. Peri olhava em volta e todo mistério resumia-se em estupidez:

Chaves, recados e ligações intermináveis, resumos e fragmentos da vida que passavam pela recepção do flat iluminada por um sem número de lâmpadas fluorescentes; Peri quedava-se imponente frente ao tempo que se arrastava estático como uma verdade absoluta numa terça-feira fria e chuvosa enquanto o mundo ganhava novos contornos.

Palavras ao vento, desejos marítimos, enigmas e contentamentos.

- ...hoje fui para São Paulo, demorei muito... bem, se a gente não se ver...
- Apartamento 510-B, por favor.
- Sra. Cristina? A entrega... pode subir?
- Qual é mesmo o ramal do meu amigo?
- 2167.
- ...Ele disse que não consegue tomar banho porque a água não esquenta...
- ...basta abrir somente a torneira da esquerda, com pouca água.
- Palladium Belvedere, boa noite. Em que posso ajuda-lo?
- Eu gostaria de falar com o apartamento 607-A.
- Qual seu nome, por favor?
- Jéssica.
...
- Um momento, Sra. Jéssica.

Sons. Você vê o futuro nos dados e o futuro é uma porta aberta para combinações de números e letras, como grãos de areia no deserto que a cada momento se reagrupam e mudam as dunas do lugar. O imenso espaço de nossos olhos pequenos.

As férias se aproximavam, desde a volta de Maresias dois anos e dois meses haviam passado. Muita coisa acontecera, ou seria apenas uma transformação interna, uma reorganização dos pensamentos, um novo equilíbrio eletro-químico? A verdade é que o mundo se apresentava de outra forma, descortinava-se em um milhão de prismas, de caleidoscópios e ainda assim nunca lhe parecera tão simples, absoluto e homogêneo. Peri o filtrava e absorvia suas nuances, seus cheiros e sabores, suas letras e sílabas, as palavras que nasciam e cresciam e o encontro dos mares com o céu azul de nuvens brancas. Estelares sensações de vôo, ribonucléicas viagens espaciais.


capítulo 17/08/05



Incrível mundo mágico, eclosão de cores, letras, números, emaranhado de significados, códigos, senhas, enigmas. Peri sentava-se em frente ao computador enquanto sua cabeça rodopiava em mundos distantes, pensamentos silenciosos e vagos que se misturavam numa velocidade estonteante. O nascimento, o parto, a luz divina se manifestando em vida. Seu segundo filho estava prestes a nascer, em casa e ansioso aguardava o telefone tocar.



capítulo 18/08/05


Seu segundo filho ainda não nascera, apenas um alarme falso, talvez ainda demorasse três semanas. Ontem Peri foi ao enterro do Sr. Adolfo, sogro de um amigo seu. Nunca vira um choro tão sentido como o da filha, um desmaio tão verdadeiro como o da esposa ou tão somente a expressão dos olhos que pareciam lembrar de tudo o que não fizeram enquanto o Sr. Adolfo estava vivo. Enquanto escreve a torneira da cozinha pinga e som ressoa pelo silêncio da noite, como se mesclasse o breu com a limpidez da água. O sono pesa as pálpebras e um leve mal-estar no estômago o faz lembrar das cervejas que bebeu. O tempo transcorre.



capítulo 20/08/05


O inusitado, temido e tão querido momento de solidão. Onde foram todos? Por ventura estão observando as estrelas se apagarem uma a uma no firmamento? Ou brincam com intrincados jogos de faz-de-conta? Enquanto não sei a brancura do quarto se confunde com a fumaça do cigarro e um sem número de pensamentos aparentemente desconexos fluem e eclodem na parede de minha memória... A vida segue livre.



capítulo 25/08/05


Um impulso. Definitivamente as coisas haviam mudado, não que os acontecimentos não mexessem com Peri, mas agora eles não o afetavam tanto como antes, pois aos trinta e cinco anos sentia-se mais seguro apesar de todas as suas incertezas. A vida como ela era, sem óbvios ululantes e sem referências demais. Bastava viver, sentir os momentos passando por entre seus olhos, células e pensamentos. Um ou outro problema o inquietava, mas no final tudo se resolvia. Tinha uma vida confortável, trabalhava, morava só, ou quase, e reformara o apartamento. Sentia-se bem, saudável, andava de skate regularmente, conversava com pessoas, ia à praia, assistia a filmes, relacionava-se com Ceci, seu filho com Jade estava prestes a nascer, ouvia músicas e agradecia a vida que tinha, a beleza dos dias de sol e a tristeza dos dias cinzentos. Faltava-lhe ainda um amor daqueles que arrebatam e duram a vida inteira, mas também não sentia tanta falta quanto antes. Sabia apenas que era necessário viver da melhor forma possível e se não tinha tudo o que queria, alegrava-se com o que lhe era dado ou conseguido.



capítulo 31/08/05


Tempo de recomeçar... sou como o vento, pronto, a cada hora em um lugar, semeando e propagando vida.


capítulo 03/09/05


As férias acabaram e Peri ficara em casa, pois resolvera não viajar. Acordava tarde, levantava-se, tomava café e voltava a deitar e tornava a levantar para andar de skate todos os dias. Quando fazia sol ia à praia, quando chovia assistia a filmes e quando percebeu um mês havia passado. De volta ao trabalho encontrara as tensões de sempre, o mesmo jogo de poder e a mesmíssima fogueira de vaidades, reclamações intermináveis, fofocas sem fim, pedidos absurdos, mentiras... O trabalho, enfim, pleno de suas mazelas desnecessárias. Mas era um sábado chuvoso e frio de final de inverno e Peri acordara melancólico, pois lhe parecia que a vida não andava tão bem quanto pensava. Ou seria apenas uma sensação passageira que iria embora.

“Talvez os problemas que eu tinha quando mais jovem continuem os mesmos, o que realmente mudou é que sua intensidade diminuiu, pois os problemas hoje não me afetam tanto quanto antes, sei lidar melhor com eles, suporto-os mais, mas na verdade estou de saco cheio, continuo com minhas dúvidas, minhas fraquezas, inseguranças, decepções. E o que seria da vida sem isso? Viveria melhor? Aprenderia mais? Conseguiria ainda valorizar a felicidade? A questão é que agora pequenas alegrias já me seriam importantes, como conquistar uma mulher bonita, fazer uma viagem a um lugar exótico, subir de cargo. Será? Talvez, no entanto hoje isso me parece agradável.”

Fundo o reinado da alegria, onde cada contentamento terá o gosto da novidade e cada manhã de um novo dia será um brinde à vida.

A felicidade está dentro de nós, não é verdade? Está no modo como enxergamos a vida, está no agora”.



capítulo 05/09/05


Peri lutava para se sentir bem, pois sua vida amorosa o incomodava. Sentia-se confuso, não entendia por que se tornara tão pouco interessante às mulheres, não que uma ou outra não se interessasse por ele, mas eram mulheres que nada tinham de especial, não que não fossem especiais, entretanto estavam aquém de suas expectativas. Havia Jade que lhe dera o segundo filho e que mesmo depois de treze anos de relacionamento ainda se mostrava apaixonada, havia Ceci que não o amava mais depois de dez anos, mas ainda nutria por ele algum sentimento. Jade lhe adorava sexualmente, Ceci não tinha mais nenhum prazer, estava namorando e pouco se importava, se bem que lhe perguntava sempre se não gostaria de voltar a ter um relacionamento sério. Fora Jade não via em mais ninguém o desejo que ele lhe despertava, havia suas amigas que não o viam como homem, uma virgem de vinte e quatro anos com a qual trocava uns beijos e algumas carícias e nunca chegava as vias de fato; suas amigas eram belas e jovens, cheias daquele entusiasmo quase religioso que se tem por nós mesmos quando somos mais novos e temos uma vida inteira pela frente, parecia muitas vezes que elas procuravam seduzi-lo, mas não o faziam para efetivamente tê-lo, mas apenas para satisfazer seus egos, permitiam até alguma intimidade, mas o suficiente para se retirarem, gostavam de sua companhia e de alguma forma o admiravam, ou seja, nada mais que pudesse se tornar um caso amoroso.



capítulo 06/09/05


Uma chuva de final de inverno acinzenta a tarde de terça-feira, enquanto Peri se projeta no futuro, enquanto pensa, enquanto anda de um lado para o outro e fuma, enquanto o tempo transcorre por entre suas dúvidas, enquanto os aviões partem para outros lugares, e enquanto o mundo segue, uma mulher olha desapercebidamente para o lado e não encontra ninguém, mesmo tendo a nítida sensação de sua presença, olha para frente, como para acomodar seu olhar ao ritmo de suas passadas e leva delicadamente as mãos pela nuca, seu olhar está perdido, tentando lembrar um fato ou uma palavra, talvez um rosto, um sonho.



capítulo 12/09/05


O que estava acontecendo com Peri? Por que há tanto tempo não conseguia se desvencilhar de suas limitações? Sentia-se frustrado, parecia-lhe que perdera o encanto, o poder de sedução. Será que algum tipo de culpa o consumia? Tornara-se feio? Ou seria o modo como via as mulheres? Perdera a ferocidade, investia e nas primeiras recusas desistia, a rejeição o incomodava, tolhia-lhe o desejo. E no decorrer de tantas tentativas sentia-se pegajoso, ridículo. Entretanto, sabia que era um homem especial, alguém interessante, cheio de idéias, sempre com novidades, espirituoso e bem-humorado. Trabalhava, morava sozinho num bom apartamento, era inteligente e culto, carinhoso, companheiro, sempre pronto a escutar e aconselhar. Um homem ativo. O que estava, então, faltando-lhe? O quê? Aos trinta e cinco anos era ainda vigoroso, exercitava-se, tinha uma resistência física considerável, seus músculos eram bem definidos, era magro, tinha bom alongamento e um fôlego invejável para quem fumava tanto. E apesar de tudo nos últimos nove meses tivera três mulheres diferentes, uma adolescente de dezessete anos, uma mulher casada que morava no flat onde Peri trabalhava e a virgem de vinte e quatro anos; beijos, carícias, abraços e nada de sexo. A mulher casada pretendia abandonar o marido e morar com Peri, enquanto a adolescente era virgem também e o achava muito velho.



capítulo 14/09/05


“F,
Sei que venho lhe repetindo as mesmas coisas nos últimos dias (ou serão meses?) e vejo através de seus olhos indiferentes que não acredita no que lhe falo, ou talvez não queira acreditar... Mas a verdade é que durmo e acordo pensando em você, no seu sorriso, no seu jeito de falar e olhar, nas suas mãos que poderiam tocar o que sinto e não tocam, não revelam seu carinho. E fico assim num mundo de sonho, esperando o momento de poder lhe abraçar. Não sei ao certo como tudo começou, mas desde o princípio lhe vi com outros olhos. Se eu pudesse lhe mostrar tudo o que poderíamos fazer juntos, tudo o que aprenderíamos um com o outro, tudo que sentiríamos, certamente você me entenderia. Mas você se resigna, não diz o que espero que diga, não faz o que espero que faça. E é tão simples, bastaria me dar a oportunidade de entrelaçar minhas mãos nas suas e olhar profundamente em seus olhos (que mundo mágico não se esconde em suas pupilas!).
Passo os dias esperando que você confie em mim, que resolva abrir seu coração. Entretanto, vejo apenas a porta entreaberta, um convite velado. Você resiste não permitindo que eu entre, olha para os lados, disfarça e lembra tudo o que viveu e está vivendo com outra pessoa. Se eu sentisse que você seria realmente feliz com o que tem, provavelmente lhe deixaria em paz. Mas não, sei que você está se enganando, se acomodando numa situação que já não tem sentido algum. Por outro lado, parece-me que você me vê da maneira errada, como alguém disposto somente a se divertir, e assim não percebe que quero mudar nossas vidas, lutar pelos sonhos que dividiremos. Por que você não nos dá essa oportunidade? Será que o que lhe peço é tão incabível assim? Há muito tempo não me apaixono, não me encanto por ninguém, não sinto o quanto é bom amar. Espero que um dia você possa sentir o mesmo que sinto por você, a saudade, a vontade de lhe encontrar, abraçar, apertar, beijar, sentir você nos meus braços, a vontade de rirmos juntos e dançarmos enquanto a vida prossegue.
Pois a vida, enigmática e surpreendente como um lance de dados, prossegue enquanto penso em você, enquanto lhe espero e sonho, enquanto você não está ao meu lado...
Beijos,
Peri”



capítulo 08/10/05


Eis que chega a tarde, impreterível como um outono tardio, como o sorriso de um adolescente que lembra de uma piada que lhe contaram enquanto está sozinho andando pela rua, carregando sua mochila com cadernos e livros e canetas e lápis e broches dependurados, ainda que em sua cabeça mil idéias concomitantes entrechocam-se, velozes e surpreendentes como um salto no escuro. Peri está com seu long skate a sessenta quilômetros por hora descendo a Ilha Porchat, os carros passam velozes e o mundo é um deslizar sobre rodas de poliuretano, o universo resumido em equilíbrio, velocidade e precisão. Ora e sente medo, louva Deus Pai Todo Poderoso e vislumbra a tênue camada de realidade que o envolve esvaindo-se em slides, no som do skate derrapando no asfalto, no movimento de pernas e braços que executam a manobra no exato ponto do percurso onde se dispara o coração.



capítulo 19/10/05


Escrevamos que a vida passa, o tempo urge e não se sabe mais o quê. Peri teria pensado numa série de outras possibilidades, no entanto, lembrou-se de como o corpo apreende o mundo a sua volta, buscando na mente a idealização do evento desejado, calculado nas minúcias do pensamento corporal. Recordou isto porque lhe impressionava a capacidade que o corpo tinha de se adaptar, de utilizar-se de um instrumento, de uma ferramenta ou de qualquer outro tipo de equipamento, sentia que se processava uma fusão entre o corpo externo e o próprio, uma incorporação do que se achava, inicialmente, distante e estranho.



capítulo 23/10/05


- Perdão? Qual o seu nome?
- Carlos, senhor.
- Obrigado e boa noite.

Sobretudo o modo como víamos as coisas, como as sentíamos em seus mínimos e míseros detalhes, analisando-os um a um, esmiuçando-os e sorvendo seus múltiplos significados, tal qual um intrincado quebra-cabeça cabalístico.

Madalenas arrependidas voltando com a cabeça baixa cheia de meio sorrisos, de histórias por contar, de momentos inatingíveis, de impulsos e de tudo o que somos no exato e único momento em que o átomo se transforma... Novamente o telefone, os entregadores de pizza, de comida chinesa, de beirutes, de frutos do mar, de massas, de drogas, de móveis, de mulheres... novamente as árvores de natal, os pães de mel, as trufas, os sonhos, os peixes e a sensação de ter ficado para trás. Peri apoiava a cabeça nas mãos enquanto o manobrista separava os presentes ganhos pela recepção, cada presente um nome correspondente. Peri apoiava a cabeça nas mãos enquanto Ceci fora encontrar seu namorado, enquanto seu filho mais velho lhe espera em casa.



capítulo 31/12/05


A liberdade é uma palavra feminina, a inteligência, a argúcia, a emoção, já o mar é masculino, como o pai, o amor, o sentimento, o poder. Os fogos explodem junto com as tristezas, as mágoas, as lembranças dolorosas, porque assim a música prossegue, fazendo do mesmo o diferente, o novo. Explodem os fogos, pipocam os sonhos, os desejos de uma vida imensamente melhor do que essa já é. Amor, felicidade, encontro, fé esperança amizade saúde fartura contentamento humildade sabedoria paz luz paixão companheirismo tolerância respeito carinho e uma boa risada, sempre. Amém.












PARTE SEIS




Esqueçamos a tolice e a autocomiseração, o óbvio, os fracassos de nossas vidas, esqueçamos principalmente a culpa, pois sem culpa não se vive. Peri encontrava-se em frangalhos depois de dez anos de um relacionamento tortuoso. Passada a fase de distância e bloqueio, atirou-se às mulheres, a cada uma de suas amigas e a outras que conheceu. O resumo desse empenho pode ser claramente resumido numa única palavra: frustração. E as poucas com as quais se relacionou ficaram muito aquém de suas expectativas. Nos últimos dez anos Peri se apaixonou apenas por Ceci que há muito não o amava, nem sequer o desejava. Peri perguntava-se se, por acaso, não seria esta uma lição divina, um castigo pelos seus erros ou pelo modo como enxergava o amor. Talvez perdera o brilho, o encanto, o jeito de tratar e conquistar as mulheres. Faltava pouco mais de um mês para completar trinta e seis anos, e com essa idade não se é mais jovem e ainda não se é velho, não se tem o brio da juventude e nem o charme dos homens mais maduros.



capítulo 12/07/06


Um viva às sirenes que invadem o silêncio da avenida no início da noite! Um viva aos nossos problemas, às nossas dúvidas e às nossas esperanças, à solidão e ao amor, um viva aos nossos infortúnios e aos nossos acertos. Peri estava de férias e sem dinheiro, dia a dia aproveitava as horas de ócio da melhor maneira que podia. Chegara aos trinta e seis anos, seu filho mais velho tinha treze e seu mais novo não completara ainda o primeiro ano de vida. Continuava solteiro e trabalhava ainda na recepção de um hotel, grande parte de seus sonhos não se realizara, mas por outro lado aprendeu coisas que antes não sonhara, coisas sobre suas limitações, seus defeitos e vícios, suas inseguranças, seus medos... Continuava temendo o futuro, a incerteza do trabalho, as dificuldades da solidão. Ceci não existia mais, era apenas o esboço apagado do amor que sentira um dia... Não se apaixonara novamente.




capítulo 29/10/06


Fragmentos de uma vida amorosa, doce e caótica como cem milhões de estrelas cadentes, arquipélagos e constelações. Pedaços dispersos de emoção; olhei você nos olhos e o mundo era vago como um caleidoscópio, silencioso como uma chuva de chaves; peguei você no ar enquanto rodopiava seu balé de mil faces e cores, você sorria e o mundo também girava, girava e girava. Nos meus braços o universo era pequeno, demasiadamente pequeno...




capítulo 28/11/07


Teria sido suficiente manifestar-se em sonhos, como uma carta cujo significado só pudesse ser captado no futuro... No planeta Terra o dia enxergava o céu distante das galáxias perdidas e a vida prosseguia com seu ritmo peculiar, ora lento como o mundo, ora rápido como um raio de sol; a música envolvia o silêncio e o desejo de ser vento invadia Peri, dava asas ao espírito que, sem remorsos, alçava vôo sobre as reflexões de seus atos, dias e contestações.



capítulo 03/12/06


A fumaça entra pela boca e aquece ainda mais o cigarro, o sol se esconde atrás das nuvens e o calor persiste.

A vida prosseguia trazendo o cheiro do novo às narinas.



capítulo 21/12/06


... então escreveria algo sem sentido, mas tão somente sem um sentido aparente, porque talvez em sua falta de nexo se esconderia um conceito novo, uma outra maneira de enxergarmos o óbvio: o samba de esquina, de bambas, malandros, estivadores, intelectuais, o samba novo na folha que cai na janela que se abre para o azul do céu, o mundo do samba de uma nota só... mas a imaginação bem canalizada é fruto de esforço e fonte de prazer, o coração agradece e a mente ufana.



capítulo 24/12/06


. Agradecemos assim a Deus Pai Todo-Poderoso por essa vida maravilhosa, abençoada e iluminada, repleta de amor, de paz e de ensinamentos... agradecemos pela infinita beleza de Sua Criação... agradecemos pelo pão de cada dia que é sagrado e, através da Sua Graça, nos mantém vivos e saudáveis... agradecemos pelo trabalho que também é sagrado assim como todas as coisas criadas, como nós, como as pedras, as algas marinhas, as constelações... agradecemos pela água que é límpida e cristalina e por Sua Benção nos purifica... agradecemos pois somos o pó das estrelas, na água nos concebemos e na terra nos criamos...



capítulo 29/12/06


Peri tamborilava seus pensamentos, arremetia-os ao plano infindo da possibilidade, plasmando o etéreo e tocando o imprevisível, mesmo que para isso fosse necessário centrar sua mente em uma rota predefinida para compreender como adquiriria mais conhecimento. Todavia, intrigavam-lhe as noções de projeção astral, ou melhor, as portas do que se chamou de duração, capitada na vida material pela intuição e iluminada pelo desatar dos nós corpóreos, a noção de tempo que se experimenta é tão completa que poderíamos facilmente confundir o instante com a eternidade, pois tão somente a possibilidade nos guia entre as novas realidades que se abrem.

“Escrevo nas paredes da minha casa as frases da minha vida, sobre o branco da parede o colorido das letras desenha um novo mundo, cheio de mistérios e mágicas, pontes para o universo, pluriversos...

... e quando alguém olha sabe de pronto que elas sempre estiveram ali e sempre estarão, mesmo que sua imagem mude por completo, mesmo que caiam as paredes, ainda assim o ato persistirá no infinito e a intenção se propagará no espaço estéreo de nossas mentes.”

Num piscar de olhos.



capítulo 13/04/07


“Sua vida sempre foi regada a belas conquistas...”

A chuva cai e o barulho dos carros na avenida, por instantes, ensurdece-me para a música que toco aleatoriamente. Sexta-feira. Silêncio... o vento derruba o tempo e o instante cai , espatifando-se em futuros próximos e pensamentos distantes... o mundo se esvai, reconstrói-se como se nunca deixasse de existir.



capítulo 14/05/07


O sono pesa-me os olhos, uma luz difusa atravessa minhas pupilas, sou todo um vago momento de ir-se embora e chegar. Através do silêncio entrecortado um ritmo pulsa e semeia idéias, atos e sentimentos. Enquanto minha cabeça gira e o mundo para, revoluções eclodem, amores começam, famílias se mudam, cidades nascem, portas se abrem, descobrem-se novos planetas... o sono pulsa como um cursor.




capítulo 18/05/07


Ventos bruscos haviam mudado o rumo dos acontecimentos, Peri encontrava-se desempregado, ao final de uma árdua perseguição o gerente mandou-o embora. Tentara de todas as formas, ou quase todas, impedir o desligamento, mas já era tarde e os fatos haviam se precipitado.




capítulo 19/05/07


A janela do quarto lentamente se abre e fecha, a chuva com seu vento veloz impede o corpo de ir à rua. Enquanto a mente se alarga num assombroso mundo de possibilidades, um samba de amor desdenhado toca sem parar e o mar afoito em avançar seus limites quebra-se nas calçadas. No escuro da sala descubro a extensão absurda de meus sentimentos, divido-me entre princípios, suposições e atos, corro, levanto-me e caio, canto, danço e toco o silêncio da palavra que nunca foi dita, do beijo que nunca foi dado.

Na avenida inundada pela chuva as pessoas correm tentando se abrigar, minha solidão diz que ainda é muito cedo...

O amor dança entre as gotas da chuva, escorrega pela pele e deita-se no chão.



capítulo 08/06/07


Um dia de sol... pela manhã Peri fizera uma entrevista. Ademais, fora ao centro de Santos buscar a segunda via de sua certidão de nascimento, necessária para tirar a segunda via de seu documento de identidade, era preciso ainda providenciar uma nova carteira de trabalho, regularizar seu cadastro de pessoa física e, enfim, outra segunda via de seu certificado de reservista, ao final das contas, Peri era quase ninguém, todavia acreditava que ele era ele mesmo, não tinha dúvidas. Se bem que conceituar o que ele próprio era lhe fugia de suas capacidades, sabia que aos treze anos gostaria de morrer como um revolucionário promovendo uma profunda transformação mundial. Aos dez perguntava-se exatamente o que era o mundo, era-lhe uma idéia por demais abstrata, pois considerava “mundo” apenas o que vivenciava. O que teria sobrado de tantos sonhos, de tanta crença, de tantas idéias mirabolantes? Aos vinte anos temia tanto o medíocre que aos trinta e sete não encontrara ainda o que o destacara em sua vida, escrever, tocar, lutar, praticar esportes, filosofar, compor, trabalhar, nada lhe parecia suficientemente grande, na verdade não saíra da mediocridade. Não ficara sábio, nem rico, nem famoso e nem mais amado. Mesmo assim não podia reclamar da vida, tivera dois filhos, plantara árvores, fizera amigos, escrevera livros inacabados e vivera amores tortuosos. Tinha seu apartamento com vista para o mar e vivia bem em seu mundo oscilante.

Ceci ainda o acompanhava, depois de tanto tempo ainda se relacionavam e, como seria natural, aprenderam a viver melhor um com o outro, sem o ciúme exacerbado, a possessividade, as dúvidas infindáveis... faziam companhia um ao outro e, de certo modo, se ajudavam. Aprenderam muito, ou apenas a idade os tornara mais sensatos, ou ainda, para ser mais preciso, tornaram-se menos fervorosos, as idéias e os sentimentos não tinham mais a mesma intensidade, o mesmo impulso arrasador. Perceberam que tinham de aprender algo com o outro, uma necessidade que os unira por tanto tempo a despeito da vontade de se distanciarem. Muitas vezes se surpreendia com a mudança de Ceci, como seu jeito arrogante havia lentamente perdido a força, deixando sobressair seu lado mais meigo e companheiro. Tinha ainda seus defeitos, mas no decorrer dos anos amadurecera bastante. A paixão acabara, assim como os rancores e ódios, nascendo um misto de amizade e amor.

Precisava agora dar um novo rumo a sua vida, despertar desse longo estado de vigília, acordar para o sonho, fazer da poesia a matéria do instante, consolidar os átomos da inspiração, transformar o cinza em uma profusão de cores, tons, tirar do silêncio a música e das palavras o universo.



capítulo 11/06/07


Se bem que lhe restassem muitas dúvidas, parecia que sempre estava mentindo, omitindo, que sempre estava paquerando outros homens, procurando um amor qualquer... Não tinha vontade de nada, nem de deitar-se e nem de levantar-se... vagava num mundo indefinido, sem cores, a cabeça doía-lhe, pensava em sair às ruas e logo desistia... estava atônito, lentamente atônito. Era preciso dar a volta por cima, lançar para longe os maus pensamentos e não alimentar os sentimentos prejudiciais, primeiro encontrar um emprego, ocupar o tempo, conseguir dinheiro, voltar a estudar, encontrar uma namorada e se casar, ter mais filhos, plantar mais árvores, escrever mais livros, fazer novas amizades, mudar o corte do cabelo, comprar roupas novas, enfim, assistir o cotidiano com novos olhos e atuar.

Lutava para não ficar na janela a espera de Ceci, dessa mesma janela que por tantas vezes suportara o peso de suas preocupações e de sua imaginação. Mas fazer o quê? Andar pela rua a esmo? Ligar para alguém? Comer em algum lugar? Andar de skate? Terminar de assistir o filme que começara tentando dormir? Onde estaria Ceci? Estaria realmente no bingo como supunha? Ou voltara a se prostituir usando o vício pelo jogo como uma desculpa para se ausentar? Estaria Peri novamente sofrendo pelos mesmos males de outrora? Quantas idéias conflitantes suportaria a mente humana antes de rasgar a cortina da sanidade? O que separa a suposição da realidade? Seria algo mais que o fato? Ou estaríamos precisamente envoltos numa idéia articulada através dos séculos, construída por um subconsciente coletivo? Até quando se perguntaria? Resolveu tomar um banho e comer um sanduíche.



capítulo 13/08/07


Canoa, dia, madeira e vento, atracadouro de olhares e indagações. Canoa. Pau a pique, siri na lata, cabeça de onda, dedo de moça, farinha da terra, guaiamu, jaracuçu, mãe de fogo...



capítulo 28/08/07


Tendo saído do Palladium Peri se lança numa fase empreendedora, administrando vinte flats no mesmo Palladium onde antes era funcionário. Com o dinheiro que ganha dedica-se a música e a cultura caiçara.



capítulo 29/08/07


“Sou dez milhões de pensamentos, zilhões de raciocínios... sou o ato e a possibilidade. Ou serei apenas um pensamento vago que escapou de alguma mente distraída, ou um átomo que se juntou a outro. Sou o momento, a hora, o ano, o magnetismo dos ímãs, o gosto das cores, as memórias escondidas, o sonho acordado, a projeção de milhões de vidas geração após geração. Sou tudo o que não sou, tudo o que serei e fui”.











PARTE SETE



Quantos pensamentos cabem na palma de nossas mãos?

“Domingo, 05 de outubro de 2008, 17:54. Avenida Presidente Wilson, São Vicente, litoral paulista. Em frente ao computador releio trechos do livro e aos poucos vejo minha vida. De outra forma, como lembrar do que eu era? A sutileza dos pensamentos, as situações que comportam os sentimentos, o que desejávamos... as memórias tem vida própria e cada vez que voltamos a elas, voltamos de uma maneira diferente. O passado não é fixo, o tempo baila e nosso pensamento apenas vislumbra pequenos fragmentos de seu horizonte, o agora projeta-se infinito.”



capítulo 18/10/08


“Novamente escrevo, mas para escrever não se pode ter medo, escrever é um ato de coragem, um lance de dados ou as combinações da cabala. O sol ofusca o pensamento e a mente, translúcida, navega por cem milhões de mundos... mundos desconhecidos. Mundos musicais. Sinfonias silenciosas, harmonias urbanas, marítimas... Como pode a música ser tão simples e avassaladora, tão profunda e tão presente no universo? Profundidades, batidas e palavras, notas que se misturam, pausas. Novamente escrevo músicas sem saber que antes o fazia. Preencho vazios, prolongo silêncios, percuto melodias, toco a alma de pessoas distantes e sinto seus sonhos”.

Por quantas coisas não haveria passado, quantas ainda passaria. Pessoas que conheceria, coisas que faria, pensamentos que teria. Não. Pessoas que conhecerá, coisas que fará, vivências que terá. Na África os guerreiros massai vivem apenas o presente, enquanto, no Brasil, Peri projeta seus pensamentos num redemoinho de tempos passados, presentes e futuros. Mas não seria o presente infinito? Suas projeções seriam apenas imaginação, ou estariam realmente acontecendo? Poderiam seus pensamentos romper a curva do tempo?

Vejamos o presente: bilhões de caminhos elétricos se acedem na mente de Peri. Está escrevendo e tentando se concentrar num mundo íntimo e difuso, enquanto tem a impressão de que sua consciência deixa e corpo e o vê de fora. Seus ouvidos captam músicas nos lugares mais inesperados. Vendo o passado Peri acredita no futuro. Passou por muitas situações e dificuldades, passará por outras e em cada uma delas saiu e sairá mais forte.

Tem dúvidas acerca de seu grupo, o Percutindo Mundos. Mas como viver sem dúvidas? Em nove meses de trabalho apresentaram-se em excelentes teatros e eventos culturais, coordenaram oficinas, realizaram encontros de cultura caiçara, produziram filmes e exposições de arte. Em nove meses, milhares de pessoas no mundo, através da Internet, conheceram suas músicas. Música contemporânea caiçara, percussão melódica, minimalista e tribal. Poesia e filosofia. Na verdade, a música fora uma grata surpresa para Peri. Lembrava-se da extrema falta de musicalidade que o assolava desde a infância.


capítulo 30/10/08


O passado invade minha solidão... Revejo na parede da memória todos amores, filhos, amigos, situações, festas, separações, aprendizados, saudades. Eu vejo no passado a possibilidade. Eu vejo o presente do meu futuro, a memória universal, primitiva, conjunta, interligada por uma série inextrincável de elos, células, átomos, universos e labirintos, saídas e portas mágicas. Eu ouço o universo. O mundo com suas voltas, infinitudes do ato. O mundo pequeno demais, o mundo imenso, o mundo dos nossos pensamentos, sentimentos, incêndios, nuvens brancas no azul do céu. O mundo das palavras, silêncios, o mundo das vontades. Vejo meus olhos no escuro das minhas idéias. Procuro respostas, esqueço perguntas.

Procuro-me perdido em meio a lembranças e previsões, sonhos e realidades. Não sou nada que não tenha sido qualquer outro que já tenha existido, irmanado pelo silêncio primitivo da não-palavra. Sou eu quem me sou.

O cinza da horas tinge o céu do meu olhar. Você não está ao meu lado, eu não estou do seu... Não tenho seus lábios nos meus nem ouço suas canções. Os carros continuam passando, levando consigo os dias e as horas, trazendo notícias e cores novas. Uma música toca dentro de mim.

Não. Não é nada disso. É pura falta de amor, companhia, risada, falta de dançar sem música.

Saudosismo. Sísmicas sensações de vôo.

Enquanto saio do lugar o mundo gira. Enquanto escrevo, penso e imagino tudo o que poderia e não foi, tudo o que será e é, enquanto os dias se abrem como as folhas de um livro, livre.



capítulo 04/11/08


O trabalho. Há um ano e sete meses Peri administrava flats, desde que saíra de seu emprego. Tinha o tempo livre como nunca tivera e ainda ganhava mais. É óbvio que os aborrecimentos aconteciam. Pequenas vicissitudes, alguns contratempos e tudo o mais que faz parte das relações de trabalho. Todavia, sobrava-lhe tempo para a arte.



capítulo 05/12/08


Tudo ao mesmo tempo, todos os tempos... Universos que nascem, estrelas que se movimentam, rumores, desejos, sonhos... Células e átomos, nanométricas realidades, planos, o macromicrocosmo do olhar, o pulso do silêncio. Diálogos, lembranças e projeções. Adaptabilidade. Como acreditar que o infinito é gerado por um número limitado de elementos? Um passo a frente, um olhar adiante e o espírito livre. Uma palavra que nasce feito água, ar, rocha, fogo, montanha, uma palavra que canta, reverbera e voa por espaços de luz, caminhos, galáxias. Peri escuta o mar na praia enquanto percute pedras e ondas, enquanto os carros passam pelo silêncio da avenida. A sua volta, na sombra do quarto, um milhão de pensamentos descansam sobre os objetos, esperando o momento de germinarem idéias e atitudes, fatos, acontecimentos, realizações.




Capítulo 04/05/09


Peri se depara com a mata... Cosme Fernandes chega a Goyaió, João Ramalho se casa com Bartira, órfãos judeus chegam ao colégio de São Vicente, a língua geral... A língua geral brasílica, língua brasilis. Peri se perguntava... Peri, Peri, Peri… Onde estará Peri? Quem será Peri? Um índio estilizado pela literatura? Mas como podemos mudar tanto, célula a célula, e continuarmos sermos os mesmos? E como, no meio de tantos novos “eus”, as mesmas perguntas se repetem? Por que fugir? Por que essa vontade de parar quando a vida é movimento?



capítulo 04/08/09


Com as mãos ainda sujas de sêmen, Peri se perguntava até quando isso perduraria. Por que, definitivamente, as mulheres não se entregavam mais a ele? O que teria acontecido? Ou o que estava acontecendo? Algum pensamento ou atitude que teria mudado por completo o desejo das mulheres por Peri? Ou a punição por alguma culpa que não conseguira extirpar? Insegurança? Falta de hábito? Medo? Comparada a outras épocas, sua vida sexual estava um fiasco assim como suas relações amorosas. Apaixonara-se recentemente por uma jovem atriz, a certeza do amor imaginariamente correspondido fez com que a alegria de ter encontrado alguém tão semelhante o seduzisse. Mudara seus hábitos e passara a idealizar encontros, o primeiro beijo, os filmes que assistiriam, as conversas que teriam, assim seu pensamento caminhava rumo à felicidade. Até o momento do primeiro abraço, apertado, sentido, profundo e repudiado. Fingira não ter acontecido nada, dissera alguma frase tola e se calara. Depois mudou de assunto e ficou tão triste que, quando a moça foi embora, chorou por horas e horas escutando a mesma música. A mulher do seu primeiro filho ainda o amava e o desejava intensamente. As outras preferiam sempre sua amizade. Algumas até o amavam, mas como amigo. A despeito de toda admiração que poderiam ter por ele, elas simplesmente não o desejavam como homem, ou se desejavam escondiam sua vontade. Como é possível amar alguém e não desejar? Peri mais do que nunca queria amar, amar com o corpo, com a alma, o pensamento, ser desejado, sentir a sensualidade dos pequenos gestos, o olhar desejoso da mulher, suas intrincadas brincadeiras de sedução. Como adoraria olhar nos olhos de uma mulher e ver em suas pupilas a vontade se ascendendo. O que teria de fazer? Agarrá-las até que a negação não fizesse mais o menor sentido? E por que em cada não recebido a vontade de continuar cessava? Sentia-se ferido por não ser correspondido da maneira que desejava? Por que o amor não poderia ser natural, espontâneo? Por que as mulheres não se apaixonavam mais por Peri? Por quê? Sentia-se cansado, a impressão que tinha era de que nos últimos anos essa mesma pergunta o acompanhava e o incomodava, dia a dia. Por outro lado, descobria novas formas de amor, o amor pelo próximo, pela família, pela arte, pela vida. Mas ainda assim sentia falta de uma mulher apaixonada. Sentia falta da paixão que se transforma pouco a pouco em amor. Amor. O que seria enfim o amor? Caberia nessa página? Ou estaria mais aconchegado no silêncio do mundo?



capítulo 08/08/09


A clave de fá é usada para os sons mais graves.

Conhecera-a pela Internet através de um outro amigo. Sua delicadeza de pronto o encantou, a voz suave, os gestos leves. Tinha três filhos, era casada e morava em Cunha, cidade do Rio de Janeiro que passara certa vez ao ir para Paraty. Compositora e violonista, paulistana que morara em muitos lugares, daimista. Seu coração apertado contra o peito de Peri disparava enquanto sua respiração se tornava lenta, profunda, ofegante. A proximidade dos lábios, a suavidade da pele, seus olhos ardentes, profundos. Enquanto o mar era vento e balançava seu cabelo feito alma, enquanto seus olhos penetrantemente em dúvida multiplicavam peixes, enquanto seu coração era o pulso de um universo nascendo. Um não. Outro.

- Quero ser sua amiga. Entenda, eu não posso, não posso.




capítulo 30/08/09


Mundos infinitos. Sábado. Após tocar em uma universidade local, Peri encontrava-se em frente ao computador tentando escrever o mesmo de outra forma.

- Quero sua amizade.
- Eu não quero ser apenas seu amigo.
- Sinto muito.

Outra vez. E outra, mais outra e ainda outra. A mesma pergunta: por quê? E para ela uma infindável corrente de possíveis respostas, intrincadas dúvidas e dívidas passadas. De qualquer modo era preciso perdoar-se, continuar em dúvida e procurar outras perguntas. Neste momento, Peri pensa que já escreveu o suficiente, que seria desnecessário escrever novamente os mesmos questionamentos de sempre, as mudanças de sua vida sentimental, o cheiro de chocolate do perfume de Maíra, os dias de sol, as nuvens brancas do céu. Enfim, era preciso largar de vez a autocomiseração. Começara a aprender acrobacias aéreas em uma escola de circo onde dera aulas de percussão. O intuito era utilizar o trapézio e o tecido em uma cena da peça que estava montando, peça essa que escrevera há dezessete anos; perdera o texto e o reencontrara anos depois nas mãos da atriz que participara da primeira montagem. Nessa época, Peri estava se separando da mãe de seu primeiro filho. Tinha vinte e dois anos, era punk e trabalhava como operário em uma fábrica de papel. Sua relação amorosa beirava o caos, assim como suas roupas rasgadas, seus alfinetes e correntes em volta do corpo, seu olhar agressivo, sua revolta e sua violência. Aos vinte e dois anos não conhecia os limites de sua personalidade e ainda hoje, aos trinta e nove, talvez não os conheça. Antes achava que não passaria da mediocridade, que o valor de suas idéias de nada adiantaria. Mas são as idéias que apontam os caminhos da ação. A idéia move o mundo. Através dela era possível mudar muita coisa, e o que Peri pretendia era mudar o mundo, sonho que alimentava desde a infância. Na adolescência acreditava que o caminho certo seria a revolução, mais especificamente a revolução comunista. Sim, um mundo melhor, igualitário, sem conflitos de classe. Nessa época, apesar de todos os desastres, o comunismo ainda não tombara de vez. Enfim, demorou pouco para perceber que o poder apenas mudava de mãos. Não poderia mudar o mundo transformando os sistemas que o regiam. Era preciso mudar o homem. Peri acreditava-se irmanado com todos os entes do universo, na verdade, acreditava que o universo era apenas um em meio a infinitos outros universos, mesmo assim sentia-se comungado a tal ponto que acreditava que uma única ação ou pensamento seria capaz de provocar mudanças profundas. Suas ações presentes caminhavam nessa direção, cada palavra, canção, cada imagem constituía um intrincado mosaico de significações, como os números da cabala, os mantras indianos, as constelações e as galáxias. Houve um tempo que duvidara, mudar o mundo parecia-lhe impossível. Hoje percebe que o tempo todo está mudando o mundo, assim como o bater das asas da borboleta o faz. Mudemos o mundo que o tempo passa.

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